quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Destaques do "Festival do Rio 2016"


Sieranevada
A longa duração, quase três horas, pode afastar o público em um festival com tantas opções, mas quem der uma chance a “Sieranevada” será recompensado pelo diretor romeno com uma aula de narrativa minimalista, ambientada quase que toda dentro de um apartamento, uma das melhores experiências que tive até o momento, aquele tipo de roteiro que fica martelando em sua mente horas depois da sessão. Como crítico e cineasta, sempre valorizei o filme de câmara, então eu aplaudo o resultado obtido por Cristi Puiu, que já havia me encantado em 2005 com o brilhante “A Morte do Sr. Lazarescu”. 

O senso de humor não convencional é pacientemente trabalhado, as sequências se desenvolvem praticamente em tempo real, o que permite um senso de intimidade imediato com os personagens. O título propositalmente nonsense potencializa o absurdo da vida, a falta de sentido. A trama inicia mostrando a reunião de familiares no apartamento em honra à memória de Emil, marido da sexagenária dona da casa, falecido quarenta dias antes. Esses estranhos para o espectador, que ocupa um lugar de destaque voyeur, discutem assuntos genéricos, são levados pelo álcool a revelar verdades constrangedoras, demonstram insegurança, constrangimento e arrogância, desfilam argumentos revoltantes e banalmente inofensivos sobre temas polêmicos como o ataque ao Charlie Hebdo, ou teorias de conspiração sobre o ataque ao World Trade Center, mas sempre com credibilidade, o elenco é afinado. Conhecemos esses personagens na medida em que analisamos as reações deles nas mais tolas discussões, variadas situações aparentemente menores que estabelecem metáforas preciosas, como a do alimento que nunca é servido. 

O trabalho de câmera parece querer induzir um estado de anestesia no espectador, sem dinamismo, o que pode ser terrível para os mais ansiosos, Barbu Balasoiu reflete nas escolhas o desejo contemplativo do diretor. A mensagem mais forte é a de que, por mais desejo que a pessoa tenha em se destacar, por mais radicalmente oposta ideologicamente aos seus amigos e familiares, há nela um interesse maior em ser identificada como parte do coletivo, uma necessidade vital que a obriga a rejeitar certas verdades absolutas e defender discursos vazios como forma de funcionar em sociedade. O que nos define é a capacidade para o “jogo de cintura”. 

Hooligan Sparrow
O melhor documentário que vi nesse festival, um primor em sua concepção e execução, segue a luta da corajosa chinesa Ye Haiyan, conhecida como Hooligan Sparrow, ativista contra a exploração sexual da mulher, enfrentando a censura do governo e a estupidez machista da sociedade. O registro, por vezes, precisa vencer obstáculos, com a diretora adotando qualquer meio possível para flagrar as situações, uma tática do jornalismo de guerrilha, o que injeta um nível maior de emoção à filmagem, resultando em momentos verdadeiramente perturbadores.

A diretora Nanfu Wang parte de um caso de pedofilia ocorrido em uma escola em 2013, para explorar a absurda impunidade garantida em grande parte pelo silêncio criminoso das forças policiais. É impressionante constatar como as autoridades tentam de tudo para impedir o trabalho daqueles que lutam para revelar ao mundo as atrocidades cometidas internamente. Como deter algo que parece estar enraizado na cultura do povo? Lá, a cultura do estupro não é frase de efeito usada como cortina de fumaça política, mas uma realidade intimidadora e deprimente. As inserções quase bucólicas mostrando um pouco mais da origem rural de Haiyan, ainda que quebrem consideravelmente o ritmo e revelem pouco sobre a ativista, funcionam como necessário respiro para o espectador. O desfecho ambientado em um museu é de uma tremenda beleza poética, representando a força daquela que resiste.

Um filme importante e que deveria ser abraçado pelo grande público, caso os documentários fossem respeitados e recebessem lançamentos dignos em nossas salas de cinema. 

Capitão Fantástico (Captain Fantastic)
Viggo Mortensen é um dos melhores atores de sua geração, “Capitão Fantástico” é mais uma pérola em sua filmografia, prejudicada apenas pela mão pesada do roteirista/diretor Matt Ross, um problema que poderia ser amenizado com uma edição mais severa, o que reforçaria o impacto de algumas reflexões propostas, já que o segundo ato arrastado quebra o bom clima que havia sido estabelecido. Viggo vive um pai que decidiu se isolar com seus seis filhos longe da sociedade, uma vida idílica na floresta, longe do consumismo e de dogmas religiosos e, por conseguinte, longe da cultura do medo e da culpa, campo fértil para que ele tente transmitir para eles os valores que ele considera mais importantes, na tentativa de formar seres humanos melhores e mais conscientes de suas responsabilidades. 

