quinta-feira, 6 de março de 2014

James Stewart


Celebro a arte de um artista único em sua área, alguém que conseguiu em vida representar as facetas mais nobres do ser humano: James Stewart. Ele foi considerado por seus colegas na indústria como a epítome da elegância. Sua natureza era genuinamente íntegra, levando-o a não se furtar de expor suas opiniões, suas verdades, mesmo quando havia grande chance de que elas caminhassem contra o senso da maioria. Falava abertamente contra o processo de colorização de filmes clássicos, algo interessante para a indústria, durante a década de oitenta, como uma forma de protestar contra o que considerava uma falta de respeito com os profissionais que haviam trabalhado naquelas obras. Amava especialmente, dentre todos os seus papéis, o que interpretou no belo “A Felicidade não se Compra” (It´s a Wonderful Life – 1946) de Frank Capra. O personagem que ele defende neste clássico e em outro do mesmo diretor: “A Mulher Faz o Homem” (Mr. Smith Goes to Washington – 1939), podem ser considerados reflexos fiéis de sua conduta em vida. Seja o generoso George Bailey, ou o corajoso Jefferson Smith, ambos se arriscam a perder a sanidade, mas não admitem que seus valores tombem ou sequer se curvem perante o que consideram errado.

Quando recebeu o prêmio honorário por sua carreira no Oscar de 1985, afirmou visivelmente emocionado: “o maior prêmio que já recebi, foi perceber que mesmo após todos estes longos anos, eu não fui esquecido”. A plateia, composta por membros da nova geração e por velhos colegas dele, não conteve a emoção e recebeu-o de pé, aplaudindo-o entusiasticamente por longos dez minutos. Hoje em dia essas cerimônias e a própria indústria encontram-se tão artificiais que situações como essas não voltarão a ocorrer, porém, houve uma época em que maior valor era dado aos artistas que subiam ao palco, do que ao tempo de seus discursos. Os membros da plateia também reagiam emocionalmente, preocupando-se menos em como iriam aparecer quando as câmeras os focalizassem. Ídolos que hoje são feitos de barro, mais preocupados com o lobby do tapete vermelho do que com a real função dessas premiações: reverenciar de forma justa o trabalho dos colegas. A forma como Cary Grant se referiu a ele, enquanto chamava-o ao palco, já explicita o sentimento que o homenageado de hoje conquistou: “um homem que todos nós amamos, respeitamos e admiramos”. Não existe forma mais digna de se chegar ao crepúsculo de uma vida.

Stewart me fez acreditar em Jefferson Smith quando assisti pela primeira vez, ainda na pré-adolescência. Não somente ele me inspira de forma lúdica, como vivo mediante o mesmo código de valores que o personagem tão arduamente batalhou para fazer valer. No famoso discurso final do personagem no julgamento, exaurido física e mentalmente após horas falando ininterruptamente, apenas seu caráter o mantinha de pé. Emociono-me sempre que assisto George Bailey retornar à sua casa e ternamente beijar o puxador quebrado da escada, que antes lhe simbolizava a decadência de seu estilo de vida. Sendo bastante sincero, basta lembrar-me de James Stewart para sentir uma saudade extrema de uma época que não vivi, onde pessoas como ele conseguiam impor-se em um mundo mais ético e elegante. Parabéns, Jimmy! Eterno será, enquanto houverem artistas trabalhando, guiados pela apaixonante devoção por justiça.

Como pudemos nos esquecer de Dudley Moore?


Que mundo medíocre este em que vivemos, mundo em que se acredita que todos são substituíveis. Refilmagens que abordam diferentes aspectos de seus originais são válidas, mas o que anda acontecendo em Hollywood é, com o perdão da expressão, um estupro intelectual. A razão do meu pequeno desabafo é a refilmagem “Arthur – O Milionário Irresistível”, que em seu lançamento obteve internacionalmente acachapantes críticas negativas. Como puderam cometer esta atrocidade? Substituir Dudley Moore, John Gielgud e Liza Minnelli por um inadequado Russel Brand, uma deslocada Helen Mirren e uma insossa Greta Gerwig? A elegante e atemporal trilha de Burt Bacharach foi substituída por um arremedo de composições artificiais e sem nenhum refinamento.

