quinta-feira, 30 de julho de 2015

Personagens - Luke Skywalker


Luke Skywalker é um jovem fazendeiro, cujo passado perde-se na bruma da ignorância, anestesiado pela desinteressante rotina diária, estimulado ao conformismo pelos tios idosos, suas únicas figuras parentais. A clássica cena do rapaz, em “Uma Nova Esperança”, aliviando sua frustração ao admirar o pôr dos dois sóis de seu planeta, Tatooine, captura a força interna que manteve seu espírito vivo, o sonho escapista de vivenciar empolgantes aventuras espaciais. Ele não sabia que estava destinado a grandes feitos, até o momento em que a origem Jedi de seu pai lhe é revelada através de Ben Kenobi, desconhecia qualquer possibilidade de que tivesse algum tipo de intuição especial.

A sua impaciência é um empecilho em sua jornada, da mesma forma que foi para seu pai, em “Ataque dos Clones”. Não tenho dúvida de que, ao presenciar a morte física de seu mentor, o garoto sofreu primeiro pensando em como aquilo iria afetar o progresso de seu treinamento. Analise a forma como ele sempre coloca em risco o que está em jogo, pensando apenas em interesse próprio, como na cena da confusão na cantina ou no salvamento da princesa, tudo motivado pela sua tremenda insegurança. O germe da rebeldia já se fazia presente em pequenas atitudes, porém, ele precisava de uma causa menos egoísta, que o motivasse a pensar no bem maior, o que acabou encontrando ao entrar oficialmente para a Aliança Rebelde. Luke, diferente de seu pai, que era arrogante, e de todos os outros Jedi, precisa aprender não somente a usar, mas, acima disso, acreditar que é capaz de usar a Força, confiar em si mesmo, vencer o medo. Ele conquista isso graças ao seu caráter.

Numa comparação simples, enquanto o pai se exibe com seus poderes para impressionar Padmé Amidala em “Ataque dos Clones”, Luke, já tendo sido treinado por Yoda, em “O Retorno de Jedi”, fica embasbacado ao escutar que seu treinamento já está completo: “Então, eu sou um Jedi?”. Não importa o nível de excelência que ele atinja, nunca irá acreditar plenamente que é merecedor. Quando ele atira para longe seu sabre de luz, durante a batalha final com seu pai, encarando desarmado o Imperador Palpatine, o jovem demonstra amadurecimento emocional, fazendo questão de mostrar, para si mesmo, que sua coragem não é garantida por qualquer elemento mágico. Não importava pra Luke se ele iria morrer com o ataque de energia pura do mestre Sith, algo que estava certo de acontecer, caso o pai não interviesse, o mais importante era demonstrar que havia superado sua insegurança. Todos os heróis da rebelião, até mesmo Han Solo, estavam lutando pela liberdade da galáxia, mas para o jovem fazendeiro, a vitória era interna.





* A Editora Aleph está lançando o segundo volume da Trilogia Thrawn: “Ascensão da Força Sombria”, escrito por Timothy Zahn, um marco da literatura de “Star Wars”. Na trama, continua a luta de Luke, Han e Leia em defesa da Nova República. Mais uma vez, eles enfrentarão as tropas imperiais dissidentes, comandadas pelo poderoso grão-almirante Thrawn. A edição mantém o refinamento usual da editora, sendo um produto essencial na estante de todo cinéfilo criterioso.

"Branco Sai, Preto Fica", de Adirley Queirós


Branco Sai, Preto Fica (2014)
Analisando historicamente, o cinema nacional sempre gostou de culpar a escassez de recursos pela escassez de criatividade e ousadia. A areia da praia pode ser o solo de Marte, caso o cineasta tenha imaginação. É revigorante encontrar um filme como “Branco Sai, Preto Fica”, que busca, em teoria, entreter o público ao se utilizar de convenções de uma obra de gênero escapista e, enquanto documentário, expor a cicatriz aberta do racismo na nossa sociedade, utilizando como gatilho o caso ocorrido na década de oitenta, quando policiais invadiram um baile black na Ceilândia gritando: “branco sai, preto fica”.

O grave problema é que a condução peca em sua exagerada morosidade. Vários minutos são investidos em silenciosos momentos triviais, dando a impressão de que a intenção era estender a obra para além do que poderia ser um interessante curta-metragem. A importante curiosidade que nasce ao ler a sinopse se esvai antes do segundo ato, quando percebemos frustrados que a melhor ideia, o elemento diferencial da inserção do investigador do futuro é tratado de forma amadoristicamente despojada, sem um mínimo de cuidado técnico. É genial a utilização de um contêiner como máquina do tempo, algo que fala diretamente à utilização inteligente dos poucos recursos, ou a ambientação em uma sociedade dominada por religiosos, porém, são detalhes pouco trabalhados, o experimentalismo chato domina impiedosamente. O foco está em assistir os dois protagonistas, Marquim do Tropa e Shockito, vítimas da violência policial no baile, pelo maior tempo possível, em seus afazeres cotidianos. Quando um personagem, uma incógnita para o público, como todos os outros, passa o tempo entoando uma canção, tenha certeza de que ele irá cantá-la do início ao fim, sem motivo algum.

E o pior, não há nem insinuação de uma contextualização histórica, quem não conhecia o caso, continuará sem se importar com ele, já que o roteiro, que critica a exclusão social, parece rejeitar de propósito o conceito de acessibilidade em sua execução. É obra umbilical arrastada, repetitiva, daquelas que justificam os estereótipos de quem debocha dos “filmes de arte”, tendo sido celebrada mais por sua temática do que pelo produto final. Uma pena, já que o diretor Adirley Queirós tinha um conceito maravilhoso em mãos. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Adeus à Linguagem", de Jean-Luc Godard


Adeus à Linguagem (Adieu au Langage – 2014)
Logo no início, o filme revela: “Todos os que não têm imaginação, refugiam-se na realidade”. E eu complementaria: Todos os que não têm colírio, usam óculos escuros. Godard empreende, de fato, o mais próximo de uma intensa viagem lisérgica no cinema. Em sua desconstrução, o diretor faz uso de um grande estoque de referências literárias, aproveitando para buscar inspiração visual nos artistas plásticos, compondo uma jornada sensorial diferente e tremendamente desagradável, exatamente como a proposta pede. É corajosa a forma como ele filma uma conversa entre um casal, onde o homem está tranquilamente defecando no banheiro, fazendo questão de potencializar o som do atrito das fezes na água da privada. De uma forma ironicamente enviesada, o filme critica fortemente a linguagem, que considera falida, mas, ao final da árdua experiência, fez com que eu, praticamente desidratado, quisesse me afogar na fonte de Lubitsch, Wilder, Sturges, em suma, do cinemão hollywoodiano. 

E, abafado pelo barulho do produto final, existe um elemento verdadeiramente genial, um lampejo criativo que me remeteu ao Godard do início de carreira. Em uma época onde o artifício do 3D está sendo usado de maneira cada vez menos inteligente pela indústria, um senhor de oitenta e quatro anos mostrou como esse recurso pode aprimorar a imersão, oferecendo uma opção de evolução real na narrativa. Enquanto os diretores buscam formas de espetacularizar com essa ferramenta, o francês utiliza o efeito da tridimensionalidade para acentuar objetos simplórios, até com baixa resolução. Por breves segundos, no entanto, o diretor transformou uma inofensiva atração de circo em pura poesia visual. Ele faz do espectador um editor, trabalhando uma cena que se divide em duas situações, dois personagens, um homem e uma mulher, duas imagens 2D que se fundem na tela. Fechando um dos olhos, você acompanha o desenrolar da cena para apenas um dos personagens. Pouco tempo depois, os dois se reencontram. Só vendo para compreender em sua plenitude a beleza na execução.