A trama pode parecer a de uma despretensiosa “Sessão da Tarde”, mas o roteiro entrega reviravoltas bastante criativas. Após um evento traumático, a família é forçada a deixar essa zona de conforto e enfrentar a realidade urbana, gatilho que desperta questões existenciais relevantes, especialmente na figura paterna, ainda que falte sutileza na abordagem dessas transformações pessoais. O protecionismo que conduziu um dos filhos à dedicação extrema nos estudos também o tornou socialmente inseguro, o espectador é levado até mesmo a se revoltar com algumas atitudes do pai, mas a interpretação primorosa de Mortensen enriquece as várias camadas de sua construção, salientando que a força motriz de suas ações é genuína e amorosa. Um bonito filme que merece atravessar a fronteira do festival e ser abraçado pelo grande público. 

O Túnel (Teo-neol)
Os melhores filmes de desastre são aqueles que se preocupam em estabelecer bem a empatia do espectador com as vítimas das tragédias, algo que poucas vezes acontece. “O Túnel”, do sul-coreano Kim Seong-hun, apesar de abusar da paciência do espectador com cerca de meia-hora de redundante gordura extra, o roteiro oferece uma situação realmente angustiante para o protagonista que se vê preso em seu carro após o colapso de um túnel. Os movimentos de câmera ajudam a transmitir o senso de claustrofobia, sem a necessidade de apelar exageradamente na redução cênica, mas o interesse do diretor está mais focado nas consequências externas do evento, como no brilhante “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder.  

É interessante a forma como a trama insere uma crítica poderosa ao tratamento da tragédia dado pela mídia e pelos políticos, a absurda ausência de humanidade que rege a espetacularização do sofrimento alheio, assim como a constatação de que o indivíduo se torna dispensável quando o que está em jogo é a imagem de um governo, além da criminosa irresponsabilidade dos executivos envolvidos diretamente no desastre. Vale destacar também a excelente atuação de Doona Bae, que vive a esposa da vítima, figura que ajuda a manter o tom de ameaça que a trama frequentemente arrisca perder ao apostar em alívios cômicos tolos.

A indústria norte-americana no gênero tem muito a aprender com o refinamento dessa obra.

Sob a Sombra (Under The Shadow)
Estreando em longas-metragens com essa pérola do terror, o roteirista/diretor iraniano Babak Anvari demonstra grande talento ao subverter as convenções do gênero, apostando na construção de clima e fazendo uso inteligente de referências. Enxerguei claramente “O Babadook” na linha temática de proteção materna, mas é “Repulsa ao Sexo”, de Polanski, que garante os melhores esforços criativos visuais, na utilização do cenário como alegoria para a perturbação psicológica da mãe que acredita que sua filha está sendo possuída por espíritos malignos.

O ambiente externo dos últimos momentos da guerra Irã-Iraque, no final da década de oitenta, providencia sensorialmente os estímulos para que os monstros humanos que explodem bombas do lado de fora da casa ajam em conluio inconsciente com as manifestações paranormais internas. Os vizinhos vão abandonando o local, a solidão inerente a qualquer conflito dessa magnitude, a constatação de que a morte pode chegar a qualquer momento, um sentimento que faz ruir o frágil emocional da criança, refletido nas metafóricas rachaduras das paredes e nos constantes lamentos que são escutados pela casa, como se a sociedade estivesse chorando seus mortos.

A mãe, altamente racional, inicialmente vê o medo da filha como uma tolice alimentada pela mitologia do Oriente Médio, a direção de arte trabalha algumas simbologias nesse sentido, mas o roteiro inteligentemente também está interessado em ser eficiente como horror, então a ideia do djinn ser a visão infantil inocente para os perigos reais da guerra se mantém em segundo plano, garantindo um terceiro ato verdadeiramente apavorante. Esse ano está sendo espetacular para o gênero, “Sob a Sombra” é impecável. 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"Labirinto - A Magia do Tempo", de Jim Henson


Labirinto - A Magia do Tempo (Labyrinth - 1986)
A origem do projeto é o encontro criativo do desenhista Brian Froud com o cineasta Jim Henson, tudo começou com a parte visual, o enredo foi sendo pensado ao longo do processo. Mas é um equívoco ressaltar apenas a eficiência da parte técnica, ou subestimar o filme como simples diversão para o público infantil, ele não teria sobrevivido tão bem ao teste do tempo caso não fosse enriquecido por um elemento mais nobre, um coração pulsante que se faz audível por sobre todos os artifícios visualmente encantadores, uma mensagem realmente poderosa e importante.