Arthur – O Milionário Sedutor” (Arthur – 1981) deveria estar sendo relançado nos cinemas, para que os jovens de hoje tivessem contato com o incrível artista que foi Dudley Moore. Provavelmente esta geração que se alimenta desses “McLanches Felizes”, que Hollywood requenta, embala e vende como se fossem algo de valor, nem devem ter ouvido falar dele, preocupados que estão em repercutir as polêmicas midiáticas do dia (logo esquecidas, assim que outra é iniciada), não sobra tempo para olharem para trás e vislumbrarem o início da estrada. Apenas interessam as curvas à frente, talvez por isso ocorram tantos acidentes... Mas a analogia pode me levar a perder o foco do desabafo, voltemos a ele.

Dudley era um baixinho com fama de mulherengo e que amava tocar piano. Compunha com a mesma leveza com que atuava, como se o fizesse desde o berço. Em seus concertos, costumava descontrair o público com versões bem humoradas de seus clássicos favoritos, mas levava muito a sério este dom. Seu carisma em cena era notável, contagiante, encontrando seu apogeu criativo na figura do beberrão Arthur Bach, um milionário mimado que busca encontrar o amor verdadeiro. No início da década de noventa, idealizou um projeto televisivo (“Concerto!”) que ambicionava a aproximação passional entre o grande público e a música clássica. Problemas decorrentes de um problema neurológico, paralisia supranuclear progressiva, o levaram a perder gradualmente sua coordenação motora, tornando-o incapaz de realizar sua maior paixão: O piano. Faleceu aos sessenta e seis anos, em 2002, injustamente esquecido pelo grande público.

Quem é Russel Brand? Pesquisando encontrei as seguintes informações: Ele ficou conhecido após apresentar um spin-off  do programa “Big Brother”, entre participações em filmes “marcantes” como “Ressaca de Amor” e “O Pior Trabalho do Mundo”. Descreve-se como “um Willy Wonka sadomasoquista” e causou algumas controvérsias nos meios de comunicação britânicos (hoje em dia é moda e todo mundo acha bonito), que o levaram a ser demitido da rede BBC. Ah... Ele também foi casado com a cantora pop artificialmente fabricada Katy Perry.

Para retirar o gosto amargo da desesperança, irei rever “Arthur – O Milionário Sedutor” e sei que irei me emocionar novamente no diálogo final entre Moore e Gielgud. Escutarei a bela “The best that you can do” enquanto o mundo parece revirar-se de cabeça para baixo, ela será a trilha sonora perfeita para este futuro apocalíptico que se faz notar no horizonte... Que venham as refilmagens de “E o Vento Levou”, “Casablanca”... Nada mais é sagrado.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Carta Aberta ao Leitor

A cada ano, mais avanços tecnológicos nos distanciam dos elementos humanos, aproximando-nos de um futuro onde tudo se consegue em um piscar de olhos. Distâncias geográficas perdem seu valor, continentes se aproximam, enquanto nos distanciamos cada vez mais de nossos próprios corações. Parece roteiro de filme apocalíptico, mas é algo real e que nos faz questionar: qual será o futuro da Sétima Arte?

Antigamente o cinema simbolizava mais do que apenas um local onde se exibiam filmes, era parte de um ritual, uma celebração da humanidade. Pessoas das mais distintas origens e índoles se reuniam em um mesmo ambiente, para algumas horas de puro entretenimento. Com os avanços tecnológicos, aquele receptáculo de emoções foi perdendo lugar para a TV, para o VHS, para o Blu-ray. Hoje fica difícil até encontrar os bons cinemas de rua e teatros, já que quase todos viraram igrejas evangélicas. Quem diria que no espaço onde Chaplin demonstrou ao mundo sua genialidade e pureza de espírito, hoje se ouviriam os berros de falsos endemoniados? Esse é o legado que deixaremos ao amanhã? Eu acredito em um futuro melhor, foi esta a esperança que aprendi a alimentar desde criança com a Sétima Arte. Vejo a humanidade utilizando a tecnologia sem limites, porém respeitando os patrimônios culturais. Em sonhos imagino as enormes placas de “sessão de descarrego”, dando lugar novamente aos nomes de artistas em néon. Uma ingenuidade “Hitchcockiana” em pedir que ninguém conte aos amigos o final do filme, para preservar respeitosamente a emoção de todos. Eu acredito no futuro desta Arte, assim como acredito na evolução do ser humano.

“Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés.“
(Joseph Joubert)

Conheço pessoas que se dizem apaixonadas por cinema, mas que desconhecem toda e qualquer forma de Arte anterior ao cinema em cores. Visitam a videolocadora religiosamente a ponto de terem feito amizade com o atendente, porém somente alugam os lançamentos das seções de “Ação” e “Comédia”. Alguns escolhem mediante a capa ou o ator principal, influenciados quase sempre pelos dizeres em caps lock que promovem: “O MELHOR FILME DO ANO!” Nove entre dez obras carregam essas citações em suas capas. Fazendo um balanço anual, possivelmente essa pessoa assistiu muito mais produções que um espectador casual, independente que esta lista seja formada por 50% de produções do Steven Seagal (ou seus similares), 40% de comédias popularescas americanas e uns 10% de romances açucarados, que teve que alugar por ordem da esposa ou namorada. Esse homem pode ser considerado um cinéfilo legítimo?

Caso paremos para analisar, enquanto esse comportamento é aceitável entre espectadores, torna-se um martírio constatar que muitos cineastas atuais (no mundo todo) pensam da mesma forma. A grande realidade é que existe uma boa parcela de diretores e produtores (operadores desta indústria) jovens, que atuam hoje no cinema mundial e possuem um ínfimo conhecimento sobre a história da Sétima Arte. Para cada cinéfilo devotado como Quentin Tarantino, existem dez incompetentes e oportunistas. Não faço parte daquele núcleo de críticos de cinema “chatos”, que idolatram Godard e desprezam obras que visam apenas o lucro financeiro. Sendo bem sincero, entre Godard e Billy Wilder, sem pestanejar escolho a filmografia de Wilder. Porém acho essencial conhecer profundamente Godard, Ozu, Tarkovsky e Buñuel, entre tantos outros. Como podemos avaliar a qualidade de um avião atual, sem respeitar os esforços pioneiros de Santos Dumont? O cinéfilo deve amar e respeitar o passado tanto quanto o presente. Assistir “Acossado” (À Bout de Souffle – 1960), mesmo que seja para dizer que não gostou ao final. Vê-lo em perspectiva, aprender e entender as razões que o fizeram ser revolucionário em sua época.

Não sei vocês, mas eu ainda consigo lembrar a emoção de adentrar uma videolocadora na minha infância. Mesmo sem saber explicar racionalmente a razão daquele sentimento na época, tenho hoje certeza que tinha algo a ver com a oportunidade de assistir a vida, ao invés de vivê-la. Eu esperava a semana toda passar, para que acompanhado do meu pai, numa Sexta-Feira à noite, caminhar até aquele local mágico e colorido, cheio de pôsteres e sonhos, onde reencontrava meus “amigos imaginários”. Sempre era uma batalha para conseguir levar algum filme de terror, mas os sustos e o frio na barriga ao assisti-los compensavam o esforço. Lembro que ficava frustrado porque os filmes alugados nunca vinham em suas capas originais e sim em umas pretas, sem nem ao menos os títulos. Vocês devem entender essa mania de ficar analisando cada detalhe da arte de capa e contracapa como se elas fossem um artefato sagrado. Uma das minhas diversões, já que sempre adorei escrever (eu era aquele único aluno na classe que ficava feliz quando a professora mandava comprar algum livro), era criar continuações de filmes e prequels. Acredito ter sido pioneiro nessa arte das prequels (risos), que hoje dominam o cinema americano. Enfim, por mais que as minhas referências me tornassem o alvo perfeito para bullying, não trocaria minhas frequentes idas à biblioteca da escola por aqueles papos insossos sobre futebol e piadas de duplo sentido.

Alguém concorda comigo que o povo desaprendeu a ir ao cinema? Lembro-me de assistir filmes nas salas de rua, após esperar na fila por horas, conseguir sentar e aproveitar a sessão com tranquilidade. As filas eram compostas por amigos em potencial, pessoas que estavam ali pelo mesmo motivo que eu. Podiam não ser cinéfilas inveteradas, mas queriam se divertir com o que iriam assistir e não fazer palhaçadas para tentar divertir (ou atrapalhar) os outros. Assistir cinema hoje em dia é uma experiência difícil para mim, chego a sentir dor física, além de profunda vergonha alheia, quando noto a entrada sempre muito barulhenta de grupos de adolescentes mal educados em um recinto que para mim é sagrado. Antigamente os “lanterninhas” se ocupavam de retirar um ou outro bêbado que aparecia nas sessões, porém hoje em dia teriam muito mais trabalho. Gargalhadas histéricas, palavrões ditos com tolo orgulho e aquela ignorância nada sutil. Inicia o filme e todos os celulares começam a tocar. Aquele “rei do mundo” na sua frente se achando no direito de propagar sua falta de cultura ao tentar debochar de quase todas as cenas. Nunca me esqueço de assistir “Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” e ouvir gargalhadas nas cenas mais emocionantes. Nessas horas me vem uma vontade de que caia uma bomba em cima do sujeito, porém a razão me interpele e começo a analisar os motivos daquela enorme falta de respeito. Penso que o cinema, para essas pessoas, valha menos que uma rodada de cerveja entre amigos. O respeito que aprendi a ter com a Arte, assim como o respeito com o direito dos outros, é algo opcional. Não acredito que venha da família, mas sim do livre arbítrio de um ser humano querer ser alguém melhor ou pior. Para um cinéfilo, o valor do ingresso é um investimento. Ademais, vejo refletido no semblante desses mal educados, as faces daqueles colegas de escola que no passado já exerciam plenamente a deselegância e a ausência de caráter.

