sábado, 11 de outubro de 2014

"Sem Evidências", de Atom Egoyan


Sem Evidências (Devil's Knot - 2013)
O diretor egípcio Atom Egoyan, em sua primeira produção americana, escolhe abordar um caso real muito divulgado em sua época, com o mesmo frescor e senso de suspense que o recente filme nacional “O Lobo Atrás da Porta”, que também tinha a missão de tornar interessante uma história que muitos já conheciam.

A estrutura utilizada é didática em excesso, como se o roteiro de Scott Derrickson e Paul Harris Boardman não quisesse correr riscos, mas um rápido detalhe visual que depende da cultura geral do espectador insinua o traço de coragem ideológica que compensa as falhas. Em uma das cenas no escritório do protagonista vivido por Colin Firth, o único interessado em averiguar a fundo o caso de homicídio das três crianças encontradas no fundo de um rio, nós podemos enxergar uma foto do guitarrista de blues Robert Johnson, cujo legado ficou marcado por um boato de que ele teria vendido sua alma ao diabo para conquistar a perfeição em seu ofício, algo que o conduziu a uma morte precoce (aos interessados, recomendo o filme “Encruzilhada”, de 1986). Desse momento em diante, temos a certeza de que estamos assistindo o relato de um conto de injustiça, ao invés de um filme de tribunal convencional, onde se busca descobrir culpados.

Reese Witherspoon, como a mãe de uma das vítimas, já dá o tom logo em uma de suas primeiras cenas, quando reage retirando brutalmente com as mãos, chumaços de seu próprio cabelo, entregando ao policial que pedia amostras de DNA. Uma mulher que já era desequilibrada emocionalmente antes da tragédia, tendo tendências ao fanatismo religioso, alguém facilmente manipulável, casada com um homem violento. A trama evita explorar o melodrama, optando por uma frieza coerente à atitude do investigador Ron (Firth), porém a emoção nasce naturalmente em breves cenas, como a que mostra a mãe recebendo o carinho dos colegas da escola do filho.

A obra mostra como é fácil desinformar, criar vilões no inconsciente de um coletivo que já está propenso ao linchamento público, com o apoio incondicional de uma imprensa irresponsável, preguiçosa e que se interessa pelo espetáculo da manchete chamativa, preferindo publicar a partir de moldes já trabalhados, do que investigar a fundo, desconstruindo o caso. Era muito mais interessante, vendia mais jornais, o homicídio ser fruto de uma seita satânica, composta obviamente por jovens fãs góticos de Heavy Metal. E, basta analisar casos recentes em nossa nação, para constatar que o ocorrido no início da década de noventa é, infelizmente, bastante atual. Avançamos tecnologicamente, mas instintivamente continuamos homens das cavernas na busca pelo próximo apedrejamento, odiando aquelas figuras que a mídia decide que temos que odiar, comprando a farsa e fazendo sangrar inocentes nesse processo. 

"Tudo por Justiça", de Scott Cooper


Tudo por Justiça (Out of The Furnace – 2013)
O diretor Scott Cooper, em seu segundo projeto, tem facilidade de extrair interpretações viscerais de seus atores. Conseguiu isso com Jeff Bridges no anterior “Coração Louco”, repete o feito com Woody Harrelson (Harlan) e Christian Bale (Russel), que definitivamente deveria ter sido indicado ao Oscar por esse trabalho. Revelar muito sobre a trama nesse caso é um desserviço ao espectador, então irei me ater ao básico.

Sem se preocupar em obedecer as regras estruturais do gênero, o roteiro, de Brad Ingelsby e do próprio Cooper, toma bastante tempo no desenvolvimento da relação do protagonista com seu irmão caçula problemático, vivido por Casey Affleck. O cenário é uma depressiva cidade de interior, cujos habitantes sofridos não compram a ideologia esperançosa de um recém-eleito Barack Obama, o filme se passa em 2008. Arrumar trabalho numa caldeira já é considerado por eles uma grande conquista. Assistimos com os personagens o declínio das indústrias pesadas na América e o consequente impacto que esse declínio causa nas pequenas comunidades que dependem delas. Como o ótimo título original insinua em metáfora, não existe possibilidade de eles saírem de perto da fornalha, apenas aprendem resilientes a tolerar o calor infernal.

