sexta-feira, 6 de maio de 2016

"A Greve" e "O Encouraçado Potemkin", de Serguei M. Eisenstein

Link para os textos do especial sobre cinema mudo:


Em um dos textos de seu livro: “O Sentido do Filme”, Eisenstein define magistralmente a importância da montagem na linguagem cinematográfica. Mas antes de abordar isso, acho válido salientar que muitos apreciadores sequer conseguem diferenciar as palavras “edição” e “montagem”. E como esse entendimento é fundamental pra entender a posição de Eisenstein na história dessa arte, resgato aqui a explicação que escrevi em um texto antigo, intitulado: “A Engenharia da Emoção”. O diretor filma um longo diálogo entre dois atores num único ambiente, mas percebe que a mensagem já havia sido transmitida com eficiência no primeiro minuto. Ele então pede para cortar os minutos restantes, deixando apenas o desfecho, onde ambos se despedem. Na sala de edição, uma cena que duraria cinco minutos, acaba entrando no filme com apenas dois minutos. Já a montagem é uma técnica da edição, onde planos separados são reunidos em um sistema dinâmico, favorecendo a narrativa. Voltando à definição do mestre russo, ele evidencia que é natural da mente humana a automática sobreposição de imagens no dia a dia, buscamos figuras reconhecíveis em nuvens, rostos em formações rochosas. Caso te entreguem duas fotos distintas, um túmulo no cemitério e uma mulher vestida de negro chorando, você vai automaticamente pensar que é uma viúva a chorar a morte do marido. Isso não ocorre apenas com imagens, mas também com palavras. A montagem é a condução deliberada das associações do espectador. Eisenstein não estava interessado em adotar o sistema comum, na busca por um resultado coeso que respeitasse a continuidade lógica, ele explorou as possibilidades criativas da união de duas sequências na criação de um terceiro elemento novo e impactante. Numa analogia simples, ele pegaria as duas fotos já citadas e, por sobreposição, faria o espectador crer que a mulher de negro chora de dentro do túmulo, abrindo variações filosóficas mais interessantes do que se pensaria ser possível a princípio.


A Greve (Stachka – 1925)
“A Greve”, que considero superior ao mais famoso “O Encouraçado Potemkin”, apresenta um cineasta jovem iniciando com sangue nos olhos, disposto a experimentar suas ideias ao máximo, num projeto que foi encomendado como produto panfletário comunista, defendendo a cultura do proletariado na visão simplista do socialismo, sem tons de cinza, onde os patrões, gordos e esbanjadores, são sempre monstros insensíveis e cruéis que precisam ser abatidos. Assim como em “O Nascimento de Uma Nação”, pouco importa a discutível ideologia defendida, mas, sim, a eficácia da técnica e a fluência do produto final. Acho triste que essas obras acabem sendo reduzidas a material didático em faculdades de cinema, já que são grandes filmes que precisam ser sentidos e abraçados emocionalmente pelo público em geral, não apenas estudados minuciosamente em sala de aula. É de beleza sem igual uma cena que mostra três operários cruzando os braços, sobreposta à imagem de uma roda que para de girar. O pássaro que descansa no topo de uma chaminé de fábrica desativada, a natureza tomando de volta o que a ganância do homem havia dominado. Os cavaleiros da burguesia adentrando a vila dos operários, uma catarse de selvageria, enquanto duas crianças, a nova geração proletária, brincam com seus cavalinhos de pelúcia. Não dá pra imaginar o cinema de hoje sem a contribuição de Eisenstein. A intenção do choque, simbolizada na sequência final que relaciona o abate de um boi no matadouro à opressão contra os operários em greve, ainda mantém seu impacto revoltante hoje, mas posso imaginar a sensação que causou no público da época. Como peça de propaganda, o filme é imbatível, o intertítulo conclama o cidadão a lutar pelos seus direitos, o espectador saía da sessão trincando os dentes, desejando apenas o revide. É a expressão máxima do que o diretor chamava de "cine-punho", contrariando o passivo "cine-olho" de Dziga Vertov.


