sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sobre a importância da parentalidade consciente

A criança aprende pelo exemplo, ela começa imitando aqueles que a cercam, ela precisa escutar os pais folheando as páginas dos livros, após um dia longo de trabalho, ou numa manhã de um final de semana tranquilo. Ela precisa ser surpreendida com o desligar da televisão e do computador, após o jantar na casa humilde ou na mansão, sendo estimulada a acompanhar os pais, sentada no sofá ao lado, compartilhando o sábio silêncio de mentes trabalhando. Enxergar perifericamente os olhos do adulto se aproximando do final de uma página, fascinada por aquele universo que o encanta, tentando igualar aquela velocidade, vencer a figura terna de autoridade. E, inteligente, o adulto carinhoso, consciente dessa linda batalha lúdica, deixa o filho acreditar que é mais rápido.

Com esperta teatralidade, a mãe desliga as luzes e acende velas, captando a criatividade da criança com o bruxulear mágico, formando sombras nas linhas que os pequenos olhos perseguem com o dobro de atenção.  As aventuras elaboradas pelos autores se amalgamam à emoção despertada pelo ambiente, uma sensação que nenhum jogo eletrônico poderia emular. Ao invés de despejarem um smartphone ou um tablet nas mãos das crianças, os pais responsáveis presenteiam seus filhos com livros. A criança precisa assistir os pais admirando por vários minutos aquela estante repleta de capas coloridas, tendo sua curiosidade instigada na direção de descobrir quais maravilhas se escondem naqueles tomos.

O pai inteligente pode até se dar ao luxo de inicialmente reprimir a aproximação da criança, afirmando teatralmente que ela precisa ter muito cuidado com aqueles objetos extremamente importantes, já que o proibido é um elemento que atrai com maior intensidade. O filho pequeno entenderá que, ao tocar aqueles livros especiais, está se empoderando e agindo como um homenzinho, adentrando um mundo novo de incríveis possibilidades. Então, o pai, com o sorriso de quem sabe que está criando um ser humano potencialmente valoroso, promete ajudar o filho a desbravar aquela magnífica aventura literária. Os pais precisam ser os heróis da criança, liderando sempre pelo exemplo, conquistando o respeito por merecimento. Caso todos os brasileiros tivessem essa consciência, nossa nação não estaria atravessando esse miserável momento cultural.

Colocar um filho no mundo precisa ser uma atitude consciente. A parentalidade irresponsável é a gênese de grande parte dos nossos maiores problemas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"Gêmeos - Mórbida Semelhança", de David Cronenberg


Gêmeos - Mórbida Semelhança (Dead Ringers – 1988)
Em um esforço visual aparentemente mais sutil, David Cronenberg realizou, talvez, seu experimento ideologicamente mais repulsivo, um filme cujo terror aumenta, na medida em que relembramos suas cenas, a jornada dos irmãos gêmeos ginecologistas Elliot e Beverly Mantle, vividos pelo excelente Jeremy Irons. Vale destacar o primor da adaptação, já que o livro original, escrito por Bari Wood e Jack Geasland, “Twins”, não poderia ser mais medíocre. O roteiro pega algo comum e enriquece com simbolismo.

O sobrenome “Mantle”, manto, fachada que envolve e esconde o lado sombrio na relação dos dois. Bev+Elly = O começo e o fim de um mesmo nome, indissociáveis e, acima de tudo, complementares enquanto espelho psíquico. Bev é introvertido, gentil e emocionalmente dependente. Elly é o extremo oposto, extrovertido, rude e incapaz de demonstrar empatia. Ginecologistas especializados em infertilidade feminina, eles compartilham suas conquistas amorosas, pacientes fragilizadas e carentes, que ignoram participar desse jogo infantil de imitação. O problema ocorre quando Bev se apaixona por uma de suas vítimas, uma atriz, vivida por Geneviève Bujold, o elemento que engatilha a ruptura na relação dos irmãos. Ela, tratada pelo frio Elly como uma mutante de útero trifurcado, alguém incapaz de ser mãe, um desafio profissional insolúvel para quem se julgava tão poderoso a ponto de modificar a natureza, será a responsável por fazer nascer em Bev, inteligentemente após uma perturbadora cena de dança/sexo simbólico, a necessidade de construir uma identidade própria, tema recorrente nas obras do cineasta, um processo complexo de dissociação, a consciente rejeição ao complementarismo outrora tão atraente e confortável.

E desse esforço, representado no magnífico terceiro ato, utilizando generosamente o vício em drogas como analogia para os efeitos físicos desse confronto interno, ocorre uma fusão existencial, que, metaforicamente, origina uma terceira versão, atualizada e emocionalmente mais segura, revelação exposta já no cartaz original do filme. 

* O filme, inédito em home video por aqui, está sendo lançado em DVD, pela distribuidora "Versátil", com o refinamento usual, incluindo excelentes documentários que aprofundam as discussões filosóficas despertadas pela trama.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Cine Noir - "O Ídolo Caído", de Carol Reed


O Ídolo Caído (The Fallen Idol – 1948)
Phillipe, filho de um diplomata, faz amizade com Baines (Ralph Richardson), o mordomo da embaixada. Baines conta-lhe tremendas histórias, onde sobressai seu heroísmo, e torna-se o ídolo do garoto. Quando a esposa morre, o menino começa a suspeitar dele. Daí, para protegê-lo, Phillipe tenta confundir a polícia com pistas inventadas.


O filme, parcialmente financiado por David Selznick, foi o primeiro de três produções importantes que resultaram da parceria entre o diretor Carol Reed e o escritor Graham Greene. Normalmente eclipsado pelo célebre “O Terceiro Homem”, esse precioso thriller, contado pelo ponto de vista de um menino de oito anos, merece ser mais celebrado.

