sexta-feira, 6 de março de 2015

Obrigado, sempre

Essa é a postagem de número 500. Um momento perfeito para que eu agradeça novamente o seu carinho, caro leitor, cara leitora. 

Você que acompanha todos os especiais do blog, que compartilha o link com os amigos, que dedica alguns minutos nos comentários, esse estímulo diário que faz valer todo o esforço de se entregar um trabalho de qualidade, sem patrocínio algum. 

O sonho de se trabalhar com Arte numa nação em que poucos valorizam a memória cultural, a palavra escrita. Uma nação em que poucos leem textos com mais de três parágrafos. 

De minha parte, prometo continuar enfrentando audaciosamente essa terrível realidade, jamais subestimando a inteligência do meu público, procurando sempre a fuga do óbvio. 

E, para isso, conto com o seu apoio. Juntos, compartilhando emoções nesse mundo de sonhos, conseguiremos atravessar a árdua experiência da vida com mais leveza. 

Muito obrigado pela companhia até esse momento. Que venham as próximas 500 postagens...

Octavio Caruso

quinta-feira, 5 de março de 2015

Alfred Hitchcock - "Interlúdio"

Links para os textos anteriores sobre filmes do diretor:


Interlúdio (Notorious – 1946)
Alicia Huberman (Bergman) é uma alemã naturalizada americana, convocada pelo agente secreto americano Devlin (Grant) para uma missão no Rio de Janeiro. Como espiã, Huberman terá que se infiltrar numa organização nazista que vem atuando no Brasil e, para isso, deverá casar-se com Alex Sebastian (Claude Rains), líder da organização.


Um dos pontos que considero mais interessantes nessa obra-prima de Hitchcock é a forma como ela se encaixa, de maneira perfeita, na expectativa de quem o assiste. Caso você esteja procurando os truques do mestre do suspense, você terá uma verdadeira aula. Caso sua namorada esteja interessada em investir emocionalmente em um bom romance, ela receberá simplesmente o melhor. A trama, escrita por Ben Hecht, com uma inteligente execução, satisfaz ainda como thriller político, filme de espionagem, podendo ser também considerada uma das melhores no gênero Noir. O que impressiona é a facilidade do diretor em trafegar por esses caminhos, diferentes gêneros, entrecruzando-os com total segurança e com seu ácido senso de humor.

A narrativa é simples, um caso clássico de triângulo amoroso, ambientado nos escombros psicológicos da Segunda Guerra Mundial. O habitual uso do McGuffin, desta feita, a chave que abre a adega e a amostra de urânio escondida nas garrafas de vinho, pensada um ano antes da tragédia em Hiroshima, transforma situações comuns em momentos de grande tensão para o espectador. A câmera nos ilude apresentando uma festa em larga escala, somente para nos conduzir a observar atentamente a pequena chave que a personagem vivida por Ingrid Bergman esconde na mão, um objeto que, em sua pequenez, representa a resolução de todo o conflito proposto pelo roteiro. Outra cena que simboliza esse incrível poder alquímico de criar sequências densas a partir de eventos comuns: o longo beijo do casal. O Código Hays censurava beijos na boca que durassem mais de três segundos, obstáculo que Hitchcock audaciosamente ultrapassou ao inserir, entre uma carícia e outra, linhas de diálogo. Sua câmera nos faz voyeurs, apoiados no ombro de Cary Grant, enquanto a belíssima Bergman demonstra claramente que apenas realizou a sua perigosa missão, diferente de Mata Hari, por estar perdidamente apaixonada por ele. O ato de redenção, como forma de compensar os crimes cometidos pelo pai nazista, é pura consequência da paixonite dela, que se mostra, ao longo da trama, emocionalmente imatura e carente, ainda que revestida por um verniz de segurança que, salientado logo de início, é reforçado pelo vício no álcool.