Em poucas palavras, sem a tentativa de enxergar formas nas nuvens, o filme é insuportável em seus longos setenta minutos. É uma entediante e impenetrável exibição de pedantismo, com uma belíssima inovação linguística sendo executada em seu núcleo. Uma obra que será abraçada efusivamente por adolescentes em período de autoafirmação intelectual, que irão filosofar sobre as várias camadas interpretativas existentes na cena em que aparece uma árvore invertida, ou defenderão a beleza inebriante do contraste entre o verde da grama e o asfalto, afinal, eles entendem como poucos a genialidade do artista. Sem dúvida, com esse filme, Godard rompe de vez com a linguagem cinematográfica, com qualquer senso narrativo e estético, quiçá, com a própria sociedade humana. Gosto bastante de sua fase inicial, mas, analisando apenas por suas experiências mais recentes, aquele que opera a câmera também se tornou uma ruidosa máquina, ou, na melhor das hipóteses, um eremita com um bizarro senso de humor. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

"A Árvore da Vida" (1957), de Edward Dmytryk


A Árvore da Vida (Raintree County – 1957)
O abolicionista John Wickliff Shawnessy (Montgomery Clift) se afasta de sua namorada de escola Nell Gaither (Eva Marie Saint) e começa um caso de amor apaixonado com a rica beldade sulista Susanna Drake (Elizabeth Taylor). Ele é obrigado a se casar com ela quando ela falsamente lhe diz que está grávida.


O equívoco mais comum que se comete é comparar esse filme, dirigido por Edward Dmytryk, com “E o Vento Levou”, apenas por serem épicos românticos ambientados no período da Guerra Civil. Em sua época, muitos críticos já haviam sentenciado a obra ao fracasso, antes mesmo da estreia, devido à máquina de propaganda do estúdio MGM, que prometia um espetáculo que iria superar o clássico já citado. A estratégia era pretensiosa, porém, compreensível, levando em conta que Hollywood enfrentava problemas que não existiam na década de trinta, como a ascensão vertiginosa da televisão como entretenimento mais confortável e mais barato que a sala escura. Outro fator que atrapalhou a análise objetiva de crítica e público foi o terrível acidente ocorrido com o protagonista Montgomery Clift, um evento que interrompeu as filmagens por dois meses e alimentou brutalmente a imprensa marrom.

O jovem astro, reconhecido internacionalmente como um ícone de beleza, bateu com seu carro após sair de uma festa na casa de Elizabeth Taylor e quase morreu. A anfitriã, amiga muito próxima, chegou ao veículo a tempo de retirar dois dentes dele que estavam presos na garganta, impedindo a respiração. O rosto dele ficou dilacerado. O estúdio queria substituir o ator, que já havia filmado várias cenas, e seguir com as filmagens, mas, num rompante de fúria, Taylor se recusou a continuar no projeto sem a presença do colega. Ele passou por cirurgias plásticas e, com a ajuda de uma maleta de analgésicos, voltou ao trabalho. Como o próprio ator profetizava, a bilheteria do filme estava garantida, já que o público pagaria apenas para tentar discernir as cenas anteriores das posteriores ao acidente. E, efetivamente, a atenção de todos na época estava focada em buscar o ator em cada sequência, a trama era o que menos importava. Clift nunca mais se recuperou psicologicamente da tragédia, cometendo, como se costumava dizer, o mais longo suicídio da história da indústria. É triste perceber a diferença na expressão dele, da jovialidade despreocupada a um pesar constante, com o lado esquerdo do rosto paralisado, como se ele tivesse envelhecido alguns anos em uma mesma sequência. O bonito é perceber que, mesmo sentindo tremenda dor, o astro conseguiu entregar uma excelente atuação.

A produção caótica se reflete no resultado, que tinha potencial para ser muito melhor, mas, ainda assim, consegue ser bastante eficiente. O livro original, escrito por Ross Lockridge, Jr., tem sua estrutura narrativa inspirada claramente em “Ulysses”, de James Joyce, sendo uma tarefa muito difícil adaptar as páginas para a linguagem cinematográfica linear dominante no período. Só pela coragem da tentativa, além de ser o primeiro projeto filmado em grandiosos 70 mm, já vale o reconhecimento. É a segunda parceria de Clift com Taylor, após o sucesso de “Um Lugar ao Sol”, e dá pra sentir o carinho entre os dois, uma química que salva algumas cenas menos inspiradas. Gosto muito da trilha sonora de Johnny Green, responsável também por outra obscura pérola: “A Noite dos Desesperados”, de 1969. Ele vai de encontro às melodias convencionais do gênero, marcadas pelo exagero sinfônico, apostando na sofisticação elegante de melodias minimalistas e que emolduram os sentimentos dos personagens, especialmente o trio principal, ao invés de se deixar levar pelo escopo histórico da trama. 

* O filme, inédito em home video no Brasil, está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

Razzle Dazzle - "Mary Poppins"

Link para os textos do especial:


Mary Poppins (1964)
Aproveitei que meus afilhados estão passando férias em minha casa para intermediar o primeiro contato deles com alguns filmes essenciais, como “De Volta Para o Futuro” e “E.T. – O Extraterrestre”, com emocionantes resultados. Senti então que havia chegado a hora de apresentar a eles o primeiro musical live action que eu assisti, aos sete anos, praticamente na mesma idade deles: “Mary Poppins”, dirigido por Robert Stevenson.

Eu lembro que, naquela época, sempre chorava muito no trecho onde a Julie Andrews canta a canção favorita de Walt Disney: “Feed the Birds”, alimente os pássaros. Esse trecho específico me provoca lágrimas até hoje: “ainda que não possa vê-lo (os santos, o elemento divino), saiba que ele sorri sempre que alguém demonstra se importar”. Quando penso na trama, analisando os valores que ela me transmitiu, visualizo a nobre senhora sentada na escadaria da igreja, dando de comer aos pássaros. A cena despertou uma linda discussão após a sessão, exatamente como outrora: Crianças, quando estiverem caminhando e virem essas pessoas alimentando os animais de rua, percebam que estão diante do potencial humano que muitos de nós não utilizamos; façam amizade com elas, ajudem-nas se possível; esses abnegados e valorosos seres são o mais próximo de um conceito universal de “Deus” que eu já conheci. E como é lindo perceber a mesma sensibilidade nos meus afilhados, inseridos em uma sociedade tão diferente, que celebra uma completa inversão de valores. A trilha sonora composta pelos irmãos Richard e Robert Sherman é a alma do projeto. “Sister Suffragette”, cantada por Glynis Johns, diverte com seu teor feminista, ironicamente defendido por uma esposa que é totalmente submissa ao marido. “A Spoonful of Sugar”, “Jolly Holiday” e “Supercalifragilisticexpialidocious”, doces e empolgantes temas que sublinham a importância dos valores ensinados por Mary.

Outro momento que suscitou discussão, a maneira como o roteiro trabalhou visualmente a cena do Sr. Banks, vivido por David Tomlinson, sendo despedido de seu emprego no banco. O evento fundamental que antecede a modificação de conduta do personagem. Esse trecho me causava tremendo incômodo naquela época, uma sensação que me fazia, por vezes, avançar o VHS, uma tristeza profunda. E, na realidade, não há melodrama manipulador, como em várias animações da empresa, a violência é mostrada de forma inteligentemente sutil, porém, impactante. Qual a forma que os patrões encontram para humilharem o empregado? Eles danificam os símbolos de seu conforto social, o chapéu, o guarda-chuva, a flor na lapela, em suma, o status profissional que ele considerava mais importante que qualquer coisa em sua vida. E, indo além no simbolismo, perceba como, segundos antes do filho do dono do banco danificar o guarda-chuva, um dos seus colegas deixa claro que, optando por aquilo, ele estava indo longe demais no castigo. O mesmo objeto que Mary Poppins, uma espécie de Palas Atena, utiliza para visitar os seres humanos e, após a missão cumprida, retornar para sua realidade. O guarda-chuva que é conduzido ao sabor imprevisível do vento, o leitmotiv que representa o tempo de atuação da protagonista, com a afirmação de que ela só irá embora quando o vento mudar de direção, além de se mostrar presente também, de forma óbvia, no desfecho, “Let’s Go Fly a Kite”, com as pipas simbolizando a redenção do pai e dos banqueiros.

