segunda-feira, 4 de julho de 2016

TOP - 2012


1 - As Aventuras de Pi (Life of Pi), de Ang Lee
"... Pi foi uma criança indiana extremamente curiosa, como todas, disposta a não se contentar com apenas uma explicação para os muitos mistérios da vida. Com sua ingenuidade, aventurava-se nas histórias fantásticas que sua mãe lhe contava sobre os deuses do hinduísmo. Em uma atitude inconsequente, típica da idade, acaba conhecendo um porta-voz do catolicismo, que desnorteia sua mente ao inserir a presença de um único "Deus", que havia enviado seu filho à Terra, para que sofresse pelos seres humanos, atitude que o menino considera ilógica. Ainda não satisfeito, o menino abraça o islamismo, fascinado por seus rituais. Ao ser questionado, afirma com convicção que a fé é uma "casa de muitos quartos". Esses "quartos" podem possuir estilos arquitetônicos diferentes, serem pintados de cores radicalmente contrastantes, porém estão inseridos em uma mesma "casa". As religiões foram formas que os homens criaram para tentar entender o inexplicável, iluminar a escuridão, que com o passar dos séculos, com a ajuda da ciência, torna-se cada vez menos amedrontadora. Todas elas são nascidas da mesma dúvida, do mesmo essencial questionamento: Quem nós somos? De onde viemos? Para onde vamos?..."


2 - Holy Motors, de Leos Carax
"... O homem afirma que todos estão reclamando do evidente cansaço do ator: "Alguns não estão mais acreditando no que estão vendo". Ele então responde: "Sinto falta das câmeras. Elas eram mais pesadas que nós, depois elas ficaram menores que nossas cabeças, mas hoje nem dá para vê-las mais. Eu também acho difícil acreditar em tudo isto". O homem complementa afirmando que bandidos não precisam perceber as câmeras de segurança, para acreditarem que elas estão lá para flagrá-los no ato criminoso. O homem confronta em seu argumento a crença do diretor, representado pelo ator, nostalgicamente preso em uma realidade que não existe mais, questionando-o sobre a razão que o faz persistir no trabalho, mesmo desmotivado com este admirável mundo novo. O ator responde: "Aquilo que me instigou a iniciar nele, a beleza inerente à atuação". Beleza esta que é subjetiva e necessita de pessoas interessadas, capazes, em percebê-la, valorizá-la. Sem um público qualitativo, criterioso, o soar da salva de palmas representará apenas a consequência sonora e mecânica do choque entre duas mãos..."


3 - A Separação (Jodaeiye Nader az Simin), de Asghar Farhadi
"... O roteiro de Farhadi não é sobre os costumes de um povo, o drama familiar de uma separação conjugal, muito menos sobre com quem uma filha irá decidir ficar. O que está em jogo é algo de apelo universal: o questionamento de um modo de vida, colocando luz intensa nos cotidianos rituais que nos desumanizam. Nada nos é explicado sobre a relação de Nader e Simin, somente somos levados a crer que havia extrema cumplicidade entre ambos e um agradável ambiente familiar. Ela busca ir embora, mas a trêmula mão do sogro, num estágio avançado de Alzheimer, tenta impedir. Nos momentos em que se sente indefeso, o fragilizado senhor chama repetidamente pelo nome da nora. Termeh, a abnegada filha pré-adolescente, se mantém próxima do pai, pois sabe que sua mãe nunca a deixaria. Enquanto ela se mantiver com seu pai, Simin poderá levar embora todos os seus pertences materiais, mas deixará seu coração, o que a fará eventualmente retornar. A mãe (reparem na forma como o figurino revela seu desejo por livrar-se do ritual, mostrando sua silhueta em tons coloridos e optando por uma calça jeans) busca proteger sua filha, encaminhando-a para um futuro de mais possibilidades em outra cultura. Ficar ao lado do pai é abraçar o passado, encontrando como mulher o conforto possível nas lacunas de sua religião..."


4 -  Moonrise Kingdom, de Wes Anderson
"... Ao optar deixar de lado a visão cínica de mundo, onde cada passo parecia ser extremamente calculado, entregando-se à inocência passional do cineasta que Anderson provavelmente gostaria de ser quando criança, ele entrega um conto de maturidade muito original, caloroso e genuinamente engraçado..."


