sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Faces do Medo - "A Noiva de Frankenstein", de James Whale


A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein – 1935)
Grande parte dos cinéfilos considera “A Noiva de Frankenstein” superior ao original, mas eu discordo em gênero, número e grau. É, de fato, um produto bastante diferente, com uma proposta menos debruçada na construção de clima, maior interesse cômico, um monstro comunicativo e um viés timidamente subversivo, representado em falas do Dr. Pretorius (Ernest Thesiger), como aquela em que ele deixa implícito o caráter fabulesco do livro sagrado católico, e, de maneira mais sutil, na forma como o roteiro trabalha a homossexualidade, elemento que o diretor James Whale utiliza corajosamente, o que provavelmente fez com que ele aceitasse comandar essa sequência, após lutar por muito tempo contra esse desejo do estúdio. 

Tanto no terno encontro do monstro com o violinista cego, duas almas solitárias buscando aceitação em uma sociedade que parece não ter sido pensada para eles, quanto na rejeição violenta da “noiva” (Elsa Lanchester) criada para satisfazer o personagem de Boris Karloff, obviamente confrontando os convencionais papeis sexuais dos gêneros, nós podemos encontrar sob o verniz do horror uma mensagem socialmente revolucionária para a época. A personagem misteriosa que nasce no terceiro ato, fruto da união de Pretorius e Henry Frankenstein (Colin Clive), ao som de uma versão macabra da marcha nupcial por Franz Waxman, acaba sendo destruída para que seja celebrada na cena final a relação heterossexual, socialmente aceitável, do doutor e Elizabeth (Valerie Hobson). O monstro, com lágrimas nos olhos, afirma para seu "pai" que ambos pertencem aos mortos, antes de acionar a alavanca que destrói o local. 

Apesar desse subtexto ousado, a execução prejudica o resultado, com a caricata irlandesa Una O’Connor ganhando um destaque exagerado como alívio cômico. A figura do monstro era mais imponente no primeiro, com o rosto cadavericamente magro do ator intensificando o impacto de suas aparições. Karloff ganhou peso, um rosto com aparência mais saudável, além de se mostrar visivelmente contrariado com a ideia de dar voz ao personagem. O que mais gosto na trama é a inclusão da sequência inicial mostrando a escritora Mary Shelley, vivida pela própria “noiva”, como a bela e doce mulher da alta sociedade que é capaz de criar o pesadelo mais aterrorizante em sua mente, conceito que agradava sobremaneira Whale. 

sábado, 30 de julho de 2016

Sétima Arte em Cenas - "Os Bandidos do Tempo", de Terry Gilliam

Link para os textos anteriores do especial:


Os Bandidos do Tempo (Time Bandits – 1981)
É impressionante como essa produção costuma ser analisada por críticos como parte da filmografia do grupo Monty Python. Apesar de ser dirigida por Terry Gilliam e contar no elenco com rápidas participações de John Cleese e Michael Palin, a deliciosa aventura no tempo tem suas raízes nas recordações lúdicas da infância do cineasta. Detalhes como o lar do vilão ser formado por peças de Lego gigantes, ou a decisão ousada de literalmente explodir as figuras parentais do pequeno Kevin no desfecho, falam diretamente ao subconsciente da criança que busca compreender a complexidade do mundo em que está inserida. Há muito senso de humor, mas sem cinismo. Com baixo orçamento e ajuda na distribuição do amigo beatle George Harrison, o filme surpreendeu os críticos com sua inventividade visual e fez um sucesso tremendo de público, garantindo ao diretor a possibilidade de uma carreira fora do grupo britânico. Perto de filmes com temática similar, como “A História Sem Fim”, “Labirinto” e “A Lenda”, “Os Bandidos do Tempo” cresce a cada revisão por sua coragem de não subestimar o seu público-alvo, inserindo camadas sombrias que abrem possibilidades de discussões posteriores sobre seus possíveis significados.