São perceptíveis óbvias referências ao trabalho de Michael Cimino em “O Franco Atirador”, explorando a caça como analogia, a recusa de Russel em atirar, mesmo quando o animal está na mira, e com breves questionamentos sobre o tratamento dado aos veteranos de guerra, sendo que a intenção não é tanto o panfletarismo político/social, mas sim compor um clima ideologicamente opressivo o bastante para que nos levemos a questionar, assim como os personagens, a linha tênue que separa a justiça do vigilantismo e aquela praticada nos tribunais. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Cine Noir - Entre Dois Fogos

Links para os textos do especial:



Entre Dois Fogos (Raw Deal – 1948)
Joe Sullivan escapa da prisão e busca vingança contra o mafioso Rick Coyle, um sádico piromaníaco que encomendara a sua morte. 


Nesse filme de Anthony Mann, que considero um dos mais importantes do gênero, um dos conceitos elementares do Noir é subvertido, inserindo duas personagens femininas com motivações complexas, vividas por Marsha Hunt e Claire Trevor. No lugar de uma femme fatale disposta a conduzir o protagonista até sua ruína, deixando sempre nas sombras a inocente apaixonada por ele, o roteiro evita os estereótipos ao entregar a melancólica narração da trama, normalmente defendida pelo trágico herói, nas mãos daquela que, no que se espera em projetos similares, simboliza sua derrocada.

As duas mulheres que disputam o amor do personagem, vivido por Dennis O’Keefe, são fortes e moralmente falhas, o que possibilita atitudes surpreendentes como a bravura de Ann (Hunt), a boa moça, defendendo o amado, ainda que acredite que ele deva se entregar às autoridades, sendo capaz também de confrontá-lo em uma discussão que evidencia a qualidade do texto de Leopold Atlas e John C. Higgins, quando ele a rotula como uma mimada privilegiada. Após ela sentir na pele o impulso violento, a jovem inicialmente condena sua atitude, mas acaba entendendo que o conceito de bom ou ruim é subjetivo, compreendendo finalmente a ambiguidade moral do amado.

Esse tipo de arco narrativo não era comum no gênero, quase sempre limitado a uma visão de mundo simplista, ainda que esteticamente emoldurado em tons de cinza. E, num revés muito criativo, a ruína do herói é consequência de sua relação com a boa moça, não com a femme fatale, que, vale salientar, não possui outro interesse que não seja o amor que genuinamente sente por ele. A boa moça, que descobre a violência como conduta aceitável, acaba sendo a única corrompida na trama, algo que se espera sempre do herói.

Mann, com o auxílio da ótima fotografia de John Alton, consegue estabelecer visualmente essa dinâmica ao optar por mostrar os três quase sempre no mesmo quadro. Vale destacar também, como elemento que ajuda na imersão sensorial, o teremim que o compositor Paul Sawtell utiliza para pontuar as narrações, criando um clima ainda mais sombrio e enigmático, quase fantasmagórico, nesses momentos. É incrível pensar que essa obra-prima seja tão pouco valorizada, considero uma das cinco melhores de todo o ciclo do gênero, nascida em sua melhor década.

* A distribuidora Versátil está lançando o excelente box “Filme Noir”, que reúne seis importantes obras do gênero, como “A Morte Num Beijo”, “Fuga do Passado” e “Entre Dois Fogos”, com quase uma hora de extras. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

"Batman - O Filme", de Tim Burton


Batman – O Filme (Batman – 1989)
Analisando no contexto de sua época, essa seria a primeira vez que o público iria pagar para assistir uma aventura do personagem após décadas em que ele esteve imerso na cultura do deboche, com a série protagonizada por Adam West marcada indelevelmente pela exótica cena do herói dançando num bailinho riponga. Nos quadrinhos, a mudança de atitude já havia ocorrido três anos antes, com a obra-prima “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, inspirada na trama de “Impacto Fulminante”, único filme de Dirty Harry dirigido por Clint Eastwood. E, para combinar com essa radical mudança de atitude, os produtores demonstraram coragem ao selecionar o jovem Tim Burton para a tarefa de comandar essa lúdica ressurreição. Um realizador cujo currículo se resumia a curtas-metragens melancolicamente góticos e comédias com protagonistas absurdamente histriônicos.

