sexta-feira, 11 de julho de 2014

Obrigado, André Setaro


Quem leu meu livro “Devo Tudo ao Cinema”, conhece o personagem Plínio, o crítico de cinema que é um ídolo na área para o jovem Antonio. Ele é um amálgama de alguns profissionais que, com extrema competência, representam a fonte de cultura onde me embriaguei constantemente numa adolescência em que respirava Sétima Arte nas vinte e quatro horas do dia, sete dias por semana. Ontem faleceu uma dessas pessoas, André Setaro. Nos últimos três anos, eu tive a oportunidade e o privilégio de manter contato mais próximo com ele, através das redes sociais, podendo confirmar todos os adjetivos que sempre havia escutado sobre ele.

Talvez seja difícil para você, caro leitor, compreender como funciona esse meio da crítica cinematográfica. Quando você está começando, tendo como leitores fiéis apenas seus familiares e amigos próximos, tudo o que te impulsiona é o sonho. Você não está seguro de sua competência, fica buscando criar uma identidade própria, um estilo que seja interessante o suficiente para que seja percebido numa multidão de jovens sonhadores com o mesmo objetivo. Você chega tímido nas primeiras cabines de imprensa, torcendo para que alguém sorria pra você e lhe estenda a mão. São raros os que possuem a humildade de, estando conscientes de sua competência, não temerem qualquer competição, abraçando genuinamente aquele estranho como um potencial colega, como parte da equipe. Eu não conheci Setaro numa cabine, nunca nos vimos pessoalmente, mas ele foi um dos primeiros profissionais experientes da área que tirou um minutinho de seu dia para deixar um comentário elogioso em um de meus textos no extinto veículo “cinema.com.br”, onde escrevi por vários anos.

Algum tempo depois, nos reencontramos virtualmente. Eu já tinha conseguido galgar alguns degraus, escrevendo para alguns veículos, quando percebo a presença do amigo baiano novamente comentando um texto. Era um aval muito importante ler um “Excelente e revelador artigo”, escrito por um veterano mestre na área. Ele sempre se fazia presente nas postagens, num triste universo virtual onde um vídeo tolo de um bêbado caindo no chão recebe quinze mil compartilhamentos, enquanto o texto que você passou a madrugada inteira escrevendo, com sorte, recebe uns três ou quatro. Ano passado eu lancei meu livro na Bienal e fazia questão de enviar um pra ele, mas Setaro sabia a dificuldade de se lançar um livro no Brasil, ele fez questão de pagar o valor de capa e o frete. Ele valorizava o trabalho dos colegas.

Apenas duas semanas atrás, recebi uma bela mensagem privada dele, sobre o livro que ele havia acabado de ler. Gostaria de compartilhar com vocês o conteúdo: “Eu li com muito prazer o seu livro. Educação sentimental stendhaliana, quando a vida se conjuga com o imaginário das imagens em movimento. Livro revelador de uma descoberta, bem escrito e de estimulante leitura. Obrigado por tê-lo escrito”. Eu fiquei emocionado, devo ter lido umas dez vezes e mostrei pros familiares, antes de agradecer a ele, afirmando o orgulho que sentia por estar recebendo esse elogio tão importante. O meu amigo então respondeu de forma breve, a última mensagem dele para mim: “Você merece!!!!!”. Caro leitor, você pode imaginar a dor que senti ao descobrir, por intermédio do amigo Marcelo Janot (outro profissional que também faz parte daquele amálgama), sobre o falecimento de Setaro. Eu não costumo lamentar a morte de artistas, pois eles alcançam a verdadeira eternidade através de suas obras e na memória dos seres pensantes, mas sentirei muita falta de trocar palavras com esse generoso baiano, imaginando com melancolia a quantidade de textos maravilhosos que ele ainda tinha a oferecer para todos nós apaixonados pelo cinema. Vocês podem conhecer/revisitar esse primoroso legado em seu blog: http://setarosblog.blogspot.com.br/.

