quarta-feira, 28 de maio de 2014

Woody Allen - Zelig

Após um longo período sabático, em que cheguei a ficar enjoado de tanto assistir o Lee Van Cleef atirando, retorno com o resultado do “Desafio Cultural – Woody Allen”, esse inquestionável marco na história das redes sociais. A ideia do desafio era criar algumas linhas (ou algo mais elaborado) cômicas utilizando pelo menos dois personagens que eu havia criado para o especial, citando em algum momento o nome do homenageado. Minha conta de e-mail não resistiu à inundação de participantes, tive a constatação prática do quanto o brasileiro realmente ama ser instigado a escrever. Foi um trabalho hercúleo decidir entre o calhamaço de folhas impressas, mas o seleto júri composto apenas por mim mesmo chegou a uma decisão...
 
E a vencedora foi: Adriana Garcia. Ela já recebeu em sua casa, com todas as despesas pagas, o DVD de “Sonhos de Um Sedutor” (numa parceria com a distribuidora "Classicline") e meu livro “Devo Tudo ao Cinema”. Irei reproduzir agora um trecho de seu texto:

“No texto do Octavio (em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) não há a descrição dos personagens. Sempre que leio, imagino como são. Minha Annie Hall (ex-namorada) e meu Alvy Singer (escritor) seriam interpretados por Audrey Hepburn e William Holden, repetindo a dupla de Quando Paris Alucina, mas com direção de Woody Allen. Atemporal. Dia seguinte, no mesmo cenário que se repete todas as noites, quarto do escritor desarrumado, mesa do computador com lixeira repleta de papéis, cama não desfeita. O escritor levanta-se, olha desanimado para a plateia, hoje nem seus pais estão presentes, aniversário de um primo distante. Observa um senhor cochilando na última fila, um casal com cara de tédio, mais três ou quatro pessoas.

Cansado daquilo tudo, de repente, como em um filme de Woody Allen, o escritor deixa o palco, sai do teatro sob o olhar atônito dos poucos espectadores, ganha as ruas. Não está em São Paulo, mas em Nova York, na Broadway. Caminha pelas ruas, sente frio, está só de manga de camisa. Mexe nos bolsos à procura de algum dinheiro. Personagem não carrega dinheiro. Acha umas moedas que devem ser do ator, pensa. Precisa tomar alguma coisa, sente vontade de fumar. Entra em um bar, tocam jazz. Joga as moedas no balcão. Agora são dólares, não reais. Pede um brandy para se aquecer e um maço de cigarros. Fica um pouco ali. Quem sabe aquela atmosfera não ajude a aumentar sua criatividade como escritor. Olha para um canto e parece ver sua ex-namorada...”.

Querida Adriana, infelizmente, por razões orçamentárias, não pude contratar o William Holden e a Audrey Hepburn, mas creio que ficará feliz ao saber que conseguimos dois sósias fantásticos. Abrindo um parêntese, acho fantástica a capacidade de emular fisicamente outra pessoa. Exatamente o que fazia Leonard Zelig, mas sobre isso irei tratar mais adiante. Já estão até emulando Machado de Assis, mas inexplicavelmente com um vocabulário muito pobre. Fico imaginando um jovem folheando “Dom Casmurro” e tentando entender qual o diferencial desse escritor entre tantos, já que a mágica estava exatamente na elaborada construção de frases. Sósia é um negócio complicado, quando modifica muito o trabalho do homenageado.

O escritor imaginado pela Adriana manda recado (psicografado por mim) dizendo que está tremendamente feliz em Nova York, escutando Jazz e contando dólares. A mulher que ele acreditava ser sua ex-namorada, na realidade, se tratava de uma projeção holográfica. Essa moda está pegando, inclusive, até mesmo o Vaticano já estaria mostrando interesse nesse recurso para organizar uma nova aparição da Virgem, que se cansou de bater ponto em vidros de janelas na América Latina. Como é usual, o evento irá ocorrer no interior profundo de alguma vila inóspita esquecida pelo mundo. Qual seria a graça de surpreender o povo da cidade grande? Mantendo-me no assunto, o Papa acaba de afirmar que o celibato clerical não era pra ter sido levado tão a sério todo esse tempo. Num futuro próximo, ele pretende aparecer de bermudas e cantando no videokê um clássico de Guilherme Arantes. O mundo irá aplaudir cegamente, como sempre.

Eu estou terminando de gravar em estúdio meu próximo álbum sacro, intitulado: “Dogmas, pra quê?”. Na faixa-título, um Hip-Hop, eu faço um dueto bacana com o MC Cutuca, homem de Deus e aviãozinho do tráfico de drogas. Como sacerdote moderninho, eu não posso perder o timing dessas revoluções que o Papa está conduzindo na igreja. Quero aproveitar e elogiar o escriba pelo retorno ao especial, pois estava sentindo falta de divulgar meu trabalho. 
ASS: PADRE CARMELITO, O BONDOSO.


Zelig (1983)
Em sua genialidade, Woody Allen estrutura esse filme como um documentário (repetindo o estilo de “Um Assaltante bem Trapalhão”) sobre Leonard Zelig, um (literalmente) camaleão social da década de vinte. Sem nenhum esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem se relacionar. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área.

A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese. O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora. Quantas pessoas assim você conhece em sua vida?

terça-feira, 27 de maio de 2014

Make 'Em Laugh - O Castelo Sinistro


O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers - 1940)
Mary Carter (Paulette Goddard) herda uma mansão em uma pequena ilha de Cuba e, apesar de sofrer ameaças, resolve tomar posse do local. Em companhia de Larry Lawrence (Bob Hope), uma personalidade do rádio, ela decide ir conhecer sua nova mansão assombrada, mas eles não fazem ideia do tamanho da confusão que estarão arrumando com os "fantasmas" do lugar.


Bob Hope era um embaixador da cultura americana. Entendia como poucos o funcionamento das engrenagens dos bastidores de Hollywood, além de genuinamente amar o mundo do entretenimento. Um intelectual que graças ao seu carisma e bom relacionamento com todos, transitava com liberdade pelos corredores dos estúdios. Em seus filmes, mandava indiretas cômicas para seus amigos, que ele sabia, estariam assistindo na estreia. Fazia graça com os gêneros, como nesta ótima brincadeira com os castelos mal-assombrados que emolduravam o horizonte enevoado dos clássicos de terror. 