5 - Looper - Assassinos do Futuro (Looper), de Rian Johnson
"... É tão difícil encontrar bons filmes atuais sobre viagens no tempo, a ficção científica normalmente está mais para a destruição em massa, do que para as reflexões existenciais suscitadas na literatura dos grandes autores, como Isaac Asimov e Philip K. Dick. Quando aparece um fenômeno criativo como "Looper", ele precisa ser celebrado, questão de honra. O diretor presta uma interessante homenagem ao pouco conhecido "Primer", de Shane Carruth..."


6 - A Invenção de Hugo Cabret (Hugo), de Martin Scorsese
"... Scorsese entrega uma preciosidade atemporal, homenageando o legado inestimável do pioneiro Georges Méliès, resgatando a inocência elegante de um período em que a indústria cinematográfica respeitava mais o público infantil. Somente o cineasta, com seu belo caso de amor com a sétima arte, poderia ser capaz de adaptar a sensível obra de Brian Selznick..."


7 - Operação Invasão (Serbuan Maut), de Gareth Evans
"... O roteiro é simples, o que facilita a inserção do maior número possível de exibições da técnica em lutas demoradas. A princípio, parece que se trata de mais um filme de ação no estilo americano, mas quando as metralhadoras são substituídas pelos punhos, percebemos que estamos diante de um novo clássico no gênero, obedecendo regras próprias..."


8 - Drive, de Nicolas Winding Refn
"... Refn bebeu bastante na fonte do cultuado "Tokyo Drifter", do japonês Seijun Suzuki, adaptando o ótimo livro de James Sallis, um retro-noir que melhora em revisão, quando o terrível elemento da expectativa é eliminado..."


9 - 2 Coelhos, de Afonso Poyart
"... Trabalhado na cara e coragem, com divulgação inteligente nas redes sociais, esse fantástico trabalho de Poyart evidencia que existem possibilidades mais interessantes dentro do tímido gênero de ação nacional. O roteiro esperto utiliza várias referências da cultura pop, sem medo de arriscar, alicerçado na figura poderosa de Alessandra Negrini..."


10 - O Impossível (Lo Imposible), de J.A. Bayona
"... As imagens que resistem na mente após a sessão não são do desastre em si, mas daqueles belos momentos em que completos estranhos se unem em perfeito uníssono na batalha catártica pela vida. Um dos melhores filmes em seu subgênero..."

sábado, 2 de julho de 2016

"Grey Gardens", de Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer


Grey Gardens (1975)
Em 1973, um escândalo ocupou as manchetes dos jornais americanos. Autoridades locais tentaram expulsar mãe e filha de uma mansão decadente no balneário de luxo de East Hampton, alegando falta de condições sanitárias. Uma notícia banal, não fossem elas as ex-socialites Edith Bouvier Beale e sua filha Edie, respectivamente tia e prima de Jacqueline Kennedy Onassis. 

Um dos documentários mais fascinantes da história do cinema, “Grey Gardens” felizmente está sendo resgatado em DVD no mercado de home vídeo nacional. Conheci o filme na minha época de garimpo adolescente numa cópia em VHS pirateada de uma versão importada, com péssima qualidade de imagem, já que a obra nunca havia sido lançada oficialmente por aqui. Não fiquei muito impressionado outrora, a expectativa trabalhou contra, eu entendia a grandeza em sua abordagem, mas acho que não tinha maturidade pra compreender as camadas de interpretação. Revendo hoje, não consigo descrever a sensação quase hipnótica que me conduziu até os créditos finais, tampouco sou capaz de tirar da minha mente a figura de “Little Edie” Beale, com seu belo rosto emoldurado pelo véu, um estilo de vestuário maravilhosamente exótico, dançando pela decrépita mansão, entre guaxinins, gatos e lixo acumulado.