O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin – 1925)
Sempre lembrado pela sequência genial do massacre na escadaria de Odessa, imagens que inspiraram trabalhos do pintor Francis Bacon, a hierarquia onde o povo se coloca em superioridade numérica saudando a revolução dos marujos rebeldes, atitude corajosa que conduz à criança que morre pisoteada pela multidão e o carrinho de bebê que despenca sem rumo, símbolos máximos na ideologia defendida pela obra do desamparo da nova geração caso o proletariado perca a batalha contra os monstros burgueses, nesse filme encontramos um Eisenstein mais discreto em suas experimentações, com exceção de uma montagem satírica próxima ao final, mostrando a estátua do leão que guarda a casa de ópera assustado com os tiros de canhões do encouraçado em revide aos assassinatos. O nível de tensão em vários momentos se mantém eficiente hoje, a comprovação da competência do diretor. Um prato de sopa causa o motim, mas também possibilita a motivação necessária para que o povo tome conhecimento do problema e abrace a causa, o que ocorre na bela sequência que mostra os marujos recebendo com alegria o carinho dos populares, que em barcos vão ao encontro deles. A produção foi encomendada como forma de celebrar o aniversário de vinte anos da revolta do Potemkin, evocando na cena final a camaradagem entre marinheiros de toda a frota que permitiu que o navio de guerra seguisse seu curso sem precisar utilizar seus canhões. Assim como em "A Greve", ele funciona impecavelmente naquilo que se propõe, incitar no espectador o desejo raivoso do revide. E, exatamente por isso, essas obras foram consideradas perigosas a ponto de serem banidas em seu tempo. 

A Seguir: “Ivan, O Terrível – Partes 1 e 2”.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

"Capitão América: Guerra Civil", de Anthony e Joe Russo


Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War – 2016)
Uma cena que define um dos grandes problemas do filme e desse formato adotado pela Marvel, que a DC/Warner está tentando emular com atraso: o protagonista acaba de enterrar a mulher que mais amou na vida, ainda que ao analisar a tristeza no rosto de Chris Evans, exercitando a sua única variação de expressão, pareça a tristeza de um menino que viu quebrar seu videogame. Na missa, o seu colega percebe a presença da sobrinha jovem e bonita da falecida, o que o faz divertidamente chamar a atenção do viúvo, como o moleque travesso da escola que diz: que gatinha, olha lá. O público da sala escura dá uma gargalhada. Nos quadrinhos existe esse relacionamento, mas a situação soa tola na linguagem cinematográfica.

Com exceção das excelentes sequências de ação, demonstrando o domínio perfeito da coreografia, com destaque para a intensidade brutal das lutas corporais, o filme é uma coleção de equívocos. Todos os adultos inseridos no filme agem como pré-adolescentes travessos que esperam a professora virar as costas pra atirarem uma bolinha de papel na lousa. O roteiro não permite que nenhuma cena dramática finalize sem uma desconstrução bem-humorada. Até mesmo o aguardado embate entre os heróis divididos por ideologias, conceito que funciona apenas nos quadrinhos. As motivações são estabelecidas de forma apressada, com os personagens interrompendo cada ataque com uma piadinha, dando à sequência mais importante do filme o tom infantil de uma batalha inofensiva de paintball entre colegas da firma. Não há o menor interesse em agregar qualquer senso de dramaticidade no conflito. O único elemento que realmente funciona na longa cena é o Homem-Aranha vivido por Tom Holland, que com poucos minutos consegue se sair melhor do que as últimas duas fracas incursões do herói nas telas. O Homem-Formiga de Paul Rudd seria um ótimo alívio cômico, mas que se torna banal, repetitivo, em uma trama onde o drama é coadjuvante. Os demais personagens que são inseridos, como o Pantera Negra de Chadwick Boseman, com a plena consciência dos produtores de que eles terão mais tempo para se desenvolverem em filmes futuros, não passam de traços rápidos, rascunhos. Em dois minutos se estabelece uma relação de ternura entre pai e filho, dois personagens que nunca haviam aparecido, com o roteiro pedindo então que nós choremos a tragédia pessoal de alguém que apenas os fãs mais devotados dos quadrinhos conhecem. O engraçado é perceber que alguns críticos ressaltam que ele é o personagem mais maduro. Só porque ele é o que faz cara de raivoso o tempo inteiro? Qual é o desenvolvimento psicológico do personagem? Qual é o arco narrativo dele? Ele é movido pela vingança, essa é a única informação que recebemos.

Outro grande problema é o vilão interpretado por Daniel Brühl, um desrespeito com o Zemo dos quadrinhos. Teria sido melhor darem qualquer outro nome pra ele. Sem carisma algum, totalmente deslocado, um elemento que poderia ter sido extirpado sem dano algum ao fiapo de história trabalhado. O grande plano arquitetado por ele é uma grande bobagem, sem coerência, sem impacto orgânico. Os diretores Anthony e Joe Russo, após o competente “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, perderam a mão, não conseguindo entregar o mesmo equilíbrio agradável entre o senso de perigo real e a necessidade de divertir o público. Sem o investimento emocional daqueles que esperavam um mínimo de relevância dramática, a trama se torna arrastada, sem ritmo. A alegoria política do anterior dá lugar a um passeio por um parque temático facilmente esquecível. Essa fórmula inevitavelmente está fadada ao desgaste brutal e a subsequente reavaliação negativa de público e crítica. São produções com prazo de validade curto, com roteiros terrivelmente inofensivos, que não arriscam por medo de botar tudo a perder. E, o pior, uma boa parte deles, como o próprio “Capitão América: Guerra Civil”, não se sustenta narrativamente fora do universo que está sendo construído. 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