O diretor George Marshall se responsabilizaria também pela inferior refilmagem, veículo para as trapalhadas de Jerry Lewis e Dean Martin, em "Morrendo de Medo" (Scared Stiff - 1953). A ideia nasceu de uma peça de 1909, já filmada por Cecil B. De Mille (com codireção de Oscar Apfel) em 1914 e por Alfred E. Green em 1922. Com o auxílio dos usuais escritores da equipe de Hope e o roteirista Walter DeLeon, os estúdios Paramount decidiram refilmar o projeto.  A química entre Hope e o comediante Willie Best garante ao filme excelentes momentos. Outra decisão acertada foi trocar o castelo da Espanha para Cuba, permitindo a inserção de elementos como o vodu e até zumbis. 

A parceria de Hope com a bela (então em processo de divórcio com Charles Chaplin, após "O Grande Ditador") Paulette Goddard em "O Gato e o Canário" foi um sucesso de público, o que levou a Paramount a escalá-los novamente em um projeto similar. Existem várias cenas muito engraçadas em "O Castelo Sinistro", porém uma se destaca como a melhor tirada de sua carreira. Ele atenciosamente escuta a explicação dada pelo personagem de Richard Carlson, sobre o modus operandi dos zumbis: "Um zumbi não possui vontade própria. Você os vê caminhando sem rumo, com os olhos sem vida, seguindo ordens, sem saber o que estão fazendo, sem se importar..." No que Hope complementa: "Como os democratas?".

sexta-feira, 23 de maio de 2014

"Mamma Roma", de Pasolini


Mamma Roma (1962)
A inesquecível Anna Magnani vive Mamma Roma, uma prostituta que sonha em mudar de vida e de classe social, para poder voltar a viver com Ettore, seu filho adolescente. Para isso, ela decide economizar dinheiro. Infelizmente, a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho. 


O ciclo do Neo-Realismo italiano já estava em uma fase transitória, quando Anna Magnani, considerando genial o filme de estreia de Pasolini: “Accattone – Desajuste Social”, decidiu entrar em contato com o diretor e mostrar seu interesse em protagonizar seu próximo projeto. Em seu segundo filme, já com total controle criativo, o poeta italiano demonstrou tremenda confiança e competência. A interpretação histriônica de Magnani concede o poder emocional, fornecendo a moldura perfeita para que Pasolini exercite seu já reconhecível (à época) estilo visual, unido à sua verve literária. Nos primeiros minutos podemos perceber que, ainda que a obra seja dedicada a Roberto Rosselini, sua intenção não é servir somente como pano de fundo para algum discurso social trágico (essência do ciclo), mas também fazer uma espécie de sátira utilizando o destemor e a intempestividade da protagonista. Diferente da Itália de “Roma, Cidade Aberta”, onde o povo valoroso e trabalhador se via compelido à miséria pelo ditador alemão, não há mártires no cenário de “Mamma Roma”.

A visão pessimista/realista de Pasolini faz lembrar seu roteiro para “Noites de Cabíria”, filmado por Fellini. Não há redenção satisfatória numa terra onde você aceita a corrupção da alma, sobrevivendo de forma medíocre à gradual destruição de seu caráter, ou é abatido por tentar genuinamente modificar o triste panorama. Vale ressaltar a participação de Lamberto Maggiorani (do maravilhoso “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica) no ato final, numa esperta homenagem, sendo novamente vítima de um roubo. Muito mais cínico que Rosselini, que terminava “Roma, Cidade Aberta” com uma insinuação de esperança, Pasolini escolhe finalizar a trama com um sutil recado nas entrelinhas de sua “Pietá”, evidenciando que o fim da guerra pode ter eliminado o regime ditatorial, mas não tornou os italianos mais fortes e preparados para a vida em liberdade. Não há mais nazistas, os opressores agora nascem da índole distorcida dos próprios filhos da terra.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Tesouros da Sétima Arte - "Fatalidade"


Fatalidade (A Double Life - 1947)
O famoso ator de teatro Anthony John (Ronald Colman) tem problemas com a sua vida privada devido às suas explosões imprevisíveis de humor. Essa característica já lhe custou sua esposa, Brita (Signe Hasso) e ameaça sabotar sua carreira. No entanto, Anthony faz as pazes com Brita e os dois passam a trabalhar em uma nova encenação de Othello na Broadway. A peça é um sucesso, agendando mais de 300 apresentações, mas a pressão de retratar um homem disposto a matar por ciúme domina Anthony completamente. 


Com uma interpretação que lhe rendeu um Oscar e um Globo de Ouro, Ronald Colman vive um ator perturbado por sua própria arte. Auxiliado por um ótimo roteiro do casal Ruth Gordon (que viveria a adorável Maude de "Ensina-me a Viver") e Garson Kanin, o injustamente pouco lembrado astro inglês entrega sua melhor interpretação, deslizando com inteligência entre os três níveis psicológicos de seu personagem. Ele inicia galante e bem-humorado, exercitando sua própria persona artística (o título da peça: "gentleman´s gentleman", como ele era conhecido na época), depois ficamos conhecendo sua dedicação dramática, quando interpreta em "Othello", mas o ponto alto, do filme e de sua atuação, se encontra no terceiro ato, quando ele sofre um colapso mental e perde totalmente o controle de suas ações. Além de um excelente monólogo sobre a função do ator, somos presenteados com a beleza de uma jovem Shelley Winters, em seu primeiro grande papel no cinema. A atriz estava extremamente nervosa por contracenar com Colman, fazendo com que o diretor George Cukor, durante as filmagens, pedisse ao seu experiente protagonista que a levasse para lanchar nos horários livres, para que ficassem amigos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Curta - "Viagem ao Brasil"

Viagem ao Brasil
Harold está ansioso para finalmente conhecer o Brasil, mas não imagina as aventuras que irá viver naquela terra exótica...

O curta é uma singela homenagem aos grandes comediantes da época, Harold Lloyd, Charles Chaplin, Buster Keaton e Stan Laurel. 


"Lavoura Arcaica", de Luiz Fernando Carvalho


Lavoura Arcaica (2001) 
Eu assisti ao filme na época de sua estreia, muito antes de pensar que um dia escreveria profissionalmente sobre cinema, absorvendo a experiência sem olhar clínico. Fiquei fascinado, desconcertado com a explosão sensorial que ele provocava. Corri para ler o livro original de Raduan Nassar, que viria a se tornar um de meus favoritos.

