domingo, 30 de outubro de 2016

Sobre o resultado da eleição para prefeito do Rio de Janeiro

É um dia triste para todos que trabalham com cultura, para todos os cariocas que valorizam a literatura, o cinema, a música, as artes plásticas. 

Esquecendo por um momento os argumentos políticos dos defensores dos dois candidatos, a eleição de hoje tem uma forte simbologia: um professor foi derrotado por um fundamentalista religioso, o criacionismo foi aplaudido em 2016. A maioria dos cariocas celebrou a influência religiosa na política, avalizando um membro direto da Universal, organização que até mesmo os evangélicos sérios repudiam. Macedo dá um passo importante em seu objetivo de poder. Eu não posso evitar me questionar: Vale a pena o esforço de lutar pela cultura e pela educação nessa nação? Analisando friamente o franco favoritismo no resultado, creio que todo o esforço está sendo inútil.

Crivella foi MINISTRO da Dilma, como os ratos, abandonou o barco antes de afundar. Ele apoia quem for preciso para conquistar o seu objetivo. Freixo, mesmo sabendo que o apoio que recebeu de alguns membros do PT era impopular, não negou, isso mostra CARÁTER. Eu sei lidar com oponentes de caráter. O perigo está no oponente sem escrúpulos, capaz de tudo para conseguir o que quer.Eu me preocupo com aquele que não é movido por ideologia alguma, apenas o desejo pelo poder a qualquer preço. A demonização é sempre sintomática de uma compreensão rasa e equivocada sobre o tema. A lucidez é a única salvação para essa nação. Eu tenho divergências com tópicos da "esquerda" e da "direita", eu marcho no ritmo do meu próprio tambor ideológico, respondo apenas aos meus princípios. Mas o homem que se elege hoje responde apenas ao desejo de poder, sem escrúpulos. O ovo da serpente.

Como foi triste ver colegas artistas apoiando o obscurantismo. Até entendo aqueles que são empregados diretos da Record, esses já deixaram seus princípios na porta ao assinarem o contrato. Mas não consigo compreender adultos alfabetizados que enxerguem algum conceito de "Deus" nos preceitos do grupo de Macedo. A Universal é a primeira a desrespeitar TODAS as crenças religiosas. Jesus seria o primeiro a expulsar a chicotadas esse bando que faz fortuna com a vergonhosa teologia da prosperidade. 

Esse é o desabafo de um escritor profundamente decepcionado com o povo de sua cidade.

sábado, 29 de outubro de 2016

Sobre o voto nulo em nosso sistema político

O sistema obrigatório, uma bizarrice nada democrática, faz a engrenagem da corrupção ser movimentada. O "não votar", em caso de discordância com todos os candidatos, deve ser respeitado em qualquer nação em que o sistema permita que apenas os politicamente conscientes participem da eleição, como nos Estados Unidos.

A realidade do Brasil é outra, os políticos utilizam o povo mais humilde como massa de manobra, ganhando votos com promessas de dentaduras pra vovó, melhoria na praça da frente da casa do seu Zé da padaria, ou, no caso de Crivella, lugar de destaque no céu dos fiéis. O "não voto" nesse sistema, quando há uma opção perigosa com potencial de vitória, exatamente pelo jogo sujo feito pelo candidato, não é estratégico. Xadrez não é o forte do brasileiro, já sabemos, aqui já é difícil encontrar adultos que saibam interpretar corretamente um texto.

O "não voto" facilita, por omissão, a vitória do caráter torto, já que não invalida uma eleição. Se os que votam nulo, ou não votam, entendessem que em nosso sistema o posicionamento estratégico é essencial, o panorama político não estaria tão desastroso. Como eu sempre digo, a raiz de todos os nossos problemas está na educação.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Cinzas e Diamantes", de Andrzej Wajda


Cinzas e Diamantes (Popiól i Diament - 1958)
O falecimento do diretor no início do mês me fez rever boa parte de sua filmografia, inclusive o meu favorito: “Cinzas e Diamantes”, desfecho de sua trilogia da guerra, ambientado no crepúsculo da Segunda Guerra Mundial, em um único dia intenso na vida do jovem Macieck, vivido por Zbigniew Cybulski, que veste jeans e tem a aparência rebelde de um James Dean, mas sua forma de expressão é uma metralhadora, o seu alvo: um chefe comunista. Na sequência inicial o vemos com seus comparsas da resistência compartilhando a tranquilidade ilusória que antecede a tempestade, aguardando em uma capela a passagem da vítima. A figura de uma menina, a pureza de uma criança que se aproxima do local, acaba se revelando traiçoeira, uma emboscada. Não há elemento puro na sociedade. Em frente às imagens religiosas, o batismo de fogo, morte e frustração, o alvo foge.

Impetuoso, o rapaz luta pra manter viva sua ideologia, mas o choque de realidade o conduz inexoravelmente à reflexão sobre a incoerência do radicalismo daqueles que são regidos por palavras de ordem, aqueles que lucram enquanto posicionam seus peões no tabuleiro. Ao se hospedar no hotel onde está o seu alvo, para tentar finalizar sua missão, uma despretensiosa passada no bar do estabelecimento se torna um convite irrecusável para uma segunda chance na vida. Macieck se encanta com a bela atendente, vivida por Ewa Krzyzewska, mulher misteriosa que parece viver à espreita de seus próprios sentimentos, engaiolada na desesperança. Ela resiste bravamente aos galanteios desajeitados dele, mas a carência emocional fala mais alto e os dois se encontram no quarto escuro, o rapaz descobre que o desordenado balé dos corpos é mais interessante que acatar a rigidez nas ordens de seus superiores, o medo de perder aquela cumplicidade terna passa a dominar sua mente, a possibilidade da morte no cumprimento do dever deixa de ser algo aceitável, não há causa que seja mais sincera que o amor.

A mensagem que Wajda transmite é essencialmente humanista, a eficiência na execução é o que me faz rever a obra. As ideologias políticas desvalorizam as perdas humanas como bucha de canhão, estatísticas necessárias na obtenção do resultado desejado, mas aquele que perde a empatia, aquele que não se comove com a morte de um simples indivíduo, aquele que não entende o peso existencial de se apertar o gatilho, não está preparado para a guerra. Nas cinzas da destruição, os diamantes brutos são todos os que rejeitam a indiferença, lapidados pela experiência de se manterem eretos quando o mundo parece ordenar que se curvem. Esses valorosos indivíduos, os que resistem à selvageria, forjam o terreno por onde a esperança orgulhosamente caminha. Já os corrompidos, como loucos em um hospício, na famosa sequência ao som da Polonaise de Chopin, dançam inebriados na celebração da hipocrisia, o nascimento de um novo regime que irá explorar novos peões. O herói redimido morre de pé, tendo a consciência de que, ainda que por um único e intenso dia, ele viveu. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sábio Silêncio - Parte 13

Link para os textos anteriores do especial:


Diário
13 de Janeiro – 1920 – 21:30

A festa parecia não ter fim, assim como o estoque de bebida. O alarido aumentava, a fumaça dos cigarros chegava a dificultar a visão. Tentei atravessar o salão para reencontrar Stan Laurel, mas tropecei nos pés de um rapaz que aparentemente tirava um cochilo no sofá. Inicialmente eu me desculpei pelo descuido, ele se levantou com extrema mesura, tentando me tranquilizar de todas as formas, dizendo que esse meu ato havia sido a primeira “cena de ação” da noite. Eu demorei alguns segundos para reconhecer seu rosto, relaxado e sorridente, mas estava diante de Buster Keaton. Minha mente de jornalista compreendia que, naquele momento no tempo, ele frequentemente sorria nas produções que fazia com o amigo Roscoe “Fatty” Arbuckle, mas meus olhos de cinéfilo custavam a crer que o “homem que não sorria” estava quase chorando de rir com a própria constatação espirituosa. Aquele Keaton ainda era um jovem pouco conhecido na indústria, que ainda não havia protagonizado um filme, o que viria a acontecer com o curta “The Saphead”, que estrearia no final daquele ano. Aproveitei pra convidar o novo amigo a tomar um uísque na sala ao lado, que parecia mais silenciosa. No caminho, liguei o gravador oculto.