Um dos aspectos que me encantam nesse filme é o subtexto que se revela em revisões, como a relação entre Mary, impecável Julie Andrews, e Bert, vivido por Dick Van Dike. Quando criança, eu enxergava apenas um casal de namorados, uma amizade muito forte. O que percebi mais tarde, analisando pequenas dicas que o roteiro e as letras de algumas músicas davam, foi que havia algo muito mais profundo em jogo. Vale destacar que é algo presente apenas na adaptação cinematográfica. E, com essa relação em mente, a experiência se tornou muito mais interessante. Bert foi uma das crianças que Mary, que não envelhece, ajudou outrora. É um amor que nasce da intensa gratidão do rapaz. Ele segue sobrevivendo, reconhecendo o valor de sua arte, mas, na mesma medida, consciente de que a adaptação faz parte do jogo ingrato da vida. E, o mais importante, ele mantém o sorriso no rosto, não importa a gravidade do problema que enxerga no horizonte. O status social que o Mr. Banks buscava é a perfeita antítese do que Bert adota em sua rotina, aceitando um emprego como limpador de chaminés. Analisando a força desse confronto ideológico, intensifica a beleza de sequências como a dos limpadores dançando nos telhados. “Step in Time” não é uma tolice divertida, mas, sim, reforça na mente das crianças a importância de nunca se buscar prioritariamente a zona de conforto, correndo atrás de empregos socialmente tidos como mais respeitáveis, apenas buscando maiores remunerações. A satisfação deve nascer de se realizar com empenho aquilo que se ama, aquilo que faz os olhos brilharem.

O resultado da sessão: meus afilhados pedem pra rever o filme todos os dias, já estão até cantarolando as músicas. Missão cumprida.

domingo, 26 de julho de 2015

"Três Mulheres", de Robert Altman


Três Mulheres (3 Women – 1977)
Gosto de imaginar “Três Mulheres” como sendo o capítulo final, emocionalmente maduro, de uma trilogia informal na filmografia do diretor Robert Altman, precedido por “Uma Mulher Diferente” (That Cold Day in the Park - 1969) e “Imagens” (Images – 1972), abordando, em essência, a formação da complexa psique feminina. Os três, especialmente o segundo, flertam abertamente com elementos do cinema de terror, com estruturas que nos remetem aos nossos pesadelos mais enigmáticos e, por conseguinte, perturbadores. O último, incompreendido pela crítica de sua época, nasceu de um sonho do diretor, que vivia um período angustiante, com sua esposa hospitalizada. Sem um roteiro tradicional, Altman, com o auxílio da escritora Patricia Resnick, elaborou um rascunho de cinquenta páginas, que foi trabalhado nas filmagens, com os atores improvisando boa parte dos diálogos, em cenas que haviam sido pensadas na noite anterior. É óbvia a inspiração em “Persona”, de Ingmar Bergman, porém, com exceção da utilização do elemento doppelgänger, a trama não procura confundir o público, há uma maior objetividade temática que conscientemente utiliza o ilógico onírico como moldura.

As três mulheres, na realidade, personificam variações de um indivíduo: Mildred. A personagem de Sissy Spacek rejeita seu nome, apelidada de “Pinky Rose”, o símbolo da feminilidade embrionária, inicia agindo como uma criança que dá os primeiros passos em um mundo desconhecido. Ela encara com estranho fascínio os idosos em sua terapia na piscina, ajudados pelas jovens enfermeiras, como se, até aquele momento, ignorasse a finitude humana. A personagem de Shelley Duvall adaptou seu nome, “Millie”, algo que considera menos antiquado, reflexo de seu desejo voraz por se encaixar no padrão feminino glamouroso que admira. A borda de sua saia sempre fica presa na porta de seu carro, mas ela nem percebe, uma gag recorrente que evidencia sua inadequação. Ela esconde o medo da indiferença com uma projeção exagerada, os vários cigarros que maneja como uma estrela da clássica Hollywood, os eventos sociais que organiza, ainda que ninguém se importe o suficiente com ela para que estes efetivamente ocorram. Os únicos que suportam suas longas dissertações sobre trivialidades são os pacientes idosos, já que eles não encontram rotas de fuga.

Após um momento dramático, essas duas personalidades se amalgamam, forjando o nascimento de uma nova persona, como uma “Pinky 2.0”, uma excelente atuação de Spacek, que transforma sua anterior ingenuidade em pura arrogância, uma versão idealizada dos sonhos reprimidos de “Millie”, esbanjando toda a confiança ilustrada nos relatos fantasiosos da personagem de Duvall. A terceira mulher, vivida por Janice Rule, está grávida. “Willie” é alguém que escolhe o silêncio, uma versão do feminino em seu estágio amadurecido, em simbologia, ela está aprendendo a lidar com a mortalidade, a ser a avó, “Millie” aprendendo a ser mãe, enquanto “Pinky” atravessa os conflitos existenciais de uma jovem filha. O fato de “Willie” ser mostrada como uma artista, pintando figuras mitológicas no fundo de uma piscina vazia, corrobora a impressão de que “Millie” e “Pinky”, assim como todo o resto, são criações suas, os fragmentos de sua memória, em diferentes estágios de sua vida. 


* O filme está sendo lançado em DVD, em versão restaurada, pela distribuidora "Versátil", na caixa "A Arte de Robert Altman", que inclui também: "O Perigoso Adeus", "Renegados Até a Última Rajada" e o excelente documentário "Altman, Um Retrato".

sábado, 25 de julho de 2015

Cine Noir - "A Maleta Fatídica" e "Sombras do Mal"

Link para os textos do especial:


A Maleta Fatídica (Nightfall – 1957)
Analisando pela ambientação do ótimo desfecho da trama, as montanhas nevadas do Wyoming, fica claro que estamos diante de um filme noir audacioso, crepuscular, com um forte traço de humor negro, algo essencial para o diretor Jacques Tourneur. O roteiro, adaptado da obra de David Goodis, busca confundir o espectador com sua estrutura narrativa, elemento alcançado também com ajuda da fotografia primorosa de Burnett Guffey, tentando refletir o estado mental do vulnerável protagonista, o artista vivido por Aldo Ray, que é inserido por engano em um esquema criminoso. A tensão é mantida do início ao fim, com um trabalho de câmera bastante criativo, principalmente no primeiro ato. É impossível não perceber uma possível homenagem, temática e até no desenvolvimento dos personagens, no celebrado “Fargo”, dos irmãos Coen. Vale destacar a presença de uma jovem e linda Anne Bancroft, como a modelo que acompanha o pesadelo na vida do personagem. Gosto especialmente da cena em que eles se encontram, quando ela, acreditando que ele é um bandido, precisa enganar ele, conduzindo-o para os braços da lei através de sua sedução. Na filmografia do diretor, não é um projeto tão lembrado quanto “Fuga do Passado”, porém, basta assistir uma vez, para constatar a injustiça. Uma pérola do gênero.


Sombras do Mal (Night and The City – 1950)
Harry, vivido pelo sempre competente Richard Widmark, inicia o filme sendo perseguido, numa correria desesperada pelas ruas de Londres. Graças ao ângulo da câmera, mérito da fotografia de Mutz Greenbaum, parece que até mesmo a sombra dele está querendo se desassociar de sua patética figura. Essa é a essência do personagem, alguém que foge de qualquer responsabilidade, um golpista que ambiciona apenas ascender socialmente, sem um mínimo senso de decência ou integridade moral. Ele está inserido em um cenário onde não há vencedores, um pesadelo urbano expressionista onde todos estão dispostos a utilizar os meios mais baixos, uma visão amarga da sociedade. Gene Tierney, que vive a namorada, possivelmente o único foco de luz nesse cenário sombrio, foi contratada para o filme como um pedido especial de Darryl Zanuck, que estava preocupado dela ser consumida pela autocomiseração, cometendo até um suicídio, já que havia passado por sérios problemas pessoais. Ainda que, dentro da filmografia de Jules Dassin, esse filme seja eclipsado por “Rififi”, realizado cinco anos depois, “Sombras do Mal” é um produto superior, com uma aura brutal de pessimismo e desilusão, um reflexo do contexto em que se encontrava o diretor, inserido na Lista Negra de Hollywood, exilado por se negar a delatar colegas. Não é apenas um dos mais importantes filmes noir, mas, sim, um dos melhores filmes da história do cinema. 


