segunda-feira, 31 de julho de 2017

"Ascensor Para o Cadafalso", de Louis Malle


Ascensor Para o Cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud – 1958)
O filme inicia com a personagem de Jeanne Moreau abrindo os olhos, declarando seu amor ao telefone, mas quando a câmera se afasta vemos tristeza em seu olhar, medo, culpa, insegurança, além do perceptível rastro de lágrimas já secas no rosto. O homem do outro lado da linha, ansioso, assustado, as palavras doces contrastam com a imagem que transmite urgência. O espectador inconscientemente conclui que está testemunhando um amor proibido.

Ao som do trompete de Miles Davis, os créditos emolduram o leitmotiv da distância emocional. Ela intenciona fazer com que o amante elimine o marido, para que possam finalmente sair das sombras. Louis Malle, em um atípico exercício de gênero em sua filmografia, trabalhou a incomunicabilidade antes de Antonioni, Florence (Moreau) e Julien (Maurice Ronet) nunca conquistam o simples momento de intimidade que ambos desejam. O encontro no restaurante após o crime nunca acontece. Ele executa o plano, mas, ao descobrir tarde demais um deslize na fuga, deixa seu veículo ligado e corre de volta para o prédio. Um casal adolescente, espécie de doppelgänger menos inconsequente dos protagonistas, enxergando a oportunidade de aventura, rouba o carro. O segurança, acreditando que o prédio estava vazio, finaliza seu turno e desliga a energia. Julien, um homem acostumado a vivenciar os horrores da guerra, tremendo azar, acaba passando uma noite preso impotente e frágil dentro de um elevador. Louis (Georges Poujouly), o duplo jovem de Julien perde o controle e comete o mesmo deslize comprometedor, como se o inconsciente dos dois tivesse se encarregado da punição. Florence desiste de aguardar a chegada dele, acreditando ter sido trocada por outra mulher, atravessa a noite chuvosa com desoladora apatia, revisitando os locais que costumavam visitar. A lágrima na chuva não é pelo marido, nem pela ausência do amante, Florence chora pela jovem que foi outrora, lamentando a pureza perdida no caminho. Ela encontra Véronique (Yori Bertin), a sua dupla, patética e dopada em uma cama, reconhecendo nela os mesmos erros cometidos, os ingênuos sonhos de grandeza.

A vida é a arte do inesperado, o roteiro trabalha este conceito com todos os personagens. Uma tentativa de suicídio pode dar errado, enquanto um despretensioso bate-papo agradável com turistas em um hotel pode terminar em morte; por mais que todos tentem decidir seus caminhos e creiam ser capazes de pensar à frente, a realidade se recusa a fornecer atalhos fáceis. Como o poderoso desfecho evidencia, não há escapatória. O protagonista comete um crime, recebe a fama por outro que não cometeu, mas que só foi possível porque ele indiretamente alimentou a violência, o revólver esquecido no carro ligado caiu em mãos inexperientes e intempestivas, o efeito da maldade atinge a todos. Até a justiça final possui um gosto amargo.

sábado, 29 de julho de 2017

"Beau", o lindo poema que James Stewart escreveu para seu cão


Beau

"Ele nunca vinha para mim quando eu chamava,
A menos que eu tivesse uma bola de tênis,
Ou ele sentisse vontade,
Mas, na maior parte das vezes, ele não vinha.

Quando ele era jovem,
Ele nunca aprendeu a andar,
Ou sentar, ou ficar,
Ele fez as coisas do jeito dele.

Disciplina não era seu forte,
Mas quando você estava com ele, as coisas certamente não se tornavam chatas.
Ele desenterrou um rosal apenas para me irritar,
E quando eu o agarrava, ele se virava e me mordia.

Ele mordeu muitas pessoas no dia a dia,
O garoto das entregas era sua presa favorita.
O homem do gás não lia nosso medidor,
Ele disse que tínhamos um verdadeiro "comedor de homens".

Ele incendiou a casa,
Mas a história é longa para contar.
Basta dizer que ele sobreviveu,
E a casa também sobreviveu.

Nos passeios noturnos, Gloria o levava,
Ele sempre era o primeiro a sair pela porta.
O Velho e eu, voltávamos na retaguarda
Porque nossos ossos estavam doloridos.


Ele corria pela rua com a mãe dele segurando firme a coleira,
Que lindo par eles eram!
E se ainda estivesse claro o dia e os turistas passeando,
Eles garantiam um pouco de agitação.

Mas, de vez em quando, ele parava em suas trilhas,
E, com a testa franzida, olhava em volta.
Era só para ter certeza de que o Velho estava junto,
E que o seguiria para onde ele precisasse ir.