Vários textos criticavam, com excesso de palavras difíceis, apontando como um demérito suas pretensões artísticas. Engraçado que os escritores desses artigos enxergavam negativamente a pretensão na obra, mas ignoravam o fato de que poderiam ser julgados da mesma forma pela desnecessária prolixidade técnica em seus próprios textos. Poucos foram os artigos que celebravam sem discursos vaidosos, tentando diminuir a qualidade do produto ao limitá-lo a alguma espécie de padrão cinematográfico nacional, insinuando que o nível de experimentações estéticas e narrativas comandadas pelo diretor Luiz Fernando Carvalho estariam isolando-o de uma parcela do público, adentrando no estereótipo do “filme de arte”. E o sucesso de bilheteria era visto como algo negativo, já que poderia firmar um padrão inconsciente, aos olhos de público e crítica, do que seria considerado um cinema valoroso. Era uma “no-win situation”, já que tanto o sucesso quanto o fracasso, teoricamente, pesariam contra o projeto aos olhos de quem o criticava.

A verdade, no meu ponto de vista de outrora e que ainda se mantém, é que a obra estabeleceu um padrão de qualidade bastante alto, que poucos cineastas brasileiros sentiam-se capazes de igualar ou superar, independente da verba que tivessem à mão, uma questão de criatividade, sensibilidade e talento. E essa constatação mexeu com os brios de muita gente. Algo similar ocorreu com o diretor Anselmo Duarte, quando chegou ao Brasil com sua Palma de Ouro por “O Pagador de Promessas”. A solução dos medíocres é sempre tentar diminuir os esforços alheios, nunca buscar o necessário aprimoramento pessoal. Quase quinze anos depois, basta analisarmos o panorama de nosso cinema comercial, para vermos que os medíocres estão dominando as grandes salas com comédias tolas e com prazo de validade curtíssimo, enquanto os ótimos diretores autorais, quase sempre com pouca verba, arrancam sinceros e criteriosos aplausos em festivais. Filmes como “Lavoura Arcaica”, infelizmente para nossa indústria, continuam sendo eventos raros no Brasil.


A fidelidade ideológica às páginas de Nassar pode ser percebida inicialmente na preocupação do diretor por uma construção detalhista, da utilização do texto original, passando pelas ideias inteligentes no vestuário de Beth Filipecki, até a elegância funcional de nosso Gordon Willis: Walter Carvalho, com belíssimo uso do contraste sombras/luz, estabelecendo imageticamente desde o princípio a metáfora com a vida “fora de foco” do protagonista André (vivido por Selton Mello, ponto fraco do projeto, sem nunca acertar o tom), entorpecido pela paixão proibida que sente por sua irmã (Simone Spoladore, equilibrando perfeitamente em seu silêncio a reprimida sensualidade e o medo). O jovem nos conduz pelo labirinto de sua memória emocional, instigado a despertar de seu coma existencial pela visita inesperada de seu irmão mais velho, que está empenhado em levá-lo de volta ao seio da família. Filipecki sutilmente evidencia no figurino a maturidade gradual de André, já que usualmente utilizava roupas claras (diferente da gravidade em tons escuros do pai e dos irmãos), preso ao amor pela irmã e pela ligação quase erótica com sua mãe. Ele somente passa a se vestir com tons escuros quando retorna para casa, acompanhado pelo irmão, não sendo mais psicologicamente imaturo. 

O discurso do pai (espetacular Raul Cortez), que celebra a paciência como a maior virtude do homem, entra em conflito direto com o espírito livre e curioso do filho, que prefere correr o risco de se perder na longa estrada do autodescobrimento, do que viver com medo de pisar fora do conforto de seu lar. Ao afirmar querer ser o profeta de sua própria história, ele mostra o desejo de cortar qualquer amarra com as leis de conduta da sociedade, confrontando figuras de autoridade e negando qualquer forma de repressão, elementos presentes no contexto ditatorial militar que a nação vivia na época em que o livro foi lançado. O orgasmo que sucede o ato mecânico na cena inicial, analogamente emoldurado pelo som de um trem em movimento, simboliza a liberdade adquirida pelo jovem naquele quarto essencialmente embrionário, onde a solidão é parte importante do aprendizado. 

sábado, 17 de maio de 2014

Tesouros da Sétima Arte - "O Condenado de Altona"


O Condenado de Altona (I Sequestrati di Altona - 1962)
O industrial Albrecht Von Gerlach descobre que está perto da morte e nomeia o seu filho Werner (Robert Wagner) como seu sucessor, Johanna (Sophia Loren), sua esposa e atriz envolvida em uma obra de Brecht contra o nazismo, descobre os segredos da família. 


Pérola injustamente pouco conhecida, inclusive entre os fãs de Vittorio De Sica, ainda que ele tenha recebido por ele, o prêmio "David di Donatello", como Melhor Diretor. Adaptado da penúltima peça de Jean-Paul Sartre (com bastante fidelidade, excetuando-se a opção de incluir cenas externas, fora do confinamento), única em que ele aborda diretamente o nazismo, em uma crítica inteligente e ousada. Sophia Loren, Fredric March e Maximilian Schell, atuam corajosamente em papéis que fugiam completamente daquilo que o público estava acostumado, garantindo um clima ainda mais soturno ao projeto. Faz recordar, no tom e na complexidade, os trabalhos do escritor polonês Günther Grass, dentre eles, o mais famoso: "O Tambor". A ideia por trás de um jovem nazista que é mantido, anos depois do final da guerra, prisioneiro em um sótão por seu pai, sem qualquer comunicação com o mundo exterior, para que ele não perceba a realidade, causa arrepios só de pensar. O excelente desfecho, que obviamente não revelarei, contém uma das imagens mais fortes do cinema de sua década. Imprescindível!

Make 'Em Laugh - "A Incrível Suzana" e "Carrossel da Esperança"


A Incrível Suzana (The Major and The Minor – 1942)
Susan Applegate é uma jovem que se fartou da vida em Nova Iorque, e que regressa para a sua casa no Iowa. Como a sua poupança, feita ao longo do tempo, não é suficiente para pagar a passagem de volta, ela disfarça-se de menina de doze anos para poder comprar meia-passagem. Mas, as suas complicações começam mesmo quando ela divide um compartimento com Kirby, um major do exército.


A estreia de Billy Wilder em Hollywood, no filme que serviria de molde para um dos maiores sucessos de Jerry Lewis e Dean Martin: “O Meninão”. A trama, como quase todas na carreira do diretor, esconde uma alta dose de anarquia e ousadia, por trás do véu da ingenuidade de uma comédia romântica. Colocando a censura do “Código Hays” para brincar de “bobinho”, com um roteiro que aceitava a possibilidade de uma mulher com as belas pernas torneadas de Ginger Rogers, na melhor interpretação de sua carreira, numa improvável situação de desespero, fazer todos pensarem que ela era uma inocente criança com laços de fita no cabelo. Na relação dela com a jovem irmã (Diana Lynn) da esposa do Major Kirby (Ray Milland, com quem trabalharia novamente no ótimo “Farrapo Humano”), percebemos Wilder, com o auxílio de Charles Brackett, em sua zona de conforto, divertindo-se ao elaborar diálogos irônicos que continuam surtindo o mesmo efeito, ainda que com os pés firmes em sua época (Greta Garbo é alvo de uma das melhores tiradas, logo no início do filme). Ele novamente trabalharia o conceito da farsa/disfarce como catalisador dramático, no excelente “Quanto Mais Quente Melhor”.