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", na caixa "Filme Noir, Vol. 3", que, além de ótimos documentários, contém também: "O Segredo das Joias" (Huston), "Um Preço Para Cada Crime" (Walsh), "Do Lodo Brotou Uma Flor" (Montgomery) e ""Mercado Humano" (Mann). 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Rebobinando o VHS - "Operação Kickbox"

Link para os textos do especial:


Robert Radler, um diretor reconhecido por seus filmes de ação, que dá palestra no TED, e que, recentemente, lançou um documentário intitulado “Turn it Up”, celebrando a história da guitarra elétrica. Só por essa trajetória esquisita, ele já merece ser lembrado nesse especial.


Operação Kickbox (Best of The Best – 1989)
A equipe americana de Kickbox se prepara para enfrentar seus rivais coreanos. Durante o exaustivo treinamento, eles se unem cada vez mais, mas também enfrentam dúvidas pessoais sobre a competição. O grupo americano formado pelos melhores atletas deve competir representando seu país nas fases finais do campeonato mundial de karatê em Las Vegas. 


O filme é tão interessante quanto sua sinopse deixa transparecer. Faço questão de iniciar citando uma das frases mais impactantes da trama, dita pela bela treinadora assistente, Sally Kirkland, boa atriz, afilhada de Shelley Winters, porém, em péssimo momento: “Vencer não é uma coisa de momento. Vencer é uma coisa de sempre”. E, devido à intensidade filosófica desse profundo ensinamento, ela faz questão de revelar que não é de sua autoria, mas, sim, de Vince Lombardi, um treinador campeão do Super Bowl. Sentiu a qualidade do material? Coitada da atriz, sendo colocada para quebrar tijolos empilhados, quando deveria, na realidade, quebrar tijolos na cabeça de seu agente, já que havia acabado de ganhar um Globo de Ouro, três anos antes, pelo drama: “Anna”. Mas ela não era a única que precisava pagar suas contas atrasadas. Temos no elenco o Chris Penn, irmão do Sean Penn, vivendo um kickboxer, além do James Earl Jones, como uma variação do mesmo James Earl Jones de sempre, brincando de Bernardinho, técnico cabeça quente, disposto a extrair o melhor de seus atletas. Como se a desgraça fosse pouca, a produção ainda conta com o Paul Gilman, responsável por uma das piores trilhas sonoras no gênero. Ele foi trocado no segundo filme, que consegue ser ainda pior que o primeiro, pelo David Michael Frank, um profissional mais experiente, com várias trilhas de filmes B de ação na bagagem, como os primeiros trabalhos do Steven Seagal.

Na marca dos vinte minutos, quando os lutadores estão batendo aquele papo trivial, soltando piadinhas tolas e conhecendo os quartos onde eles irão ficar alojados, você já acha que vai morrer de tédio, com o roteiro tentando nos fazer acreditar que os personagens vazios possuem algum carisma, uma conexão emocional que simplesmente não funciona. Essa sequência miserável, em suma, é uma versão condensada do início de qualquer reality show. As coreografias das lutas urbanas, fora do campeonato, são medonhas, com oponentes apanhando de chutes e socos que sequer chegaram perto dos rostos, um erro tosco de enquadramento. É nesse momento que você sente falta dos excelentes filmes dos Shaw Brothers. O protagonista, Eric Roberts, alguém que claramente é um artista marcial fake, que caiu de paraquedas no gênero, não saberia trocar pontapés com uma criança. Chega a ser cômica a forma como as coreografias em suas cenas são trabalhadas com base em sua limitação, o que, excetuando as óbvias utilizações de um dublê, conduz a várias sequências de exibições de técnicas femininas básicas de prevenção de estupro. Até o Van Damme, em essência, um bailarino carismático, é mais lutador que ele.

Essa fita poderia muito bem estar mastigada, ou até desmagnetizada, que não faria diferença alguma. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Guilty Pleasures - "Aliança Mortal" (1991)

Link para os textos do especial:


Aliança Mortal (Wedlock – 1991)
Frank Warren (Rutger Hauer) foi preso em uma penitenciária de segurança máxima por roubar milhões em diamantes, os quais não foram recuperados. Na prisão, cada prisioneiro tem um parceiro desconhecido. E quando eles se separam por mais de cem jardas, um colar explosivo é acionado, matando os dois parceiros. 


Meu primeiro contato com esse péssimo filme foi, ainda criança, através de um VHS da coleção “Videoteca” do jornal carioca “O Dia”. Salvo raras exceções, os títulos eram medianos, produções menores, mas, para um cinéfilo iniciante e ferrado que desejava ter uma videolocadora em casa, essas fitas ajudavam bastante, especialmente pelo valor irrisório que custavam. Revendo hoje, após mais de quinze anos, não consigo sequer acreditar que um dia considerei agradável essa bomba. O que me cativou na época foi o conceito por trás do colar explosivo. E, a bem da verdade, é injusto afirmar que essa ideia não funciona na trama, ela é a única coisa que funciona bem. O problema foi que os produtores se esqueceram de pensar num roteiro que desse suporte a esse conceito.

Os personagens, um detalhe que não me incomodava quando criança, sem exceção, são totalmente tolos. O letreiro inicial já me irrita: “Em algum lugar do futuro”. A preguiça já fica clara, o roteirista nem se preocupou em estabelecer um ambiente, não importa se a trama se passa daqui a vinte minutos, ou vinte anos, pra facilitar, coloca lá: “futuro”. Nos minutos seguintes, somos apresentados ao trio mais estúpido de ladrões de diamantes. Eles escutam soar o alarme, mas, mantendo a tranquilidade, continuam o que estão fazendo, encontrando tempo até para afagos românticos, com o protagonista colocando sorridentemente um anel no dedo da noiva japonesa. A polícia americana do futuro deve ser como a nossa do presente, já que demoram tempo suficiente para que o trio coloque o papo em dia. Eles se disfarçam de policiais, o que ocasiona outro momento bizarro: a policial real, no meio de uma perseguição desesperada, percebe um colar de diamantes no pescoço da japonesa, iniciando então uma conversa serena sobre como a corporação não permite que os policiais utilizem adereços como aquele. Era, obviamente, uma forma de distrair a mulher, porém, a forma esquisita como a cena é conduzida se assemelha a uma paródia dos irmãos Zucker.

E, como a cereja desse bolo estragado, a japonesa espera o reencontro com o personagem vivido por Hauer, para revelar que está mancomunada com o colega dele. Não teria sido mais fácil os dois terem dado um tiro nele logo após o assalto? E ele questiona, com a inteligência emocional de um menino de sete anos, enquanto vê sua amada agarrada no pescoço de James Remar: “Ele está te mandando dizer isso, né?”. É hilária a ingenuidade do bandido. E a cena termina com ela desferindo vários tiros nele, ao som das gargalhadas malignas caricaturais do traidor. Bom, caso isso não fosse suficiente, mesmo com vários tiros, inclusive, no coração, o personagem impressionantemente aparece vivo na cena seguinte, vendendo saúde, com um sorriso no rosto, já no camburão que está levando ele pra penitenciária. Sortudo que só ele, descobre que, num veículo lotado de marginais feios, sua companhia no banco é a bela Mimi Rogers.

Outro show de sutileza no roteiro, que tenta mastigar tudo para o público: um dos bandidos na penitenciária, uma ponta inglória de Danny Trejo, afirma com ar de durão: “Sem guarda, sem muro, sem proteção, não sei como ninguém foge daqui”. Logo depois, aparece a longa explicação, dada por uma espécie de Ciro Bottini dos artefatos de segurança carcerária. É empolgante a animação do homem ao enaltecer as qualidades daquela geringonça, o tal colar explosivo. Pra finalizar, outro momento que insulta a inteligência do espectador: Hauer está batendo um papo amistoso com o dono da penitenciária, até que percebe uma maneira fácil de matar o homem, que estava mais interessado em regar suas plantas. Ele pega uma tesoura e aponta o instrumento cortante para o pescoço do cara, porém, perde subitamente sua motivação, entregando a arma gentilmente, quando o homem o lembra de que, por dentro, ele não é um assassino. É basicamente uma reencenação do desfecho de “Super Xuxa contra o Baixo Astral”. E como o cara agradece a consideração? Ele reitera que poderia fazer o bandido desastrado passar por doze longos anos de dor e humilhação. E tudo isso que abordei ocorre apenas nos primeiros vinte minutos de filme.

