quinta-feira, 30 de julho de 2015

Personagens - Luke Skywalker


Luke Skywalker é um jovem fazendeiro, cujo passado perde-se na bruma da ignorância, anestesiado pela desinteressante rotina diária, estimulado ao conformismo pelos tios idosos, suas únicas figuras parentais. A clássica cena do rapaz, em “Uma Nova Esperança”, aliviando sua frustração ao admirar o pôr dos dois sóis de seu planeta, Tatooine, captura a força interna que manteve seu espírito vivo, o sonho escapista de vivenciar empolgantes aventuras espaciais. Ele não sabia que estava destinado a grandes feitos, até o momento em que a origem Jedi de seu pai lhe é revelada através de Ben Kenobi, desconhecia qualquer possibilidade de que tivesse algum tipo de intuição especial.

A sua impaciência é um empecilho em sua jornada, da mesma forma que foi para seu pai, em “Ataque dos Clones”. Não tenho dúvida de que, ao presenciar a morte física de seu mentor, o garoto sofreu primeiro pensando em como aquilo iria afetar o progresso de seu treinamento. Analise a forma como ele sempre coloca em risco o que está em jogo, pensando apenas em interesse próprio, como na cena da confusão na cantina ou no salvamento da princesa, tudo motivado pela sua tremenda insegurança. O germe da rebeldia já se fazia presente em pequenas atitudes, porém, ele precisava de uma causa menos egoísta, que o motivasse a pensar no bem maior, o que acabou encontrando ao entrar oficialmente para a Aliança Rebelde. Luke, diferente de seu pai, que era arrogante, e de todos os outros Jedi, precisa aprender não somente a usar, mas, acima disso, acreditar que é capaz de usar a Força, confiar em si mesmo, vencer o medo. Ele conquista isso graças ao seu caráter.

Numa comparação simples, enquanto o pai se exibe com seus poderes para impressionar Padmé Amidala em “Ataque dos Clones”, Luke, já tendo sido treinado por Yoda, em “O Retorno de Jedi”, fica embasbacado ao escutar que seu treinamento já está completo: “Então, eu sou um Jedi?”. Não importa o nível de excelência que ele atinja, nunca irá acreditar plenamente que é merecedor. Quando ele atira para longe seu sabre de luz, durante a batalha final com seu pai, encarando desarmado o Imperador Palpatine, o jovem demonstra amadurecimento emocional, fazendo questão de mostrar, para si mesmo, que sua coragem não é garantida por qualquer elemento mágico. Não importava pra Luke se ele iria morrer com o ataque de energia pura do mestre Sith, algo que estava certo de acontecer, caso o pai não interviesse, o mais importante era demonstrar que havia superado sua insegurança. Todos os heróis da rebelião, até mesmo Han Solo, estavam lutando pela liberdade da galáxia, mas para o jovem fazendeiro, a vitória era interna.





* A Editora Aleph está lançando o segundo volume da Trilogia Thrawn: “Ascensão da Força Sombria”, escrito por Timothy Zahn, um marco da literatura de “Star Wars”. Na trama, continua a luta de Luke, Han e Leia em defesa da Nova República. Mais uma vez, eles enfrentarão as tropas imperiais dissidentes, comandadas pelo poderoso grão-almirante Thrawn. A edição mantém o refinamento usual da editora, sendo um produto essencial na estante de todo cinéfilo criterioso.

"Branco Sai, Preto Fica", de Adirley Queirós


Branco Sai, Preto Fica (2014)
Analisando historicamente, o cinema nacional sempre gostou de culpar a escassez de recursos pela escassez de criatividade e ousadia. A areia da praia pode ser o solo de Marte, caso o cineasta tenha imaginação. É revigorante encontrar um filme como “Branco Sai, Preto Fica”, que busca, em teoria, entreter o público ao se utilizar de convenções de uma obra de gênero escapista e, enquanto documentário, expor a cicatriz aberta do racismo na nossa sociedade, utilizando como gatilho o caso ocorrido na década de oitenta, quando policiais invadiram um baile black na Ceilândia gritando: “branco sai, preto fica”.