"Duna", de David Lynch


Duna (Dune – 1984)
“Duna”, de Frank Herbert, foi um dos primeiros livros de ficção científica que li na minha pré-adolescência, no início da década de noventa, mesmo período em que colecionava a “Isaac Asimov Magazine”, chocando mensalmente o jornaleiro com meu interesse naqueles contos adultos, uma publicação primorosa da Editora Record, símbolo de uma época mais elegante nessa nação. Fui ler os livros posteriores das crônicas somente mais tarde, já cursando faculdade, são muito interessantes, mas o original segue forte em minha memória afetiva.

As primeiras duzentas páginas são arrebatadoras, uma fascinante construção de universo, estabelecendo os alicerces das intrigas políticas na disputa entre os Atreides e os Harkonnen, tendo a ambição pelo controle da especiaria alucinógena melange, encontrada apenas no planeta desértico Arrakis/Duna, como uma óbvia metáfora para a exploração do petróleo no Oriente Médio. O povo Fremen (variação de “homens livres”) que se adaptou ao convívio diário com a ameaça dos gigantescos vermes da areia, sobrevivendo com a ajuda de seus trajestiladores, trajes que reaproveitam a água desperdiçada do corpo no calor intenso, aguarda a chegada de seu profetizado messias Muad’Dib, que irá liderar uma jihad no futuro. 

A história é envolvente, sem muitas sequências de ação, mérito da prosa irretocável do autor. Não há possibilidade de reduzir o escopo filosófico da trama a um par de horas em um projeto cinematográfico que visa atingir todos os tipos de público, mas a essência poderia ser mantida. Por mais interessante que seja conhecer os bastidores da megalomaníaca produção que seria dirigida pelo chileno Alejandro Jodorowsky, matéria do documentário: “Duna de Jodorowsky”, dá pra entender as razões que fizeram com que essa tentativa fosse abortada em avançado processo de realização. Com a entrada do produtor italiano Dino De Laurentiis, no final da década de setenta, o livro teria finalmente uma versão cinematográfica fiel em espírito e letra, a despeito do pouco interesse do diretor/roteirista David Lynch no livro e na ficção científica como um todo. E talvez eu seja um dos poucos que preferem o corte estendido para televisão, renegado por Lynch, tão imperfeito quanto o corte oficial, com uma longa introdução narrada emoldurada por desenhos, substituindo a breve exposição hipnótica da bela Virginia Madsen, emulando a onipresença da Princesa Irulan no início de cada capítulo do livro. A direção de arte, o design de produção e as caracterizações, assim como em "Blade Runner", são tão impressionantes que firmaram as imagens em meu inconsciente, nas duas vezes em que reli a obra eu não consegui desassociar visualmente o livro do filme. 

Um dos pontos criticados por muitos é a opção pela constante intrusão dos pensamentos dos personagens, recurso utilizado frequentemente no livro, algo que efetivamente prejudica o ritmo do filme, mas também agrega uma aura de fábula. O jovem protagonista, Paul Atreides, vivido por Kyle MacLachlan em seu primeiro papel no cinema, percorre a clássica jornada do herói, uma espécie de Lawrence da Arábia, sendo afastado brutalmente de sua figura paterna e jogado pelo destino em um cenário inóspito de desafios praticamente insuperáveis. Ele, criado em uma sociedade mais civilizada que priorizava as estratégias de defesa, simbolizadas pela utilização do escudo de força pessoal e do resgate das elegantes armas brancas, em detrimento da artilharia bélica, precisa enfrentar com inteligência um grupo de selvagens que valoriza mais o impacto destruidor do ataque do que a perícia com que executa o mesmo. 

Vale destacar a bela trilha sonora composta por Toto, com a adição de um tema de Brian Eno, um elemento que ajuda a estabelecer o tom correto de desolação e imponência que equilibra a grandiosidade do universo abordado e a pequenez dos personagens inseridos nesse contexto, o embate entre a lógica científica das Bene Gesserit e o pulsante fervor religioso dos Fremen. 

A versão cinematográfica de "Duna" merece ser reavaliada com mais carinho pelos críticos da nova geração. 