O que me encanta nele é a forma como o roteiro se divide em duas realidades: os eventos como realmente são, em sua simplicidade desinteressante, e os mesmos eventos absorvidos e codificados pela inocência da criança, vivida de forma impecável por Bobby Henrey. E essa particularidade da obra ganha pontos com a opção tradicional de Reed pelo enquadramento com ângulos inclinados, o “Dutch Angle”, que sempre agrega estranhamento e um senso onírico às cenas. Essa dualidade é muito bem representada na trilha sonora de William Alwyn, injustamente pouco lembrado hoje em dia, como na cena onde o menino flagra o encontro do mordomo com sua amante, vivida por Michèle Morgan, com o compositor traduzindo o sentimento da paixão reprimida com uma base delicada no violoncelo, respondida por uma variação do tema principal no violino, numa representação das emoções que estão em jogo no momento.

A amizade entre o garoto e o mordomo nasce de uma profunda identificação, um sentimento de solidão que ambos compartilham: o adulto que se sente preso a uma relação conjugal vazia; a criança que não conheceu a mãe e que tem, na figura do pai, a dor da ausência de alguém que prioriza o trabalho e vive fora de casa. A Sra. Baines, impecável Sonia Dresdel, inicialmente mostrada nas sombras, deveria constar nas listas de personagens mais cruéis do cinema, exercendo pura insensibilidade sádica como forma de extravasar sua frustração matrimonial. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras-Primas do Cinema".

"Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte", de Anne Fontaine


Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery - 2014)
O sentimento de insatisfação existencial da Bovary de Flaubert percorre a trama dessa curiosa, ainda que irregular, homenagem, comandada por Anne Fontaine. O elegante padeiro francês, vivido por Fabrice Luchini, estabelece a analogia, enxergando na jovem turista inglesa, uma atuação impecável de Gemma Arterton, uma visão idealizada de sua heroína literária, o elemento sensual que irá perturbar seu conforto matrimonial. 

A abordagem indiferente, na frente e por trás das câmeras, no entanto, não consegue sustentar a mão pesada do texto, que minimiza o potencial de encantamento ao forçar, até mesmo nas situações mais triviais, um verniz de austeridade pretensamente intelectual. É eficiente a maneira como o roteiro desenvolve a identificação do personagem masculino com a imagem projetada de suas frustrações românticas, porém, a ironia dominante na graphic novel de Posy Simmonds não é transposta com fluidez, resultando, na maior parte do tempo, em tentativas ingênuas de metalinguagem, nascidas de um excesso de coincidências tolas, ambientadas em um belo cenário. Essa aparente preguiça narrativa é coerente com muitas das soluções propostas, uma visão sexista antiquada, que caberia perfeitamente dentre as comédias misóginas da década de sessenta. 

A protagonista, com sua inocência provocante, parece saída do erotismo nostálgico dos filmes de Bigas Luna, uma musa objetificada, o que contrasta com a visão profundamente humana da anti-heroína de Flaubert. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"A Hora da Estrela", de Suzane Amaral


A Hora da Estrela (1985)
Não é difícil concluir que essa linda adaptação de Suzane Amaral para o livro de Clarice Lispector, fiel à essência e eficiente em sua execução, seja o melhor filme nacional da década de oitenta, verdadeira flor no asfalto, um período historicamente vergonhoso em nossa cinematografia, ainda que projetos superestimados como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” e “Memórias do Cárcere” tenham seus ardorosos defensores. Vale destacar também a boa fotografia de Edgar Moura, que, pela desgraça de nosso vazio enquanto indústria de cinema, posteriormente desperdiçou seu talento em produções bizarras protagonizadas pela Xuxa. O único desafiante a esse posto, outra pérola pouco lembrada, “Filme Demência”, do saudoso Carlos Reichenbach, merece menção honrosa.

A sensibilidade do roteiro, que trabalha com uma simplicidade pouco usual no período, uma época em que todos os cineastas brasileiros pareciam tentar emular a cacofonia visual de Glauber Rocha, que, por sua vez, emulava os experimentos franceses, cativa o espectador logo nas primeiras cenas, quando conhecemos a protagonista: Macabéa, vivida por Marcélia Cartaxo, a “datilógrafa virgem que gosta de Coca-Cola”. Uma nordestina de coração puro, ingênua e que ainda não aprendeu a ser escrava dos cosméticos, o rígido padrão de beleza que rege a sociedade, praticamente um bebê jogado na selva de pedra, tentando sobreviver ao amargor dos homens. Ao se apaixonar, sentimento que tateia no escuro âmago de sua existência, quer a todo custo evitar o silêncio, por medo de que o outro, aquela imagem projetada de seus sonhos, implacavelmente se desfaça no ar de suas castigadas ilusões, então, na falta de assunto, afirma que gosta muito de parafuso e prego. Como Kaspar Hauser, ela não foi habituada ao convívio social, sem o discernimento necessário para se precaver ante a crueldade do mundo, vive de devaneios pueris, com seu reflexo no espelho mostrado sempre embaçado, detalhe importante e que agrega maior simbologia à trama.

A hora de sua estrela brilhar, o despertar de uma tímida esperança, sentimento que nunca teve coragem de estimular, envolve o desfecho agridoce com um manto de ternura. A tristeza final, em estranha alquimia, acaba se transformando na mais graciosa beleza, já que, analisando os monstros cruéis que a rodeavam, o generoso acaso a presenteou com a negação definitiva do conceito de humanidade torta que, ainda hoje, parte desalmadamente os corações genuinamente bons.