O grave problema é que a condução peca em sua exagerada morosidade. Vários minutos são investidos em silenciosos momentos triviais, dando a impressão de que a intenção era estender a obra para além do que poderia ser um interessante curta-metragem. A importante curiosidade que nasce ao ler a sinopse se esvai antes do segundo ato, quando percebemos frustrados que a melhor ideia, o elemento diferencial da inserção do investigador do futuro é tratado de forma amadoristicamente despojada, sem um mínimo de cuidado técnico. É genial a utilização de um contêiner como máquina do tempo, algo que fala diretamente à utilização inteligente dos poucos recursos, ou a ambientação em uma sociedade dominada por religiosos, porém, são detalhes pouco trabalhados, o experimentalismo chato domina impiedosamente. O foco está em assistir os dois protagonistas, Marquim do Tropa e Shockito, vítimas da violência policial no baile, pelo maior tempo possível, em seus afazeres cotidianos. Quando um personagem, uma incógnita para o público, como todos os outros, passa o tempo entoando uma canção, tenha certeza de que ele irá cantá-la do início ao fim, sem motivo algum.

E o pior, não há nem insinuação de uma contextualização histórica, quem não conhecia o caso, continuará sem se importar com ele, já que o roteiro, que critica a exclusão social, parece rejeitar de propósito o conceito de acessibilidade em sua execução. É obra umbilical arrastada, repetitiva, daquelas que justificam os estereótipos de quem debocha dos “filmes de arte”, tendo sido celebrada mais por sua temática do que pelo produto final. Uma pena, já que o diretor Adirley Queirós tinha um conceito maravilhoso em mãos. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

"Adeus à Linguagem", de Jean-Luc Godard


Adeus à Linguagem (Adieu au Langage – 2014)
Logo no início, o filme revela: “Todos os que não têm imaginação, refugiam-se na realidade”. E eu complementaria: Todos os que não têm colírio, usam óculos escuros. Godard empreende, de fato, o mais próximo de uma intensa viagem lisérgica no cinema. Em sua desconstrução, o diretor faz uso de um grande estoque de referências literárias, aproveitando para buscar inspiração visual nos artistas plásticos, compondo uma jornada sensorial diferente e tremendamente desagradável, exatamente como a proposta pede. É corajosa a forma como ele filma uma conversa entre um casal, onde o homem está tranquilamente defecando no banheiro, fazendo questão de potencializar o som do atrito das fezes na água da privada. De uma forma ironicamente enviesada, o filme critica fortemente a linguagem, que considera falida, mas, ao final da árdua experiência, fez com que eu, praticamente desidratado, quisesse me afogar na fonte de Lubitsch, Wilder, Sturges, em suma, do cinemão hollywoodiano. 

E, abafado pelo barulho do produto final, existe um elemento verdadeiramente genial, um lampejo criativo que me remeteu ao Godard do início de carreira. Em uma época onde o artifício do 3D está sendo usado de maneira cada vez menos inteligente pela indústria, um senhor de oitenta e quatro anos mostrou como esse recurso pode aprimorar a imersão, oferecendo uma opção de evolução real na narrativa. Enquanto os diretores buscam formas de espetacularizar com essa ferramenta, o francês utiliza o efeito da tridimensionalidade para acentuar objetos simplórios, até com baixa resolução. Por breves segundos, no entanto, o diretor transformou uma inofensiva atração de circo em pura poesia visual. Ele faz do espectador um editor, trabalhando uma cena que se divide em duas situações, dois personagens, um homem e uma mulher, duas imagens 2D que se fundem na tela. Fechando um dos olhos, você acompanha o desenrolar da cena para apenas um dos personagens. Pouco tempo depois, os dois se reencontram. Só vendo para compreender em sua plenitude a beleza na execução.

Em poucas palavras, sem a tentativa de enxergar formas nas nuvens, o filme é insuportável em seus longos setenta minutos. É uma entediante e impenetrável exibição de pedantismo, com uma belíssima inovação linguística sendo executada em seu núcleo. Uma obra que será abraçada efusivamente por adolescentes em período de autoafirmação intelectual, que irão filosofar sobre as várias camadas interpretativas existentes na cena em que aparece uma árvore invertida, ou defenderão a beleza inebriante do contraste entre o verde da grama e o asfalto, afinal, eles entendem como poucos a genialidade do artista. Sem dúvida, com esse filme, Godard rompe de vez com a linguagem cinematográfica, com qualquer senso narrativo e estético, quiçá, com a própria sociedade humana. Gosto bastante de sua fase inicial, mas, analisando apenas por suas experiências mais recentes, aquele que opera a câmera também se tornou uma ruidosa máquina, ou, na melhor das hipóteses, um eremita com um bizarro senso de humor. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

"A Árvore da Vida" (1957), de Edward Dmytryk


A Árvore da Vida (Raintree County – 1957)
O abolicionista John Wickliff Shawnessy (Montgomery Clift) se afasta de sua namorada de escola Nell Gaither (Eva Marie Saint) e começa um caso de amor apaixonado com a rica beldade sulista Susanna Drake (Elizabeth Taylor). Ele é obrigado a se casar com ela quando ela falsamente lhe diz que está grávida.