As referências a “O Mágico de Oz” e “Alice no País das Maravilhas” são óbvias, os personagens da aventura são variações de pessoas próximas da menina, como Jareth, o rei dos duendes vivido por David Bowie, que toma a forma de Jeremy, o namorado de sua mãe, uma relação nascida nos palcos de teatro. Ela se apaixonou e abandonou o marido e a filha para viver com o colega ator, mas é vista pela garota com ternura, como um símbolo de coragem, alguém que deixou o amor falar mais alto. A melodia de “As The World Falls Down”, que toca na caixinha de música dada por ela, emoldura posteriormente a sequência de dança da menina com o rei dos duendes no baile de máscaras, como que fechando o ciclo. Jareth aparece em sua fantasia como o sedutor terreno desconhecido dos relacionamentos adultos, com a aparência daquele que conquistou sua mãe e a estimulou a se libertar de uma relação desgastada. A arte corre nas veias da jovem Sarah, vivida pela bela Jennifer Connelly, que encena diariamente em um palco imaginário as linhas de seu livro favorito: “Labirinto”. E ela precisa encarar a realidade sem a dependência da bengala do escapismo, essa constatação se manifesta em seu subconsciente de diversas formas, como quando percebe que as fadas são como pestes que precisam ser dedetizadas, ou quando descobre que as portas somem e reaparecem em locais diferentes, em suma, que o mundo não é justo.

A grande missão da garota não é atravessar o labirinto do rei dos duendes, nem se redimir da irresponsabilidade de querer que seu irmão mais novo desapareça para se livrar da obrigação de cuidar dele, mas compreender que não precisa deixar de ser criança para crescer. É linda a forma como a mensagem é passada no roteiro, evocando o mundo mágico dos bonecos, com toques sutis daquele senso de perigo contido nos melhores contos de fada, que funciona como moldura para uma defesa apaixonada: que o adulto nunca perca contato com sua criança interna. A fantasia é o porto seguro para o adulto desesperançado, oprimido pelos obstáculos de um sistema onde a justiça não vale nada, os valores são confrontados diariamente e a opção que parece mais sedutora é aquela em que você precisa se corromper. Quando você se vê numa encruzilhada, o melhor caminho é buscar honrar a sua contraparte infantil, pura e gentil, intocada pelo cinismo e pelo ódio. A linda cena final, no quarto da menina, sempre me emociona, lágrimas que abraçam carinhosamente um sorriso. 

A jovem Sarah conquistou segurança e amadureceu em sua aventura, está preparada para novos desafios, mas ela sabe que sempre poderá acessar o mundo mágico de sua infância, a matéria dos sonhos, as lembranças doces que, ao final de tudo, caso você tenha se mantido íntegro, estarão presentes aplaudindo com entusiasmo o fechamento das cortinas no espetáculo de sua existência. 


* O livro está sendo lançado pela "Darkside Books", com o trabalho gráfico de qualidade impecável que já se tornou sinônimo da editora. A edição conta ainda com ilustrações de Brian Froud, artista e ilustrador de fantasia, e fascinantes cinquenta páginas do diário de Henson, detalhando a concepção inicial de suas ideias para o filme.

sábado, 8 de outubro de 2016

"Tootsie", de Sydney Pollack

Ninguém Acreditava em Dustin Hoffman:


Tootsie (1982)
A primeira coisa que lembro quando penso em “Tootsie” é a encantadora trilha sonora de Dave Grusin, especialmente a faixa “An Actor’s Life”, que transmite o dinamismo de um ator lutando pra sobreviver na selva urbana. Sem esquecer a balada “It Might Be You”, cantada por Stephen Bishop, que dá o tom do romance proibido entre Michael (Dustin Hoffman) e Julie (Jessica Lange), mas também emoldura o florescimento de uma relação mais proibida ainda, entre o pai de Julie e Tootsie. Acho válido começar o texto ressaltando a forma como esse elemento é trabalhado no roteiro, uma demonstração valorosa de sensibilidade e refinamento cômico.

