sexta-feira, 19 de setembro de 2014

"O Mesmo Amor, a Mesma Chuva", de Juan José Campanella


O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (El Mismo Amor, La Misma Lluvia – 1999)
Uma obra-prima de sensibilidade e paixão. Além de ser um ótimo ponto de partida para se interessar a conhecer melhor o cinema argentino. Depois desse projeto, o diretor Juan José Campanella iria se tornar mundialmente reconhecido por “O Filho da Noiva” e, especialmente, “O Segredo dos seus Olhos”. 

Jorge Pellegrini, vivido pelo competente Ricardo Darín, é uma jovem promessa da literatura argentina, mas acaba desperdiçando seu talento escrevendo contos simplórios para uma revista. Em uma noite chuvosa ele conhece Laura, a bela Soledad Villamil, uma garçonete que está à espera do namorado, do qual não tem notícias desde que ele partiu para o Uruguai alguns meses antes. Jorge e Laura ficam muito unidos e a moça, ciente do grande talento do rapaz, tenta convencê-lo a singrar sem medo os bravios mares da literatura. Essa história cativante atravessa vários anos, passando por diferentes momentos políticos do país, porém sempre focada na evolução dos personagens principais.

O filme possui várias cenas memoráveis, como a poderosa crítica que Campanella reserva aos seus colegas de profissão. Jorge assiste em um pequeno cineclube a exibição de um curta-metragem baseado em um de seus contos. Todas as suas ideias são distorcidas pelo jovem diretor, que criou um emaranhado de cenas sem nenhuma conexão entre si. O trabalho exibido nos remete às experiências cinematográficas de diretores como Godard e Antonioni, porém a crítica aponta para todos os que administram sua arrogância na criação de obras tidas como “não comerciais”. O que o diretor deixa claro pelos lábios de Darín é que não existe cinema que não seja comercial. Toda a sensibilidade passional do conto escrito pelo personagem se perdeu em todo aquele jogo de luzes e cortes de câmera essencialmente desumanizadores.

O trabalho é brilhante e popular. O romance soa natural e nos cativa desde o primeiro momento. A crítica política existe, porém como uma moldura, nunca como a pintura. Em nenhum momento se mostra apelativo ou simplista, todos os elementos se unem com perfeita simetria. É daqueles filmes que se tornam melhores a cada revisão.

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