O motivo de esse projeto estar inserido nesse especial? É que, por estranhas razões inexplicáveis, eu ainda me divirto bastante assistindo. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

"Woody Allen - Um Documentário", de Robert B. Weide


Woody Allen - Um Documentário (Woody Allen: A Documentary - 2012)
Como celebrar uma carreira tão longeva, caracterizada pela pluralidade de talentos, de sua origem como comediante stand-up até se estabelecer como cineasta, quando o protagonista sempre se mostrou tão consciente da existência desse véu de falsidade que veste os elogios e premiações? O homem que, ainda em início de carreira, ousou negar o abraço nas expectativas de seu público, entregando o sisudo “Interiores”, quando todos esperavam mais uma comédia leve. O destemido que fez muita gente vestir a carapuça em “Memórias”, uma proposta temática arriscada que fez vários críticos escreverem que aquele seria seu último projeto. E, recentemente, demonstrando uma fascinante lucidez, desconstruiu o senso nostálgico que embeleza tudo o que toca, em “Meia-Noite em Paris”. Esse artista corajoso que ignora anualmente o beija-pé dos produtores, recusando os holofotes do Oscar para poder tocar jazz com seus amigos. O rebelde elegante que, sem se dobrar a nenhum interesse dos engravatados, tem todos os grandes atores e atrizes, medalhões de várias gerações, aguardando com ansiedade a chance de receberem suas tímidas instruções nos sets de filmagem. 

Woody se tornou uma grife, sendo disputado por nações que querem pagar para ele ambientar seus personagens em seus territórios. São impressionantes cinco décadas de raríssima constância qualitativa, trilhando um caminho alternativo pavimentado pelos sonhos do garoto de outrora, Allan Stewart Konigsberg, que, inicialmente, achava o máximo ganhar uns trocados escrevendo tiradas de humor para os veículos da região. Como celebrar esse work in progress de intensa criatividade? O diretor Robert B. Weide acerta ao iniciar focando na paixão pela escrita, como Allen diz: “a grande vida”, o estágio em que tudo é possível, o momento mágico em que o escritor, dentro do quarto mais simplório, sem uma moeda no bolso, pode acreditar estar materializando as obras que irão definir o rumo da arte para as novas gerações. A constatação bem-humorada de que, na prática, o artista precisa entrar no jogo, muitas das vezes, sujo, injusto e ingrato, da burocracia que envolve a realização de um filme, dá o tom do documentário, que coerentemente evita a mitificação e responde minha pergunta inicial: escolhendo elaborar uma celebração, não apenas da carreira de um cineasta que se adapta como “Zelig”, mas, especialmente, da fantástica resiliência que, em longo prazo, forja os grandes nomes da cultura mundial. 

Ele traça um panorama da sociedade onde o garoto foi criado, com depoimentos da mãe dele, que se parece muito com a imagem projetada nos céus da cidade no seu curta inserido em “Contos de Nova York”. O público percebe que as experiências traumatizantes de sua infância, a descoberta da finitude humana e a postura materna excessivamente severa, ajudaram a moldar sua persona pública, a figura frágil e desajeitada que estamos acostumados a ver na tela grande, porém, o olhar sereno de Allen ao nos conduzir por um passeio pelos arredores da casa de seus pais, resgatando a importância do cinema de rua como o templo de sua religião, evidencia a inteligência emocional de um homem que soube criar e administrar um tipo que o ajudou a vencer a introversão. Com medo de ser reconhecido na escola como o autor das tiradas cômicas dos jornais, e, anos depois, apavorado por subir nos palcos, ele construiu sua nova identidade. Ele interpretou muito bem seu papel durante todos esses anos, simbolizado pela utilização dos óculos, ainda que, na época, não tivesse problema de visão. 

Quem espera uma historiografia artística detalhada, abordando o processo de criação, pode sair da sessão decepcionado. O próprio homenageado não costuma valorizar suas obras, ele, numa atitude inteligente, não se leva a sério, o que agrega ainda mais valor ao seu legado. Várias pérolas menores, como “Neblina e Sombras” e “A Outra”, são citadas brevemente. Da mesma forma, aqueles abutres que esperam revelações bombásticas sobre o polêmico relacionamento com Soon-Yi, terão que se satisfazer mais uma vez com a tremenda elegância de Allen, que, como sempre, prefere utilizar o tempo para expressar sua admiração pelo talento de Mia Farrow. É encantadora a forma carinhosa como Diane Keaton se refere à sua parceria com o cineasta, uma visão madura de uma mulher psicologicamente equilibrada e profissionalmente realizada, consciente de que deve sua carreira ao baixinho e franzino ruivo que conheceu na peça: “Sonhos de Um Sedutor”, no final da década de sessenta. 

O documentário ganha ainda mais relevância ao ressaltar a importância de profissionais como Charles H. Joffe e Jack Rollins, produtores que apostaram no talento de um jovem promissor, quando nem o próprio rapaz acreditava que conseguiria. Uma época de valores mais nobres, onde a mão era estendida para a competência, não para o imediatismo exótico de bizarrices que nem “Broadway Danny Rose” se interessaria em agenciar. 

"Rainha e País", de John Boorman


Rainha e País (Queen and Country - 2014)
O diretor John Boorman retorna ao universo semi-biográfico de “Esperança e Glória”, de 1987, com uma visão encantadora da Inglaterra da década de cinquenta, pintada em tintas fortes de farsa, defendida por personagens caricaturais e diálogos espirituosos, com o roteiro encontrando humor nas situações mais desesperadoras. O resultado não iguala o anterior, essencial para a compreensão da trama de “Rainha e País”, porém, é importante perceber como o cineasta, após oito anos de descanso, retorna com a mesma segurança. 

O amor pelo cinema, como evidenciado na imagem com que ele escolhe terminar sua história, move cada cena, uma abordagem que me remete aos trabalhos de Wes Anderson. A trama mostra a juventude daquele menino que havia agradecido Hitler por ter bombardeado sua escola. Bill, vivido corretamente por Callum Turner, está se acostumando com a ideia de, por obrigação da idade, prestar seus serviços ao exército, durante a Guerra da Coréia, um verdadeiro tormento que obriga o jovem a se afastar de sua namorada e de sua rotina bucólica. Como em “M.A.S.H.”, de Robert Altman, a narrativa é episódica e o foco é intimista, a preocupação maior é fazer rir dos flertes românticos desajeitados do protagonista e de seu melhor amigo, vivido por Caleb Landry Jones. 

O senso de nostalgia é o que move as ações, o vínculo emotivo com o protagonista, uma visão distanciada do próprio diretor, disfarçando pequenos furos e potencializando detalhes curiosos, como a forma com que ele apresenta os militares como personagens quase saídos de um desenho animado, vários tons acima do resto do elenco, numa crítica elegante. O constante conflito entre a disciplina artificial militar, representado especialmente pelo sargento, vivido com competência por David Thewlis, e a rebeldia típica da juventude. 

Não é um filme memorável, mas, na pior das hipóteses, fará com que o público resgate “Esperança e Glória” das gavetas empoeiradas da história cinematográfica. 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

"Porco Rosso", de Hayao Miyazaki

Links para textos sobre outros filmes do diretor:


Porco Rosso (Kurenai no Buta – 1992)
Esse é um projeto muito pessoal de Hayao Miyazaki, onde ele arriscou entregar um desenvolvimento nada formulaico e um desfecho enigmático, que muitos fãs do mestre japonês citam como um problema. Longe de ser um problema, o mistério é a beleza maior nesse intimista estudo de personagem, parte essencial da obra, simbolizado na mágica transformação do protagonista, uma bonita homenagem ao personagem de Humphrey Bogart em “Casablanca”. Um piloto que sobreviveu aos horrores da Primeira Guerra Mundial, tendo testemunhado a morte de vários amigos. Uma experiência brutalmente desumanizante, cujas cicatrizes podem ser percebidas, de forma mais sutil, no modo como ele se move, o cansaço existencial inegável em suas atitudes, uma complexidade que contrasta totalmente com a postura dos outros personagens, como se ele fosse o único elemento real inserido, como um paquiderme numa loja de cristais, naquele mundo de fantasia.

