sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

"Casablanca", de Michael Curtiz


Casablanca (1942)
Eu considero que, de todos os filmes da época de ouro de Hollywood, "Casablanca" é o mais próximo de uma blowing session de Jazz, onde o improviso na complicada elaboração do roteiro feito a várias mãos foi o elemento que engrandeceu o resultado final em todos os aspectos. A peça teatral que serviu de base mostrava uma infidelidade conjugal, a protagonista tinha uma moral questionável, algo que não era possível de ser avalizado pela censura da época. Os atores recebiam os textos do dia algumas horas antes das filmagens. Com o ataque em Pearl Harbor, o interesse dos produtores pelo cinema enquanto ferramenta de propaganda perdeu qualquer inibição inicial. A Warner foi um estúdio pioneiro nesse aspecto, já combatia Hitler antes disso se tornar padrão, com “Confissões de um Espião Nazista”, em 1939. A emocionante cena emoldurada pela Marseillaise, alegórica guerra entre hinos que ocorre dentro do Rick’s Café, foi inspirada por uma similar no filme "A Grande Ilusão", de Jean Renoir. Esse é o único momento em que o espectador percebe algum sentimento orgânico na relação entre Ilsa (Ingrid Bergman) e seu marido Victor (Paul Henreid), responsável por comandar o revide musical que ousou mostrar para os alemães que eles não eram maioria naquele ambiente. A admiração nos olhos dela, o orgulho na firmeza dos gestos dele, o patético desânimo dos oficiais ao enxergarem as lágrimas daqueles que se recusam a permitir que o silêncio os escravize ainda mais.

A obra de Michael Curtiz, produzida por Hal Wallis, consegue transmitir uma opressiva aura de desesperança, os personagens se chocam constantemente em uma espécie de limbo, o único local que os acolhe em tempo de guerra. A frustração de Rick (Humphrey Bogart), abandonado pela única mulher que verdadeiramente amou, fez com que ele desistisse de tudo. Como dono do bar, mais velho e mais cínico, ele se refugia no trabalho repetitivo, com a ajuda do amigo Sam (Dooley Wilson), pianista e conselheiro, o único resquício de seu passado tranquilo que ele ousou manter. A decepção amorosa o tornou amargo, alguém incapaz de se arriscar para ajudar outrem. Entre ladrões, policiais corruptos e cafajestes de todos os tipos, ele caminha lentamente em direção ao nada, com a consciência de que a decadência externa apenas reflete o que ele sente internamente. Quando Ilsa visita o bar com o marido e reconhece Sam ao piano, a câmera evidencia a expectativa em seus olhos, a empolgação que tenta disfarçar. Ela pede que ele toque “As Time Goes By”, a canção que simboliza o amor perdido. E Sam demonstra preocupação, ele sabe que o amigo vai sofrer novamente. A beleza trágica na sequência é arrepiante, tão simples e ao mesmo tempo tão poderosa. A chegada intempestiva de Rick, o sorriso que sua boca esboça numa fração de segundos, toda a carga de alegria despreocupada que o reencontro com aquele belíssimo rosto o trouxe, rapidamente substituído pela resignada aceitação da humanidade abdicada por uma ilusória sensação de conforto. 

É interessante perceber como o roteiro insere poesia na execução do flashback romântico, uma forma de estabelecer um contraste evidente entre as duas situações. A projeção traseira que muda o cenário surrealmente no passeio de carro, a chuva que molha o papel da carta de despedida, borrando as frases e sugerindo as lágrimas vertidas por ela ao escrevê-las, ou a rima visual dos braços que desastradamente provocam a queda de taças, unindo o êxtase dela no beijo apaixonado do casal e a posterior tristeza ébria do abandonado. Rick não precisa dizer o que sente por Ilsa, ele até facilita a fuga dela com o rival, o sacrifício representado pela icônica cena final no aeroporto é a maior declaração de amor da história do cinema. O mundo havia sido irremediavelmente modificado com a guerra, mas os dois conseguiram, na condição de afogados desesperadamente buscando ar, resgatar uma réstia da pureza que ambos desfrutaram outrora em Paris, nada mais importava. O amor venceu o medo. 

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