O equívoco mais comum que se comete é comparar esse filme, dirigido por Edward Dmytryk, com “E o Vento Levou”, apenas por serem épicos românticos ambientados no período da Guerra Civil. Em sua época, muitos críticos já haviam sentenciado a obra ao fracasso, antes mesmo da estreia, devido à máquina de propaganda do estúdio MGM, que prometia um espetáculo que iria superar o clássico já citado. A estratégia era pretensiosa, porém, compreensível, levando em conta que Hollywood enfrentava problemas que não existiam na década de trinta, como a ascensão vertiginosa da televisão como entretenimento mais confortável e mais barato que a sala escura. Outro fator que atrapalhou a análise objetiva de crítica e público foi o terrível acidente ocorrido com o protagonista Montgomery Clift, um evento que interrompeu as filmagens por dois meses e alimentou brutalmente a imprensa marrom.

O jovem astro, reconhecido internacionalmente como um ícone de beleza, bateu com seu carro após sair de uma festa na casa de Elizabeth Taylor e quase morreu. A anfitriã, amiga muito próxima, chegou ao veículo a tempo de retirar dois dentes dele que estavam presos na garganta, impedindo a respiração. O rosto dele ficou dilacerado. O estúdio queria substituir o ator, que já havia filmado várias cenas, e seguir com as filmagens, mas, num rompante de fúria, Taylor se recusou a continuar no projeto sem a presença do colega. Ele passou por cirurgias plásticas e, com a ajuda de uma maleta de analgésicos, voltou ao trabalho. Como o próprio ator profetizava, a bilheteria do filme estava garantida, já que o público pagaria apenas para tentar discernir as cenas anteriores das posteriores ao acidente. E, efetivamente, a atenção de todos na época estava focada em buscar o ator em cada sequência, a trama era o que menos importava. Clift nunca mais se recuperou psicologicamente da tragédia, cometendo, como se costumava dizer, o mais longo suicídio da história da indústria. É triste perceber a diferença na expressão dele, da jovialidade despreocupada a um pesar constante, com o lado esquerdo do rosto paralisado, como se ele tivesse envelhecido alguns anos em uma mesma sequência. O bonito é perceber que, mesmo sentindo tremenda dor, o astro conseguiu entregar uma excelente atuação.

A produção caótica se reflete no resultado, que tinha potencial para ser muito melhor, mas, ainda assim, consegue ser bastante eficiente. O livro original, escrito por Ross Lockridge, Jr., tem sua estrutura narrativa inspirada claramente em “Ulysses”, de James Joyce, sendo uma tarefa muito difícil adaptar as páginas para a linguagem cinematográfica linear dominante no período. Só pela coragem da tentativa, além de ser o primeiro projeto filmado em grandiosos 70 mm, já vale o reconhecimento. É a segunda parceria de Clift com Taylor, após o sucesso de “Um Lugar ao Sol”, e dá pra sentir o carinho entre os dois, uma química que salva algumas cenas menos inspiradas. Gosto muito da trilha sonora de Johnny Green, responsável também por outra obscura pérola: “A Noite dos Desesperados”, de 1969. Ele vai de encontro às melodias convencionais do gênero, marcadas pelo exagero sinfônico, apostando na sofisticação elegante de melodias minimalistas e que emolduram os sentimentos dos personagens, especialmente o trio principal, ao invés de se deixar levar pelo escopo histórico da trama. 

* O filme, inédito em home video no Brasil, está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

Razzle Dazzle - "Mary Poppins"

Link para os textos do especial:


Mary Poppins (1964)
Aproveitei que meus afilhados estão passando férias em minha casa para intermediar o primeiro contato deles com alguns filmes essenciais, como “De Volta Para o Futuro” e “E.T. – O Extraterrestre”, com emocionantes resultados. Senti então que havia chegado a hora de apresentar a eles o primeiro musical live action que eu assisti, aos sete anos, praticamente na mesma idade deles: “Mary Poppins”, dirigido por Robert Stevenson.