E o futuro? A Sétima Arte é eterna, mas e o público? Existe um enorme foco no artifício do 3D, enquanto que a precariedade crescente dos roteiros não é notada. Sempre ouço que devemos ter dois pesos e duas medidas ao analisar um filme. Caso a obra seja feita para divertir, deve ser analisada com os olhos críticos cerrados. Puro absurdo. Desde quando nós aceitamos nos divertir com produtos desleixados e de má qualidade? Eu não coloquei meu nome nesse “abaixo assinado”. Temos que elevar o nível, pois deve partir de nós essa atitude. Não assistam passivamente a mediocridade brandir suas lanças. Não compactuem com a falta de educação. Somente dando o exemplo é que redirecionaremos o futuro.

"Complexo de Vira-Lata" ou Aceitação Velada da Incompetência?

Estava revendo o ótimo "O Palhaço" e acabei me lembrando de um evento que me causou desgosto alguns anos atrás. Em uma aparição pública na Mostra de Cinema de Tiradentes, Selton Mello confirmou ter sido convidado para aparecer em “Star Trek - Além da Escuridão” de J.J. Abrams, porém declinou da oferta porque iria ser apenas mais um uniformizado a bordo, na tripulação da nave Enterprise. A declaração não deixava claro se ele seria apenas um figurante ou se o seu personagem teria ao menos alguma fala, o que já seria muito, se pensarmos que a eterna Uhura, Nichelle Nichols, por vezes nem isto tinha nos episódios da Série Clássica. Quando soube desse fato, lembrei-me de outras declarações semelhantes dadas por artistas brasileiros (se não me falha a memória, Fernando Meirelles afirmou outrora ter recusado dirigir um projeto da franquia "007"), percebendo nelas algo sintomático. Onde está o orgulho em recusar participação, por ínfima que seja, em um projeto da maior indústria de cinema do mundo? Não é comum escutarmos artistas publicamente informando terem recusado participações em filmes indianos ou chilenos, somente nos blockbusters americanos ou britânicos.

A mentalidade complexada de grande parte dos cineastas nacionais de décadas passadas costumava afirmar com orgulho “não se vender". Lembro-me da pressão que a mídia fez em cima de Rodrigo Santoro, quando ele aceitou um pequeno papel sem falas no filme “As Panteras 2”. O Selton recusou participar de uma produção que celebrava um legado de mais de quarenta anos, respeitado no mundo inteiro, mas não pareceu incomodado em ter seu nome ligado à série: “A Mulher Invisível”. Uma pessoa tem o direito de recusar participar do que achar conveniente, mas não consigo entender esse senso criterioso, que rejeita com pompa uma oportunidade (mesmo que pequena, uma ótima vitrine) na maior indústria de cinema, mas aceita protagonizar uma aberração como “Federal”. Por outro lado temos o caso de Angelina Jolie, uma atriz consolidada mundialmente, que pediu para trabalhar com o diretor Pedro Almodóvar, demonstrando incrível humildade e tremendo bom gosto.

Pensando em tudo isso, lembrei-me de quando revi “Orfeu Negro” (1959) de Marcel Camus e constatei o quanto ele foi injustiçado nesse País. Enquanto ele é visto com respeito no exterior, aqui é ignorado. As críticas mais comuns ao filme, quando vindas de brasileiros, afirmam que a obra peca por ser uma ofensiva caricatura (o mesmo ocorreu na animação despretensiosa de Carlos Saldanha: “Rio”). Como podemos explicar essa rejeição por parte de alguns críticos brasileiros? “E o Vento Levou” não apresenta uma visão caricatural dos americanos na época da Guerra Civil? Os mesmos críticos que salientam esta fragilidade no filme de Camus parecem não perceber o mesmo problema no clássico de Selznick. Poucas vezes li algum crítico nacional reclamar das interpretações caricaturais nos filmes de Spike Lee, ou tirar o mérito de “Nascimento de Uma Nação”, pela visão horrenda e racista (era o contexto da época) do diretor D.W. Griffith.