Obrigado por tudo, amigo. Você cumpriu seu trabalho com louvor nessa breve jornada.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Ela", de Spike Jonze


Ela (Her - 2013)
E Spike Jonze conseguiu mais uma vez superar as expectativas de seus admiradores. O que nos faz humanos? A capacidade de sermos afetados pelo outro, sentir compaixão e desejo. O protagonista vivido por Joaquin Phoenix trabalha inserindo emoções no subconsciente de estranhos, criando cartas escritas à mão para seus clientes. O futuro se mostra através de aparatos tecnológicos requintados, mas a realidade dos homens é exatamente a que vivemos hoje: pessoas que se cruzam nas ruas e não se encaram; corpos carentes de calor humano mesmo quando próximos. A terrível solidão que se experimenta em grupo.

Samantha (Johansson), a voz feminina do sistema operacional, uma ideia que gradualmente se revela através da percepção de Theodore (Phoenix), personificando o elemento que carecia na vida dele: algo/alguém que se importa. Só que ela não é real, mas apenas o resultado de uma dedicada pesquisa no banco de dados dele. Ela suspira, não por necessitar de oxigênio, mas por calculisticamente perceber o efeito no processo identificatório (Freud considerava “a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”) que esse simples som causa no ser humano. E, tão interessante quanto, temos a personagem vivida por Amy Adams, única mulher com quem ele se relaciona sem demonstrar insegurança. Ela defende uma das melhores frases, o leitmotiv da obra: “Apaixonar-se é uma loucura. É como uma forma de insanidade socialmente aceitável”.

Num toque de gênio, Jonze encaminha o protagonista a uma situação crucial, onde tendo a opção de (com a permissão de sua “parceira”) experimentar o sexo fisicamente com uma substituta, ele a considera algo menos real, incapaz de emular com ela os sentimentos que compartilha diariamente com Samantha. Ciúme, insegurança, medo... Autênticas emoções que nascem do convívio, nos longos momentos de cumplicidade serena após a usual satisfação sexual dos primeiros meses de uma relação. Ao lembrar-se de sua esposa, vivida por Rooney Mara (ele se recusa a formalizar o divórcio, mesmo sabendo que não há mais possibilidade de retorno), ele percebe que está apenas ativando uma versão dela em sua memória afetiva, algo facilmente manipulável. A nostalgia embeleza tudo o que toca. O que é, afinal, real? Como quando sentimos pena na poética “morte” de HAL 9000 no clássico de Stanley Kubrick, acabamos nos surpreendendo com o nível de afeto que desenvolvemos ao longo da trama pelo casal.

Como em todo filme de Jonze, revelar demais sobre a trama é um equívoco e um desrespeito pela experiência do público, então contenho minha vontade de filosofar mais sobre as múltiplas interpretações que ela suscita, finalizando com a afirmação de que “Ela” é um dos melhores filmes do ano. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sétima Arte em Cenas - "Os Embalos de Sábado à Noite"

Link para os textos do especial:


Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever – 1977)
Quando se fala do filme, todo mundo celebra as coreografias de Tony Manero (John Travolta) na pista da discoteca “2001”. São imagens tão icônicas, com a onipresença das canções dos Bee Gees, que até levam muita gente a associar equivocadamente esse pesado drama sem final feliz ao gênero musical. Isolando a obra do diretor John Badham fora do contexto da época, considero-a bastante problemática em diversos aspectos, ainda que o charme se mantenha. Não gosto, por exemplo, do didatismo e do excesso de diálogos expositivos, como no momento posterior ao que Tony descobre que vai receber um aumento insignificante de 2,50, mas reage com a alegria de quem finalmente percebe que está sendo reconhecido como igual por seu superior. A cena é perfeita, com direito a um alívio cômico eficiente, mas o roteiro encaixa na sequência uma desnecessária confrontação entre pai e filho na mesa de jantar, onde é verbalizada novamente, sem sutileza alguma, essa angústia existencial do personagem. Esse tipo de repetição ocorre mais algumas vezes ao longo do filme, como na conversa com o irmão que larga a batina, onde o texto desnecessariamente bate numa tecla que já havia sido resolvida elegantemente em uma silenciosa cena anterior. Mas há uma razão para o filme estar nesse meu especial: os espetaculares dez minutos iniciais.

