sábado, 5 de abril de 2014

O Legado de George Stevens


George Stevens foi um homem que lutou muito pela sua classe, acreditava que a função de um diretor não deveria se resumir a apenas um comandante de imagens e sim um criador com responsabilidade criativa total e irrestrita. Não gostava dos colegas que se faziam notar demais em suas obras, preferia que seus filmes tivessem qualidade e fossem vistos não por serem “filmes de George Stevens” e sim, por serem produtos extremamente bem feitos.

Quando teve a ideia de fazer “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun – 1951), encontrou enorme resistência dos produtores da Paramount, que o questionavam sobre refazer uma obra que já havia sido um fracasso de público e crítica,  décadas antes. Qualquer diretor em sua posição, ainda mais estando sem filmar a dois anos, iria desistir e realizar uma obra qualquer, porém Stevens lutou e fez sua vontade ser obedecida. A história provou que ele tomou a decisão correta.

Em 1965, quando o filme iria começar a ser exibido na televisão americana, com a usual inclusão de intervalos comerciais e prováveis pequenos cortes para que a obra coubesse no espaço da rede. Stevens considerava os intervalos um erro e lutou para que o filme não entrasse no ar, pois acreditava que os intervalos comerciais iriam criar uma distorcida, truncada e segmentada versão de sua obra. Não apenas comprou esta briga, como processou a Paramount e a rede NBC, com o honesto argumento de que ao ser contratado, haviam garantido a ele total controle sobre editar e cortar o produto. Logo, devia impedir que outros o fizessem por motivos puramente comerciais e sem nenhuma base criativa ou ideológica. Ele pensava em sua classe e na dignidade e respeito que todo diretor deveria receber dos estúdios.

Ele perdeu o processo, porém todos os seus colegas sentiram-se tão emocionados com sua conduta que no momento em que Stevens, pressionado pelos produtores por causa do alto investimento e lentidão na condução, precisou de ajuda para completar seu trabalho no épico bíblico “A Maior História de Todos os Tempos” (The Greatest Story Ever Told – 1965), diretores como Jean Negulesco e David Lean se propuseram a dirigir enormes sequências para o filme, sem levarem crédito ou dinheiro, apenas para ajudarem o colega.

Quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge, após assistir um documentário sobre Adolf Hitler, Stevens largou o mundo do cinema e decidiu se alistar, sendo o homem responsável pelas melhores gravações, filmando momentos cruciais como o desembarque do exército aliado nas praias da Normandia e a libertação dos prisioneiros judeus do campo de concentração de Dachau. Até aquele momento seu melhor filme havia sido “Ritmo Louco” (Swing Time – 1936), que considero a melhor parceria de Fred Astaire e Ginger Rogers. Após receber o Oscar de direção por “Um Lugar ao Sol”, criou a obra prima do Western: “Os Brutos Também Amam” (Shane – 1953) e o monumental “Assim Caminha a Humanidade” (Giant – 1956), com Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean, que lhe garantiu um novo e merecido Oscar de direção.

Morreu vítima de ataque cardíaco em 1975, porém sua contribuição para o cinema é inestimável. Cada diretor que trabalha atualmente com um mínimo de liberdade autoral deve agradecer ao empenho visceral de George Stevens no passado e esforçar-se em produzir sempre filmes melhores, honrando seu legado.

Basil Rathbone como "Sherlock Holmes"


Sou completamente fascinado pela criação máxima de Arthur Conan Doyle, o detetive Sherlock Holmes. Um personagem tão rico em minúcias psicológicas, que muitos leitores acreditavam que ele havia realmente existido. Ficamos conhecendo-o mediante esparsas observações que o escritor nos entrega ao longo das várias novelas e contos, sempre pelo ponto de vista do Dr. John H. Watson, o que acaba nos incitando a utilizar os mesmos métodos de dedução lógica de Holmes, como forma de entender suas motivações. Esta investigação que o leitor empreende com o prazer que advém de toda literatura de qualidade, acaba viciando-o. Novas descobertas surgem a cada revisão, uma prova da genialidade de Doyle.