Tenho uma teoria para as razões por trás desse ódio velado por “Orfeu Negro”: ele fez sucesso. Brasileiro metido a intelectual odeia quem faça sucesso popular. Nós adoramos destruir nossos ídolos. Procurar defeitos, desvalorizar e celebrar seu esquecimento. Elevá-los aos píncaros da glória, somente para “chutar a escada” e nos deliciarmos assistindo-os desabar. Tem diretor brasileiro que quando começa a fazer sucesso e receber convites para trabalhar no exterior, adora inflar o peito e dizer com orgulho que negou tal desonra. “Eu? Filmar a nova aventura de 007? Nunca!” José Padilha fez fama nacional com o ótimo “Tropa de Elite”, mas foi só ele dizer que iria dirigir a refilmagem americana de “Robocop”, que já teve gente dizendo que ele não era tão bom assim. Em breve, considerando a qualidade da produção, o povo irá afirmar que ele se vendeu tal qual Pelé. Aliás, enquanto na Argentina o povo ama Maradona, mesmo ele sendo um péssimo exemplo como homem, por aqui o que mais encontramos é gente criticando o Pelé, procurando (e dando máxima atenção a) qualquer deslize, por ínfimo que seja, misturando o profissional com o pessoal.

Somos um povo complexado por natureza. Se a Lady Gaga fosse brasileira, seria vítima de gozação dos intelectuais por suas letras, tal qual a Banda Calypso. Se o 50 Cent fosse brasileiro e cantasse em português: “quem transa comigo, transa com um cafetão”, seria visto com repúdio pelos nossos críticos musicais, os mesmos que debocharam do Michel Teló e seu “Ai se eu te pego!”. Porém o que vemos é um completo silêncio por parte deles. Quem cala consente? Enquanto os estrangeiros celebram, exageradamente por vezes, seus personagens vitoriosos e os nossos (como foi o caso com “Senna”), os brasileiros celebram os pobres coitados.

O panorama artístico nacional é vergonhoso. Celebramos os valores mais baixos, os personagens mais medíocres. “Cidade de Deus” já caminha para um futuro esquecimento, com críticos que já não o acham aquela maravilha que parecia antes da consagração mundial. Ninguém mais fala de “Central do Brasil”, mas tenho certeza que seria muito pior se ele tivesse ganhado o Oscar. “Orfeu Negro” foi dirigido por um francês, mas é essencialmente um filme brasileiro. Recebeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas levou tanta pedrada dos críticos da época, que hoje poucos são os brasileiros que conhecem sua existência. A campanha de desvalorização foi tão bem feita (e tão injusta) quanto a que a crítica musical fez com Wilson Simonal na década de setenta.

Qual a razão desse nacionalismo tolo? Normalmente disseminado pelas mesmas pessoas que consomem diariamente produtos estrangeiros com muito orgulho. Pensemos grande e sejamos cidadãos do mundo.

Cine Bueller - "Saudades de Um Pracinha"


Saudades de Um Pracinha (G.I. Blues – 1960)
Tulsa McLean (Elvis) é um soldado cujo maior sonho é ser dono de um "Night Club". Para conseguir o valor em dinheiro para que ele possa abrir o seu empreendimento, ele aceita participar de uma aposta, onde, na qual, ele deve passar uma noite com uma bailarina famosa (Juliet Prowse) no local, porém, os dois acabam se apaixonando.


Elvis Presley havia conseguido provar aos críticos seu talento como ator em seu filme anterior: “Balada Sangrenta” (King Creole – 1958), mas perdeu dois anos sendo domado, acorrentado ao serviço militar, longe de seu público. Com o sucesso avassalador de “Ama-me Com Ternura” (Love Me Tender – 1956), uma produção de baixo orçamento, os estúdios perceberam que havia um forte potencial financeiro nos projetos direcionados aos adolescentes americanos. Os produtores entenderam o clamor dos jovens, interessados principalmente em retirá-los de frente da televisão, essa invenção que estava tirando o sono dos executivos de cinema, focando toda atenção nesse cantor extremamente carismático que os levava a assistir diversas vezes suas produções, qualquer que fosse o nível do entretenimento em que estivesse inserido. E, pelo menos em seus primeiros flertes com a Sétima Arte, o nível era bastante respeitável. Seus filmes seguintes: “A Mulher Que Eu Amo” (Loving You – 1957) e “O Prisioneiro do Rock and Roll” (Jailhouse Rock – 1957) criaram a fórmula que seria seguida por vários produtos similares, mas sem o elemento principal. Veio então o exílio militar e uma década posterior com mais baixos que altos.