O fato de ele ser um porco é o que menos desperta estranheza no espectador. A superfície parece tola, uma comédia leve, mas há uma aura incômoda quase subliminar, propositalmente fora do tom, algo que toca diretamente o público mais velho, enquanto as crianças são presenteadas com a subtrama convencional, envolvendo batalhas aéreas e um antagonista caricatural. É como se o espírito altamente nonsense que está presente desde o início, com os piratas trapalhões sequestrando crianças, ou a competição absurda que se estabelece entre o porco e Curtis, culminando numa catarse pastelão, fosse o reflexo perfeito da estupidez de uma guerra. Dois adultos teimosos, numa longa troca de sopapos, ambicionando fama e dinheiro. Não há como abordar de forma refinada o estado mental de um veterano de guerra, nada faz sentido, tudo fica desfocado. Marco cansou de ser humano, ele foge de qualquer relacionamento com essa espécie, porém, enxerga esperança na figura adorável da jovem Fio, que sonha ser projetista de aviões, uma paixão compartilhada pelo diretor. Ele reconhece naquela impetuosidade inconsequente a coragem que o motivava na juventude. Talvez não seja o filme mais amado do diretor, exatamente por ser o único em que ele tenha ousado utilizar seu pessimismo, a sua preocupação com o futuro da humanidade, como motivo condutor da trama, ao invés de tentar entregar o produto que os fãs desejavam consumir, uma variante do mais do mesmo, como é usual na indústria.

Com a consequência física do trauma em Marco, Miyazaki critica o egoísmo do ser humano e o militarismo, uma mensagem poderosa antiguerra, que ele retomou, com maior contundência, em seu mais recente “Vidas ao Vento”. O personagem, que costumava ser um herói de guerra, decide se tornar um porco, escolhendo se isolar de sua sociedade, por não querer se tornar um fascista apoiador do militarismo patriótico da época. E, analisando um relato breve que o roteiro apresenta, sobre um dos feitos nobres do piloto na batalha, quando ele se arriscou para salvar um soldado inimigo, podemos perceber que o personagem apenas optou por se manter coerente, agindo de acordo com seus princípios. Sendo um porco, Marco nos mostra que os humanos, quando movidos pela ganância bélica, podem se tornar os verdadeiros animais irracionais. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "Balada Sangrenta"

Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução do especial:
Ama-me com Ternura:
A Mulher Que eu Amo:
O Prisioneiro do Rock:


É senso comum eleger essa obra como a melhor da carreira cinematográfica de Elvis, o próprio afirmava que era o seu trabalho favorito, o resultado de uma soma de fatores: a direção competente de Michael Curtiz, a impecável fotografia em preto e branco de Russell Harlan, um protagonista com conflitos mais complexos, coadjuvantes de alta qualidade, uma trilha sonora no nível dos melhores trabalhos do cantor, porém, existe um elemento que eu considero o mais importante nessa equação, sintomático da confiança que o estúdio depositou no projeto. Pela primeira vez em sua filmografia, o roteiro seria adaptado de um livro, “A Stone for Danny Fisher”, escrito por Harold Robbins. A despeito de algumas alterações, como a transformação do boxeador em um cantor, a trama segue com considerável fidelidade os temas principais.


Balada Sangrenta (King Creole – 1958)
Eu consigo imaginar a intensa alegria do cantor, em seus primeiros passos nessa nova mídia, ao saber que estava contratado para um papel que havia sido pensado inicialmente para seu ídolo James Dean. O produtor Hal Wallis estava disposto a desafiar qualquer pré-julgamento debochado da parcela do público que ainda se mostrava reticente com o artista, então fez questão de preparar o melhor cenário possível, colocando a direção nas respeitáveis mãos de Curtiz, de “A Canção da Vitória”, “Casablanca” e tantos outros filmes celebrados pela crítica e abraçados pelo público. E, numa atitude injusta, mas, comum até hoje com artistas populares, a crítica norte-americana se viu tendo o aval para, enfim, engolir o preconceito e aplaudir sem medo a atuação competente do jovem.

Danny (Presley) está insatisfeito com a situação miserável de sua família. Ele acredita que o pai (Dean Jagger), um conformista incapaz de se manter em um emprego, é o culpado pelos problemas financeiros. Um homem iletrado que somente enxergará o filho como alguém respeitável no dia de sua formatura. O jovem sente mágoa por entender que não será motivo de orgulho por suas atitudes, mas, sim, por um diploma emoldurado na parede. Em uma das cenas mais interessantes, uma discussão entre pai e filho, o jovem dispara: “Você vai pra escola, eu vou sair e ganhar uns trocados”. Ele persegue seu sonho, sua real vocação artística, trabalhando em qualquer emprego que o mantenha no caminho da inspiração. E, num desses serviços, ele acaba atraindo a atenção de um gângster (Walter Matthau) e de sua protegida (Carolyn Jones), a sensual antítese de sua comportada namorada (Dolores Hart). A revolta e a necessidade financeira fazem com que ele se sinta atraído pela proposta sombria do homem, ativando um conflito interno que conduz a um emocionante desfecho, ao som da balada “As Long As I Have You”, composta por Fred Wise e Ben Weisman. “Aceite o amor que eu ofereço, e, dessa forma, terei tudo, enquanto eu tiver você”. A canção é apresentada como a declaração de amor ao pai, que, pela primeira vez, com inegável orgulho, prestigia o trabalho do filho.

A poderosa trilha sonora inclui versões viscerais do puro rock and roll em “Hard Headed Woman” (Claude Demetrius) e “King Creole” (Jerry Leiber/Mike Stoller), além do blues de “New Orleans” (Tepper/Bennett) e “Crawfish” (Wise/Weisman), mas, sem dúvida, o destaque vai para “Trouble” (Leiber/Stoller), que alguns críticos musicais consideram uma das influências para o futuro punk rock, com Elvis rosnando: “Se você está procurando encrenca, olhe bem na minha cara”. Não foi coincidência essa canção ser escolhida como a abertura do especial televisivo, realizado em 1968, simbolizando sua relevância musical e sua atitude rebelde numa sociedade mais cínica, mostrando que ele ainda era tão perigoso quanto no início de sua carreira. 

A Seguir: "Saudades de Um Pracinha" (G.I. Blues)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Tesouros da Sétima Arte - "O Oitavo Dia"

Link para os textos desse especial que aborda os tesouros escondidos. Obras que merecem ser mais valorizadas:


O Oitavo Dia (Le Huitième Jour – 1996)
Eu vi esse filme apenas duas vezes, mas é incrível como tenho guardadas na memória várias cenas, até linhas de diálogo, que me emocionaram sobremaneira.

O impacto da ternura do jovem com síndrome de Down, o belga Pascal Duquenne, sobre a dura casca de amargura do homem, impecável Daniel Auteil, que percebe sua família cada vez mais distante, no belo momento onde o rapaz tenta bloquear as lágrimas do amigo ao construir um sorriso, com seus dedos, no rosto dele. O reencontro dos dois na chuva, a reafirmação da amizade, após uma tentativa cruel de desapego forçado. O trabalhador compulsivo que, por intermédio dessa relação, aprende a ser um pai melhor para suas filhas. A mãe falecida que, ao som de seu ídolo na música, aparece para carinhosamente confortar as angústias do jovem. E essas cenas, que poderiam pender facilmente para a pieguice exagerada, são engrandecidas pela forma sensível como o diretor Jaco Van Dormael escolhe se contentar com o minimalismo, com o protagonista tendo uma clara atitude emocionalmente independente, dispensando a compaixão dos outros.

A trama aborda o desejo do jovem, internado em um hospital especializado desde a morte da mãe, em voltar para casa. Ele é um fardo pesado demais para seus familiares, pessoas egoístas e que não querem encarar o reflexo visualmente diferente nesse espelho perturbador, como estudado pelo psicanalista francês Pierre Fédida, personagens que simbolizam a forma como grande parte da sociedade encara os deficientes, e, por conseguinte, o aparente desinteresse pela necessária inclusão social.