Os motivos citados no parágrafo acima são suficientes para demonstrar a tristeza que sinto, quando percebo que este complexo personagem é reconhecido hoje em dia pelos jovens, como o brincalhão bom de briga interpretado por Robert Downey Jr. nos dois filmes medianos de Guy Ritchie. Tendo lido alguns comentários de fãs dos filmes, que ao buscarem o material original consideraram muito chato, chego a triste conclusão que a juventude do início do século vinte, mesmo sem as facilidades tecnológicas de hoje, era tremendamente mais inteligente, ou menos preguiçosa, que os aspirantes a “Steve Jobs” de hoje.

Enquanto os filmes de Ritchie entregam um divertimento tolo e um personagem diluído em excesso, vale salientar a extrema qualidade da moderna série da BBC: “Sherlock”, criada por Mark Gatiss e Steven Moffat. Atualizando o cenário, porém respeitando a essência da criação de Doyle, os roteiros dos episódios são melhores que os de muitos filmes que aportam todas as semanas em nossas salas de cinema.

Meu intérprete favorito continua sendo Basil Rathbone, que capitaneou quatorze produções entre 1939 e 1946. As primeiras nos estúdios 20th Century Fox, os excelentes “Sherlock Holmes – O Cão dos Baskervilles” (The Hound of the Baskervilles – 1939) e “As Aventuras de Sherlock Holmes” (The Adventures of Sherlock Holmes – 1939, onde o protagonista fala o clássico: “Elementar, meu caro Watson”), foram pioneiras ao retratar o personagem no período Vitoriano (somente nos dois primeiros filmes), sendo coerentes aos livros. Quando as produções vão para os estúdios Universal beneficiam-se com a formidável química entre Rathbone e Nigel Bruce, que elabora um Dr. Watson mais bonachão, como um necessário alívio cômico. Meus três filmes favoritos dentre os doze feitos para a Universal são: “Sherlock Holmes – A Mulher de Verde” (The Woman in Green – 1945), “Sherlock Holmes – A Melodia Fatal” (Prelude to Murder – 1946) e “Sherlock Holmes e a Arma Secreta” (Sherlock Holmes and The Secret Weapon – 1943), dirigidos por Roy William Neill. Os três utilizam apenas referências a alguns contos, porém fazem-no de forma charmosa e inteligente, inserindo inclusive o personagem no contexto da Segunda Guerra Mundial, como era comum na época, em filmes e revistas em quadrinhos. 

Os filmes da série são ingênuos (o vilão Moriarty morre em três produções), mas tremendamente divertidos. Caso queiram uma adaptação inteligente que seja fiel ao cânone do escritor, prestigiem a série da BBC. Finalizando esta modesta homenagem ao legado de Doyle, devo dizer que dentre todos os livros e contos, recomendo a todos que estão interessados em conhecer o personagem, a leitura da primeira parte de “Um Estudo em Vermelho” (pois estabelece a relação entre os protagonistas), seguida daquela que considero a melhor obra: “O Signo dos Quatro”. Provavelmente ao virarem a última página, estarão extasiados com o tema e prontos para aventurarem-se com o detetive da Rua Baker pelo resto de suas vidas.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Marlon Brando


“O arrependimento é inútil na vida, ficou no passado. Tudo o que temos é o agora”. 
Marlon Brando era realmente uma força da natureza. Martin Scorsese estava certo ao afirmar que ele simbolizava um marco na história do cinema. Com relação aos métodos de atuação, nada mais seria o mesmo após sua chegada em Hollywood. Reconhecido não somente por sua excelência como ator, mas também por ser um aguerrido defensor de causas humanitárias, como a dos direitos civis e a dos índios americanos. Diferente dos astros de hoje, que se dizem politizados para aparecerem na mídia e venderem uma imagem de pessoas conscientes, Brando levava a sério sua função. Aproveitava toda oportunidade que tinha para falar sobre as causas em que acreditava, mesmo que isto lhe trouxesse problemas. Quando venceu em 1973 o seu merecido Oscar por “O Poderoso Chefão”, ele não compareceu à cerimônia, enviando uma atriz travestida de índia em seu lugar. Ela discursou em seu nome, protestando contra a marginalização dos índios promovida pela indústria de cinema e pelos Estados Unidos. Ela saiu do palco ao som de muitas vaias, porém Brando prosseguiria com seu objetivo. Meses após o evento, ele apareceu no palco do Talk Show de Dick Cavett e recusou-se a responder as perguntas do entrevistador, porém sem perder a educação e o respeito pelo anfitrião. A plateia achava graça enquanto Brando olhava gravemente para as câmeras e Cavett ficava completamente sem ação. Transtornado, questionou o apresentador sobre um produto, um dos patrocinadores, que havia sido colocado de propósito na mesa, recusando-se a participar do jogo comercial da emissora de televisão. Um exemplo de integridade cada vez mais raro no showbusiness.