- Você não imagina o tédio que sinto nessas festas, todos esses rostos rechonchudos se gabando de suas riquezas, de como seus cavalos correm mais rápido, de como seus negócios são rentáveis, insuportável. – Keaton parecia estar sendo sincero.

- Mas o que está fazendo aqui? É sádico? – Ele gargalhou com minha pergunta, tomou quase todo o uísque do copo e, apoiando a mão em meu ombro, disse:

- Simples, o dono da mansão, o estimado Sr. Douglas Fairbanks está me ajudando a realizar o sonho da minha vida. Mas eu quase o odeio pelo que está me fazendo passar aqui (risos).

- Fale mais desse sonho.

- Claro, ele acredita que eu tenho potencial para carregar sozinho um filme, um longa-metragem! Vai se chamar “The Saphead”, refilmagem cômica de “The Lamb”, que o Dougie fez uns cinco anos atrás. Ele está movimentando os pauzinhos nos bastidores para que nada fique em meu caminho. O mínimo que eu devia fazer era aguentar essa noite, concorda?

Keaton deixava transparecer uma espécie de distúrbio social, mais que timidez, ele realmente não gostava de festas, a multidão o apavorava. O seu projeto mais recente, que havia estreado dias antes, “The Garage”, era mais uma parceria com Arbuckle. A crítica adorou, mas dava pra sentir no rapaz a insatisfação com aquela zona de conforto, ele era um peixe grande em um aquário pequeno. Imaginando que ele não iria ficar feliz com perguntas sobre esse filme, tentei algo em longo prazo.

- Fora “The Saphead”, o que você está planejando realizar para os próximos meses?

- Estou nas nuvens, vou escrever e dirigir “One Week”, total controle criativo, graças à amizade de Dougie com o produtor Joseph Schenck. Também vou filmar “Convict 13” e estou escrevendo algo sobre um casal que vive em casas separadas, a família da namorada não apoia a relação, clássico viés “Romeu e Julieta”, só que medíocre (risos). E você, o que faz nessa casa de loucos?

A pergunta inesperada me fez tomar um gole longo do uísque, tentando pensar em algo convincente e rápido.

- Na realidade, entrei para reclamar do barulho alto e acabei ficando pela bebida.

Keaton gargalhou mais uma vez, terminou sua bebida e apertou minha mão. Ele parecia respeitar todos aqueles que não se levavam muito a sério, o meu senso de humor o agradou em cheio.

- Rapaz, eu digo que você foi a melhor coisa dessa noite terrível. Acho que já marquei presença por tempo suficiente, espero que meus anfitriões não se chateiem, mas vou pra casa. Espero que você sobreviva a essa loucura. – Keaton deu dois passos longos e já estava saindo da sala, quando eu o interrompi.

- Espere um pouco, você nem sabe meu nome, não me apresentei.

Eu realmente tentei espremer aquela situação em busca de mais alguma resposta, essa constatação tola foi o que pude pensar na rapidez do momento. E Keaton respondeu à altura, com graça, mas sem qualquer insinuação de sorriso no rosto:

- Eu prefiro não saber, perde todo o encanto.

E eu perdi a chance única de entrevistar Buster Keaton. Mas pelo pouco contato que tive, percebi que seu temperamento nunca permitiria um papo longo e revelador sobre sua intimidade, sobre seu trabalho. Desliguei o gravador, terminei meu uísque e segui para o salão principal...

Continua em "A Arte do Guerreiro Lúcido", meu segundo livro, que será lançado pela editora Jaguatirica. 

Rebobinando o VHS - "O Sistema"

Link para os textos anteriores do especial:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/rebobinando-o-vhs.html


Esse VHS resistiu firme à passagem do tempo, um filme que merece ser resgatado em DVD, eficiente enquanto suspense e, infelizmente, absurdamente atual. 


O Sistema (The Glass House - 1972)
O telefilme baseado em história de Truman Capote, protagonizado por Alan Alda e Vic Morrow, foi filmado em uma penitenciária com presos reais, elemento que garantiu o tom documental da crítica ao corrupto sistema penal, mas vale ressaltar na equação de sucesso a competência do diretor Tom Gries, que recebeu um prêmio Emmy pelo trabalho.

O filme chegou a ser exibido algumas vezes nas madrugadas televisivas do início da década de noventa, mas nunca foi lançado em DVD, o que considero uma injustiça, já que se trata de um dos melhores no tema, apesar de ter problemas técnicos, como a aparição de microfones em algumas sequências. Alda vive Jonathan, um professor universitário condenado por homicídio ao se vingar do homem que feriu sua esposa em um atropelamento. Slocum, vivido por Morrow, um covarde assassino que age como juiz e executor na cadeia, promove uma violenta pressão psicológica em um jovem que recusou seu interesse sexual, o que conduzirá o rapaz a cometer o suicídio. O sentimento de culpa do professor, por não ter conseguido salvar o colega, acaba se somando à angústia profissional de um idealista guarda novato, um caráter inabalável, ao perceber que o diretor não está interessado em modificar o estado caótico do local.

A mensagem é clara e eficiente, não é possível manter a humanidade, ou objetivar alguma espécie de reinserção na sociedade, em um sistema corrupto em que a sobrevivência é ditada pela capacidade individual de se adequar à bestialidade alimentada pelas vozes de comando. A prisão de segurança máxima, na realidade, acaba se tornando uma escola superior onde criminosos perigosos aprimoram sua crueldade e pequenos marginais perdem o pouco senso de empatia que os humaniza. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Guilty Pleasures - "Rambo 3", de Peter MacDonald

Link para os textos anteriores do especial:


Rambo 3 (1988)
A minha relação com esse filme é anterior ao conhecimento que tive sobre os dois primeiros, quando eu já visitava semanalmente a videolocadora, minha primeira lembrança de “Rambo 3” é ambientada na minha primeira infância, Classe de Alfabetização no Jardim Escola Menino Jesus de Praga, que ficava na Tijuca, época em que eu apenas brincava de massinha colorida na sala de aula e torcia pro meu pai não ter esquecido de gravar a transmissão diária de Jaspion na TV Manchete. A sala de entrada da escola, onde nós deixávamos nossas pequenas mochilas e lancheiras penduradas em ganchos na parede, ao lado da escada que nos conduzia às salas, era o espaço em que brincávamos na hora do recreio, tinha uma vitrola e vários discos, quase todos direcionados para o público infantil. Eu disse: quase todos. Até hoje não entendo o motivo, mas entre os discos da Xuxa e do Trem da Alegria havia a trilha sonora de “Rambo 3”, com o Stallone e um helicóptero na capa, algo bem chamativo para alguém que já estava começando a se interessar por filmes. Gosto de pensar que é minha contraparte do futuro que voltou no tempo e deixou esse easter egg lá. O disco nunca foi escutado, algo compreensível, mas que aguçava ainda mais a minha curiosidade. Anos depois, como presente de aniversário, meu tio paterno Jorge Ricardo, também um apaixonado por cinema, acabou me dando esse LP, que guardo com carinho até hoje. O fato é que, por pior que seja o filme, não há como negar seus vários problemas, eu tenho uma forte conexão emocional com ele.