Eu lembro que, naquela época, sempre chorava muito no trecho onde a Julie Andrews canta a canção favorita de Walt Disney: “Feed the Birds”, alimente os pássaros. Esse trecho específico me provoca lágrimas até hoje: “ainda que não possa vê-lo (os santos, o elemento divino), saiba que ele sorri sempre que alguém demonstra se importar”. Quando penso na trama, analisando os valores que ela me transmitiu, visualizo a nobre senhora sentada na escadaria da igreja, dando de comer aos pássaros. A cena despertou uma linda discussão após a sessão, exatamente como outrora: Crianças, quando estiverem caminhando e virem essas pessoas alimentando os animais de rua, percebam que estão diante do potencial humano que muitos de nós não utilizamos; façam amizade com elas, ajudem-nas se possível; esses abnegados e valorosos seres são o mais próximo de um conceito universal de “Deus” que eu já conheci. E como é lindo perceber a mesma sensibilidade nos meus afilhados, inseridos em uma sociedade tão diferente, que celebra uma completa inversão de valores. A trilha sonora composta pelos irmãos Richard e Robert Sherman é a alma do projeto. “Sister Suffragette”, cantada por Glynis Johns, diverte com seu teor feminista, ironicamente defendido por uma esposa que é totalmente submissa ao marido. “A Spoonful of Sugar”, “Jolly Holiday” e “Supercalifragilisticexpialidocious”, doces e empolgantes temas que sublinham a importância dos valores ensinados por Mary.

Outro momento que suscitou discussão, a maneira como o roteiro trabalhou visualmente a cena do Sr. Banks, vivido por David Tomlinson, sendo despedido de seu emprego no banco. O evento fundamental que antecede a modificação de conduta do personagem. Esse trecho me causava tremendo incômodo naquela época, uma sensação que me fazia, por vezes, avançar o VHS, uma tristeza profunda. E, na realidade, não há melodrama manipulador, como em várias animações da empresa, a violência é mostrada de forma inteligentemente sutil, porém, impactante. Qual a forma que os patrões encontram para humilharem o empregado? Eles danificam os símbolos de seu conforto social, o chapéu, o guarda-chuva, a flor na lapela, em suma, o status profissional que ele considerava mais importante que qualquer coisa em sua vida. E, indo além no simbolismo, perceba como, segundos antes do filho do dono do banco danificar o guarda-chuva, um dos seus colegas deixa claro que, optando por aquilo, ele estava indo longe demais no castigo. O mesmo objeto que Mary Poppins, uma espécie de Palas Atena, utiliza para visitar os seres humanos e, após a missão cumprida, retornar para sua realidade. O guarda-chuva que é conduzido ao sabor imprevisível do vento, o leitmotiv que representa o tempo de atuação da protagonista, com a afirmação de que ela só irá embora quando o vento mudar de direção, além de se mostrar presente também, de forma óbvia, no desfecho, “Let’s Go Fly a Kite”, com as pipas simbolizando a redenção do pai e dos banqueiros.

Um dos aspectos que me encantam nesse filme é o subtexto que se revela em revisões, como a relação entre Mary, impecável Julie Andrews, e Bert, vivido por Dick Van Dike. Quando criança, eu enxergava apenas um casal de namorados, uma amizade muito forte. O que percebi mais tarde, analisando pequenas dicas que o roteiro e as letras de algumas músicas davam, foi que havia algo muito mais profundo em jogo. Vale destacar que é algo presente apenas na adaptação cinematográfica. E, com essa relação em mente, a experiência se tornou muito mais interessante. Bert foi uma das crianças que Mary, que não envelhece, ajudou outrora. É um amor que nasce da intensa gratidão do rapaz. Ele segue sobrevivendo, reconhecendo o valor de sua arte, mas, na mesma medida, consciente de que a adaptação faz parte do jogo ingrato da vida. E, o mais importante, ele mantém o sorriso no rosto, não importa a gravidade do problema que enxerga no horizonte. O status social que o Mr. Banks buscava é a perfeita antítese do que Bert adota em sua rotina, aceitando um emprego como limpador de chaminés. Analisando a força desse confronto ideológico, intensifica a beleza de sequências como a dos limpadores dançando nos telhados. “Step in Time” não é uma tolice divertida, mas, sim, reforça na mente das crianças a importância de nunca se buscar prioritariamente a zona de conforto, correndo atrás de empregos socialmente tidos como mais respeitáveis, apenas buscando maiores remunerações. A satisfação deve nascer de se realizar com empenho aquilo que se ama, aquilo que faz os olhos brilharem.

O resultado da sessão: meus afilhados pedem pra rever o filme todos os dias, já estão até cantarolando as músicas. Missão cumprida.