Ao optar por filmar em primeira pessoa a sequência de introdução dela no ambiente do personagem de Claude Rains, o diretor evidencia que a mão que está sendo beijada é a da espectadora, ele busca a total identificação do público feminino nessa trama, uma espécie de tortura cinematográfica. Ele sabia que o filme seria um sucesso, quando o público se sentisse ameaçado, sofresse junto com os protagonistas. Ele priorizava mais os dez minutos de angústia que poderia conquistar, contando ao público que algo terrível iria acontecer, fazendo dele cúmplice, do que assustar os espectadores desprevenidos por alguns segundos. O plot twist sutilmente exposto no título original mostra o personagem de Grant, um espião profissional, altamente competente, percebendo que o nascimento de um inesperado sentimento de amor pela jovem, algo notório desde a primeira troca de olhares, superou toda a desconfiança essencial em sua função. Como não se apaixonar por Ingrid Bergman?

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com um documentário sobre a produção, pela distribuidora "Versátil", na caixa "O Cinema de Hitchcock", contendo também: "Quando Fala o Coração", "Rebecca - A Mulher Inesquecível", "Os 39 Degraus", "Correspondente Estrangeiro" e a primeira versão de "O Homem Que Sabia Demais".

terça-feira, 3 de março de 2015

Cine Noir - "A Dália Azul"

Link para os textos do especial:


A Dália Azul (The Blue Dahlia – 1946)
O capitão Johnny (Alan Ladd) retorna da guerra junto com seus dois camaradas, Buzz (William Bendix) e George (Hugh Beaumont). Separando-se deles para voltar para a sua esposa Helen (Doris Dowling), ele descobre que ela está tendo um caso extraconjugal. Tentando sair da cidade sob uma forte chuva, ele encontra a misteriosa Joyce (Veronica Lake), que não sabe quem ele é.


Essa foi a primeira, e única, incursão do grande escritor pulp Raymond Chandler, já com alguns filmes adaptados de seu trabalho, como roteirista em Hollywood. O estúdio Paramount estava empolgado com o sucesso de “Pacto de Sangue”, lançado dois anos antes, então procurava alguma trama que mantivesse o padrão de qualidade, logo, ninguém melhor que Chandler, de obras-primas literárias como: “O Longo Adeus” e “A Dama do Lago”, para essa missão, comandada pelo diretor George Marshall. Evitando qualquer risco, apostaram na química da dupla: Alan Ladd e Veronica Lake, que já haviam conquistado o público em dois projetos. Como forma irônica de salientar que o retorno do herói será fadado pela ilusão e pelos sonhos desfeitos, a câmera inicia mostrando “Hollywood”, o destino do ônibus que o conduz.

É uma pena que a solução para o crime tenha sido censurada pelo Ministério da Marinha, que não gostou de ver que no roteiro original, um oficial com uma placa de metal na cabeça, perturbado psicologicamente após a guerra, teria cometido o homicídio. Dá para notar que a substituição genérica foi feita na última hora, já que todo o arco narrativo do personagem é trabalhado nesse sentido. O desfecho perde um pouco o impacto dramático, mas não é um problema que prejudique demais. Essa confusão acabou desmotivando o escritor, que sofreu com a atitude dos produtores, até que conseguiu finalizar o roteiro totalmente bêbado, sendo indicado ao Oscar no ano seguinte. A fotografia de Lionel Lindon, responsável por filmes como “Sob o Domínio do Mal” e “Grand Prix”, evita trabalhar muito o contraste luz/sombras, elemento essencial no gênero, entregando um visual único. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Faces do Medo - "Terror nas Trevas"

Link para os textos do especial:


Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore! L'aldilà – 1981)
A melhor maneira de enxergar essa obra de Lucio Fulci, inspirada em “A Mansão do Inferno”, de Dario Argento, além de “A Sentinela dos Malditos”, de Michael Winner, realizada com baixo orçamento e filmada em cinco semanas, é como um perturbador pesadelo. A trama é simples: um hotel é construído sobre um dos sete portões do inferno, algo que a nova proprietária, vivida pela inglesa Catriona MacColl, acaba descobrindo ao entender que um velho bruxo havia sido assassinado décadas antes, crucificado em uma das paredes do local. O roteiro é uma desculpa para o diretor exercitar sua macabra criatividade, elaborando cenas sangrentas surrealistas, como o ataque de aranhas em uma biblioteca, o rosto de uma mulher sendo derretido lentamente pelo ácido, ou o devastador terceiro ato passado teoricamente no hospital, com o herói portando um revólver de munição infinita.