Carrossel da Esperança (Jour De Fête - 1949)
Uma vez por ano, uma feira traz atrações para um pequeno vilarejo no centro da França, como um cinema ambulante e músicas, transformando a rotina e a vida dos moradores do lugar.


Excelente oportunidade de assistir um gênio em seu primeiro trabalho, experimentando com seu estilo autoral, alcançando diversos pontos onde, mesmo passados mais de 50 anos, com um humor puramente visual, diverte sem o menor esforço. São várias cenas que poderia destacar, como todas em que o carteiro (vivido por Jacques Tati), buscando emular a competência dos carteiros americanos (ótima crítica), corre com sua bicicleta para entregar as correspondências das formas mais estapafúrdias. Quando ele adentra a casa de um homem, elogiando-o por sua animação, sem saber que o mesmo estava velando um cadáver (excelente trabalho de câmera), não tem como segurar a gargalhada. São cenas simples, mas engenhosamente elaboradas, onde cada elemento de cena existe por um propósito. O filme foi originalmente filmado com duas câmeras, uma em preto e branco (caso algo desse errado), outra em cores (que era a prioridade do diretor). Com a falência da Thomson-color, antes do término da pós-produção, Tati foi obrigado a lançar seu projeto em preto e branco.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Razzle Dazzle - "Epopeia do Jazz" e "O Meu Amado"


Epopeia do Jazz (Alexander’s Ragtime Band - 1938)
Alexander (Tyrone Power) escandaliza a sociedade ao montar uma orquestra de Ragtime, estilo musical popular demais para se levar a sério.


Para fãs de Irving Berlin, esse musical dirigido por Henry King é essencial. A ideia original era ser uma cinebiografia do compositor, mas ele preferiu contar uma história ficcional. De forma original, o roteiro traça um panorama histórico do jazz, desde a rebeldia do Ragtime até a aceitação do Swing como uma forma de arte, no final da década de trinta, utilizando como pano de fundo a trajetória de um jovem (interpretado por Tyrone Power) que desafia a sociedade em que vive, perseguindo a expressão mais popular da música.

Entre uma canção e outra (ao todo são vinte e oito, incluindo as excelentes: "Blue Skies", "Heat Wave" e "Alexander’s Ragtime Band"), somos apresentados a um triângulo amoroso. Stella (Alice Faye) desperta a paixão do compositor vivido por Don Ameche, causando idas e voltas típicas dos romances da época, onde são incluídas passagens marcantes da história do jazz, como sua participação na Primeira Guerra Mundial e a importante apresentação de Benny Goodman e sua orquestra, no Carnegie Hall, em 1938. Quem brilha mesmo é Ethel Merman, que aparece apenas no segundo ato, mas que encanta com sua linda voz.

Um tipo diferente de musical em sua época, que revitalizou o gênero com um fio condutor essencialmente sério, algo que contrastava com o glacê que abundava das produções de Astaire/Rogers, a leveza das comédias musicais dos Irmãos Marx ou a escala grandiosa dos projetos de Busby Berkeley. As várias sequências musicais não interrompem sempre a trama, como era usual, sendo inseridas na ação narrativa, fazendo com que o ritmo nunca diminua.


O Meu Amado (Rose of Washington Square - 1939)
Alice Faye interpreta Rose Sargent, uma cantora de NY da década de 1920 que se apaixona pelo bonito e arrogante malandro Bart Clinton (Tyrone Power). O novo romance de Rose é demais para o desespero de seu amigo e antigo parceiro Ted Cotter (Al Jolson), que não confia no escorregadio Bart. 


De certa forma, inspirado na vida amorosa de Fanny Brice (Barbra Streisand protagonizaria a cinebiografia oficial “Funny Girl”, em 1968), o que a levou a processar os estúdios Fox.  Alice Faye chega a cantar a música mais famosa de Brice: “My Man”, num dos momentos mais emocionantes. A publicidade desse problema jurídico acabou ajudando na bilheteria do filme, que se tornou o maior sucesso musical do estúdio naquele ano.

O projeto foi uma sensata resposta ao sucesso de "Epopeia do Jazz", que havia sido lançado no ano anterior, apostando na simpatia do casal Alice Faye e Tyrone Power. Mas o real valor atemporal da obra foi documentar com qualidade o trabalho de Al Jolson, um nome injustamente ignorado pelos jovens de hoje. Tendo entrado para a história da Arte ao protagonizar o primeiro filme falado ("O Cantor de Jazz", em 1927), ele teve em "O Meu Amado" a chance de imortalizar com melhor qualidade de som e imagem, suas interpretações consagradas: "My Mammy", "California, Here I Come" e "Rock-a-Bye Your Baby with a Dixie Melody".

quarta-feira, 14 de maio de 2014

TOP - Filmes Sobre Política (Parte 2 de 3)

Link para o texto anterior:


10 – Terra em Transe (1967)
Paulo é um jornalista que tenta mudar a situação ao planejar a ascensão de um candidato supostamente oposicionista chamado Vieira e buscando o apoio do maior empresário do país para deter o avanço de uma multinacional estrangeira sobre o capital do país. Tudo começou bem; porém, problemas sociais e a corrupção arruinaram sua intenção.


Na obra-prima de Glauber Rocha, o poeta intelectual Paulo (Jardel Filho) mostra-se como grande parte da sociedade, desesperado para encontrar um porto seguro nas promessas de algum líder, alguma voz ativa. Sua grande estatura e compleição rochosa escondem uma alma frágil e amedrontada. Ele abraça o recluso conservadorismo de Diaz (magnífico Paulo Autran), que lhe foi útil durante um tempo em sua escalada social, porém cujo verniz foi descascando até exibir sem pudores uma megalomania doente, com um complexo de César que o faz trair quem seja preciso. Fascinado por uma militante (Glauce Rocha), acaba sendo atraído para uma voz menos arrogante, porém ainda mais hipócrita: Vieira (incrível José Lewgoy), um reformador populista que beija os pés do clero e promete representar a verdadeira voz do povo no poder. Um povo miserável, analfabeto e que não pensa duas vezes antes de aplaudir o agressor com as mesmas mãos que ainda recuperam-se das feridas do recente açoite sofrido. Paulo logo percebe que Diaz e Vieira estão interessados apenas no poder, nos privilégios. 