Apesar de todos os furos de roteiro, a produção tem méritos na parte visual, até pela ambição corajosa de emular “Lawrence da Arábia”. Michael Stevenson, assistente de direção, trabalhou no clássico de David Lean. A direção inicialmente seria de Russell Mulcahy, que havia feito “Highlander – O Guerreiro Imortal”, mas após duas semanas de muitos conflitos com o protagonista, ele foi substituído por Peter MacDonald, que tinha experiência como diretor de segunda unidade de filmes como “Excalibur” e “Star Wars - O Império Contra-Ataca”, e estava escalado na produção para exercer a mesma função, mas foi catapultado para a ponte de comando. Ele não levava a sério o personagem, alguém capaz de derrubar um helicóptero com um arco e flecha, então tentou injetar humor em algumas cenas, pra desgosto de Stallone. Foi dele a ideia de inserir uma sequência que mostrasse Rambo, o guerrilheiro monástico, tentando se recuperar de algum dano, já que o herói havia metralhado dois estádios de futebol lotados sem levar um arranhão, o que o diretor considerava mais tolo do que a violência das revistas em quadrinhos, uma sugestão que conduziu à clássica cena em que ele cauteriza com pólvora um ferimento na barriga. Mas realismo só foi o foco no primeiro filme, o segundo já dava uma pirueta no politicamente correto, com vietnamitas explodindo a torto e a direito, o terceiro apenas se manteve fiel à lógica que rege a possibilidade de um halterofilista sozinho enfrentar vários exércitos e não perder sequer uma perna em combate. Richard Crenna, o abnegado coronel Trautman, que se manteve lúcido e sensato até aquele momento, decide partir pra pancadaria, acaba virando refém dos russos, o gatilho que faz o herói abandonar seu repouso na Tailândia e entrar de cabeça no conflito dos rebeldes afegãos. 

Gosto bastante da sequência em que Stallone, pela primeira vez, entende o peso emocional da guerra desigual contra aquele povo, o silêncio dominando a cena. E minha contraparte infantil vibrava quando a cavalaria afegã chegava para ajudar Rambo e Trautman no combate final. Quando Rambo, emocionado com o retorno dos amigos, recarrega sua metralhadora e salta da trincheira improvisada, com sangue nos olhos, na frente de um tanque e um helicóptero, aquele menino de oito anos que usou bandana vermelha e camuflagem dos “Comandos em Ação” em sua festinha de aniversário puxou grito de guerra e metralhou junto. Essa magia lúdica morreu com a minha geração, as pobres crianças de hoje são presenteadas com “Peppa Pig” e trenzinhos falantes. 

domingo, 23 de outubro de 2016

Nos Embalos do Rei do Rock - "Garotas, Garotas e Mais Garotas"

Links para os textos anteriores do especial:
Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução:
Ama-me Com Ternura:
A Mulher Que Eu Amo:
O Prisioneiro do Rock:
Balada Sangrenta:
Saudades de Um Pracinha:
Estrela de Fogo:
Coração Rebelde:
Feitiço Havaiano:
Em Cada Sonho Um Amor:
Talhado Para Campeão:


Esse filme marca o início de um irregular período, de 1962 a 1967, em que Elvis precisou abaixar a cabeça para os argumentos de seu empresário, dedicando praticamente todo o seu tempo aos estúdios de gravação nada acolhedores de Hollywood, gravando faixas ruins para as trilhas dos filmes, uma realidade bastante diferente daquela que vivia em suas sessões musicais em Nashville.


Garotas, Garotas e Mais Garotas (Girls! Girls! Girls! - 1962)
Sonhando em ter seu próprio barco algum dia, o pescador Ross Carpenter (Elvis) trabalha também como cantor de um hotel para ganhar dinheiro. No palco ele atrai a atenção de todos e os olhares de mais de uma garota. Dividido entre a festiva atração principal da boate (Stella Stevens) e a charmosa garota da alta sociedade que posa de moça trabalhadora (Laurel Goodwin), Ross tem que decidir qual será aquela que vai fazer seu coração cantar.

A intenção consciente do produtor Hal Wallis era retornar para a fórmula dos sucessos que o cantor teve na Paramount, algo que o título nada sutil já escancarava, então decidiu que a ambientação seria novamente o Havaí, a trama novamente seria criada por Allan Weiss, que havia garantido o sucesso de “Feitiço Havaiano”, trabalhando o roteiro com Edward Anhalt, responsável por “Os Deuses Vencidos” e pelo noir de Elia Kazan: “Pânico nas Ruas”, e que depois faria os prestigiados “Becket, o Favorito do Rei” e “Mais Forte Que a Vingança”. A direção ficou a cargo do veterano Norman Taurog, com quem Elvis havia selado boa amizade em dois trabalhos anteriores (“Saudades de Um Pracinha” e “Feitiço Havaiano”), um profissional capaz de equilibrar o divertimento popular com o necessário refinamento técnico dos grandes musicais. E, vendo por esse lado, o resultado é muito satisfatório, ainda que represente uma zona de conforto para a ambição artística do protagonista. Poucos mencionam, mas “Garotas, Garotas e Mais Garotas” foi indicado para o Globo de Ouro, como “Melhor Filme – Musical”, competindo com “A Mais Querida do Mundo”, “Em Busca de Um Sonho”, “O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm” e o vencedor: “Vendedor de Ilusões”, que, vale salientar, envelheceu muito mal, enquanto a diversão despretensiosa comandada por Taurog segue encantando fãs e espectadores casuais.

O carisma do músico, ainda motivado, continuava imbatível. Na sequência do bar, quando ele canta “Return to Sender”, composta por Winfield Scott e Otis Blackwell, a melhor música do filme, a presença no set do amigo cantor Jackie Wilson, conhecido à época como o “Elvis Negro”, que o rapaz admirava, injetou ânimo extra à performance, com a câmera captando Elvis no palco imitando a dança do colega e, com frequência, buscando sorridente a reação entusiasmada de Jackie na plateia. Quando Wilson teve um derrame em 1975, no auge da carreira, Elvis, até o fim da vida, anonimamente cobriu todas as despesas médicas e garantiu o melhor tratamento possível. A bela Stella Stevens, que no ano seguinte roubaria o coração do personagem de Jerry Lewis em “O Professor Aloprado”, faz o par romântico, mas a relação dos dois nas filmagens não foi muito amistosa, com a atriz desfilando arrogância com toda a equipe logo nos primeiros dias, o que fez com que seu papel fosse consideravelmente diminuído. Mais sorte teve a doce Laurel Goodwin em seu primeiro papel no cinema, já que conquistou a amizade de Elvis e, anos depois, fez parte do episódio piloto de “Jornada nas Estrelas”. Em uma entrevista posterior ao falecimento do cantor, a atriz relembrou os primeiros dias no set: “Elvis foi extremamente gentil. Não tivemos um romance, ele era mais como um irmão zeloso. Ele chegou a me defender de um ex-namorado agressivo nos bastidores. Aprendi com ele a não levar muito a sério o conceito da fama. Ele não agia como a grande estrela do filme, ele era informal e, por algumas vezes, ele chamou a responsabilidade para si nos problemas, ao invés de deixar a culpa cair nos ombros de algum técnico da equipe”.