A breve cena que justifica a inclusão do projeto nesse especial, emoldurada por um dos diálogos mais interessantes já escritos no gênero, ocorre no lar da personificação do mal, vivido brilhantemente por David Warner, quando ele é confrontado por um de seus minions sobre sua incapacidade de escapar de seus domínios e, por conseguinte, sua simples existência ser a comprovação de que “Deus” é superior, logo após discursar com segurança sobre ser todo poderoso, aquele que “ninguém criou” e que “ninguém pode desfazer”. Após destruir o pobre coitado, reconstruir e destruir novamente, uma das tiradas mais hilárias do filme, ele reflete: “Boa pergunta. Por que eu, como ser supremo do mal, permito que Deus me mantenha preso na fortaleza da escuridão?”. A conclusão dele, “para que o ser supremo tenha uma falsa sensação de segurança”, não convence nem mesmo seu fiel adulador. Ao trabalhar de forma crítica e questionadora o sistema de crenças em um produto direcionado para crianças, o roteiro provoca inconscientemente um desconforto benéfico, uma espécie de “Carl Sagan” para baixinhos. Em um universo criativo de tantas cenas visualmente impressionantes, como o gigante que carrega a embarcação marítima no topo da cabeça, considero esse breve momento o mais genial da obra. 


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema”, tendo como material extra legendado uma longa entrevista com o diretor, abordando toda a sua carreira, além de um featurette sobre a criação dos figurinos e produção dos cenários.

Cinema Francês - Truffaut e Chabrol


A Mulher do Lado (La Femme d'à Côté – 1981)
Sou completamente apaixonado por esse filme, o penúltimo na carreira de François Truffaut, uma das histórias de amor mais trágicas já filmadas, inspirada parcialmente nas experiências românticas do diretor com Catherine Deneuve. Já na primeira cena somos apresentados à gentil narradora, Odile (Véronique Silver), a única utilização da quebra da quarta parede na filmografia do mestre francês, com o enquadramento e a ambientação nos levando a crer que ela é uma sorridente tenista, ilusão que a própria quebra, segundos depois, com o distanciamento da câmera revelando que ela utiliza uma bengala para caminhar com dificuldade, consequência de um ato impensado após o fim de um relacionamento amoroso. O que parece bonito e plácido, na realidade, pode ser triste e profundamente traumático, um elemento sempre reforçado pela fúnebre trilha sonora de Georges Delerue, uma espécie de leitmotiv que se faz presente na relação do casal vivido por Fanny Ardant, no auge de sua beleza, e Gérard Depardieu. Como de costume, Truffaut se apaixonou pela atriz e ela foi sua companheira até o final de sua vida.

Mathilde e Bernard se amaram intensamente outrora, mas a ruptura foi violenta, o que faz com que o reencontro casual, sete anos depois, com ambos estabelecidos em relacionamentos estáveis, provoque uma regressão psicológica considerável nos dois, destruindo todas as pontes criadas com extrema dificuldade pelo inconsciente como forma de proteção. Como se não bastasse essa trapaça do destino, eles são forçados ao convívio diário, já que são vizinhos. Num toque brilhante do roteiro, os dois são casados com perfeitas antíteses de seus pares, e, pra elevar a dor, os filhos dos dois tem o mesmo nome: Thomas. O quarto de hotel compartilhado que inicialmente remete à simbologia dos encontros secretos de “O Último Tango em Paris”, o desejo que explode após ser contido por tanto tempo, o simples beijo que causa um desmaio na mulher, sequências que vão construindo o cenário de uma tragédia anunciada. Quando a lascívia é saciada, os sentimentos que operaram no passado a separação começam a romper brutalmente a camada emocional superficial. Sem estragar a experiência de quem não conhece o filme, posso garantir que o desfecho irá ficar em sua memória por muito tempo. 