Nós dormimos cedo em nossa casa -
Acho que sou o primeiro a deitar.
E, enquanto eu deixava a sala, ele me olhava,
E levantava-se do seu cantinho junto ao fogo.

Ele sabia onde as bolas de tênis estavam no andar de cima,
E eu lhe dava uma de vez em quando.
Ele a empurrava debaixo da cama com o nariz,
E eu buscava de volta com um sorriso.



E, em pouco tempo,
Ele se cansava da bola.
E ficava dormindo em seu canto,
Sem perder tempo.

E havia noites em que eu o sentia,
Subindo em nossa cama,
E deitando entre nós,
E eu acarinhava sua cabeça.

E houve noites em que eu sentia aquele olhar.
E eu acordava e ele estava lá sentado.
E eu estendia a mão e acariciava seu pelo.
E às vezes eu sentia ele suspirar,
E acho que eu sabia o motivo.


Ele acordava no meio da noite,
E ele tinha esse medo,
Do escuro, da vida, de muitas coisas,
E ele ficava feliz de saber que podia contar comigo.

E agora ele está morto.
E há noites em que eu acho que o sinto,
Subindo em nossa cama e deitando-se entre nós,
E eu acariciando sua cabeça.

E há noites em que eu penso,
Eu sinto aquele olhar fixo.
E eu estendo a mão para acariciar seu pelo,
Mas ele não está lá.

Oh, como eu gostaria que não fosse assim,
Eu sempre amarei um cão chamado Beau."

sexta-feira, 28 de julho de 2017

"Vitória Amarga", de Edmund Goulding


Vitória Amarga (Dark Victory - 1939)
Edmund Goulding queria Greta Garbo para o papel principal, mas ela estava ocupada com “Anna Karenina” para a MGM. A peça original, defendida nos palcos por Tallulah Bankhead, não era um primor, precisou ser reescrita várias vezes, mas o diretor enxergava na trama um forte potencial cinematográfico, algo que ficou comprovado quando o roteirista Casey Robinson entregou a adaptação. 

O melodrama poderia facilmente pender para o sensacionalismo em seu terceiro ato, mas o tom que se estabelece já nos primeiros minutos é de reverente piedade, respeito pelos personagens, com atuações contidas de todo o elenco, com exceção de Ronald Reagan, equivocado tipo que parece verdadeiramente ter entrado no set de filmagem errado. Os produtores odiaram a ideia, quem pagaria ingresso para ver algo tão depressivo? O competente britânico só conseguiu sinal verde para o projeto quando Bette Davis, ciente das tangíveis possibilidades de conquistar um Oscar, abraçou a causa e lutou bravamente por ela. A atriz, em um de seus melhores momentos, eleva a qualidade do texto com insinuações de olhares e gestos. A cena final é tão simples e, ao mesmo tempo, tão profunda. A vitória suprema, a redenção à beira do abismo.

Judith (Bette Davis) se esquiva com grosseria quando as pessoas próximas tentam ajudar, jovem despreocupada e mimada pela vida, ela teme os sinais físicos de que algo está errado. A alegria das festas, aquela que sempre tinha uma resposta rápida para qualquer coisa, sofre agora com dores de cabeça constantes. Aconselhada a procurar um especialista após um grave acidente enquanto cavalgava, ignora que sofre de um maligno câncer cerebral. A cirurgia pode apenas garantir mais alguns meses. O médico Steele (George Brent), encantado com a força da paciente, sente que está se apaixonando pela primeira vez. A mulher, que nunca se doou a ninguém, precisou cair do cavalo para encontrar o homem de sua vida. Ao escolher não revelar para a esposa que a cirurgia apenas adiava um pouco o fim, ele conscientemente retira da equação o elemento do medo, o real problema que precisa ser subjugado. E ela, no emocionante desfecho, mentindo para ele sobre a cegueira que já a dominava, devolve com classe a gentileza. Judith havia se tornado uma pessoa melhor, ela existencialmente foi salva por aquilo que precocemente acabou com sua vida.

1939 foi um dos melhores anos na história do cinema, “Vitória Amarga”, usualmente eclipsado por outros medalhões, não envelheceu sequer um dia! 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

"Napoleão", de Abel Gance


Napoleão (Napoléon - 1927)
Começo o texto sendo muito sincero, não vou abraçar a cartilha do “crítico de cinema” e tentar vender a ideia de que este épico é maravilhoso. Abel Gance e seus filmes eram odiados por Stanley Kubrick e Luis Buñuel, que o considerava um megalomaníaco insuportável, então estou em boa companhia.