9 – Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd – 1957)
A história gira em torno de um andarilho chamado Larry “Lonesome” Rhodes (Andy Griffith), que é descoberto em uma cadeia no nordeste do Arkansas por Marcia (Patricia Neal), uma produtora de um programa de rádio, e seu assistente (Walter Matthau). Ele se transforma numa estrela do rádio e da TV, da noite para o dia. Mas, à medida que a sua fama aumenta, o sucesso lhe dá mais poder.


Foi uma genial decisão do diretor Elia Kazan a escalação do comediante Andy Griffith para um papel dramático que o fazia sair de sua zona de conforto, como o popular apresentador de televisão que é convidado a utilizar sua fama como elemento facilitador na carreira política de um congressista insosso. O filme é ousado por ser um dos primeiros a abordar um tema extremamente atual: a influência manipuladora da televisão na política. Como o personagem de Matthau chega a afirmar brilhantemente: “Você precisa ser um santo para se negar a utilizar o poder que aquela caixinha te oferece”. O apresentador simplório passa a se ver como um deus da comunicação, o braço direito do presidente americano. 


8 – JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (JFK – 1991)
Oliver Stone não só reconstitui o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, mas defende a tese polêmica de que o crime fora uma conspiração envolvendo revolucionários cubanos, a CIA e a própria cúpula do governo americano.


Nessa longa dramatização de várias teorias conspiratórias sobre o assassinato de Kennedy, a coragem de Oliver Stone se faz presente ao defender uma opinião controversa, com total senso de ritmo narrativo. O grande mérito é que o roteiro coloca o espectador imerso na investigação do corajoso protagonista, vivido por Kevin Costner, instigando questões pertinentes, fazendo-nos acreditar na legitimidade de sua batalha. Poderia Lee Harvey Oswald ter disparado três tiros em seis segundos? Por que tantas pessoas ligadas ao assassinato depois apareceram mortos em circunstâncias peculiares? A riqueza de informações é valorizada em revisões, fator que nesse caso melhora a experiência. Impossível esquecer o impacto da cena do encontro com o misterioso militar vivido por Donald Sutherland, em seu espetacular monólogo, que evidencia feridas abertas ainda hoje na política americana. 


7 – Mera Coincidência (Wag the Dog – 1997)
Menos de duas semanas para a eleição e o presidente dos Estados Unidos candidato a um segundo mandato envolve-se em um escândalo que pode acabar com sua carreira política. Antes que o pior possa acontecer, entra em cena Conrad (Robert de Niro), um homem com a habilidade de manipular a imprensa e, principalmente, a opinião pública. Com a ajuda de Stanley (Dustin Hoffman), um famoso produtor de Hollywood, ele cria a perfeita distração: uma guerra de mentira.


É incrível como esse excelente filme é pouco lembrado hoje em dia. Como não se lembrar da guerra dos Estados Unidos contra as armas de destruição em massa que nunca foram encontradas? Nada melhor do que inventar um motivo mirabolante para desviar os olhos da população, como faz o produtor vivido por Dustin Hoffman, para salvar a pele do presidente que está metido em um escândalo sexual, mas precisa ser reeleito. Eles inventam uma guerra, forjando o herói que poderá salvar a nação de qualquer perigo. O espirituoso título nacional nasceu como resposta ao caso de Bill Clinton com sua secretária, ocorrido pouco tempo antes do lançamento do filme. Na vida real, Clinton oportunamente aproveitou para se empenhar em campanhas de bombardeio no Iraque e no Sudão, enquanto caíam por terra todos os esforços de seus assessores em promover sua imagem como um respeitável homem de família. A crítica mais contundente do filme é que vivemos uma realidade onde as guerras são criadas e manipuladas por homens da mídia, que organizam até seus “heróis” e “vilões”, com direito a temas musicais e pomposas adaptações cinematográficas, negociadas antes mesmo do som das bombas ter se dissipado. E essa realidade é extremamente perigosa, pois com o avanço da tecnologia, a câmera mente com maior facilidade. E quando o povo é estimulado a não questionar...


6 – A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington – 1939)
Inocente homem do interior (James Stewart) é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos e aos poucos se descobre em um mar de lama que ameaça tudo o que ele acreditava em relação à bondade e ao caráter dos comandantes de seu país.


A mão de Frank Capra pode pesar no piegas em certos momentos, mas poucos filmes souberam retratar tão bem o esforço de um elemento individual íntegro em um covil de serpentes, arriscando-se a perder até sua sanidade, mas não admitindo que seus valores tombem ou sequer se curvem perante o que considera errado. O roteiro nos apresenta um símbolo das reais qualidades que deveriam ser comuns aos homens que ingressam na política, mas deixando clara a razão que impede que essas qualidades sejam valorizadas: o ser humano é ambicioso. Apenas as crianças, seres ainda não tocados pelo instinto predatório dos adultos, conseguem enxergar os méritos na aparente causa perdida do protagonista. James Stewart me fez acreditar em Jefferson Smith. No famoso e emocionante discurso final do personagem no julgamento, exaurido física e mentalmente após horas falando ininterruptamente, apenas seu caráter o mantinha de pé. Nunca me esqueço da breve tomada que mostra o tímido sorriso de encorajamento do juiz, mesmo sabendo das poucas chances do rapaz. O juiz sabe que todos deveriam ter aquela coragem, mas muito mais que isso, ele enxerga naquele alquebrado homem o motivo principal que o fez adentrar outrora em sua profissão. 

Continua...

sábado, 10 de maio de 2014

Cine Samurai - "Rashomon"


Rashomon (1950)

“O demônio vive em Rashomon, fugindo com medo da ferocidade do homem”.

Um lenhador e um monge budista conversam sobre um estupro, seguido de assassinato, ocorrido num bosque nas imediações da cidade. O relato deles para um incrédulo plebeu é complexo em suas várias versões, que incluem até o testemunho do próprio morto, através de uma evocação mediúnica. O aspecto mais genial é que não é possível afirmar qual dos relatos é o verdadeiro, já que cada depoimento é cinematograficamente reconstituído com base na verdade absoluta de cada personagem.