Essa rejeição que fala diretamente ao choque desorientador do diferente em contato com a imagem que representa a formação inicial do “eu” inconsciente, ou, nas palavras do psicanalista francês Jacques Lacan, esse “eu” ideal em que nos reconhecemos, na realidade, uma visão equivocada, que não corresponde ao corpo fragmentado que experimentamos. A busca do rapaz, nesse encantador road movie, pelo conceito de “voltar para casa”, reflete o exaurimento da esperança nessa sociedade narcisista. A pureza dele, ao final, sacrificada como expiação dos pecados do mundo. 

sábado, 11 de julho de 2015

TOP - Filmes para Ampliar o Olhar Psicológico

Amigos leitores, queridas leitoras, esses são apenas alguns dos meus filmes favoritos sobre assuntos relacionados à psicologia, em variadas vertentes. Tentei evitar o lugar comum de listas similares, fiz questão de rever todos, no intuito de selecionar com mais clareza. Estão listados sem ordem de preferência.


Através de Um Espelho (Såsom I En Spegel – 1961)
O primeiro projeto da hoje conhecida como “Trilogia do Silêncio”, que prefiro chamar de “Trilogia da Fé”, mostra Ingmar Bergman em seu estado mais objetivo, mas, ainda assim, flertando com metáforas. Analisando os três filmes, podemos claramente perceber os questionamentos do cineasta com relação a uma divindade aparentemente muda, invisível em meio aos destroços da guerra, a natureza da fé trabalhada por um ateu. A trama simples utiliza o microcosmo de uma família que passa férias em uma paradisíaca ilha. Karin (Harriet Andersson) acaba de voltar de uma estadia forçada em um hospital psiquiátrico, ainda apresentando sinais de profundo desequilíbrio emocional. Seu marido, vivido por Max von Sydow, seu carente irmão mais novo (Lars Passgård) e seu pai, um homem tão imerso em sua ambição profissional literária, universo onde extravasa suas angústias, sem nunca ter coragem suficiente para resolvê-las, que foi incapaz de estabelecer uma relação de carinho com seus filhos. Um toque de gênio é Bergman torná-lo “Deus” para seu próprio filho, que, admirado, percebe ao final que finalmente conseguiu vê-lo/senti-lo. Após seu contato com a “aranha”, que a manipula e a frustra terrivelmente, a jovem esvazia seu copo de esperança. Bergman força essa reflexão em seu público, levando-o a ver que o conceito divino não se limita a um rígido padrão de ideias e condutas, facilmente manipulado pelas religiões mundanas com seus rituais vazios. Práticas que isolam/segregam o homem, ao invés de fazê-lo perceber-se como parte de um todo. Aquele que busca encontrar Deus, não deve fazê-lo em templos, mas, sim, no ato simples de sorrir para estranhos.


Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of The Spotless Mind – 2004)
Na Grécia antiga, berço da filosofia, Heráclito afirmava metaforicamente que nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio. O existir é um perpétuo mudar, um constante fluir. Já Parmênides de Eleia, povo pioneiro no uso da dialética, contestava-o afirmando que o ser é único, eterno, imutável, imóvel e infinito. Ele dividia o mundo em sensível, aquele que conhecemos pelos sentidos, e inteligível, mundo que não vemos e não tocamos, mas compreendemos. John Locke argumentava que a identidade do ser, não era definida por características físicas, mas sim por repetida auto-identificação. Logo, a memória torna-se essencial na construção do ser. O que aconteceria caso o homem pudesse manipulá-la, de forma a aniquilar elementos que o fizeram tornar-se quem ele é? Apagar da mente aqueles eventos que ajudaram a construir sua personalidade, afetaria a forma como o ser lidaria com o seu habitat? O filme, dirigido por Michael Gondry, abre esta importante discussão, contando a história do casal Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). Após anos sentindo-se insatisfeita com os rumos do relacionamento, ela age impulsivamente e aceita participar de um tratamento que irá fazê-la “cirurgicamente” esquecer completamente de seu namorado. Indignado, Joel decide fazer o mesmo, porém acaba percebendo o valor da preservação daqueles momentos. Ele lutará até o fim para manter suas recordações, mesmo aquelas que lhe causam sofrimento, pois também ajudaram a construir o homem que ele se tornou. O roteiro brilhante de Charlie Kaufman nos induz a questionar a nossa frágil psique, com a angústia de alguém em lidar com a indiferença do outro. Apaga-se a memória, porém ele ainda existe.


Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose – 1997)
A primeira sequência do filme já expõe o leitmotiv que conduz a sensível trama. Enquanto os pais de Jerome escondem ritualisticamente em seus uniformes diários a ausência do calor que outrora havia em seu relacionamento, os pais de Ludovic se entregam à vida naturalmente e com real paixão, com o diretor de arte expondo claramente o contraste na paleta de cores que emolduram as cenas. O primeiro momento em que realmente vemos o menino, somos levados a sentir o mesmo choque que seus pais, pois ele está usando o vestido de princesa de sua irmã. Seu pai, temeroso pelo julgamento cruel da sociedade, limita sua corajosa atitude a uma brincadeira inconsequente. Sua mãe corre para fazê-lo retirar com água fria a maquiagem de seu rosto. No rosto da criança, a apatia dos que sofrem diariamente com a ignorância daqueles que deveriam ser mais inteligentes, por terem mais experiência de vida. Ludovic não sabe ainda que o ser humano é uma espécie muito pouco evoluída, escrava de crenças em seres imortais, anjos, demônios e feitos miraculosos, porém incapazes de simplesmente aceitar uma condição natural que compartilhamos com várias espécies (mais de 1.500, para ser mais exato) do reino animal: a homossexualidade, em suas diversas vertentes. A religiosidade, sempre caracterizada pelo domínio do homem sobre a mulher, desde a lenda de Adão e Eva, vista como a causadora de todos os males, estabeleceu fortemente sua presença na sociedade, como uma triste mancha na História, formando gerações de machistas ignorantes e mulheres sexualmente reprimidas. A absurda noção do pecado, camuflando hipocritamente qualquer desejo sob um véu de pureza, que se rompe assim que o autoproclamado santo se tranca na solidão de seus pensamentos. A ilusão de que se alcança o divino pelo ato da castidade, ignorando que, caso exista, ele perceberia os instintos naturais que não se podem domar.


A Caça (Jagten – 2012)
A bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen auxilia ao emoldurar o cair das folhas de outono, inclusive como metáfora, simbolizando o crepúsculo de um homem oprimido, sendo complementada pela excelente interpretação de Mads Mikkelsen, que foge de sua zona de conforto, oferecendo um retrato humano e passional nesse excelente filme dirigido por Thomas Vinterberg. Nenhuma chance é dada a ele, pois todas as famílias da região agarram-se ao inconsciente coletivo do pavor, temendo que ele se aproxime de suas crianças. Lucas (Mads) é um homem bom, adorado por seu filho e seus alunos, incapaz de cometer atos tão cruéis. Somos levados então a um calvário pessoal, onde progressivamente todos os membros da comunidade passam a duvidar de sua inocência. A jovem Annika Wedderkopp (Klara) surpreende com uma excepcional atuação infantil, diferente da celebrada menina de “Indomável Sonhadora”, que apenas seguia instruções do diretor. Vinterberg nunca apela para o óbvio, enaltecendo mártires e pintando com tintas fortes os vilões, pois prefere mostrar todos como seres humanos falíveis e propensos a escolhas erradas. O leitmotiv da confiança é explorado até o brilhante desfecho, onde o roteiro ainda inclui uma poderosa crítica social e religiosa. O simples benefício da dúvida já seria o suficiente para auxiliar no processo angustiante em que o protagonista se vê vitimado, mas a mensagem que o filme aborda é cruel em sua veracidade: a sociedade, desde o início dos tempos, sempre esteve propensa ao apedrejamento coletivo, algo que requer menos argumentação que a árdua tarefa de tentar enxergar a flor no lodo.