Brando estudou em várias escolas de teatro, mas foi com a professora Stella Adler que ele teve seu primeiro contato com Stanislavski e definiu sua técnica. Sua professora percebeu o raro talento no jovem quando propôs aos alunos um desafio. Eles teriam que atuar como galinhas e em dado momento uma bomba iria cair próximo a elas. Quando a bomba explodiu, toda a classe se espalhou pela sala, correndo e balançando os braços, mas somente Brando se encolheu e escondeu-se calmamente embaixo da mesa, como se estivesse botando ovos. Ao ser questionado sobre a razão de sua atitude, ele respondeu que como uma galinha, não saberia nunca o que era uma bomba e o perigo que estaria correndo. Stella aplaudiu sua genialidade.

Em 1961, após alguns anos tentando viabilizar um projeto audacioso, procurando conseguir a direção de Stanley Kubrick e Sam Peckinpah sem sucesso, constatando que eles não conseguiam ver a obra da mesma forma que ele, decidiu então dirigir seu primeiro e único projeto, intitulado: “A Face Oculta”. O projeto final pouco se assemelhava com o livro no qual foi baseado, tendo tido seu roteiro reescrito por Brando. Após a estreia, houve certa polêmica na mídia especializada, sobre quem teria sido o real autor do filme, no que o colega ator Karl Malden, que também fazia parte do elenco, afirmou: “Só há uma resposta para sua pergunta e ela é Marlon Brando. Um gênio de nosso tempo”.

Dentre seus trabalhos, meus favoritos são “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar named Desire – 1951), “Sindicato de Ladrões” (On the Waterfront – 1954) de Elia Kazan, o genial “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks – 1961), "Queimada" (Queimada - 1969), a adaptação de Shakespeare: “Júlio César” (Julius Caesar – 1953), o corajoso “Último Tango em Paris” (Last Tango in Paris – 1972) de Bernardo Bertolucci, “O Poderoso Chefão” (The Godfather – 1972) e “Apocalypse Now” (1979) de Francis Ford Coppola.

Brando faleceu em 2004, porém os ecos de sua lenda irão reverberar enquanto houver atores trabalhando no mundo. Um mito imortal.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Anselmo Duarte


(Resgato esse que foi o meu primeiro texto profissional, para o extinto veículo: cinema.com.br)

Hoje em dia, mesmo com os avanços realizados no cinema nacional, ainda não podemos dizer que alcançamos uma estabilidade criativa em nossos projetos. Muitos diretores ainda não aprenderam a linguagem da tela grande, ainda muito presos ao estilo de filmagem das novelas, com seus excessivos planos em zoom e outros vícios. Porém existem cineastas que além de serem apaixonados pela Sétima Arte, sabem dar o valor merecido aos gênios que vieram antes, sem patriotismo burro e arrogância.

Existiu uma época em que o Brasil nem constava no mapa do cinema mundial ou aparecia apenas como exótica curiosidade Cult. Houve um homem que enfrentou este panorama, desbravando mares nunca antes navegados, nos deixando um legado eterno chamado “O Pagador de Promessas”. Em 1962, um jovem chamado Anselmo Duarte, ator de filmes como “Sinhá-Moça” e “Aviso aos Navegantes”, resolveu dirigir uma história à frente de seu tempo. Além de dirigir, ele roteirizou (baseado em obra de Dias Gomes) a saga de um homem humilde, Zé do Burro (Leonardo Villar) que, após ver seu burrinho (seu melhor amigo) adoecer, precisa cumprir uma promessa feita em um terreno de candomblé, carregando uma pesada cruz por um longo caminho e deixá-la dentro da igreja de Santa Bárbara, onde a oferecerá ao padre (Dionísio Azevedo) local. Sempre acompanhado por sua esposa (Glória Menezes), o homem descobre que a missão não é fácil e que o padre não deixará que sua cruz entre na igreja, causando uma comoção imensa na pequena cidade. Com um roteiro ousado e muito inteligente, Anselmo realizou um feito até hoje não repetido: trouxe ao Brasil a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além do prêmio especial do júri no Festival de Cartagena na Colômbia, o Golden Gate de Melhor Filme no Festival internacional de San Francisco e foi indicado ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Ao voltarem ao Brasil, o diretor e sua equipe foram recebidos com um desfile público em carro aberto. O filme não apenas levou o prêmio máximo, ele mereceu ganhar.