Com um mínimo de diálogos, em exatos dez minutos, o roteiro apresenta perfeitamente o protagonista como ser tridimensional, conectando-o emocionalmente ao público. E é interessante lembrar que, para o público americano da época, Travolta era como um Zac Efron em início de carreira, marcado por seu papel como o adocicado Vinnie Barbarino no seriado “Welcome Back, Kotter”, então podemos mensurar o impacto dessa introdução naqueles que foram assistir ao filme apenas por sua presença. A primeira imagem, um trem em movimento, insinua que estamos diante de uma realidade que busca transição, locomoção entre dois ambientes díspares, alguém que não está satisfeito e quer mudanças. A canção “Staying Alive” (Sobrevivendo) começa a tocar, emoldurando os passos confiantes desse jovem pela rua. Os olhos dele, como os de uma águia, caçando a atenção dos transeuntes, especialmente as mulheres, um garanhão. Então o corte da câmera nos mostra um elemento aparentemente dissonante: o balde de tinta que ele carrega displicentemente. Começamos a ver que existe algo de errado nessa equação. Acabamos descobrindo que ele trabalha como funcionário em um modesto armazém, apenas mais uma estatística num coletivo de uniformes apáticos recebendo ordens e atendendo senhoras indecisas (uma ponta da mãe do ator).

Ele busca se destacar como indivíduo, mas somente consegue essa realização ao dançar na discoteca. Somos levados então a acompanhar a transformação do jovem na persona que ele adota naquele local sagrado, numa montagem que se assemelha à “suit-up” de um herói, aquela que envolve a aceitação da vestimenta como símbolo diante da batalha. Em seu quarto vemos pôsteres de filmes que sutilmente ajudam a decifrar as motivações psicológicas do jovem. Ele se identifica com “Rocky”, o azarão que veio do nada e conseguiu mostrar seu valor, mas também possui a arrogância natural de Bruce Lee, posicionado sobre sua cama (elemento arraigado), enquanto a figura de Stallone fica ao lado do espelho, pois é como ele gostaria de ser, o reflexo que gostaria de enxergar. Já a presença do Al Pacino barbudo de “Serpico” é apenas uma brincadeira interna, já que ambos os filmes compartilham o mesmo roteirista: Norman Wexler. Na mesma cena, um corte rápido apresenta o “campo de batalha”, a pista de dança, coerentemente mostrada em uma tomada em ângulo “God’s Eye View”.

Outro ponto importante que é estabelecido na mesma cena, a relação de pai e filho, essencial para entendermos como funciona a psique do rapaz. Somos levados a estranhar a reação debochada do pai ao olhar para o decote no pôster de Farrah Fawcett, como se ele não concordasse com a atração de seu filho pela bela mulher. Mas na cena seguinte ficamos descobrindo a razão: o irmão padre, tratado pelos pais como um santo, com direito a foto em uma espécie de altar improvisado. Eles queriam que ele fosse como o irmão. E o jovem sabe disso. Ao mesmo tempo, numa rápida cena, vemos que a irmã caçula idolatra Tony, quando ela demonstra interesse por sua opinião sobre um de seus desenhos. Ela fica feliz ao saber que ele irá colocar o desenho em sua parede. Percebemos então quem é a âncora de doçura que mantém o rapaz na linha. E, finalizando, durante a janta, Tony é o único que esconde totalmente sua “camisa de batalha” com uma toalha. Claro que o objetivo principal é mostrar a preocupação risível dele em não sujar a roupa, mas implicitamente o roteiro evidencia simbolicamente o desconforto dele na presença do pai. Somente quando o pai se levanta e sai de cena, ele deixa sua camisa à mostra. Em apenas dez minutos ficamos entendendo totalmente o protagonista. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Cinema de Mizoguchi - "Senhorita Oyu"

Link para o texto anterior:


Senhorita Oyu (Oyû-Sama – 1951)
Existe uma parcela de críticos que consideram esse um dos pontos mais baixos na carreira de Kenji Mizoguchi, mas eu discordo totalmente. O alvo do estúdio Daiei era o público feminino do pós-guerra, então o diretor entregava para esse mercado, com rapidez e elegância, melodramas de qualidade superior, alternando-os a projetos mais pessoais e autorais, como “Oharu: Vida de Uma Cortesã”, que o consagraria no mercado internacional com um Leão de Prata, no Festival de Veneza.