Foram vários os fatores que ajudaram no sucesso, como a fantástica trilha sonora de Danny Elfman e o impecável trabalho de marketing em seu lançamento, mas o grande mérito no sucesso desse projeto é do roteiro escrito por Sam Hamm, que pegou um rascunho equivocado onde a origem do personagem era recontada sem personalidade, tendo como molde a fórmula para o clássico “Superman”, jogou fora e começou do zero uma narrativa calcada em flashbacks. Mas nada disso seria possível sem a contribuição de um apaixonado pela Nona Arte, Michael Uslan, que, em 1971, havia convencido a Universidade de Indiana a deixá-lo ensinar no primeiro curso focado em revistas em quadrinhos. Seu amor era tamanho, que ele comprou os direitos para uma adaptação cinematográfica no final daquela década, com a promessa de que iria ser o responsável pela tradução mais fiel, sombria, o olhar definitivo sobre o homem-morcego. O projeto acabaria no colo dos executivos da Warner.


O mais incrível ocorreu quando o mundo descobriu que um comediante baixinho, Michael Keaton, que, no máximo, seria imaginado pelos fãs como coadjuvante, capanga do vilão, tinha sido escolhido para viver Bruce Wayne. E, por mais que hoje em dia a mídia tente comparar a recepção negativa dele com a de Ben Affleck, não há forma lúcida de comparar essas duas rejeições. Affleck é um ator mediano, mas é muito respeitado como diretor e representa dinheiro certo na bilheteria, enquanto Keaton simplesmente não era respeitado, sequer conhecido, pela grande maioria dos fãs na época. E o estúdio precisava desesperadamente que essa garotada abrisse a carteira nas primeiras semanas de exibição. São dois casos muito diferentes.

A ideia do diretor era arriscada, mas fazia sentido, já que o vigilante mascarado deixava de ser o fruto de um intenso treinamento, para ser a projeção psicológica dos impulsos primitivos de um homem de meia-idade franzino, incapaz de meter medo em qualquer pessoa. Essa projeção fica clara, em seu viés sexual, nos encontros com Vicki Vale, vivida pela estonteante Kim Basinger. A câmera parece gostar de salientar o fato de que aquela deusa da beleza nunca iria prestar atenção nele, caso não enxergasse inconscientemente aquele impulso. Não é coincidência o fato de que o ator que vive Alexander Knox, Robert Wuhl, constantemente flertando com ela, seja fisicamente muito parecido com Keaton. Knox é tratado exatamente como Wayne seria, caso ele não fosse internamente motivado por aquele impulso. Ela percebe no milionário, muito antes de suspeitar de sua identidade secreta, aquele brilho no olhar de quem, ainda que grandioso, se permite minimizar, desaparecer na multidão.

O Coringa, vivido brilhantemente por Jack Nicholson, como símbolo do caos, não somente externo, desorientando os cidadãos de Gotham ao fazê-los enxergar sua ganância, mas também interno, tendo sido o catalisador da ruptura emocional no garoto que outrora assistiu os pais sendo assassinados por ele. A decisão de modificar o arco narrativo do personagem foi eficiente no sentido de, inserindo ele no trauma do herói, possibilitar uma complexidade maior no conflito entre os dois. Quando Batman, a projeção do superego de Wayne, esmurra o rosto do palhaço, podemos enxergar aquele menino levantar da poça de sangue e investir com toda sua raiva no pistoleiro. Ele tem a chance de finalmente revidar, obliterando para sempre aquela sensação terrível de impunidade que o motivou até aquele momento, quiçá sagrado, não por coincidência, ambientado em uma catedral. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Chumbo Quente - Tambores da Morte / Estigma da Crueldade / Irmão Contra Irmão

Link para os textos do especial:


Tambores da Morte (Drums Across the River - 1954)
Crown City pode se tornar uma cidade fantasma, pois todo o seu ouro está localizado em terra indígena. Gary Brannon (Audie Murphy), um homem honesto que odeia índios, se junta a uma missão para tentar concessões de mineração, mas o líder do grupo, o ganancioso Frank Walker, planeja em segredo começar uma guerra contra os índios para tomar suas terras. Gary e seu sábio pai Sam têm agora nas mãos a manutenção da paz e terão de juntar forças com os índios para impedir os planos de Walker. 