O repertório musical, com exceção da já citada “Return to Sender”, variava do medíocre ao suportável. A faixa-título é uma tremenda bobagem, das piores compostas por Leiber/Stoller, salva apenas pelo excelente solo de sax do mestre Boots Randolph. “I Don’t Wanna be Tied”, “We’re Coming in Loaded” e a balada “Because of Love” são interessantes e inofensivas, mas atrocidades como “Song of the Shrimp” (canção do camarão), “Thanks to the Rolling Sea”, “We’ll be Together”, “Earth Boy”, “A Boy Like Me, a Girl Like You” e o tango “The Walls Have Ears” funcionam apenas como simpático acompanhamento para as suas respectivas cenas, o tipo de material que o cantor jamais cogitaria gravar em estúdio para seus discos. A demanda de canções que inicialmente era razoável, progressivamente foi se tornando absurda. O cantor já não podia se dar ao luxo de selecionar algumas das muitas composições que eram produzidas e pensadas para uma única cena no roteiro, decidindo no ensaio com a banda qual seria a melhor, o pouco tempo entre um projeto e outro, além da compreensível crescente falta de criatividade da equipe responsável, obrigavam que o artista aceitasse defender as fitas demo que chegavam, sempre com muita dignidade e profissionalismo, eventualmente tirando leite de pedra.

Pela primeira vez o elenco não tinha qualquer nome mais experiente, estratégia que era usada como forma de atrair todo tipo de público, inclusive aqueles que desprezavam a música de Elvis. As suas produções agora seriam direcionadas prioritariamente para os fãs, com eventuais veteranos respeitados buscando a parceria objetivando o lucro certo nas bilheterias. Com os pés fincados na onda do Twist, "Garotas, Garotas e Mais Garotas" é divertimento garantido. 

A Seguir: "Loiras, Morenas e Ruivas" (It Happened At The World's Fair)

sábado, 22 de outubro de 2016

"Viagem à Itália", de Roberto Rossellini


Viagem à Itália (Viaggio in Italia - 1954)
Dentre os grandes cineastas que são usualmente citados quase que como unanimidade em importância na história do cinema, eu confesso que Roberto Rossellini não é dos meus favoritos, apesar de obviamente reconhecer seu valor na escola do neo-realismo italiano, não me sinto tocado por grande parte de seus trabalhos, para além da apreciação acadêmica. As três exceções são “Alemanha, Ano Zero”, “Roma, Cidade Aberta” e “Viagem à Itália”, pérolas que revejo com frequência, especialmente o último. 

O casal de ingleses, Ingrid Bergman e George Sanders, viaja por uma Itália perdida no tempo, com suas características mais exóticas potencializadas para agradar turistas, uma artificial fachada, assim como a relação deles, frágil aparência que rui ao primeiro sinal de que estão sozinhos em um ambiente. O objetivo da venda da mansão que ganharam como herança de um tio segue numa camada inferior, mais como alegoria para o interesse nacional em esquecer o passado e seguir em frente, enquanto testemunhamos duas pessoas que já se amaram intensamente colidirem nos escombros de suas próprias escolhas. Rossellini se desprende do modelo clássico de progressão dramática, o estilo fala mais alto que o conteúdo, experimentando a antinarrativa que seria abraçada por Antonioni e pelos franceses na década de sessenta. O homem está interessado em testar seu charme em novas conquistas amorosas, ainda que pueris, mas a mulher parece dominada por um desejo arqueológico, visita museus, templos e o Vesúvio. Ele, metaforicamente, está querendo forjar uma nova identidade, uma nova imagem pessoal, enquanto ela claramente tenta investigar em seu passado os erros que a colocaram nessa realidade conjugal desastrosa. A aparente simplicidade da trama pode fazer com que o espectador não dedique atenção a vários detalhes preciosos. Ela encontra em uma escavação em Pompéia os corpos calcinados de um casal que morreu abraçado há dois mil anos, um casal que poderia ser eles, pessoas que poderiam estar sofrendo com os mesmos questionamentos, mas que as cinzas do vulcão eternizaram em um momento de carinho, o afeto que nasce do desespero ao encarar a morte certa. Ela se vê como uma estátua, parecida com aquelas dos imperadores romanos no museu que visitou horas antes, uma figura que está fadada a desaparecer no tempo e espaço, esbarrando frequentemente com grávidas e carrinhos de bebê, a ideia da continuidade física que não a satisfaz. 

Toda a angústia existencial, as dúvidas, as brigas, a preocupação em ter razão, tudo que soa tão urgente no momento irá se tornar irrelevante, somos poeira de estrelas, ossos em uma vala, cinzas espalhadas ao vento, corpos observados de perto por um Vesúvio implacável, somos viajantes em uma estrada onde cada bifurcação oferece possibilidades enigmáticas, aventura e solidão, mas temos estoque muito limitado de combustível. O belo desfecho ambientado na procissão religiosa simboliza a resolução encontrada pelo casal, o abraço desesperado de afogados. E há ternura, apesar de tudo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

TOP - 2010


1 - A Fita Branca (Das Weiße Band - Eine Deutsche Kindergeschichte), de Michael Haneke
“... Haneke vai fundo em sua tese sobre a raiz do mal estar no próprio ser humano, sem distinção alguma, mostrando que a única coisa que muda é o gatilho, a motivação, mas a fragilidade do caráter acolhe graciosamente a corrupção dos valores, o que mantém o homem íntegro é sua capacidade de administrar seus impulsos, canalizar essa força nas situações certas. A fita branca da pureza esconde a hipocrisia mais suja, a torpe sociedade que parece se alimentar de monstros, o ovo da serpente. Mais do que uma alegoria à gênese do nazismo, pensamento reducionista, o roteiro provoca o confronto do espectador com o reflexo do espelho, apontando o dedo para as raízes do totalitarismo, o moralismo mentiroso das crenças religiosas, os rituais seguidos sem questionamento, a inevitável desumanização do homem ao abraçar sorridente a manipulação social...”


2 - Ilha do Medo (Shutter Island), de Martin Scorsese
“... A grande questão do filme não é o truque, a surpresa do final, mas a forma elegante como Scorsese elabora cada ponto do enigma, a ilha como metáfora para a mente destroçada do protagonista, com alas da memória que, por defesa instintiva, ele é incapaz de acessar, uma fantasia noir como projeção de uma realidade apavorante. E o roteiro trabalha esse tema com a mesma inconsequência raivosa de Samuel Fuller em “Paixões Que Alucinam”. A trilha sonora grandiosa no início evidencia o elemento da teatralidade, algo que ganha ponto em revisão...”


3 - Mother - A Busca Pela Verdade (Madeo), de Joon-Ho Bong
“... A sequência inicial mostra uma senhora dançando de maneira quase perturbadora, nada parece fazer sentido, o leitmotiv da irracionalidade de uma mãe para proteger sua cria é estabelecido sem qualquer diálogo expositivo. O filho tem problemas mentais, novamente a razão sendo subjugada pelo instinto, uma condição que potencializou nele a dependência em todos os sentidos, encontrando resposta imediata na carência da solitária mulher. Ao ser acusado de um estupro seguido de assassinato, o rapaz vai preso e sua mãe inicia uma batalha para provar sua inocência. O roteiro inverte expectativas, subverte a estrutura do suspense clássico com uma segurança rara...”