Akira Kurosawa trabalha com simbolismos muito profundos nessa obra, como a analogia do local onde os três personagens se encontram, buscando abrigo até a chuva estiar, o “Rashomon” (portão do castelo) em ruínas, como a sociedade japonesa da época, vítima de um declínio moral já criticado sutilmente no conto original “Dentro de Um Bosque”, de Ryūnosuke Akutagawa, que é fielmente transposto no roteiro, com exceção de seu desfecho, um brilhante adendo imaginado pelo diretor. Numa nação que vivia a angústia do pós-guerra e que necessitava, mais do que nunca, de gestos de humanidade e otimismo, foi com extrema sensibilidade que ele incluiu a ideia do bebê abandonado, logo após a exposição crua, por diversos pontos de vista, de um evento marcado pelos elementos mais odiosos no ser humano. A ideia do homem que, num ato de puro egoísmo, roubava o quimono que cobria o pequeno abandonado foi levemente inspirada no conto “Rashomon”, que Akutagawa escreveu em 1915, onde uma mulher era flagrada roubando o cabelo de corpos tombados numa cidade em ruínas.

Ao final, temos um quebra-cabeça impossível de ser montado, já que somos levados a crer que cada versão mente em algum ponto, exagerando ou omitindo detalhes essenciais para a plena compreensão do evento. Cada ator deturpa a realidade a seu favor, refletindo perfeitamente nesse microcosmo o escopo do que vemos diariamente no macro, uma sociedade onde não existem simples alternativas duais, entre o bem e o mal. O samurai/ladrão (vivido por Toshiro Mifune) surpreende como, talvez, o mais digno, já que em seu depoimento não negou seu próprio crime, teve consideração pela nobreza da vítima, afirmando que ele foi o homem com quem durou mais tempo em batalha, tendo consideração também pela honra da esposa da vítima, elemento moral altamente questionável nas outras versões, ao afirmar que ela havia fugido no meio da batalha. 
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O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", em impecável versão restaurada.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Kung-Fu Fighting - "Cinco Dedos de Violência" e "Marcado Para a Morte"

Links para os textos anteriores:
Introdução, "Arrebentando em Nova York" e "O Dragão Chinês":
"Os 5 Venenos de Shaolin" e "Billy Jack":
"The Street Fighter" e "Operação Invasão":




Cinco Dedos de Violência (Tian xia di yi quan – 1972)
Ji Hao (Lo Lieh) é um jovem hábil nas artes marciais que foi enviado por seu mestre para treinar com um mestre ainda mais poderoso. Ji deve ser preparado pra usar a incomparável técnica dos "punhos de aço", e assim vencer uma importante competição de artes marciais.


Dirigido por Chang-hwa Jeong, esse foi o filme que chamou a atenção do público americano para o gênero, antes de Bruce Lee torná-lo universal. Eles não estavam acostumados com esse nível de “gore” e brutalidade nas lutas corpo a corpo, que normalmente seguiam fórmulas adotadas por todos os dublês, com poucas variações. E é justo afirmar que o carisma do protagonista Lo Lieh (uma espécie de James Stewart, com talento para ser a personificação do homem comum) teve mérito.

Não há nada de especial na trama, sequer nos movimentos pouco fluidos (já que não havia coreógrafos profissionais disponíveis, todos estavam trabalhando em outras produções), que iriam evoluir nos anos seguintes, mas é difícil não se lembrar das mãos vermelhas que simbolizam a elevada técnica alcançada, assim como a marcante trilha sonora, composta por Quincy Jones originalmente para a série “Têmpera de Aço”, que emoldura os momentos em que ela é utilizada (Tarantino viria a homenageá-la em seu “Kill Bill”). Desde o ótimo “Vingança”, dirigido por Chang Cheh dois anos antes, os estúdios buscavam trazer os temas para um cenário moderno, substituindo os duelos de espadas por facas e tiroteio. Foi com esse interesse que o estúdio abordou o diretor, que inicialmente não gostou do roteiro. Ele também se recusou a utilizar cabos nas lutas, por considerar que elas embelezavam os movimentos, mas destruíam a naturalidade dos mesmos. A solução que encontrou foi utilizar trampolins, algo que se tornaria comum nas obras seguintes, assim como o talco espalhado no chão, para que simulasse poeira, tornando as quedas ainda mais eficientes. 

Seu sucesso estrondoso nas bilheterias estrangeiras mostrou que havia um público para essas produções, abrindo espaço para a “Kung-Fu Mania” que tomou o mundo de assalto no início da década de setenta. Foi, definitivamente, a obra que colocou os estúdios “Shaw Brothers” no mapa internacional.



Marcado Para a Morte (Marked for Death – 1990)
Tendo acabado de se aposentar da Agência de Controle de Narcóticos, John Hatcher (Steven Seagal) volta à sua cidade natal e rapidamente descobre que as drogas se infiltraram em sua velha vizinhança. Determinado a expulsar os traficantes, Hatcher cruza o caminho de um feroz contrabandista de drogas jamaicano com poderes mágicos.


Esse é o único filme estrelado por Steven Seagal que irá constar nesse especial, exatamente por ser aquele que eu considero o melhor em sua fraca filmografia, ou algo como o “menos pior”, que ainda consegue entreter em sua mediocridade. Aqui ele exibe plenamente sua habilidade no Aikido, algo cada vez mais raro em suas últimas produções. A boa direção de Dwight H. Little, que viria a comandar episódios das celebradas séries “24 Horas” e “Prison Break”, somada a um vilão exótico com um toque sobrenatural, ajudam a disfarçar o carisma nulo do protagonista. Diferente dos seus filmes anteriores, nesse temos uma postura mais crua, realista, demonstrada já primeiras cenas, onde somos presenteados até com nudez gratuita, ainda que essa sequência inicial não tenha nenhuma ligação com o restante do filme. Mas isso pouco importa, quando temos um excelente duelo de espadas ao final, conduzindo para uma das mortes mais brutais captadas no gênero em sua época, o que é dizer muito, quando pensamos que era algo natural o vilão acabar sendo jogado num moedor de carne. 

terça-feira, 6 de maio de 2014

Faces do Medo - "O Vampiro da Noite" e "O Conde Drácula"


O Vampiro da Noite (Horror of Dracula – 1958)
O conde Drácula (Christopher Lee) é um nobre eslavo, condenado à vida eterna. Ele deixa sua terra natal, na Transilvânia, e vai a Londres em busca de novas vítimas. Seus hábitos noturnos chamam a atenção do Dr. Van Helsing (Peter Cushing), um cientista que se torna inimigo implacável do conde, determinado a por um fim na sede de sangue do vampiro.