Hoje injustamente esquecido, Audie Murphy foi um dos heróis de guerra mais condecorados e famosos da Segunda Guerra Mundial. Ele prezava tanto sua imagem como modelo de boas condutas, que recusava participar de comerciais de álcool e cigarro. Incentivado por James Cagney, estudou métodos de atuação. Durante vinte anos, teve sua respeitabilidade utilizada pela indústria de cinema, como o mocinho de obras de guerra e, em sua maioria, faroeste. Ainda que não tenha participado de nenhuma obra-prima no gênero, "Tambores da Morte", dirigido por Nathan Juran, que quatro anos depois viria a comandar "Simbad e a Princesa", clássico do saudoso Ray Harryhausen, é um dos mais divertidos, com a presença sempre carismática de Walter Brennan. Os dois vilões, vividos por Lyle Bettger e Hugh O´Brien, elevam a qualidade do roteiro, mastigando cada cena, como Steve McQueen fazia muito bem, como se fosse a última. Murphy atua de forma correta, mas é eclipsado sempre que contracena com os dois.


Estigma da Crueldade (The Bravados - 1958)
Jim Douglas (Gregory Peck) chega à cidade às vésperas do enforcamento de quatro bandidos. Eles os tem perseguido, pois acredita que violentaram e mataram sua mulher. Mas horas antes da execução, os quatro conseguem escapar, levando uma bela moça como refém, para tentar atravessar a fronteira para o México. Enfurecido, Douglas persegue e aniquila um a um seus inimigos, até que finalmente se revele um segredo que o deixará mais desesperado por salvação do que por vingança.


O diretor Henry King realizou com esse ótimo faroeste, uma experiência no gênero, apostando em um viés psicológico. O personagem vivido por Gregory Peck está tão devotado à vingança, que nega seus princípios e se cega perante seu compasso moral. Stephen Boyd, um ano antes de viver "Messala" em "Ben-Hur", e Lee Van Cleef, que anos depois viraria sinônimo de "Spaghetti Western", excelentes em cena, reforçam o elenco como dois dos quatro foras-da-lei. Emoldurado por uma bela trilha sonora de Alfred Newman e Hugo Friedhofer, que traduz melodicamente a determinação psicótica que move o protagonista, mas deixando claro em seus acordes que existe um herói honrado enterrado naquela montanha de amargura e ódio. O desfecho continua poderoso, surpreendente e corajoso.


Irmão Contra Irmão (Saddle The Wind – 1958)
O pistoleiro aposentado e ex-soldado confederado Steve Sinclair (Robert Taylor) está vivendo como um fazendeiro em uma pequena comunidade. Ele colabora com o proprietário principal Dennis Deneen (Donald Crisp), de quem aluga o rancho, para preservar a estabilidade comunal. Sua vida tranquila é interrompida pela aparição de seu irmão mais novo, o emocionalmente instável Tony (John Cassavetes) e a bela namorada de Tony Joan (Julie London). 


Muitos cinéfilos iniciantes, por não terem assistido muitos filmes do gênero, costumam apontar “Os Imperdoáveis” como original em seu tema sobre os efeitos corrosivos da violência nos pistoleiros. Mas existem vários projetos, especialmente na década de cinquenta, quando o faroeste ganhou contornos psicológicos, que lidam com o assunto de forma muito eficiente, como “Irmão Contra Irmão”. Por trás do clássico confronto entre irmãos, existe uma profunda análise sobre as repercussões psicológicas de se puxar um gatilho e tirar a vida de alguém. Já na cena que é emoldurada pelos créditos iniciais, numa ousadia narrativa, somos levados a crer que estamos assistindo a cavalgada do herói, quando na realidade estávamos acompanhando o trajeto de um cruel bandido, vivido por Charles McGraw. Outro aspecto interessante é que o roteiro foi escrito por Rod Serling, o criador da série de ficção científica “Além da Imaginação”. Uma ótima trilha sonora de Elmer Bernstein é a moldura perfeita, incluindo uma bonita música-tema cantada por Julie London.