4 - A Origem (Inception), de Christopher Nolan
“... O conceito, por si só, já merece crédito, mas o esforço hercúleo de Nolan para manter o refinamento da trama equilibrado com as necessidades mercadológicas de um produto mainstream, sem nesse processo subestimar o espectador, evidencia a competência do realizador. Ao se desviar de respostas fáceis, atitude claramente simbolizada na impactante cena final, o roteiro, que homenageia os grandes “filmes de assalto”, explora as infindáveis possibilidades do inconsciente humano filosófica e visualmente. A execução do conceito, apesar do esperneio dos pseudointelectuais, pode ser considerada uma enriquecedora aula para todos, especialmente os cineastas brasileiros, de como produzir entretenimento inteligente e altamente eficiente, essencialmente industrial, mas com pegada experimental...”


5 - Toy Story 3, de Lee Unkrich
“... A animação utiliza os personagens de forma mais inteligente que suas versões originais, garantindo tremendo impacto emocional, um desfecho que sinaliza a beleza de um roteiro que acompanhou a maturidade do público e recompensou a atenção dos pais. A trama se desenvolve pela ótica nostálgica da infância, mas o foco está no sentimento da solidão, do abandono, tendo o necessário resgate da inocência como fio condutor da aventura escapista dos bonecos. A Pixar consegue um feito raríssimo, uma trilogia verdadeiramente impecável...”


6 - O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos), de Juan José Campanella
“... Campanella consegue mais uma vez entregar uma pérola que, provavelmente, será copiada pelos realizadores norte-americanos. Um filme policial sem ação, de baixo orçamento, variadas camadas de interpretação, uma atuação impecável de Ricardo Darín e um desfecho surpreendente. Revelar mais seria prejudicar a experiência do espectador...”


7 - Enterrado Vivo (Buried), de Rodrigo Cortés
“... Só o fato de conseguir criar noventa minutos de tensão ininterrupta com apenas um ator dentro de um caixão, um ator mediano, vale salientar, já seria mérito suficiente para esse filme de estreia do diretor Cortés constar nas listas de melhores do ano. Mas ele ainda tem algo interessante a dizer sobre a ocupação norte-americana no Iraque...”


8 - O Profeta (Un Prophète), de Jacques Audiard
 “... O roteiro trabalha muito bem o xenofobismo entre árabes e corsos, sendo a prisão, com seu sistema corrupto e truculento, um microcosmo para os problemas políticos da França. Se a desnecessária subtrama sobrenatural enfraquece o resultado, o tratamento dado aos personagens compensa qualquer problema...”


9 - O Concerto (Le Concert), de Radu Mihaileanu
"... O diretor Radu Mihaileanu cria uma comédia farsesca que trata de um tema muito sério. Ele aborda com leveza e de forma mais popular e eficiente, algo que Fellini procurou expressar em seu “Ensaio de Orquestra”, uma ode à anarquia. O protagonista, vivido por Aleksey Guskov, que passa seus dias como faxineiro limpando o ambiente do teatro, que outrora reverberava ao apaixonante som de sua arte, vive do desejo incontido de voltar a reger sua orquestra, numa incessante busca pela harmonia perfeita, interrompida bruscamente quando foi vítima de seu próprio íntegro caráter. Por outro lado, o roteiro nos apresenta uma jovem que representa simbolicamente um futuro ideológico mais esperançoso (antitotalitarista) para o país, a violinista Anne-Marie Jacquet, vivida pela bela Mélanie Laurent..."


10 - Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha
“... O primeiro filme explodia na cara do espectador como espingarda, o segundo é como aquele disparo de projétil dundum que penetra no corpo e causa maior estrago. A reflexão crítica que o roteiro propõe é o elemento que faz dele um produto superior, o inimigo deixa de ser o criminoso violento, mas, sim, o sistema podre que rege a sociedade em que ele está inserido...”

terça-feira, 18 de outubro de 2016

"Senta a Pua!", de Erik de Castro


Senta a Pua! (1999)
Nesse final de semana perdi um bom amigo, o capitão Osias Machado da Silva, um herói nacional, veterano da Segunda Guerra Mundial, fez parte do lendário Primeiro Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, que tinha o “Senta a Pua!” como simbólico grito de guerra. Uma amizade de onze anos de muitas histórias sobre sua experiência militar e anedotas, já que ele era um senhor que tinha uma piada reservada na manga para qualquer situação. Grande orador, ele aproveitava todos os eventos festivos familiares para fazer um discurso, sempre muito enriquecedor. Ele tinha um orgulho tremendo de todas as condecorações que recebeu ao longo da vida, como Mérito Santos Dumont, o Mérito Aeronáutico e a Presidential Unit Citation dos EUA, entre muitas outras que estão emolduradas nas paredes da sala de seu apartamento, Osias era um tipo de pessoa em extinção, um indivíduo que se importava em deixar um legado que honrasse os valores que ele defendia, mérito importante em um período tão dominado pela absurda inversão de valores.

Um dos últimos registros fotográficos com o querido amigo Osias, na festa de seu aniversário.
Nas nossas primeiras conversas, pra quebrar o gelo, eu procurava questionar sobre a guerra pela vertente do cinema, falávamos de “Patton”, “Casablanca” e “O Mais Longo dos Dias”, mas o filme favorito dele era “... E o Vento Levou”. Gentil, ele sempre torcia pela minha jornada na área artística, fez questão de me dizer, com toda cerimônia, palavras lindas após ler meu livro. Ainda triste por saber que não escutarei mais suas histórias e piadas, mas feliz com as belíssimas homenagens que foram prestadas em seu funeral, acho importante realizar essa singela homenagem abordando brevemente o melhor documentário sobre a participação brasileira no conflito contra o nazifascismo na década de quarenta, dirigido por Erik de Castro, com a participação do meu amigo em vários momentos. Esse filme, junto com o livro homônimo escrito pelo brigadeiro Rui Moreira Lima, são registros essenciais que deviam fazer parte do currículo estudantil de todos os jovens brasileiros. 

A estrutura didática e estilisticamente pouco ousada do documentário, com narração de Silvio Vasconcellos, facilita a compreensão da magnitude do evento para todo tipo de público, mas o mérito da obra está no foco que inteligentemente se mantém no material humano, relatos emocionantes dos sobreviventes abordando situações que facilmente renderiam filmes específicos seguindo cada depoimento, já que transbordam perigo, altruísmo, sacrifício e redenção, utilizando até mesmo vídeos das câmeras dos próprios aviões, além de ilustrações e fotos garimpadas do Arquivo Nacional de Washington. Se a abordagem nada crítica do diretor reduz o projeto a uma homenagem sem espaço para qualquer questionamento, o extremo oposto de “Rádio Auriverde”, de Sylvio Back, o espectador mais dedicado pode imaginar que a verdade reside em algum lugar entre a desconstrução debochada de Back e o heroísmo clássico celebrado por Castro. A preservação histórica no Brasil, terra onde o povo despreza a memória, não poderia ser pior, então é dever cívico nadar contra essa corrente de mediocridade. Estudar, questionar, mas acima de tudo, respeitar os esforços desses combatentes, para que as próximas gerações de brasileiros não precisem depender dos arquivos estrangeiros para entenderem a história da própria nação. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Destaques do "Festival do Rio 2016"


Sieranevada
A longa duração, quase três horas, pode afastar o público em um festival com tantas opções, mas quem der uma chance a “Sieranevada” será recompensado pelo diretor romeno com uma aula de narrativa minimalista, ambientada quase que toda dentro de um apartamento, uma das melhores experiências que tive até o momento, aquele tipo de roteiro que fica martelando em sua mente horas depois da sessão. Como crítico e cineasta, sempre valorizei o filme de câmara, então eu aplaudo o resultado obtido por Cristi Puiu, que já havia me encantado em 2005 com o brilhante “A Morte do Sr. Lazarescu”. 