Mulheres Diabólicas (La Cérémonie – 1995)
Quando se fala em filmes que lidem com a questão da luta de classes, você consegue citar algumas obras-primas, como “Mulheres Diabólicas”, “Norma Rae”, “Ladrões de Bicicleta”, “A Batalha de Algiers” e “Taxi Driver”, algumas variações criativas, como “V de Vingança”, “Metrópolis”, “1984”, “Brazil” e “Laranja Mecânica”, ou até mesmo histórias que reduzem o tema à caricatura simplista que parece escrita por uma criança, como o nacional “Que Horas Ela Volta?”. Aliás, vale ressaltar que esse último bebe bastante da fonte de Claude Chabrol na forma como estrutura a crescente animosidade entre os patrões e a empregada, claro, sem qualquer traço da coragem do roteiro do mestre francês, que adapta inteligentemente o livro “A Judgement in Stone”, de Ruth Rendell, com inspiração perceptível também no caso real das irmãs francesas Christine e Léa Papin, ocorrido na década de trinta. É o meu filme favorito do diretor, seguido de perto por “O Açougueiro” e “Trágica Separação”. A sua usual crítica aos burgueses é citada ironicamente por Jacqueline Bisset, que interpreta a patroa, em um dos excelentes documentários que a distribuidora Versátil incluiu no lançamento, quando ela afirma que considera curioso o fato de que Chabrol, um homem que adota confortavelmente o estilo de vida burguês, odeie tanto a burguesia. Uma pérola argumentativa que evidencia a função do cineasta como voyeur de si mesmo.

Ao buscar na estação de trem sua jovem empregada (Sandrine Bonnaire), a patroa não percebe que ela havia chegado mais cedo e estava esperando em outra plataforma. O espectador descobre junto com ela, já que a personagem estava propositalmente fora do enquadramento, um recurso sutil que agrega um elemento arrepiante à introvertida jovem, estabelecendo desde o início os alicerces psicológicos que irão possibilitar a virada de mesa que ocorre no terceiro ato. O roteiro revela espertamente que ela é analfabeta, algo que a constrange profundamente, uma condição que dificulta sua autopercepção como indivíduo relevante na sociedade. Ela tem uma mancha criminosa em seu passado, o que a aproxima ainda mais de sua nova amiga, a espevitada Jeanne (Isabelle Huppert), que também esconde um segredo macabro. Essa inusitada relação, onde as carências são gradativamente suprimidas pela preparação do ritual de destruição do opressivo status quo, acaba sendo responsável por acionar o gatilho libertário e inconsequente na mente de Sophie. As duas são mostradas em uma cena silenciosamente perturbadora, sentadas no chão vendo a televisão, de braços dados em um enlace quase “cronenberguiano”, gêmeas de alma, uma postura visualmente antinatural que prenuncia os atos extremos que serão cometidos no impactante desfecho, emoldurado coerentemente por uma sessão televisiva da ópera "Don Giovanni", de Mozart, grande paixão cultural dos patrões. Para Sophie, em sua mente corrompida pelo vitimismo, o casal tem aquela quantidade absurda de livros na biblioteca para provocar a jovem, já que ela acredita que ninguém leria aquelas páginas todas por puro prazer. Da mesma forma, incapaz de compreender a fascinante beleza da ópera, ela decide usar como revide o som brutal dos disparos de um rifle. Chabrol em seu momento mais genial. 





* Os filmes restaurados, com documentários, estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, no digistack "Cinema Francês".

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Do fundo do baú: homenagem que recebi dos meus colegas de teatro em 2010

Resgatando do fundo do baú, diretamente de 2010, a homenagem que recebi dos meus colegas do grupo de teatro. Dedico um capítulo do meu livro "Devo Tudo ao Cinema" a este ano especial, em que roteirizei o curta de finalização do curso, e escrevi/dirigi a peça "O Júri", baseada em "12 Homens e Uma Sentença". Quem leu o livro sabe como este ano foi importante em minha vida. Faço questão de compartilhar com vocês o inesquecível registro:

Homenagem feita pelos colegas após a apresentação da peça:



Rebobinando o VHS - "Trapalhões do Futuro"

Link para os textos anteriores do especial:


O VHS foi lançado pela distribuidora “Video Ban”, que primava por produções medíocres ou irrelevantes, aquele material que deveria ser exibido com um formal pedido de desculpas introdutório. Eu devo ter alugado a fita umas duas vezes, mas foi o bastante para deixar em minha mente essa recordação tão viva, fecho os olhos e a imagem dos gêmeos aparece, tento controlar a ânsia de vômito pensando em coisas mais agradáveis como corretores de imóveis e as instalações da Vila Olímpica. 