Les, o pai viúvo vivido por Charles Durning, encontra na nova amiga da filha o companheirismo respeitoso que ele compreende que não seria uma agressão à imagem de sua esposa, o romance em seu estado mais puro, alguns diriam até antiquado. É muito diferente do desejo carnal que estimula o inseguro galã da telenovela (George Gaynes) a perseguir atrizes bem mais novas que ele. Michael reconhece essa nobreza de caráter no viúvo, quase que se sentindo orgulhoso de ter, como Tootsie, despertado esse carinho nele. O roteiro trata essa relação complicada com a tinta do humor, mas com a caligrafia de um poeta, delicadamente analisando cada linha. Há uma cena linda, após a revelação da identidade, quando Michael reencontra o viúvo em um bar, pela primeira vez sem o disfarce. Quase não há diálogo entre os dois, tudo se resume nos olhares. Qualquer comédia moderna forçaria a mão no aspecto bizarro do que ocorreu, mas a admiração mútua fala mais alto, Michael paga a rodada de bebida, Les sugere querer extravasar a raiva, mas, em questão de segundos, o seu olhar enternece, enxergamos a gratidão tomando o lugar do desconforto. Da mesma forma que Tootsie mudou a maneira como Michael enxergava a riqueza de nuances do feminino, e, por conseguinte, fez com que suas colegas de trabalho conquistassem mais segurança e amor próprio, ela também trouxe esperança romântica para Les. E o mais bonito nisso é constatar que Tootsie é apenas o inconsciente de Michael se projetando sobre seus medos, não é uma personagem criada por algum autor para que ele interpretasse.

Na cena da festa vemos a ambiguidade de sentimentos de Julie, que, em confissão íntima com a amiga, afirma preferir que os homens fossem diretos no flerte, mas ao receber uma dose de sinceridade de Michael, um estranho para ela até aquele momento, não pensa duas vezes antes de despejar agressivamente o líquido da taça em seu rosto. A cena é cômica, mas traz uma reflexão, o ser humano vive em constante conflito entre aquilo que deseja e os dogmas sociais que o culpam por aquele desejo. No intuito de se libertar dessa escravidão comportamental, Julie precisava se desapegar das ambições profissionais que a faziam manter uma relação doentia com o grosseiro e mulherengo diretor da telenovela. Ao final, a fala de Michael resume muito bem o sentido do amor: “A parte difícil já passou, nós já somos bons amigos”. É apenas isso que importa, o resto é fogo que pode se apagar a qualquer momento. E, como ele bem salienta, “nesse estágio da nossa relação, pode ser uma boa vantagem eu usar calças”. 

“Tootsie” não é apenas uma das melhores comédias da história do cinema, eu o considero um dos melhores roteiros já produzidos pela indústria, mérito de Larry Gelbart, Murray Schisgal e do próprio Dustin Hoffman. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

"Hana-Bi: Fogos de Artifício", de Takeshi Kitano


Hana-Bi: Fogos de Artifício (Hana-bi - 1997)
A palavra japonesa Hanabi significa “fogos de artifício”, mas com a inserção do hífen, ela se divide em “flor” e “fogo”, uma riqueza de significados que se perde na tradução. O roteirista/diretor Takeshi Kitano é mais conhecido em sua nação como um comediante televisivo, talento que fica evidente na forma como ele insere o humor nas suas tramas. Ele vive Nishi, um policial que atravessa o pior momento de sua existência. A filha perdeu a batalha contra a leucemia, seu melhor amigo e parceiro profissional levou um tiro de um yakuza e ficou paralítico, outro policial morreu na sua frente em uma ação comandada por ele, e, para piorar, a sua amada esposa descobre que está com um câncer em fase terminal. 

Em seu rosto taciturno, a compreensão de que perdeu o controle, a desgraçada lucidez dos moribundos, a fortaleza sombria de quem reconhece a existência como uma superação constante de obstáculos. Sem qualquer razão para nutrir esperança, ele aceita a beleza que encontra na solidão, motivado apenas pela vingança. A opção característica do diretor pelo silêncio agrega poesia até mesmo nas sequências mais violentas, o sangue na coreografia da morte pode chamar atenção, mas somos lembrados que a mão que aperta o gatilho está impulsionada por dor e culpa, o abstrato intensifica o estado de espírito do agressor, o tiro pode ser sucedido em um jump cut para uma tela recebendo tinta vermelha. Horibe, o amigo paralisado, em estado depressivo após o cruel afastamento da família, encontra triste paz em suas pinturas, obra do próprio Kitano, onde vemos a fusão de flores e animais, ikebana, a arte de arranjos florais objetivando a busca do equilíbrio e a beleza na simplicidade, desejos que encontram ressonância melódica na bela e melancólica trilha sonora de Joe Hisaishi. A tragédia destruiu a família, o homem perdeu o emprego, por conseguinte, deixou de ser útil e foi esquecido pelos seus entes queridos. Já Nishi, homem correto e que sempre preservou sua família, acaba sendo levado à marginalidade, chega a roubar um banco. A desconstrução do conceito familiar como idealizado pela sociedade japonesa é um elemento fundamental no filme. 