Levando a trama, que originalmente no livro “Ashikari” de Junichiro Tanizaki se passava na Era Meiji, para o Japão contemporâneo, o roteiro de Yoshikata Yoda utiliza o erotismo inerente à obra do escritor ao delinear o triângulo amoroso. A história aborda uma cruel negociação entre a bela viúva Oyu (Kinuyo Tanaka), sua irmã submissa (Nobuko Otowa) e o cunhado (Yûji Hori), por quem ela realmente se apaixona, iniciando então um jogo de sedução e negação de desejo. O aspecto mais interessante é que Oyu finge não perceber que o cunhado compartilha de seu sentimento, aproveitando em vários momentos para sadisticamente provocá-lo, numa intensa dominação psicológica elevada pela excelente interpretação de Tanaka. O mesmo roteiro, em mãos menos sofisticadas, com certeza não estaria sendo lembrado nesse texto.  

A fotografia de Kazuo Miyagawa, em sua primeira parceria com o diretor após seu reconhecimento mundial por “Rashomon” (de Kurosawa), entrega verdadeiras pinturas em cada cena, como aquela que finaliza o drama do personagem vivido por Hori, caminhando sem rumo em direção à luz da lua, após ter afirmado com seu sacrifício a maior declaração de amor possível.  É possível notar até certa influência de “Aurora”, de Murnau. A contribuição de Miyagawa, com seus infinitos tons de cinza entre o preto e o branco, na carreira de Mizoguchi é crucial, pois transformou a identidade visual de seus filmes, trabalhando experimentalmente com profundidade de campo. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

TOP - Filmes Sobre Política (Parte 3 de 3)

Links para os textos anteriores:
20 - 11
10 - 6



5 - Rede de Intrigas (Network – 1976)
Quando o veterano jornalista Howard Beale (Peter Finch) é demitido, ele sofre um violento colapso nervoso diante das câmeras. Mas, depois que os seus enfraquecidos números de audiência sobem por causa das suas críticas ferozes, ele é readmitido e reinventado como o "profeta louco das ondas da TV". Evidentemente, quando o tal "profeta" perde a capacidade de seduzir o público, alguma providência tem que ser tomada contra ele. De preferência, diante das câmeras e com uma plateia dentro do estúdio.


O filme de Sidney Lumet mostra os reais interesses que existem por trás de qualquer programação televisiva, com uma visão assustadoramente atual e pungente sobre os limites (ou falta de) do bom senso e da ética. Os diálogos escritos genialmente por Paddy Chayefsky são verdadeiras catarses, estimulando aplausos até mesmo naqueles que assistem ao filme hoje no conforto de seus sofás. O que era considerado uma fábula que instigava a vigilância, pode ser percebido como a realidade de hoje, com o sensacionalismo dominando as estações de televisão, dos programas de auditório ao jornalismo. Fica claro que ninguém se importa mais com valores, quando chegamos ao ponto de uma criança pode ligar a televisão de manhã e assistir um absurdo teste de fidelidade. Não importa mais o nível da baixaria, contanto que represente melhores índices de audiência. O entretenimento é apenas uma desculpa para vender produtos nos intervalos comerciais. A caixa, como o personagem de Peter Finch chamava, apenas ficou maior e mais fina, mas o que ela representa continua sendo, em grande parte, o lado desprezível do ser humano.


4 - Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate – 1962)
Pergunte ao Major Bennett Marco (Frank Sinatra) e ele dirá que o Sargento Raymond Shaw (Laurence Harvey) é um herói digno de Medalha de Honra. Mas, apesar do que diz, Marco desconfia do contrário. Um pesadelo estranho e recorrente lhe dá a desconfortável sensação de que Shaw é alguém muito menos heróico e muito mais traiçoeiro. Seria mesmo Shaw um traidor? Conseguiria Marco convencer o Exército de suas suspeitas? E onde se encaixa nisso tudo a influente e rigorosa mãe de Shaw (Angela Lansbury)? São muitas as perguntas. E o tempo muito curto e precioso.


Dirigido por John Frankenheimer, Frank Sinatra vive um herói militar que retorna para casa após a guerra, somente para perceber que foi usado em uma trama de espionagem, onde por meio de hipnose foi levado a assassinar até mesmo membros de seu próprio pelotão. Poucos filmes abordam a paranoia de forma tão eficiente, pois ao invés de focar-se nos extremismos políticos, mostra que o indivíduo comum é o que está mais suscetível à manipulação. Um thriller político que continua tão eficiente quanto em sua estreia, misturando influências do Noir, uma belíssima fotografia de Lionel Lindon, com um texto que critica duramente a utilização da televisão como ferramenta política. Sua abordagem foi profética no caso do assassinato de Kennedy, fator que envolve o projeto numa aura sombria e o torna ainda mais contundente.  