Sem reforçar no melodrama, sem estabelecer julgamento no que mostra ou tentar orquestrar a emoção, apenas registrando o cotidiano de mãe e filha, a câmera dos diretores Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer, consegue captar todo o espectro psicológico das mulheres, simbolizado na decadência do local, paredes que são gradativamente destruídas, uma tela pintada eternizando a juventude luxuosa da mãe servindo como esconderijo tranquilo para um gato urinar. A mulher mais velha, sem pudores, com sérios problemas de locomoção, parece rejuvenescer décadas ao se escutar cantando na vitrola “Tea for Two”, exercitando a grande paixão de sua vida, acompanhando a canção com gestos de menina sonhadora, orgulhosa de ter mantido sua voz treinada, enquanto ajeita como moleca o chapéu na cabeça e, pouco depois, sensualmente penteia os cabelos brancos. A filha, amargurada pelas muitas oportunidades, profissionais e românticas, perdidas ao longo de sua juventude por ter optado ficar cuidando da mãe, protagoniza os momentos mais interessantes do filme. Ela flerta ingenuamente com o operador da câmera, desabafa frequentemente sobre seu desejo de sair daquele lugar, mas também parece encontrar a pura felicidade ao se expressar por meio da música, treinando suas coreografias encantadoras para uma plateia ilusória. “Little Edie” ama a mãe, mas sabe que o egoísmo dela em uma relação destrutiva a privou de todos os passos que tentou dar na sua jornada, aprisionando seu espírito radiante em um mausoléu de lembranças profundamente tristes, um altar vivo de um passado glorioso que sumiu em longa agonia. As muitas discussões parecem reverberar na sujeira dos móveis, no resto de comida no chão, nos cantos escuros, como lamentos repetitivos de fantasmas em vida que assombram seus próprios destinos.

“Grey Gardens” me remete à Norma Desmond de “Crepúsculo dos Deuses” e acho que faz uma excelente sessão dupla temática com “Sonata de Outono”, de Ingmar Bergman.


 * O documentário está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema”, que conta também com uma longa entrevista em áudio legendada com “Little Edie” e alguns vídeos analisando a influência da obra, especialmente no mundo da moda. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Entrevista com Carlos Loffler, neto de Oscarito


Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso com o colega ator Carlos Loffler, neto de Oscarito, um dos maiores nomes da história do cinema nacional. 


O - A sua trajetória é interessante, você iniciou no rock e foi o amor por seu avô que o fez se interessar pelas artes cênicas. Como você analisava essa herança familiar antes e como foi esse turning point? Você se recorda exatamente do momento em que Oscarito te inspirou a redefinir suas metas de vida?

C - Eu comecei nos anos 70, ainda na adolescência cantando Rock 'n ' Roll em bandas de escolas. Por me achar meio tímido, eu achei melhor fazer teatro (Tablado) em 1980 e confesso que foi nesse momento que eu comecei a pesquisar a vida do meu avô e a sua importância no humor no Brasil, até então ele era um avô como outro qualquer, tínhamos poucos momentos juntos, festas natalinas e alguma viagens de férias. Ele morreu em 1970 e eu tinha 10 anos, sendo assim, só fui descobrir o meu avô artista entre o Rock e o Teatro em 1980.

O - Na minissérie "Dercy de Verdade", de 2012, você interpretou seu avô. Imagino que deve ter sido uma emoção única. Conte um pouco dessa experiência. Você teve algum receio de encarar a responsabilidade desse projeto?

C - Interpretar o meu avô na minissérie "Dercy de Verdade" foi realmente muito emocionante e, de certa maneira, uma grande responsabilidade. Foi hilário! Um presente dos deuses! Foi muito divertido, tive a sorte de contracenar com atores que já haviam trabalhado comigo em outros projetos. E ser dirigido pelo Jorge Fernando foi um prazer total. Não tive receio de encarar, pois já tinha homenageado o meu avô em outros programas, como o “Retrato Falado” e “Fantástico”, entre outros. 

O - Hoje, com a maturidade pessoal e profissional, como você analisa a importância de Oscarito no cinema nacional? Por melhor que biógrafos possam captar a influência dele na indústria, ninguém melhor que você pra mensurar esse legado.

C - Oscarito foi o maior cômico que o Brasil já teve, com seu imenso talento, sua disciplina, ele era perfeccionista, teve sucesso principalmente nos filmes da Atlântida, onde o grande público lotava os cinemas. Ele levou o seu humor circense e popular para as telas, irritando os críticos. Ele era amado pelo povo, era um Chaplin brasileiro.