A realidade que poucos críticos percebem é que o casal jamais deixou o hotel. Os últimos vinte minutos são a forma encontrada por Fulci para retratar o além (l’aldilá). O casal tenta fugir adentrando um elevador, apenas para descobrirmos que eles acabaram voltando para o mesmo ambiente, a sala de autópsia. O que pode ser tido como um erro de continuidade, eu prefiro entender como mais uma maneira de confundir o público, deixando claro que naquele pesadelo, tempo e espaço são conceitos indomáveis. O homem percebe que seu revólver ficou sem munição, porém, exatamente como num sonho, ele segue atirando. Os personagens descobriram mais do que deviam, sendo penalizados com a descida ao inferno, culminando com a exposição da cegueira. Eles já estavam nas trevas durante todo o terceiro ato, fazendo-nos entender o tipo de existência maldita que Emily, presa na escuridão desde o incidente no passado, e a jovem ruiva enfrentavam. Os terrores vividos por eles, profetizados no livro de Eibon, dão vazão à obsessão do diretor com os olhos, um gore impactante, mérito do mestre Giannetto De Rossi, e que nos remete a Luis Buñuel e seu “Um Cão Andaluz”. O final melancólico, abrupto, difícil de esquecer, estabelece o terror do casal como uma realidade que está apenas começando.

Priorizando a atmosfera, lição que os cineastas modernos do gênero falham em entender, Fulci desorienta constantemente o espectador, utilizando a carnificina, focando na desintegração da carne, como uma maneira metafórica e espiritualista de filosofar sobre a fragilidade do corpo. O deserto que descobrimos ao final, um horizonte sem fim de desesperança, uma visão depressiva do além. 

* O filme está sendo lançado pela distribuidora Versátil, na caixa "Obras-Primas do Terror 2".

Kung-Fu Fighting - "A Fúria do Dragão"

Link para os textos do especial:


A Fúria do Dragão (Jing Wu Men – 1972)
Quando Chen Zhen descobre que seu venerado mestre foi morto em circunstâncias misteriosas, decide viajar para Xangai, para participar do funeral, mas logo começa a investigar as causas da morte, deparando-se com uma intriga, envolvendo escolas de artes marciais, lutando violentamente até conseguir vingar-se dos assassinos.


Considero essa produção da Golden Harvest o melhor trabalho de Bruce Lee, aquele que melhor transmite sua habilidade como ator e como artista marcial, com um roteiro correto e uma direção elegante de Lo Wei, além de um desfecho profundo em simbologia e que resume a essência de sua importância na história da Sétima Arte, a coragem de um jovem que seguiu seu sonho e, em pouco tempo, fez o mundo reverenciar seu talento. Seu personagem, baseado em Liu Zhensheng, principal aluno do tradicional herói chinês Huo Yuanjia, pressionado a se render às autoridades, diferente da atitude de seu personagem no anterior “O Dragão Chinês”, ele decide que irá sair de cena atacando sem medo, exatamente como viveu, coerente aos seus princípios até o fim. Como a letra da empolgante música-tema sublinha, assim que ocorre o freeze frame, aquela era a despedida de um herói que representava o renascimento dos conceitos ultrapassados de honra e cavalheirismo, algo muito próximo da filosofia do próprio Lee. Um momento emocionante com forte inspiração no desfecho clássico de “Butch Cassidy”, lançado alguns anos antes.

O sucesso do projeto foi o responsável pelo despertar definitivo do Kung-Fu como fenômeno popular na América, que lucrou com o tema em diversos formatos, como na série de David Carradine, pensada inicialmente como um veículo para Lee. Até mesmo nos quadrinhos, com o personagem: “Mestre do Kung-Fu”, um dos motivos principais que me fazia correr até a banca para comprar o gibi “Superaventuras Marvel”. Nunca me esquecerei da sensação ao assistir pela primeira vez a cena, sem cortes, do confronto entre Lee e os estudantes na escola rival, um marco no gênero, que redefiniu a direção das coreografias de luta. A intensidade que ele conseguia transmitir ao estalar os ossos da mão, deixando transparecer que havia uma razão forte para que ele estivesse agindo daquela forma, aliada à agilidade de seus movimentos, criaram o mito. Muitos tentaram copiar, sem sucesso.