O senso de humor não convencional é pacientemente trabalhado, as sequências se desenvolvem praticamente em tempo real, o que permite um senso de intimidade imediato com os personagens. O título propositalmente nonsense potencializa o absurdo da vida, a falta de sentido. A trama inicia mostrando a reunião de familiares no apartamento em honra à memória de Emil, marido da sexagenária dona da casa, falecido quarenta dias antes. Esses estranhos para o espectador, que ocupa um lugar de destaque voyeur, discutem assuntos genéricos, são levados pelo álcool a revelar verdades constrangedoras, demonstram insegurança, constrangimento e arrogância, desfilam argumentos revoltantes e banalmente inofensivos sobre temas polêmicos como o ataque ao Charlie Hebdo, ou teorias de conspiração sobre o ataque ao World Trade Center, mas sempre com credibilidade, o elenco é afinado. Conhecemos esses personagens na medida em que analisamos as reações deles nas mais tolas discussões, variadas situações aparentemente menores que estabelecem metáforas preciosas, como a do alimento que nunca é servido. 

O trabalho de câmera parece querer induzir um estado de anestesia no espectador, sem dinamismo, o que pode ser terrível para os mais ansiosos, Barbu Balasoiu reflete nas escolhas o desejo contemplativo do diretor. A mensagem mais forte é a de que, por mais desejo que a pessoa tenha em se destacar, por mais radicalmente oposta ideologicamente aos seus amigos e familiares, há nela um interesse maior em ser identificada como parte do coletivo, uma necessidade vital que a obriga a rejeitar certas verdades absolutas e defender discursos vazios como forma de funcionar em sociedade. O que nos define é a capacidade para o “jogo de cintura”. 

Hooligan Sparrow
O melhor documentário que vi nesse festival, um primor em sua concepção e execução, segue a luta da corajosa chinesa Ye Haiyan, conhecida como Hooligan Sparrow, ativista contra a exploração sexual da mulher, enfrentando a censura do governo e a estupidez machista da sociedade. O registro, por vezes, precisa vencer obstáculos, com a diretora adotando qualquer meio possível para flagrar as situações, uma tática do jornalismo de guerrilha, o que injeta um nível maior de emoção à filmagem, resultando em momentos verdadeiramente perturbadores.

A diretora Nanfu Wang parte de um caso de pedofilia ocorrido em uma escola em 2013, para explorar a absurda impunidade garantida em grande parte pelo silêncio criminoso das forças policiais. É impressionante constatar como as autoridades tentam de tudo para impedir o trabalho daqueles que lutam para revelar ao mundo as atrocidades cometidas internamente. Como deter algo que parece estar enraizado na cultura do povo? Lá, a cultura do estupro não é frase de efeito usada como cortina de fumaça política, mas uma realidade intimidadora e deprimente. As inserções quase bucólicas mostrando um pouco mais da origem rural de Haiyan, ainda que quebrem consideravelmente o ritmo e revelem pouco sobre a ativista, funcionam como necessário respiro para o espectador. O desfecho ambientado em um museu é de uma tremenda beleza poética, representando a força daquela que resiste.

Um filme importante e que deveria ser abraçado pelo grande público, caso os documentários fossem respeitados e recebessem lançamentos dignos em nossas salas de cinema. 

Capitão Fantástico (Captain Fantastic)
Viggo Mortensen é um dos melhores atores de sua geração, “Capitão Fantástico” é mais uma pérola em sua filmografia, prejudicada apenas pela mão pesada do roteirista/diretor Matt Ross, um problema que poderia ser amenizado com uma edição mais severa, o que reforçaria o impacto de algumas reflexões propostas, já que o segundo ato arrastado quebra o bom clima que havia sido estabelecido. Viggo vive um pai que decidiu se isolar com seus seis filhos longe da sociedade, uma vida idílica na floresta, longe do consumismo e de dogmas religiosos e, por conseguinte, longe da cultura do medo e da culpa, campo fértil para que ele tente transmitir para eles os valores que ele considera mais importantes, na tentativa de formar seres humanos melhores e mais conscientes de suas responsabilidades. 

A trama pode parecer a de uma despretensiosa “Sessão da Tarde”, mas o roteiro entrega reviravoltas bastante criativas. Após um evento traumático, a família é forçada a deixar essa zona de conforto e enfrentar a realidade urbana, gatilho que desperta questões existenciais relevantes, especialmente na figura paterna, ainda que falte sutileza na abordagem dessas transformações pessoais. O protecionismo que conduziu um dos filhos à dedicação extrema nos estudos também o tornou socialmente inseguro, o espectador é levado até mesmo a se revoltar com algumas atitudes do pai, mas a interpretação primorosa de Mortensen enriquece as várias camadas de sua construção, salientando que a força motriz de suas ações é genuína e amorosa. Um bonito filme que merece atravessar a fronteira do festival e ser abraçado pelo grande público. 

O Túnel (Teo-neol)
Os melhores filmes de desastre são aqueles que se preocupam em estabelecer bem a empatia do espectador com as vítimas das tragédias, algo que poucas vezes acontece. “O Túnel”, do sul-coreano Kim Seong-hun, apesar de abusar da paciência do espectador com cerca de meia-hora de redundante gordura extra, o roteiro oferece uma situação realmente angustiante para o protagonista que se vê preso em seu carro após o colapso de um túnel. Os movimentos de câmera ajudam a transmitir o senso de claustrofobia, sem a necessidade de apelar exageradamente na redução cênica, mas o interesse do diretor está mais focado nas consequências externas do evento, como no brilhante “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder.  

É interessante a forma como a trama insere uma crítica poderosa ao tratamento da tragédia dado pela mídia e pelos políticos, a absurda ausência de humanidade que rege a espetacularização do sofrimento alheio, assim como a constatação de que o indivíduo se torna dispensável quando o que está em jogo é a imagem de um governo, além da criminosa irresponsabilidade dos executivos envolvidos diretamente no desastre. Vale destacar também a excelente atuação de Doona Bae, que vive a esposa da vítima, figura que ajuda a manter o tom de ameaça que a trama frequentemente arrisca perder ao apostar em alívios cômicos tolos.

A indústria norte-americana no gênero tem muito a aprender com o refinamento dessa obra.

Sob a Sombra (Under The Shadow)
Estreando em longas-metragens com essa pérola do terror, o roteirista/diretor iraniano Babak Anvari demonstra grande talento ao subverter as convenções do gênero, apostando na construção de clima e fazendo uso inteligente de referências. Enxerguei claramente “O Babadook” na linha temática de proteção materna, mas é “Repulsa ao Sexo”, de Polanski, que garante os melhores esforços criativos visuais, na utilização do cenário como alegoria para a perturbação psicológica da mãe que acredita que sua filha está sendo possuída por espíritos malignos.