Ele inicialmente queria montar dez horas, retratando toda a vida de Napoleão, mas teve que se contentar com cinco horas e meia. Considerando que sou apaixonado pela era muda e que, por exemplo, as quatro horas de duração de “Dr. Mabuse”, realizado cinco anos antes por Fritz Lang, passavam rápido e, em revisão, seguem eficientes hoje, não dá para perdoar o diretor francês por uma experiência tão absurdamente autoindulgente e entediante, especialmente considerando a natureza fascinante do tema abordado. Ele não envelheceu mal, os problemas já incomodavam na época. É, sim, não há como negar, uma obra importantíssima que inovou tecnicamente, com arroubos visuais criativos que serviram de inspiração para cineastas no futuro, instigante na primeira hora e extremamente ousada nos quarenta minutos finais. A parte introdutória que mostra a infância do personagem, envolvido em guerras de bolas de neve e sofrendo na mão de dois colegas cruéis, faz uso da tela dividida como ferramenta narrativa, algo que se repete algumas vezes, com mais efeito no desfecho em Polyvision, sistema criado e utilizado exclusivamente neste filme, com a projeção simultânea de três bobinas possibilitando a expansão horizontal da imagem, além de experimentações menos orgânicas com painéis espelhados, interessantes em teoria, mas que servem apenas para confundir o espectador e prejudicar ainda mais a imersão. É óbvio que o recurso nada prático dificultaria tremendamente a exibição, garantindo a dor de cabeça de muitos projecionistas.

Todo apaixonado por cinema precisa ver, ainda que provavelmente uma única vez na vida, para se impressionar com a pioneira montagem de cortes rápidos, múltiplas imagens sobrepostas, o ângulo "ponto de vista" alcançado colocando a câmera no cavalo em movimento, elementos que despertaram em Eisenstein, mestre da escola soviética de montagem, o interesse em se aventurar nesta arte. 

"Foucault Contra Si Mesmo", de François Caillat


Foucault Contra Si Mesmo (Foucault Contre Lui-Même – 2014)
“Escrever é transformar, é desprender-se de si mesmo, dissociar-se de si mesmo. Se eu já soubesse aonde estava indo, não escreveria. ”

Em pouco mais de cinquenta minutos, amparados em entrevistas com críticos, sociólogos e filósofos contemporâneos, o documentário acertadamente evita trilhar o caminho convencional didático de projetos similares, quase sempre dominados pelo distante olhar do outro sobre a matéria. Ao optar pela condução propositalmente caótica de vozes que, por hábito filosófico, primam pelo questionamento constante, ao invés de especialistas que se consideram donos da razão, o espectador é presenteado com um fluxo de ideias que primordialmente incitam debate.

A estética anticonformista, dividida em quatro capítulos e um epílogo, tendo como base argumentativa os livros: “História da Loucura na Idade Clássica”, “As Palavras e as Coisas” e “História da Sexualidade”, além de ser intelectualmente instigante, também é coerente com o legado do homenageado, especialmente quando aborda e, de certa forma, celebra suas contradições. Michel Foucault sempre confrontava o livro em que trabalhava com os anteriores, estabelecendo diálogo vivo entre as obras, na esperança de que, da fricção de ideias, por vezes, antagônicas, ele pudesse encontrar sua identidade. Até mesmo em seu período como professor no Collège de France, cargo de altíssimo prestígio, ele subverteu as expectativas, frequentemente utilizando sua posição para criticar o poder institucionalizado, nunca se moldando à fôrma de conduta requisitada e abraçada por seus colegas. Apesar de recusar o conceito populista da luta pela luta, ressaltando sempre a importância fundamental de manter o pensamento lúcido ativo para a prática da emancipação, ele acompanhou os jovens nas manifestações de rua, estabelecendo firme oposição aos mecanismos de dominação da sociedade, reinserindo e revalorizando em seus textos os marginalizados, loucos, detentos e homossexuais.

Nos breves trechos em que são mostrados registros de suas entrevistas, o homem segue sendo uma incógnita, o foco está em suas ideias. As manchetes de sua vida pessoal não importam, qualquer pesquisa rasteira na internet oferece estas respostas, o trunfo do projeto é utilizar seu tempo tentando compreender o que o motivava, a origem psicológica de seu estado latente de insatisfação. O interesse é introduzir a semente em terreno fértil. Quem não conhece o escritor vai terminar o filme querendo ler seus livros.

* O documentário está sendo exibido no Cine Joia (RJ).