Em “Nosferatu”, de Murnau, a caracterização do protagonista era a de um rato, um animal que trazia a peste para a cidade. Ainda que as presas do vampiro, símbolo máximo do personagem, tenham aparecido pela primeira vez em um obscuro filme turco da década de cinquenta, foi com Christopher Lee que se imortalizou a imagem, potencializada pelo vermelho berrante do Technicolor no sangue que pingava das presas.

Hoje em dia é difícil mensurar o choque que o elemento da cor causou no gênero, mas era algo que deixava os censores desorientados. Essa novidade que era vendida já no trailer, levava muitos a pensarem que não passava de uma irresponsável glamourização da violência, um deleite culposo para os olhos. O público estava acostumado a ser poupado nos momentos mais grotescos. O desfecho de um duelo de espadas em preto e branco poderia muito bem ser conduzido para as sombras dos corpos na parede, minimizando o efeito visual da espada que atravessa o corpo do vilão. Em “O Vampiro da Noite”, a câmera se aproxima para captar o gorgolejar do sangue que explode do corpo, após a estaca ser enfiada no peito da vítima.

O filme dos estúdios “Hammer” ainda resiste como a melhor representação de horror gótico e, no meu ponto de vista, a melhor representação do clássico personagem criado por Bram Stoker. O porte nobre de Christopher Lee, sua inesquecível primeira aparição envolto em sua capa e imerso na escuridão de uma escadaria, exalando uma silenciosa ameaça animalesca por trás de seus maneirismos aristocráticos. Seu caminhar que não produz som no chão, ao acompanhar Jonathan Harker pelo castelo, incitando sutilmente o sobrenatural, como se ele flutuasse. Numa esperta decisão do diretor Terence Fisher, para enfatizar o controle sexual do Conde em suas vítimas, todos os rostos das mulheres atacadas vão do puro terror (à aproximação dele) ao êxtase do prazer, como se tivessem tido a melhor noite de amor de suas vidas.


O Conde Drácula (Scars of Dracula – 1970)
O Conde Drácula, o mais cruel vampiro da história, renasce das cinzas para atormentar os moradores de um pequeno vilarejo da Inglaterra. Um jovem fugitivo da polícia esconde-se no castelo do vampiro sem saber o que o espera. O povo revoltado invade o castelo e tenta destruir o antro de perversão do monstro. Porém, o Príncipe das Trevas está de volta mais terrível do que nunca e dará início a um ritual sádico e perverso em busca de vingança.


Essa quinta incursão protagonizada por Christopher Lee é usualmente tida como uma das mais fracas, mas nunca concordei com esse senso comum. As primeiras sequências do original cometiam um equívoco crasso: seus roteiros nos faziam simpatizar e até torcer pelo vampiro. Em compensação, “O Conde Drácula” é o único que realmente se importa em utilizar elementos extraídos diretamente do livro de Bram Stoker, como o sensacional “passeio” noturno do conde, escalando pelo lado de fora do castelo.

O filme também ousa dar o passo além, assim como o primeiro fez com relação à utilização das cores, explorando generosamente o “gore”, resultando no mais violento projeto da “Hammer”. Como sempre deveria ter sido, o conde novamente se torna alguém a ser temido, um monstro sádico que pune severamente seus criados quando cometem algum erro, tendo sua presença sobrenatural potencializada pelas portas que se abrem e fecham sozinhas com sua passagem. E existe até uma breve referência ao histórico príncipe Vlad, inspiração para a criação do personagem, na cena que mostra uma de suas vítimas empalada. Esse também foi o primeiro roteiro do estúdio a mostrar que Drácula dominava os animais, levando-os a cumprirem suas cruéis tarefas. Outro ponto que merece ser salientado é a segura direção de Roy Ward Baker, responsável por algumas das melhores produções do estúdio, como “Sepultura Para a Eternidade”.

Diferente dos anteriores e fraquíssimos filmes posteriores, o vampiro está no seu habitat, sua gótica Transilvânia. A atmosfera construída e o senso de ameaça real superam as falhas, em sua maioria, causadas pelo baixo orçamento, como os morcegos que protagonizam uma das cenas mais violentas, em uma igreja. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

William Wyler - "O Colecionador"


O Colecionador (The Collector – 1965)
Quando penso no livro de John Fowles, eu me recordo que li em apenas um dia, atrasando vários deveres de casa que deveria entregar no dia seguinte na escola. A sua estrutura é hipnótica, um genuíno “page turner”, sem gordura extra. Só fui assistir ao filme anos depois, já que não o encontrava em nenhuma locadora de vídeo. E a adaptação do diretor William Wyler, na que considero sua última obra-prima, emula perfeitamente o senso de perigo iminente nas páginas, com uma interpretação primorosa, rica em nuances de Terence Stamp, em seu primeiro grande papel no cinema. É impressionante a forma como ele deixa transparecer sutilmente sua fragilidade em sua atitude corporal, constantemente pendendo sua cabeça ao admirar sua presa, exatamente como uma criança que analisa o mundo pela primeira vez. Já a atuação de Samantha Eggar, por mais que tenha sido premiada e elogiada pela crítica da época, falha em personificar a força interior da personagem literária. Ela soa pedante, nunca no controle das situações. E a inteligência emocional da personagem, como exposta na parte do livro em que acompanhamos seu diário, superava em muito a de seu gentil algoz. Esses detalhes não enfraquecem o excelente resultado, um suspense que ainda hoje é tremendamente eficiente, mas que infelizmente é pouco lembrado.

Acho excelente a forma como a câmera, na cena em que Miranda encara pela primeira vez seu captor, insinua que ele esteja empunhando algum tipo de arma intimidadora, mas que descobrimos ser apenas uma bandeja com a refeição. A metáfora é clara, um amargo estudo sobre diferenças entre classes sociais e suas respectivas “máscaras”, travestido de conto de horror. Como esquecer o momento em que o perturbado Frederick (Stamp) questiona a valorização exagerada da Arte, como forma de segregação intelectual na sociedade? Ele pergunta para a jovem se ela realmente vê beleza nos rostos das telas de Picasso, ou se ela simplesmente as aplaude por simbolizarem uma forma de superioridade social, finalizando por rasgar violentamente o livro de Arte. Ela realmente entende a mensagem do livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, ou apenas exibe-o como um símbolo de literatura superior?