O - Quando entrevistei Alice Gonzaga, guardiã da memória da Cinédia, abordei o triste desinteresse que grande parte da juventude nutre com relação ao passado cultural, atitude que se reflete também naqueles que poderiam efetivamente manter essa história. Os nossos filmes antigos, com poucas exceções, se perdem, não são restaurados. Quando são lançados em DVD, logo ficam fora de catálogo, dificultando o acesso daqueles que tem interesse. E os filmes iniciais com o Oscarito são das décadas de 30, 40, não são cinema mudo dos anos 20. Se essa nação fosse séria, os cinéfilos teriam todo esse acervo em alta qualidade, pra ser estudado e apreciado pelas próximas gerações. O brasileiro quer ganhar prêmio no exterior, mas não valoriza seu passado. Como você vê essa questão? E você tem esperança de que esse panorama seja modificado?

C - Você tem razão, sinto que aqui não existe esse cuidado com os acervos desses artistas geniais. Isso é muito triste. As famílias tem que cuidar dos seus próprios acervos, no caso do Oscarito, nós doamos para o MIS (Museu da Imagem e do Som de São Paulo) as imagens, fotos e documentos. E esperamos que a Cinemateca possa ter mais verbas para preservar os filmes.


O - Seguindo no mesmo raciocínio, como você enxerga a valorização atual das chanchadas e comédias populares da época pela crítica, quando, durante muito tempo, elas eram injustamente tratadas como um produto menor? A qualidade de produção era impecável, os figurinos e os cenários, grandiosos. Os musicais da MGM, da década de 50, muitos deles eram bregas, alguns até inferiores aos musicais que nós fazíamos, porém, ninguém reclamava. Essa reação era uma variação do complexo de vira-latas?

C - Acho que melhorou bastante, hoje em dia comediantes ganham prêmios (rs). Antes eu acredito que existia um certo preconceito com quem fazia humor, ainda mais se tratando das famosas Chanchadas da Atlântida. Eram muito criticados, não achavam cinema sério. Sim, porque fazer humor é realmente muito difícil, mas quanto mais criticas negativas, mais as salas ficavam cheias. E acredito que esses novos comediantes sabem a importância desses filmes e seus artistas.

O - A origem do seu avô era circense. Você acredita que a ingenuidade desse tipo de arte, mantida de certa forma pelos Trapalhões nas décadas de 70 e 80, poderia ser a chave para que a indústria atual conseguisse entregar boas comédias populares, ao invés de popularescas, como parece ser o padrão do gênero hoje? Em outras palavras, você acredita que haveria espaço para Oscarito no cinema de comédia nacional moderno? Se não, o que se perdeu?

C - Acho que sim, teria espaço. Apesar do humor de hoje ser bem mais picante, menos ingênuo, sempre haverá uma turma fazendo um humor mais circense. Perdeu por um lado, mas ganhou por outro, hoje os cinemas ficam lotados pra ver esses novos filmes de comédia. Isso é ótimo!

O - Já que citei o trabalho dos Trapalhões, impossível não comentar sobre sua participação em "Os Trapalhões e a Árvore da Juventude", vivendo um jovem Didi. Como foi essa experiência? Renato Aragão é um grande admirador de Oscarito, vocês conversavam sobre isso?

C - Um presente fazer o Didi no filme "Os Trapalhões e a Árvore da Juventude", uma experiência incrível, participar e conviver com eles, muito divertido, viajamos juntos e tive a oportunidade de levar um lero com eles, principalmente o Renato Aragão, que me contou muito emocionado que o meu avô foi uma grande influência pra ele começar nessa carreira. Incrível!


O - Como era o Oscarito fora do personagem? Você pode nos passar uma imagem íntima de como era o homem em sua vida normal. Tenho certeza que ele era mais interessante que o próprio personagem que criou.

C - Meu avô era um cara muito sério, tímido até demais, não sabia contar uma piada! Mas em cena ele se transformava totalmente, mostrando que pra ser comediante não precisa ter graça o tempo todo. Ele era o oposto, em casa era o Sr. Oscar, nas gravações ele era o Oscarito. 

O - Gosto de "Aviso aos Navegantes", "Matar ou Correr", "Nem Sansão Nem Dalila" e "Barnabé, Tu és Meu", mas considero "De Vento em Popa" (1957) o melhor filme da carreira dele, um dos melhores filmes da história do cinema nacional. Quais são os seus filmes favoritos dele? E as razões?

C - Gosto muito do filme “O Homem do Sputnik”, de Carlos Manga, e todas as paródias. Gostava mais dos filmes do meio do ano, do que aqueles muito carnavalescos, que tinham roteiros mais fracos, divulgando mais as musicas de carnaval da Radio Nacional. Mas meu avô era bom mesmo nas grandes Revistas e no Teatro de Comédia. Ele era maravilhoso, pena que eu não pude ver ele em cena.

