segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A cultura é mais forte que a espada


Quem acompanha meu trabalho há mais tempo sabe que, durante quatro anos, com brevíssimos hiatos em épocas festivas, escrevia dois textos semanais de temática social/política em minha extinta coluna no site da jornalista Anna Ramalho. Eu era constantemente convidado para repercutir esses assuntos em programas de rádio, os textos batiam recordes de acessos e eram muito compartilhados. Quando releio, percebo que abordei praticamente todos os absurdos que ocorreram nesse longo período, sempre tentando apertar o dedo na ferida, provocar a reflexão. E, de uns tempos pra cá, alguns leitores estão me questionando sobre a razão de eu ter decidido me focar mais nos textos sobre cinema, minha área de atuação, deixando um pouco de lado essa verve mais contundente. Acho que hoje, Sete de Setembro, é um ótimo dia para revelar esses motivos. Eu cansei. O desabafo não inspira o ser humano a realizar gestos nobres, ele apenas se reconhece no reflexo do espelho e segue seu caminho.

O único elemento que verdadeiramente tem o potencial para inspirar modificações estruturais no ser humano é a Arte, a literatura, o cinema, a música, o interesse constante em aprimorar sua cultura. A delicadeza e a elegância são mais fortes que a espada do ódio. E, por mais problemas que nossa nação esteja acumulando, a culpa não reside nos ombros do sistema, do governo, do outro. O povo, o conjunto de indivíduos, é o responsável pelo sistema, que apenas reflete atualmente em seu vidro embaçado o completo desinteresse, a preguiça intelectual de adultos psicologicamente infantilizados que, com raras exceções, aceitam desperdiçar suas vidas em profissões que não suportam, perseguindo cegamente rituais sociais desgastados e incansavelmente buscando a aprovação enquanto produto padronizado de uma indústria falida.

A espada de ódio levantada apenas convoca esse povo para uma guerra que já foi perdida. O amor e o genuíno interesse de um adulto que compreende a importância da parentalidade responsável, a nobreza de um jovem que valoriza mais a leitura de um livro, a sorte da criança que é estimulada a colocar sua criatividade em ação, ao invés de se aprisionar nas telinhas dos tablets. Esses indivíduos podem modificar o sistema em longo prazo. Eu não posso dedicar mais tempo alimentando o conformismo daqueles que querem apenas chafurdar na lama da autocomiseração, tolos que ainda discutem política como se vivessem em uma revista em quadrinhos ambientada em um universo sem tons de cinza, com o herói e o vilão desenhados em tintas fortes caricaturais. Peões facilmente manipulados, joguete dos espertos, que defendem com agressividade um sistema podre e, que, obviamente, só pode fazer nascer de seus galhos frutos doentes.

Não temos absolutamente nada a comemorar no dia de hoje, estamos vivendo um período vergonhoso. Não basta ir às ruas fazer carnaval fora de época, gritando palavras de ordem, quando a engrenagem interna não é substituída. A revolução não será televisionada, ela ocorre no silêncio do quarto de um indivíduo que, contra todas as probabilidades e sem estímulo algum do sistema, decide ser alguém melhor. E o único combustível, a inspiração mais eficiente para esse tipo de mudança estrutural reside na cultura, em todas as suas vertentes. Agora precisamos que o ser humano dê o próximo passo em sua evolução.

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