Infelizmente a carreira de Anselmo após o projeto foi prejudicada por divergências ideológicas e inveja no próprio meio profissional e ele não obteve mais o mesmo sucesso. Ele faleceu praticamente esquecido pelo seu próprio povo em 2009, aos oitenta e nove anos, após ter sofrido um acidente vascular cerebral hemorrágico. Seu legado para o cinema nacional é eterno, mesmo com a fraquíssima memória do brasileiro, que tende a somente valorizar as novidades, esquecendo-se assim de quem ousou outrora, sem muito patrocínio, décadas antes de nosso cinema virar um monopólio. Anselmo Duarte e seu “O Pagador de Promessas” é uma lição a todos os que pretendem fazer cinema por aqui e aos que ainda hoje, cinquenta anos depois, colocam a culpa pelo pouco público na falta de investimento, mascarando incapacidade criativa com uma confortável vitimização. Anselmo ensinou como um brasileiro pode ir sozinho para “Cannes” e, mesmo competindo com indústrias mais evoluídas e estabelecidas, trazer o prêmio máximo: “Faça melhor”.

José Mojica Marins


Falar da obra do diretor José Mojica Marins e sua importância para o cinema nacional é tarefa difícil, pois graças a ele mesmo e seu senso de humor, nos acostumamos a ver sua persona como algo cômico. Antes de começar, peço que tire do rosto o sorriso debochado. José Mojica ri de si mesmo e sabe de suas fragilidades artísticas e pessoais, porém ele não as usa como um empecilho para sua criatividade. Suas ideias podem soar antiquadas, mas são suas próprias, não as copiou. Um diretor que bate no peito e diz: “Sou capaz”. Quisera o nosso cinema tivesse mais uns dez assim.

Para se analisar sua obra é preciso esclarecer algumas informações essenciais. O cinema de terror possui várias facetas, uma delas é o chamado “Gore” (horror explícito, nojento). Mojica iniciou esse tipo de cinema em 1964 com “À Meia-Noite Levarei a Sua Alma”. Somente em 1968, um diretor americano estreante chamado George Romero fez fama internacional utilizando o mesmo conceito em seu, hoje marco inquestionável do gênero, “A Noite dos Mortos-Vivos”. O diretor estrangeiro é respeitado e cultuado mundialmente, enquanto nosso Mojica é alvo de críticas e menosprezo em seu próprio País. Parte desse preconceito tem origem no próprio humor do diretor, que se permitiu ao longo de sua carreira utilizar o personagem “Zé do Caixão” em várias aparições públicas. Como se Sylvester Stallone aparecesse em vários programas de TV utilizando a faixa vermelha de “Rambo” na cabeça. O personagem tornou-se uma figura pública e passeou por várias mídias (quadrinhos, rádio, propagandas e atualmente um programa de entrevistas), um processo que, com o tempo, ajudou a banalizar o impacto que ele causava no seu público. Uma de suas obras menos conhecidas: “Ritual dos Sádicos” (de 1969), ficou proibida pelos militares de ser exibida por vinte anos, mas é uma pequena obra-prima do terror. 

José Mojica fez algo raríssimo no cinema nacional: ele criou um personagem complexo e fez fama internacional com ele, utilizando as nossas tradições e medos. Como autor e diretor, ele ousou pôr a cara à tapa, sem medo das críticas. Possivelmente, o preconceito irá continuar por aqui, onde ele continuará sendo tido pelo nosso povo, pelo seu próprio povo, como um velho louco. A história de sua fama internacional como “Coffin Joe” obterá mais capítulos e seu nome será seguido de palmas nos festivais de cinema fantástico pelo mundo afora. Nós continuaremos os mesmos e, para nossa sorte, ele também.