O - Carlos, por gentileza, deixe uma mensagem final para os meus leitores, fãs de cinema que valorizam sobremaneira o legado de Oscarito no cinema nacional.

C - Agradeço a todos vocês que são apaixonados por cinema como eu. E agradeço especialmente a todos que fazem cinema nesse país. A luta continua. Viva Oscarito!


Cine Bueller - "Trinity é o Meu Nome", de Enzo Barboni


Trinity é o Meu Nome (Lo Chiamavano Trinità... – 1970)
Carlo Pedersoli, o internacionalmente conhecido Bud Spencer, famoso pelos filmes que fez com Terence Hill, faleceu ontem em Roma aos oitenta e seis anos. Eles chamaram a atenção do público pelo contraste físico na trilogia dirigida por Giuseppe Colizzi, composta por “Deus Perdoa, Eu Não!”, “Os Quatro da Ave Maria” e “A Colina dos Homens Maus”. Seu nome no Brasil é sinônimo de “Sessão da Tarde”, já que marcou presença constante na nossa programação televisiva em filmes como: “A Dupla Explosiva”, “Eu, Você, Ele e os Outros”, que foi rodado no Rio de Janeiro, “Dois Loucos Com Sorte”, “Banana Joe”, “Aladdin”, “Nós Jogamos com os Hipopótamos” e “Dois Tiras Fora de Ordem”, além de “Trinity é o Meu Nome”, que considero o melhor trabalho da dupla. 

Grande parte de sua filmografia se mantém num lugar cativo em minha memória afetiva, mas apenas esse projeto dirigido por Enzo Barboni sobreviveu efetivamente ao teste do tempo, sem o fator da nostalgia que embeleza tudo o que toca. O sucesso dessa comédia salvou a indústria italiana de cinema, mas também fez com que o gênero spaghetti western nunca mais fosse levado a sério. É interessante ressaltar que originalmente o projeto seria um convencional bang-bang, mas o roteiro não agradava ninguém, então o diretor retirou um terceiro protagonista, seguindo um conselho de Spencer, e focou sua atenção na dupla, com liberdade pra avacalhar o que parecia ser uma tragédia financeira anunciada. Spencer também foi o responsável pela ideia de enfatizar comicamente a diferença física dos dois protagonistas, transformando-os em irmãos. A trama traz referências de “Os Brutos Também Amam”, “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, “Caravana de Bravos” e até mesmo de “Os Sete Samurais”.

Ao som da excelente canção-tema composta por Franco Micalizzi, somos apresentados ao esfarrapado Trinity (Hill), confortavelmente arrastado por seu cavalo em uma liteira improvisada, pés descalços, aba do chapéu protegendo da luz do sol, o extremo oposto da figura heroica que os faroestes eternizaram no inconsciente coletivo do público. O prato de feijão que ele devora como um animal esfomeado na taberna, viraria um símbolo do personagem e o título do subgênero: fagioli (feijão) western. O sorriso debochado ao escutar que é conhecido como o mais rápido gatilho do Velho Oeste, seguido por uma escrachada demonstração, atirando displicentemente pra trás e sem olhar para o alvo, a desconstrução inteligente de uma fórmula que já estava desgastada. O seu irmão Bambino, o novo xerife da cidade, um gigante abrutalhado e gentil vivido por Spencer, nomeado por Trinity como “mão esquerda do diabo”, lê o seu jornal tranquilamente enquanto um trio de malfeitores estereotipados o ameaça, uma composição visual que coloca literalmente em confronto o clássico e a paródia. A história é simples, a marca registrada do filme são as longas pancadarias em grupo coreografadas pelos mais experientes dublês italianos, aquele estrondoso tapa de mão aberta que induz ao riso imediato, uma característica quase circense que o povo brasileiro identificou como similar às peripécias dos Trapalhões. 