Nas poucas vezes em que vemos o protagonista sorrindo, visivelmente desconfortável, a esposa Miyuki está presente. A viagem do casal rende os momentos mais ternos, o marido tentando garantir a ela plena felicidade em seus últimos dias de vida. Em uma cena contundente, a mulher coloca flores mortas na água, um desesperado grito contra o absurdo da finitude. A coragem da sequência final, a declaração de liberdade do bravo policial, propositalmente testemunhada de perto por seus colegas, carrega muito da honra samurai, o resgate de valores perdidos. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

"A General", de Clyde Bruckman e Buster Keaton

Link para os textos do especial "Sábio Silêncio":


A General (The General - 1926)
Quando minha avó materna Haydê estava passando um tempo em nossa casa, já bastante fragilizada, os olhos dela brilhavam quando eu a chamava para o quarto pra vermos juntos os filmes que ela gostava. Esse amor pelo cinema era o que mais nos unia, desde a época de infância, quando ela me emprestava seus discos de trilhas sonoras. Como sou apaixonado por cinema clássico e tenho uma coleção de DVD’s que toma todas as paredes, praticamente do chão ao teto, a diversão era selecionar dentre os mais de 2.500 títulos. Ela adorava “Primavera”, opereta com Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, sempre se emocionava muito com as canções e o romantismo das tramas. Mas a nossa última sessão foi com o belo “Sissi” e duas comédias da época de ouro, “Os Tolos Voadores”, com Laurel e Hardy, e “A General”, com Buster Keaton. É incrível como ela, fisicamente frágil pelo Parkinson, parecia rejuvenescer enquanto se entretinha com esses filmes, a mágica que somente a arte produz. Poucas semanas depois dessa sessão ela viria a falecer, então essas obras simbolizam algo especial hoje em minha vida. “A General” não é o meu favorito da filmografia de Keaton, lugar ocupado pelo menos celebrado “Nossa Hospitalidade”, mas é o símbolo máximo da perfeição técnica, matemática, de seus esforços criativos. E mesmo sabendo que os textos abordando clássicos do cinema mudo no especial “Sábio Silêncio” são os que garantem menos acessos no blog, algo que me entristece sobremaneira, eu nunca irei parar de enaltecer essas pérolas responsáveis por tudo o que se vê hoje em dia na indústria.

Sem o apelo melodramático de Chaplin, ou sua refinada visão crítica da sociedade, o homem que não sorria elaborava minuciosamente suas peripécias físicas, o interesse estava na superação das limitações humanas, aproveitando ao máximo o posicionamento da câmera e a edição na execução, invariavelmente desafiando a gravidade, o que resultou em sequências que ainda hoje causam impacto em uma plateia acostumada aos efeitos de computação gráfica, um mérito inestimável. A graça, ainda que em menor intensidade quando comparada a outros projetos dele, ocorre na superfície, o ritmo acelerado das gags visuais envolvendo o maquinista desastrado tentando alcançar sua locomotiva roubada por espiões, enquanto a Guerra Civil e toda a estupidez do conflito ficam em segundo plano. A máquina imponente serve como inspiração para as mais variadas possibilidades de construção de suspense, a comédia deriva naturalmente das situações, sem a gratuidade agradavelmente irresponsável de boa parte das produções similares da época. Muitos textos enaltecem a incrível sequência real da ponte que é destruída, com a locomotiva caindo no rio, momento homenageado por David Lean no desfecho de “A Ponte do Rio Kwai”, mas eu gosto muito da pequena cena em que o protagonista corta madeira e não percebe que o exército da União passa atrás dele, uma brincadeira com a ideia de que no cinema mudo, o personagem só escuta aquilo que ele enxerga. Quando leio argumentos tolos como: “esse filme é tão bom que você nem percebe que é mudo”, eu sempre me lembro de cenas como essa, onde o recurso do silêncio é utilizado genialmente, evidenciando que, ao contrário do que muitos pensam, não era uma arte incompleta.