3 - Todos os Homens do Presidente (All The President’s Men – 1976)
Em uma noite comum, no Edifício Watergate, luzes revelam quatro criminosos pegos no ato. Por causa dos acontecimentos daquela noite, naquele prédio, um presidente dos Estados Unidos acabou sendo levado para fora da Casa Branca. Dois repórteres de Washington, Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) agarraram a história e mantiveram-se agarrados a ela, desafiando dúvidas e negações. 


O diretor Alan J. Pakula mostra a extrema dedicação de dois jornalistas contra os vários tentáculos do corrupto sistema político. Na essência da trama está a razão do temor dos políticos por uma imprensa livre. De certa forma, uma obra que complementa “Rede de Intrigas”, mostrando o lado benéfico da mídia. O roteiro nos coloca praticamente sentados na mesa com os protagonistas, por vezes em detrimento de uma fluência narrativa, possibilitando que vivenciemos com exatidão de detalhes uma investigação jornalística. Uma abordagem que dificilmente seria escolhida nos dias de hoje, já que o público anseia cada vez mais pelo entretenimento imediatista. O símbolo de um jornalismo que dificilmente seria possível nos dias de hoje, onde a política do “em cima do muro”, muito mais lucrativa, parece ter contaminado todas as vertentes da comunicação. 


2 - Z (1969)
Em 1965, Lambrakis, um professor de medicina, é assassinado quando saía de uma manifestação de paz em praça pública, a investigação sobre sua morte acabou por revelar uma rede de escândalos, corrupção e ilegalidades na polícia e no governo na qual o líder do partido de oposição se tornou Premier. Porém, em 1967, um golpe militar derrubou o governo legal. O filme revive o assassinato e a investigação numa tentativa de demonstrar como o mecanismo da corrupção fascista pode se esconder atrás da máscara da lei e da ordem.


Obra-prima de Costa-Gavras, inspirada no romance homônimo do escritor grego Vassilis Vassilikos e no regime militar ocorrido na Grécia nos anos sessenta. A trama narra um crime político, um assassinato, de um popular deputado de esquerda durante uma manifestação e sua investigação por parte de um juiz, enquanto as forças armadas fazem de tudo para encobrir o fato e os verdadeiros culpados. E a população, cansada de ser controlada por incompetentes, parte para o revide. Obviamente, o filme sofreu enorme censura no seu lançamento em nossa “justa” nação, num notório caso, dentre vários, de carapuça bem servida. Vale salientar a excelente fotografia do francês Raoul Coutard, de “Acossado” e vários outros projetos de Godard.


1 - O Candidato (The Candidate – 1972)
Bill McKay (Robert Redford), o candidato do Partido Democrata ao Senado dos Estados Unidos, um homem de integridade e ideais, não se deixará manipular pela máquina política americana. O filme é uma incisiva visão de como publicitários, assessores de imprensa e empresários de comunicação se unem durante uma campanha eleitoral. 


Esse filme de Michael Ritchie é uma aula sobre como funciona esse grande teatro que é a política, um verniz frágil de boas intenções para o coletivo, mas que esconde apenas um intenso interesse no poder individual. O roteiro entrega os vários elementos dessa engrenagem podre, como a importância de firmar a imagem do candidato como um homem de família, com uma bela esposa (de fachada ou não), um corte de cabelo comportado, ainda que genuinamente ele não saiba qual a sua função no esquema. O filme mostra também a nada ética ajuda de empresários da comunicação, que acabam favorecendo descaradamente aquele político que irá devolver o favor quando eleito. A estratégia espúria, que vai da forma como o candidato deve se posicionar frente à câmera e a sua maneira de olhar para a lente, passando pelas abordagens com populares nas ruas, até o tipo de assunto que deve ser evitado em um debate. O protagonista, vivido por Robert Redford, foi inserido em um sistema que pouco conhece, como um peão na mão de publicitários. A sua reação ao final, inseguro como criança quando descobre que venceu a eleição, resume perfeitamente a coragem dessa obra: “E agora, o que faremos?”. Não é coincidência que esse ótimo filme nunca seja exibido na televisão.