Com o falecimento de Bud Spencer, morre mais um pedaço importante da minha infância. Que o seu legado artístico siga divertindo as próximas gerações. Que nunca nos esqueçamos...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

"Debi e Lóide - Dois Idiotas em Apuros" e "Debi e Lóide 2", de Peter e Bobby Farrelly


Debi e Lóide – Dois Idiotas em Apuros (Dumb and Dumber – 1994)
Debi e Lóide 2 (Dumb and Dumber To – 2014)
Nada é mais difícil que fazer rir, dar uma boa gargalhada então, mais difícil ainda! Exatamente por isso o gênero da comédia sempre foi menosprezado pela crítica e os seus gênios nunca recebem o aval de premiações. Uma comédia de qualidade requer talento, sensibilidade no timing, um instinto específico para desafiar as expectativas e uma boa dose de carisma. Como não ousam enfrentar esses artistas, um esforço é feito na intenção de minimizar seus trabalhos, marginalizando o humor como arte menor, normalmente elevando dramas umbilicais modorrentos à posição de destaque intelectual, com seus defensores formando uma espécie de maçonaria de medíocres prolixos, abusando de chavões batidos como: “não é um filme para todo mundo”. E, sem pensar duas vezes, troco qualquer exercício pretensioso desses diretores por uma tarde divertida vendo “Debi e Lóide”.

O filme de Peter e Bobby Farrelly é primoroso em sua capacidade maravilhosa de desprezar todos os elementos narrativos que garantiriam a respeitabilidade dramática de sua trama, que envolve um caso de sequestro em que o processo da entrega da mala com o dinheiro do resgate é interrompido por uma pessoa alheia ao ocorrido. O homem comum que se vê inserido em uma situação perigosa, como nos melhores suspenses de Hitchcock, passa a ser então perseguido pelos criminosos. Mas quando esse homem comum é interpretado por Jim Carrey, no auge de sua carreira, somos presenteados com um road movie de ritmo implacável e movido por suas caretas, o deboche com a formalidade ritualística que aprendemos desde cedo a respeitar. Ao invadir a casa dele, o gângster afirma ser um desperdício destruir o local como forma de ameaça, já que, bagunçado como está, o dono sequer perceberia alguma modificação. Quando o herói conquista em seus sonhos o carinho da mocinha, belíssima Lauren Holly, ele faz questão de satisfazer o voyeurismo natural dos cinéfilos levantando rapidamente a saia dela. O estilo sem polimento dos diretores cai como luva nessa desconstrução, unindo o humor mais grosseiro, simbolizado no primeiro filme pelo periquito sem cabeça vendido para uma criança cega, com a pureza ingênua das anedotas que escutamos na infância. O toque mais esperto nos dois filmes é fugir da armadilha melodramática abraçada por boa parte das comédias de sua época, uma inconsciente maneira do roteiro tentar se desculpar por ser engraçado e conquistar apreço dos pseudointelectuais que, na necessidade constante de autoafirmação, cospem naquilo que é popular. Os irmãos Farrelly, analisando o conjunto de obra, demonstram orgulho e segurança em seu ofício. E estão bem acompanhados, já que tanto o personagem vivido por Jeff Daniels, o melhor amigo e parceiro de pegadinhas, como o próprio Carrey, em seus cortes de cabelo exóticos nos remetem aos Três Patetas, representantes dessa graciosa irresponsabilidade cômica.


Acho curiosa a recepção negativa com o reencontro da dupla em “Debi e Lóide 2”, vinte anos depois, uma celebração muito pedida pelos fãs do original. O que os críticos esperavam? Muito se escreveu sobre a atitude dos protagonistas, praticando as pegadinhas mais escatológicas. É a evolução natural, atualizada para o humor que é atraente na sociedade hoje, basta você analisar o tipo de brincadeira que faz sucesso na internet, gente que ganha dinheiro comendo baratas e se machucando, a tolice hilária de youtubers como os Irmãos Piologo, toda essa geração que cresceu com Jackass e Pânico. Se você considera o humor dessa sequência menos inteligente, olhe com mais atenção o mundo à sua volta. Não podemos culpar o carteiro pelo conteúdo da carta, nem o espelho pelo reflexo que nele enxergamos. Temos a reutilização de gags, o rápido passeio no icônico carro-cachorro e o terceiro ato agitado que homenageia a estrutura das comédias da década de noventa, em que qualquer história conduzia a uma correria desenfreada em bobas cenas de ação bagunçadas, herança dos clássicos no gênero da década de sessenta, como “O Que é Que Há, Gatinha?” e “Deu a Louca no Mundo”. Os diretores dessa vez demonstram ainda menos apego narrativo, transformando tudo em uma grande pegadinha, o que simboliza maior segurança no estilo, o que considero um mérito relevante.