Ele sabe que sua borboleta cativa nunca iria sequer olhar para ele em um dia normal, um simples bancário, que era alvo do deboche dos colegas até o dia em que recebeu a visita de uma familiar, avisando que ele havia ganhado o prêmio da loteria. Ele decide aprisionar a jovem estudante, não numa tentativa de impor sua personalidade sobre a dela, mas sim com a ideologia de um legítimo colecionador, procurando amalgamar-se ao objeto de estudo, entendê-lo em suas particularidades. Ao querer que ela passe um tempo com ele e acabe gostando de sua companhia, o protagonista busca desesperadamente entender o que o torna tão diferente dela, quais as razões que o fazem ser ignorado enquanto pobre cidadão, mas adulado quando ascende socialmente num golpe de sorte. Analisando profundamente, Miranda é tão doente quanto Frederick, ambos são vítimas de um sistema que segrega, estipulando o que é valoroso e o que pode ser desprezado, utilizando critérios abstratos e questionáveis. E o colecionador não se satisfaz com apenas um espécime analisado, continuando sua busca pela perfeição, aperfeiçoando seu plano para seu próximo alvo...
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O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil". Filme imperdível na coleção de todo cinéfilo dedicado.

Godard - Acossado


Acossado (À Bout de Souffle - 1960)
Assistir o filme mais "popular" de Jean-Luc Godard, ainda é uma experiência morosa. Costuma-se dizer que existem obras mais e menos "acessíveis" de certos cineastas. "Acossado" pode ser considerado por esta lógica, um dos mais "acessíveis". O conceito de acessibilidade é algo ilusório, pois existem filmes incompetentes que são taxados erroneamente de inacessíveis, um argumento que acaba jogando a culpa no espectador, quando na realidade o único que deve ser culpado é o próprio cineasta/roteirista. Aquela velha história da matéria escolar que parece ser impossível de entender, até que você conheça um bom professor que a torne encantadora e simples. Este não é o caso de Godard em seus anos de ouro. Sua competência é indiscutível.

A grande originalidade narrativa da obra, baseada em conceito de François Truffaut, é desconstruir o forte imaginário coletivo criado pelo cinema americano em décadas de ótimos filmes policiais. Muito antes de Tarantino, Godard amalgamou variadas referências, que vão do Western ao Noir, passando pelas artes plásticas e a cultura pop da época, e entregou ao mundo o mais inusitado filme policial visto até aquele momento. Um cujo clímax se passa durante uma longa conversa do casal (Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg) em uma cama. Tecnicamente ousado, com uma edição livre de qualquer regra, onde cortes inusitados desrespeitam constantemente o fluxo dos diálogos e a noção de campo e contracampo, que resumidamente se refere a campo/espaço que a câmera escolhe focar e contracampo/tomadas sucessivas que focam alternadamente pessoas que dialogam, por exemplo. Artifícios que em alguns momentos tornam ágeis algumas cenas que, pela maneira tradicional de filmagem, poderiam se arrastar por longas tomadas, enquanto que em outros momentos, potencializa certos detalhes usualmente preteridos por cineastas que seguiam a cartilha tradicional, como por exemplo, a repetição do gesto de Belmondo, homenagem a Humphrey Bogart, ao passar o dedo polegar nos lábios ou a sucessão de caretas próximo ao final. 

Godard e seus colegas de Nouvelle Vague, apaixonados pelo cinema americano, demonstravam que poderia coexistir também uma forma de filmar sem regras. Infelizmente o diretor se viu vítima de sua própria crítica, pois hoje parece não saber fazer filmes de outra forma, acabou criando uma "regra" que não consegue (e nem parece disposto a) romper. O que na década de cinquenta era transgressor, hoje é sintoma de preguiça criativa, alimentada pela idolatria cega de alguns adolescentes, que tolamente incensam diretores "revolucionários", parecendo não perceberem que os próprios eram apaixonados pelo cinema americano de Howard Hawks e Nicholas Ray, entre outros. Godard, que muitos cinéfilos chamam de "GOD", possui em comum com Jesus ao menos o fato de que legou para o futuro, um séquito de "adoradores" especialistas em adulterar seus reais objetivos em nome de uma "igreja em torno dele", ao invés de algo mais coerente com seus ideais originais. Jean-Luc ousou mostrar uma alternativa, não afirmar que a sua visão era a mais interessante ou a única com méritos.

Godard - O Desprezo


O Desprezo (Le Mépris - 1963)
A subversão técnica se mostra presente desde o início, mostrando o maquinário responsável pela elaboração da imagem, ressaltando o artificialismo contido em uma simples cena: uma jovem caminha enquanto lê um livro. O esforço que envolve a realização deste momento, com a câmera seguindo-a no trilho, emoldurado pela plácida voz do narrador, que nos apresenta o elenco e a equipe técnica, substituindo os convencionais letreiros, simboliza a ideologia por trás da Nouvelle Vague. A estética é mais importante que o tema. O risco é interessante, não a fórmula. O leitmotiv que se apresenta constantemente é a "Odisseia" de Homero, cuja megalômana adaptação cinematográfica é responsabilidade do diretor alemão Fritz Lang, que participa do filme interpretando a si mesmo, atendendo ao convite de Godard. A admiração do francês pelo alemão é evidenciada ao longo da obra, como quando ele coloca nas mãos de Bardot um livro sobre seu ídolo.

A bela casa onde ocorrem as filmagens na ilha de Capri, com sua estrutura labiríntica, acentuando o fato daqueles personagens estarem presos a si mesmos de forma inescapável. O Odisseu moderno (na figura do escritor vivido por Michel Piccoli) que, ao invés de lutar pela honra de sua Penélope (a bela Camille, vivida por Brigitte Bardot), convenientemente facilita sua entrega física e emocional nos braços de seu pretendente (o impetuoso produtor americano de cinema, vivido por Jack Palance), visando oportunidades na área. O desprezo de uma mulher que acreditava ser mais importante que uma carreira, a apatia de um homem que vende seu talento sem critério algum.

A maior crítica do diretor é desferida no rosto da indústria americana de cinema, personificada pelo personagem de Palance, que em certo ponto afirma: "quando escuto falar em cultura, corro para abrir meu talão de cheques". O conflito mais importante ocorre em uma cabine de exibição, onde ele vibra como um adolescente ao ver a imagem de mulheres nuas na tela, as cenas ainda não editadas das sereias no épico de Lang. Ele chega a afirmar que a melhor coisa no cinema é poder despir as belas mulheres. Crítica que corajosamente é direcionada também a Roger Vadim, marido de Bardot e realizador de seus mais célebres filmes, famoso por sempre preferir exibi-la sensualmente em suas obras. Interessante notar que enquanto o conflito ocorre, a câmera nunca deixa de mostrar os dizeres estampados logo abaixo do telão da cabine: 

"O cinema é uma arte sem futuro" - Louis Lumière.