O ambiente externo dos últimos momentos da guerra Irã-Iraque, no final da década de oitenta, providencia sensorialmente os estímulos para que os monstros humanos que explodem bombas do lado de fora da casa ajam em conluio inconsciente com as manifestações paranormais internas. Os vizinhos vão abandonando o local, a solidão inerente a qualquer conflito dessa magnitude, a constatação de que a morte pode chegar a qualquer momento, um sentimento que faz ruir o frágil emocional da criança, refletido nas metafóricas rachaduras das paredes e nos constantes lamentos que são escutados pela casa, como se a sociedade estivesse chorando seus mortos.

A mãe, altamente racional, inicialmente vê o medo da filha como uma tolice alimentada pela mitologia do Oriente Médio, a direção de arte trabalha algumas simbologias nesse sentido, mas o roteiro inteligentemente também está interessado em ser eficiente como horror, então a ideia do djinn ser a visão infantil inocente para os perigos reais da guerra se mantém em segundo plano, garantindo um terceiro ato verdadeiramente apavorante. Esse ano está sendo espetacular para o gênero, “Sob a Sombra” é impecável. 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"Labirinto - A Magia do Tempo", de Jim Henson


Labirinto - A Magia do Tempo (Labyrinth - 1986)
A origem do projeto é o encontro criativo do desenhista Brian Froud com o cineasta Jim Henson, tudo começou com a parte visual, o enredo foi sendo pensado ao longo do processo. Mas é um equívoco ressaltar apenas a eficiência da parte técnica, ou subestimar o filme como simples diversão para o público infantil, ele não teria sobrevivido tão bem ao teste do tempo caso não fosse enriquecido por um elemento mais nobre, um coração pulsante que se faz audível por sobre todos os artifícios visualmente encantadores, uma mensagem realmente poderosa e importante.

As referências a “O Mágico de Oz” e “Alice no País das Maravilhas” são óbvias, os personagens da aventura são variações de pessoas próximas da menina, como Jareth, o rei dos duendes vivido por David Bowie, que toma a forma de Jeremy, o namorado de sua mãe, uma relação nascida nos palcos de teatro. Ela se apaixonou e abandonou o marido e a filha para viver com o colega ator, mas é vista pela garota com ternura, como um símbolo de coragem, alguém que deixou o amor falar mais alto. A melodia de “As The World Falls Down”, que toca na caixinha de música dada por ela, emoldura posteriormente a sequência de dança da menina com o rei dos duendes no baile de máscaras, como que fechando o ciclo. Jareth aparece em sua fantasia como o sedutor terreno desconhecido dos relacionamentos adultos, com a aparência daquele que conquistou sua mãe e a estimulou a se libertar de uma relação desgastada. A arte corre nas veias da jovem Sarah, vivida pela bela Jennifer Connelly, que encena diariamente em um palco imaginário as linhas de seu livro favorito: “Labirinto”. E ela precisa encarar a realidade sem a dependência da bengala do escapismo, essa constatação se manifesta em seu subconsciente de diversas formas, como quando percebe que as fadas são como pestes que precisam ser dedetizadas, ou quando descobre que as portas somem e reaparecem em locais diferentes, em suma, que o mundo não é justo.

A grande missão da garota não é atravessar o labirinto do rei dos duendes, nem se redimir da irresponsabilidade de querer que seu irmão mais novo desapareça para se livrar da obrigação de cuidar dele, mas compreender que não precisa deixar de ser criança para crescer. É linda a forma como a mensagem é passada no roteiro, evocando o mundo mágico dos bonecos, com toques sutis daquele senso de perigo contido nos melhores contos de fada, que funciona como moldura para uma defesa apaixonada: que o adulto nunca perca contato com sua criança interna. A fantasia é o porto seguro para o adulto desesperançado, oprimido pelos obstáculos de um sistema onde a justiça não vale nada, os valores são confrontados diariamente e a opção que parece mais sedutora é aquela em que você precisa se corromper. Quando você se vê numa encruzilhada, o melhor caminho é buscar honrar a sua contraparte infantil, pura e gentil, intocada pelo cinismo e pelo ódio. A linda cena final, no quarto da menina, sempre me emociona, lágrimas que abraçam carinhosamente um sorriso. 

A jovem Sarah conquistou segurança e amadureceu em sua aventura, está preparada para novos desafios, mas ela sabe que sempre poderá acessar o mundo mágico de sua infância, a matéria dos sonhos, as lembranças doces que, ao final de tudo, caso você tenha se mantido íntegro, estarão presentes aplaudindo com entusiasmo o fechamento das cortinas no espetáculo de sua existência. 


* O livro está sendo lançado pela "Darkside Books", com o trabalho gráfico de qualidade impecável que já se tornou sinônimo da editora. A edição conta ainda com ilustrações de Brian Froud, artista e ilustrador de fantasia, e fascinantes cinquenta páginas do diário de Henson, detalhando a concepção inicial de suas ideias para o filme.

sábado, 8 de outubro de 2016

"Tootsie", de Sydney Pollack

Ninguém Acreditava em Dustin Hoffman:


Tootsie (1982)
A primeira coisa que lembro quando penso em “Tootsie” é a encantadora trilha sonora de Dave Grusin, especialmente a faixa “An Actor’s Life”, que transmite o dinamismo de um ator lutando pra sobreviver na selva urbana. Sem esquecer a balada “It Might Be You”, cantada por Stephen Bishop, que dá o tom do romance proibido entre Michael (Dustin Hoffman) e Julie (Jessica Lange), mas também emoldura o florescimento de uma relação mais proibida ainda, entre o pai de Julie e Tootsie. Acho válido começar o texto ressaltando a forma como esse elemento é trabalhado no roteiro, uma demonstração valorosa de sensibilidade e refinamento cômico.

Les, o pai viúvo vivido por Charles Durning, encontra na nova amiga da filha o companheirismo respeitoso que ele compreende que não seria uma agressão à imagem de sua esposa, o romance em seu estado mais puro, alguns diriam até antiquado. É muito diferente do desejo carnal que estimula o inseguro galã da telenovela (George Gaynes) a perseguir atrizes bem mais novas que ele. Michael reconhece essa nobreza de caráter no viúvo, quase que se sentindo orgulhoso de ter, como Tootsie, despertado esse carinho nele. O roteiro trata essa relação complicada com a tinta do humor, mas com a caligrafia de um poeta, delicadamente analisando cada linha. Há uma cena linda, após a revelação da identidade, quando Michael reencontra o viúvo em um bar, pela primeira vez sem o disfarce. Quase não há diálogo entre os dois, tudo se resume nos olhares. Qualquer comédia moderna forçaria a mão no aspecto bizarro do que ocorreu, mas a admiração mútua fala mais alto, Michael paga a rodada de bebida, Les sugere querer extravasar a raiva, mas, em questão de segundos, o seu olhar enternece, enxergamos a gratidão tomando o lugar do desconforto. Da mesma forma que Tootsie mudou a maneira como Michael enxergava a riqueza de nuances do feminino, e, por conseguinte, fez com que suas colegas de trabalho conquistassem mais segurança e amor próprio, ela também trouxe esperança romântica para Les. E o mais bonito nisso é constatar que Tootsie é apenas o inconsciente de Michael se projetando sobre seus medos, não é uma personagem criada por algum autor para que ele interpretasse.