“Saudades de Um Pracinha” era o quinto filme em sua carreira, um retorno muito aguardado pelos fãs e curiosos, algo que motivou até mesmo um especial televisivo onde Frank Sinatra se encarregava de dar as boas-vindas ao pracinha roqueiro. A Paramount não poupou despesas, aceitando o risco de que os jovens americanos já não estariam mais tão interessados no rapaz de Tupelo, Mississippi. O produtor Hal Wallis se encarregava de filmar algumas locações na Alemanha, enquanto Presley ainda tinha seis meses de serviço militar pela frente. O investimento era considerável, acreditando que a ausência do astro na mídia durante aquele longo tempo teria servido para aumentar o mito do artista. O diretor escolhido foi o veterano Norman Taurog, que havia sido um dos responsáveis pelo clássico “O Mágico de Oz”, além de ter comandado comédias de Bing Crosby e da dupla Martin/Lewis, como “O Meninão” e “O Rei do Laço”. Em entrevistas à época das filmagens, o diretor louvava a educação do jovem e sua sensibilidade como bom ouvinte, qualidade essencial de um bom ator. Sua relação com Elvis foi tão bacana que ele acabaria dirigindo mais oito produções protagonizadas pelo “Rei do Rock”.

O conceito inicial previa uma comédia musical com uma trilha sonora que abraçasse diversos gêneros, evidenciando a versatilidade de um cantor que havia aprimorado bastante seu talento desde seus primeiros escandalosos rebolados em rede nacional. Com impecável entrega, Elvis revisitou o rock de Carl Perkins “Blue Suede Shoes”, a balada romântica em “Pocketful of Rainbows”, e foi da música de ninar “Big Boots” a uma versão da clássica opereta “Barcarola” de Jacques Offenbach: “Tonight’s So Right For Love”, passando com desenvoltura por “Wooden Heart”, baseada em uma tradicional canção folclórica alemã, além da marchinha militar “Didja Ever”, sempre com um sorriso contagiante no rosto. É interessante notar o gradativo desinteresse do astro ao longo de sua década em Hollywood, especialmente após 1965, onde era cada vez mais raro perceber alegria genuína em suas atuações.

O filme foi um sucesso de bilheteria, tendo recebido críticas favoráveis e até uma importante indicação ao “Writers Guild of America”, como “Melhor Roteiro de Musical”, além da indicação ao Grammy como “Melhor Trilha Sonora”. A parceria em cena com a bela dançarina Juliet Prowse pode ser considerada apenas um degrau abaixo da química que ele alcançaria anos depois com Ann-Margret em “Amor a Toda Velocidade” (Viva Las Vegas – 1964). Era indiscutível que aquele garoto rebelde que havia revolucionado o mundo com sua música havia se tornado um adulto sofisticado, um genro que toda mãe gostaria de ter. Mas essa constatação não diminui o brilho de seu carisma em cena, capaz de “carregar nas costas” uma produção. Como ator, Elvis estava em sua melhor fase, que completaria nos seguintes dramas “Estrela de Fogo” (Flaming Star – 1960) e “Coração Rebelde” (Wild in the Country – 1961), ambos para os estúdios Fox. Infelizmente, graças em grande parte à ambição desenfreada de seu empresário Coronel Parker, ele nunca mais encontraria papéis desafiadores, tendo que assistir o lento minguar de seus sonhos como astro de cinema.

Claro que nada disso importava para o garoto que voltava correndo da escola para assistir o filme na “Sessão da Tarde”, tentando imitar as danças enquanto devorava um saquinho das “Balas Boneco”. Anos mais tarde, consigo recordar a emoção que senti ao me surpreender com ele sendo exibido num “Corujão” de Sexta para Sábado. Já não existiam mais as “Balas Boneco”, mas a lembrança do sabor ainda me causava água na boca. Bons tempos em que a Rede Globo valorizava Elvis Presley, com generosa exibição de seus filmes, não Justin Bieber.