Trapalhões do Futuro (Slapstick of Another Kind – 1982)
Caleb Swain (Jerry Lewis) e a esposa Lutetia (Madeline Kahn) são um casal adorado por todos. Mas tudo muda quando Lutetia dá à luz um casal de gêmeos horrorosos. Eles são Wilbur e Eliza (também interpretados por Lewis e Kahn), e que na verdade são dois alienígenas que foram escolhidos e enviados para resolverem os problemas do planeta. Quando eles estão separados, os dois ficam fracos e sem inteligência, mas juntos, os dois possuem um grande potencial. Infelizmente por interesse de terceiros, eles acabam sendo ameaçados de se separarem pra sempre.

Quando Jerry Lewis declara à imprensa que “The Day The Clown Cried” não merece ser visto, fico pensando que nada em sua filmografia pode ser pior do que “Slapstick of Another Kind”, de 1982, lançado apenas dois anos depois, já que ninguém parecia disposto a correr o risco. É engraçado ver que Lewis foi divulgar o lançamento do filme no programa do Johnny Carson, vídeo que pode ser encontrado no Youtube, falando dele como se fosse uma obra-prima, rasgando elogios para o jovem diretor Steven Paul, alguém que se mostra incapaz de conduzir uma única cena com algum traço de personalidade. Não é possível que ninguém da equipe tenha percebido o nível tóxico do lixo que estavam produzindo, uma obra que não serve como adaptação do bom livro de Kurt Vonnegut, trabalha algo em torno de dez por cento do material escrito, e não se sustenta minimamente como comédia.

O perfeccionista protagonista, a talentosa Madeline Kahn, os olhos desencontrados de Marty Feldman, a voz poderosa de Orson Welles, o eterno “mestre Miyagi” Pat Morita vivendo um “alienígena chinês em miniatura”, até o diretor Samuel Fuller faz uma ponta, um grupo de respeito que parece estar pagando alguma ingrata aposta. Não é só o mau gosto na trama que me impressiona, mas a incrível ineficácia de um roteiro que não consegue fazer rir em nenhum momento. O trabalho de maquiagem prostética no rosto dos irmãos gêmeos (Kahn e Lewis), sem brincadeira, traumatiza qualquer criança pequena que, por crueldade do acaso, acabe passando na frente da televisão em uma exibição. É grosseiro, tosco no pior sentido da palavra. O desfecho tenta entregar um toque de sentimentalismo, mas com a mesma mão pesada e altamente incompetente, resultando em simples, boa e velha, vergonha alheia. Quando os irmãos estão entrando na nave espacial, cópia carbono da utilizada em “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, na escuridão da noite, o filme consegue a proeza de inserir um olhar de despedida dos pais, cena reutilizada e ambientada numa clara manhã primaveril. O que me perturba é que nada disso explica o fascínio que sinto por essa porcaria. Se lançassem um livro revelando os bastidores das filmagens, eu devoraria em uma madrugada. Já joguei fora meia-hora de um dia vendo um making of dele no Youtube. É tão ruim, tão doentiamente asqueroso, tão repulsivamente tolo, que acaba se tornando agradável. No início da década de noventa tive a impressão de que a indústria norte-americana entregaria algo similar com a comédia “Cônicos e Cômicos”, alienígenas cabeçudos saídos diretamente dos esquetes do SNL, mas infelizmente Dan Aykroyd é um bom roteirista, o filme é razoavelmente bom, não chega nem perto do brilhantismo não intencional dessa pérola que resgato aqui.