A Editora Aleph lançou os primeiros três livros da saga de Frank Herbert: “Duna”, “Messias de Duna” e “Os Filhos de Duna”, edições obrigatórias na estante de todo apaixonado pela literatura de ficção-científica. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Faces do Medo - "Corrente do Mal", de David Robert Mitchell

Link para os textos do especial:


Corrente do Mal (It Follows – 2014)
Para a jovem Jay, de 19 anos, o outono deveria se concentrar na escola, nos meninos e nos fins de semana no lago. Mas, depois de um encontro sexual aparentemente inocente, ela se vê atormentada por estranhas visões e um sentimento constante de que alguém ou algo está seguindo-a. Confrontada com esse fardo, Jay, com a ajuda de seus amigos, deve encontrar uma maneira de escapar dos horrores que parecem estar a poucos passos de distância.


O meu gênero de formação, como já mencionei várias vezes, é o terror. Em minhas listas de melhores filmes de cada ano, tento sempre reservar lugar para aquela grande obra que me renova a esperança de que há vida inteligente no horror cinematográfico, tão banalizado em produções cada vez mais infantis e imediatistas. Esse filme ocupou o décimo primeiro lugar na lista do ano passado, quase entrou na seleção oficial.

A inspiração do jovem roteirista/diretor David Robert Mitchell foram os clássicos sci-fi das décadas de cinquenta e sessenta, como o livro “Os Invasores de Corpos”, de Jack Finney, e os filmes onde alienígenas tomam o corpo de humanos, como “A Ameaça Que Veio do Espaço”, de Jack Arnold. Ele driblou inteligentemente o baixo orçamento ao estabelecer que o instrumento do medo, o perigo que ronda os personagens, numa homenagem aos slashers oitentistas norte-americanos, seria representado por pessoas caminhando lentamente em direção à câmera. Essa opção conceitual rejeita a passividade usual do cinema, com o auxílio da profundidade de campo, estimulando no espectador a exploração dedicada em todas as cenas, com a atenção direcionada para além do que ocorre no primeiro plano, já que todos os que cruzam o cenário são altamente suspeitos.

A trilha sonora com sintetizadores que remetem aos filmes adolescentes de terror das décadas de setenta e oitenta, aliada a algumas interpretações menos inspiradas e alguns alívios cômicos tolos, prejudicam um pouco o primeiro ato, mas a utilização da maldição que é passada adiante pela relação sexual engrandece o resultado, uma metáfora para o momento perturbador na vida dos jovens em que o presente deixa de ser uma festa ininterrupta e o futuro começa a se mostrar amedrontador. As responsabilidades da maturidade tomam a forma de vultos inabaláveis, a constatação de que todo ato gera uma consequência. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Dia em Que Conheci um Trapalhão

Links para textos sobre Os Trapalhões:

Entrevista exclusiva com Rafael Spaca, sobre o livro:


Na noite dessa Segunda, 25/04/16, fiz questão de aplaudir pessoalmente o belo trabalho de resgate cultural do jornalista Rafael Spaca, autor do livro “O Cinema dos Trapalhões – Por Quem Fez e Por Quem Viu”, da Editora Laços, um conjunto de mais de cento e trinta entrevistas realizadas por ele com técnicos e artistas que participaram dos filmes desse grupo inesquecível. Desprezados por boa parte da crítica cinematográfica em seu tempo, os filmes protagonizados por Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum e Zacarias, foram fundamentais na formação cinéfila de muitas crianças e adolescentes. Conheço pessoas que afirmam que aprenderam a amar o cinema graças às aventuras desses super-heróis brasileiros. Quando entrei na sala escura com minha mãe pra ver "Os Fantasmas Trapalhões" no extinto Cine Carioca, no Rio de Janeiro, eu colecionava as revistas em quadrinhos lançadas pela Editora Abril Jovem, "As Aventuras dos Trapalhões", com paródias dos sucessos de Hollywood. Conheci o RPG, role-playing game, através de "Didiana Jones na Ilha dos Dinossauros", antes de embarcar nos livros adultos do gênero escritos por Steve Jackson e Ian Livingstone. 

Então vocês podem imaginar a emoção que tive ao encontrar o grande Manfried Sant'Anna, o nosso querido trapalhão Dedé Santana, um competente diretor, apaixonado por cinema. E, o mais importante, pude agradecer pessoalmente por alguns dos momentos mais felizes da minha infância. Ele é gentil, humilde e atencioso, como os grandes sempre são. Também na foto, outro símbolo de simpatia e talento, a querida amiga Nádia Lippi, que está no elenco do meu quarto curta: "Nocebo". 


Parabéns, Rafael, pelo respeito que nutre por esses artistas e pelo gesto nobre de posicioná-los no lugar de destaque que merecem em nossa indústria. Saiba que conta aqui com um aliado nessa batalha. E obrigado, porque graças ao seu livro, pude realizar um sonho da minha criança interior.