A Experiência (Das Experiment – 2001)
O diretor Oliver Hirschbiegel adapta o romance de Mario Giordano e o transforma em uma experiência cinematográfica angustiante. Saber que se trata de uma história real, ajuda a fazer com que nossos olhos evitem piscar, enquanto somos sugados para dentro da trama. Uma equipe de cientistas convoca vinte homens de diferentes origens para uma experiência psicológica em troca de um prêmio em dinheiro. Os participantes são colocados em uma prisão e divididos aleatoriamente em dois grupos: oito deles fazem o papel de guardas e os outros doze, de internos. Os presos devem obedecer às regras impostas pelos colegas que representam figuras de autoridade. No início, a camaradagem reina no ambiente. Mas em pouco tempo, os falsos guardas mudam de comportamento e a violência, mesmo que proibida, preenche as lacunas. Os internos vão se tornando cada vez mais submissos e os guardas cada vez mais agressivos. Um estudo psicológico sobre o comportamento humano sem precedentes e uma obra que dificilmente irá sair de sua mente. Ao final da sessão fica muito claro que só conhecemos realmente uma pessoa após darmos poder a ela.


O Enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott gegen Alle – 1974)
O título original do filme: “Cada um por si e Deus contra todos” exprime com exatidão a mensagem desta obra sensacional do alemão Werner Herzog. Ele utiliza a história real do jovem Kaspar Hauser, que durante grande parte de sua vida foi mantido em um cativeiro, sem nenhum contato com a civilização. Ele não sabia andar ou se comunicar, tampouco entendia que havia outros seres como ele. Como trocavam sua comida durante seu sono, ele acreditava que sua alimentação aparecia como que por mágica, sempre após ele fechar os olhos. Seu único companheiro era um pequeno cavalo de madeira. Sua vida muda quando um homem adentra sua prisão e o entrega de volta à sociedade, deixando-o de pé no meio de uma praça na cidade de Hamburgo. Munido apenas de uma carta e um livro de orações, o jovem vislumbra pela primeira vez o mundo. O diretor escolheu Bruno S. para viver o jovem. Ele havia passado sua vida inteira em instituições para doentes mentais e nunca havia atuado. Seus olhos sempre distantes e assustados, como se vissem o mundo pela primeira vez. O filme nos questiona sobre o que consideramos ser normal, dentro da estrutura de uma sociedade contraditória, que não sabe como reagir ao entrar em contato com um homem puro, sem cultura e regras a seguir. Os religiosos se revoltam, já que ele resiste à aceitação do mistério da fé. Ele desconhece a ideia de um Deus como força superior e debate questões de lógica com um professor. Somos brindados com várias cenas brilhantes e com uma história inesquecível. Meu filme favorito de Herzog e uma das melhores obras do cinema alemão.


Zelig (1983)
Em sua genialidade, Woody Allen estrutura esse filme como um documentário sobre Leonard Zelig, um (literalmente) camaleão social da década de vinte. Sem nenhum esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem se relacionar. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área. A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese. O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora. Quantas pessoas assim você conhece em sua vida?


O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker – 1962)
Esse belíssimo filme conta a história real da professora, vivida por Anne Bancroft, que busca incessantemente mostrar as belezas do mundo a uma menina cega e surda, a jovem Helen Keller, uma atuação impressionante de Patty Duke, que já estava vivendo a personagem nos palcos, contracenando com Bancroft. Com muita persistência, ela consegue retirar a garota de uma realidade solitária e depressiva, levando-a a adaptar-se ao mundo, fazendo-a conseguir se expressar. Foi preciso pulso firme por parte de Anne, pois a família da jovem havia contribuído para que ela se colocasse em um pedestal, como revoltada vítima das circunstâncias, da qual foi retirada por intermédio de uma rígida disciplina amorosa. Ela sabia que seria difícil alcançar a alma daquela jovem, que estava perdida nas profundezas daquele enigma aparentemente impenetrável que os anos de escuridão e solidão haviam cruelmente forjado. A cena que motivou o texto dura por volta de oito minutos, sem diálogos ou trilha sonora, ocorrendo no primeiro momento em que as duas ficam sozinhas numa sala de jantar que se torna um intenso campo de batalha. Helen inicialmente busca atrair atenção se debatendo no chão, enquanto Anne calmamente continua almoçando. Minutos antes, ela havia percebido que a garota não conhecia limites, devorando os alimentos de todos os pratos como se fosse um animal enjaulado, sendo mimada pela piedade de sua família. A professora estava obstinada a não deixar a menina sair daquele ambiente sem aprender que devia comer apenas sentada à mesa e com talheres. A brutalidade da cena choca, fazendo com que a angústia progressivamente se torne mais insuportável, com agressões físicas de ambas as partes. Ao final, uma pequena grande vitória que é relatada pela professora à extasiada mãe: Helen come na mesa e com talheres, até dobrando seu guardanapo. Ainda havia um longo caminho pela frente, pois ela precisaria educar os verdadeiros deficientes da trama, os familiares da menina.


O Segundo Rosto (Seconds – 1966)
Em sua essência, um pesadelo Faustiano dos mais assustadores. Uma resposta corajosa para a eterna questão: o que você faria se lhe fosse ofertada uma segunda oportunidade na vida? É o que descobre o personagem vivido por John Randolph, quando é convidado a participar de um enigmático projeto. Já tendo passado dos cinquenta anos e dedicado toda sua vida ao trabalho exaustivo, possui uma oportunidade única de renascer com uma nova identidade. Com o auxílio de cirurgias plásticas, recebe sua jovialidade de volta e a liberdade para evitar cometer os mesmos erros. Rock Hudson interpreta o personagem após o renascimento, com uma entrega raras vezes experimentada pelo ator, acostumado na época ao conforto dos papéis de galã. Sua interpretação é auxiliada pela câmera instável de John Frankenheimer, fundamental para que nos envolvamos na atmosfera onírica da obra. O filme, como todos à frente de sua época, não fez sucesso em sua estreia. Chegou a ser vaiado em Cannes. Visto hoje, com sua fantástica abertura idealizada pelo genial Saul Bass, uma trilha perfeita de Jerry Goldsmith e uma fotografia impecável de James Wong Howe, se apresenta incrivelmente atual, tocando fundo no questionamento de como a sociedade é estruturada.


Esse Mundo é dos Loucos (Le Roi de Coeur – 1966)
A trama dessa charmosa fábula antimilitarista parte de um conceito simples, instigando uma profunda reflexão que, a despeito da estética compreensivelmente datada, ainda ressoa implacavelmente atual. Durante a Primeira Guerra, o soldado Charles Plumpick, vivido por Alan Bates, um especialista em ornitologia, é enviado por engano a um vilarejo na França para desativar uma bomba deixada pelos alemães. Ao chegar, ele percebe que os moradores do local foram embora e que a cidade foi tomada pelos pacientes de um hospício. O dedo do diretor Philippe de Broca, que aparece em uma breve e hilária ponta como o soldado Adolf Hitler, estava obviamente apontado para os horrores da Guerra do Vietnã, mas o discurso proposto era mais abrangente. A ideia, trabalhada por Maurice Bessy e Daniel Boulanger, nasceu de uma notícia sobre o assassinato de cinquenta doentes mentais franceses por soldados alemães, em uma invasão a um hospital durante a Primeira Guerra. Eles tinham se vestido com o uniforme de soldados americanos mortos e foram andando pelo campo, quando os alemães os fuzilaram por engano. Os loucos de Broca, essencialmente sonhadores que se recusam a sentir medo, possuem uma compreensão mais profunda da vida, preferindo nobremente apreciar o momento em sua redoma de criatividade, enquanto aqueles considerados sãos, presos aos seus estúpidos rituais militares, estão dispostos a desperdiçarem futilmente suas vidas, acatando ordens que sequer entendem. É linda a cena que mostra os pacientes recuando ao alcançarem o portão principal, com a trilha sonora festiva de Georges Delerue dando lugar ao sepulcral silêncio, enquanto acenam melancolicamente para seu rei de copas, que parecia decidido a retornar ao mundo real. O personagem escuta ao longe o som das máquinas da guerra, sentindo internamente o conflito entre a genuína alegria e o companheirismo que havia sentido no reino dos loucos e os ilusórios conceitos de virtude e grandeza que o aguardavam do lado de fora.