Na cena da festa vemos a ambiguidade de sentimentos de Julie, que, em confissão íntima com a amiga, afirma preferir que os homens fossem diretos no flerte, mas ao receber uma dose de sinceridade de Michael, um estranho para ela até aquele momento, não pensa duas vezes antes de despejar agressivamente o líquido da taça em seu rosto. A cena é cômica, mas traz uma reflexão, o ser humano vive em constante conflito entre aquilo que deseja e os dogmas sociais que o culpam por aquele desejo. No intuito de se libertar dessa escravidão comportamental, Julie precisava se desapegar das ambições profissionais que a faziam manter uma relação doentia com o grosseiro e mulherengo diretor da telenovela. Ao final, a fala de Michael resume muito bem o sentido do amor: “A parte difícil já passou, nós já somos bons amigos”. É apenas isso que importa, o resto é fogo que pode se apagar a qualquer momento. E, como ele bem salienta, “nesse estágio da nossa relação, pode ser uma boa vantagem eu usar calças”. 

“Tootsie” não é apenas uma das melhores comédias da história do cinema, eu o considero um dos melhores roteiros já produzidos pela indústria, mérito de Larry Gelbart, Murray Schisgal e do próprio Dustin Hoffman. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"Hana-Bi: Fogos de Artifício", de Takeshi Kitano


Hana-Bi: Fogos de Artifício (Hana-bi - 1997)
A palavra japonesa Hanabi significa “fogos de artifício”, mas com a inserção do hífen, ela se divide em “flor” e “fogo”, uma riqueza de significados que se perde na tradução. O roteirista/diretor Takeshi Kitano é mais conhecido em sua nação como um comediante televisivo, talento que fica evidente na forma como ele insere o humor nas suas tramas. Ele vive Nishi, um policial que atravessa o pior momento de sua existência. A filha perdeu a batalha contra a leucemia, seu melhor amigo e parceiro profissional levou um tiro de um yakuza e ficou paralítico, outro policial morreu na sua frente em uma ação comandada por ele, e, para piorar, a sua amada esposa descobre que está com um câncer em fase terminal. 

Em seu rosto taciturno, a compreensão de que perdeu o controle, a desgraçada lucidez dos moribundos, a fortaleza sombria de quem reconhece a existência como uma superação constante de obstáculos. Sem qualquer razão para nutrir esperança, ele aceita a beleza que encontra na solidão, motivado apenas pela vingança. A opção característica do diretor pelo silêncio agrega poesia até mesmo nas sequências mais violentas, o sangue na coreografia da morte pode chamar atenção, mas somos lembrados que a mão que aperta o gatilho está impulsionada por dor e culpa, o abstrato intensifica o estado de espírito do agressor, o tiro pode ser sucedido em um jump cut para uma tela recebendo tinta vermelha. Horibe, o amigo paralisado, em estado depressivo após o cruel afastamento da família, encontra triste paz em suas pinturas, obra do próprio Kitano, onde vemos a fusão de flores e animais, ikebana, a arte de arranjos florais objetivando a busca do equilíbrio e a beleza na simplicidade, desejos que encontram ressonância melódica na bela e melancólica trilha sonora de Joe Hisaishi. A tragédia destruiu a família, o homem perdeu o emprego, por conseguinte, deixou de ser útil e foi esquecido pelos seus entes queridos. Já Nishi, homem correto e que sempre preservou sua família, acaba sendo levado à marginalidade, chega a roubar um banco. A desconstrução do conceito familiar como idealizado pela sociedade japonesa é um elemento fundamental no filme. 

Nas poucas vezes em que vemos o protagonista sorrindo, visivelmente desconfortável, a esposa Miyuki está presente. A viagem do casal rende os momentos mais ternos, o marido tentando garantir a ela plena felicidade em seus últimos dias de vida. Em uma cena contundente, a mulher coloca flores mortas na água, um desesperado grito contra o absurdo da finitude. A coragem da sequência final, a declaração de liberdade do bravo policial, propositalmente testemunhada de perto por seus colegas, carrega muito da honra samurai, o resgate de valores perdidos. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

"A General", de Clyde Bruckman e Buster Keaton

Link para os textos do especial "Sábio Silêncio":


A General (The General - 1926)
Quando minha avó materna Haydê estava passando um tempo em nossa casa, já bastante fragilizada, os olhos dela brilhavam quando eu a chamava para o quarto pra vermos juntos os filmes que ela gostava. Esse amor pelo cinema era o que mais nos unia, desde a época de infância, quando ela me emprestava seus discos de trilhas sonoras. Como sou apaixonado por cinema clássico e tenho uma coleção de DVD’s que toma todas as paredes, praticamente do chão ao teto, a diversão era selecionar dentre os mais de 2.500 títulos. Ela adorava “Primavera”, opereta com Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, sempre se emocionava muito com as canções e o romantismo das tramas. Mas a nossa última sessão foi com o belo “Sissi” e duas comédias da época de ouro, “Os Tolos Voadores”, com Laurel e Hardy, e “A General”, com Buster Keaton. É incrível como ela, fisicamente frágil pelo Parkinson, parecia rejuvenescer enquanto se entretinha com esses filmes, a mágica que somente a arte produz. Poucas semanas depois dessa sessão ela viria a falecer, então essas obras simbolizam algo especial hoje em minha vida. “A General” não é o meu favorito da filmografia de Keaton, lugar ocupado pelo menos celebrado “Nossa Hospitalidade”, mas é o símbolo máximo da perfeição técnica, matemática, de seus esforços criativos. E mesmo sabendo que os textos abordando clássicos do cinema mudo no especial “Sábio Silêncio” são os que garantem menos acessos no blog, algo que me entristece sobremaneira, eu nunca irei parar de enaltecer essas pérolas responsáveis por tudo o que se vê hoje em dia na indústria.

Sem o apelo melodramático de Chaplin, ou sua refinada visão crítica da sociedade, o homem que não sorria elaborava minuciosamente suas peripécias físicas, o interesse estava na superação das limitações humanas, aproveitando ao máximo o posicionamento da câmera e a edição na execução, invariavelmente desafiando a gravidade, o que resultou em sequências que ainda hoje causam impacto em uma plateia acostumada aos efeitos de computação gráfica, um mérito inestimável. A graça, ainda que em menor intensidade quando comparada a outros projetos dele, ocorre na superfície, o ritmo acelerado das gags visuais envolvendo o maquinista desastrado tentando alcançar sua locomotiva roubada por espiões, enquanto a Guerra Civil e toda a estupidez do conflito ficam em segundo plano. A máquina imponente serve como inspiração para as mais variadas possibilidades de construção de suspense, a comédia deriva naturalmente das situações, sem a gratuidade agradavelmente irresponsável de boa parte das produções similares da época. Muitos textos enaltecem a incrível sequência real da ponte que é destruída, com a locomotiva caindo no rio, momento homenageado por David Lean no desfecho de “A Ponte do Rio Kwai”, mas eu gosto muito da pequena cena em que o protagonista corta madeira e não percebe que o exército da União passa atrás dele, uma brincadeira com a ideia de que no cinema mudo, o personagem só escuta aquilo que ele enxerga. Quando leio argumentos tolos como: “esse filme é tão bom que você nem percebe que é mudo”, eu sempre me lembro de cenas como essa, onde o recurso do silêncio é utilizado genialmente, evidenciando que, ao contrário do que muitos pensam, não era uma arte incompleta.