sábado, 7 de fevereiro de 2015

"Simão do Deserto" / "A Paixão de Cristo"


Acho interessante refletirmos sobre o que se perdeu nestes séculos de doutrinas que, por trás de frágeis discursos de paz e ideais retrógrados, na realidade ambicionam somente o acúmulo de ouro e a manipulação conquistada através do poder, tudo o que não fazia parte dos planos de Jesus Cristo.

Não pretendo confrontar Luis Buñuel e Mel Gibson, pois eles comandaram dois projetos ótimos no que se propõem. Acho interessante estabelecer uma comparação entre a temática desenvolvida por dois cineastas com opiniões opostas, ambições contrárias. O diretor americano/australiano é passional em sua abordagem fundamentalista religiosa, porém numa análise mais profunda, respeita menos o protagonista que o diretor espanhol, passionalmente ateu. Assistindo “Simão do Deserto” (Simón del Desierto – 1965), reconhecemos facilmente as críticas e os questionamentos de um homem que rejeita a fé cega, porém fica evidente seu entendimento sobre a importância de Jesus, não aquele comercializado, seu papel na sociedade. Buñuel já inicia o filme com uma poderosa crítica que continua atual, inclusive incisiva contra homens como Gibson, que buscam endeusar o homem agonizando na cruz, agradecendo por cada gota de sangue derramada, anestesiando assim todos os seus ensinamentos de amor e compaixão. Na cena, os seguidores de Simão, que já se mantinha em sacrifício orando sobre um pilar no meio do deserto, por seis anos, seis meses e seis dias, conseguem fazê-lo substituir seu pilar por outro tremendamente mais alto. Em “A Paixão de Cristo” (The Passion of The Christ – 2004), Gibson explora cada naco de carne que é extirpado do corpo do protagonista, forçando uma conexão empática nascida de uma profunda culpa sadomasoquista. O sofrimento parece ser mais importante que sua filosofia.

Outras duas pequenas cenas na obra de Buñuel expõem claramente feridas expostas do catolicismo. O diabo utiliza a beleza de Silvia Pinal para provocar, de forma bem-humorada, Simão, seduzindo-o revelando partes de seu corpo, reforçando o papel da mulher como objeto sexual, logo, pecaminoso, a ser rejeitado. Já em outro breve momento, um homem clama por um milagre que o faça voltar ao trabalho, pois perdeu suas mãos em um acidente. Simão atende seu pedido, realizando o milagre, somente para perceber que o homem checa com desinteresse suas novas mãos, levantando-se e partindo sem qualquer cerimônia. Aqueles que se dizem seguidores dos ensinamentos de Jesus seriam tão estúpidos a ponto de caírem em qualquer conto do vigário? Sua filosofia vai contra tudo o que se vende em seu nome no mundo moderno, mas qualquer terno mágico ou descarrego teatral ilude os mais carentes. A mercantilização dos milagres anestesiou qualquer beleza que havia em suas palavras. Como o homem sem as mãos no filme, os devotos de hoje adentram igrejas e templos com a esperança de assistirem um show pirotécnico de “aleluias” e “glórias” berradas, corpos que se lançam ao chão em histeria coletiva. Ao final dos cultos, atravessam a rua e voltam para casa com a sensação de dever cumprido, mas e o aprendizado? Aquelas palavras bonitas nos intervalos entre os pedidos de ofertas em boleto ou depósito bancário. O pilar está tão alto, que mal se nota o homem que ora em silêncio em seu topo. Profético Buñuel.

Sonhos de Luis Buñuel


“A cultura moderna é infelizmente inseparável do poder econômico e militar. Uma nação dominante consegue impor sua cultura e conceder fama mundial a um escritor de “segunda” como Ernest Hemingway. Caso William Faulkner houvesse nascido no Paraguai ou na Turquia, quem o leria?”.

Alfred Hitchcock o considerava o melhor diretor de todos os tempos. Eu considero-o mais interessante como pessoa do que como cineasta, mesmo sendo um fã ardoroso de algumas de suas obras. Assim como seu trabalho, a vida de Luis Buñuel é um mistério que ainda hoje fascina aqueles que são afeitos a limitar cineastas em estereótipos inalcançáveis, afastando-os gradualmente da mundana realidade e trancafiando-os nos recônditos dos museus das universidades de cinema. O trabalho do diretor foi ano após ano afastado do público. O senso comum sobre ele foi alimentado pela bela homenagem feita por Woody Allen em “Meia Noite em Paris”, mesmo que eu tenha percebido que grande parcela do público sequer reconheceu-o na tela. Sinceramente não os culpo, pois o cineasta encontra-se preso nas masmorras do pseudointelectualismo, junto de tantos outros gênios artesãos da Arte, loucos para serem liberados e calorosamente abraçados pelo povo.

“Não perguntem minha opinião sobre a arte, porque não tenho. Preocupações estéticas sempre tiveram ínfima participação em minha vida. Normalmente sorrio quando um crítico cita, por exemplo, minha paleta de cores. Acho impossível perder horas em galerias analisando e gesticulando. Sinto-me desconfortável com a técnica grandiloquente e a forma como politiza a Arte”.

Nascido na Espanha, o jovem foi educado desde cedo em um colégio jesuíta. Primogênito e solitário, com sete irmãos, refugiou-se precocemente no poder de sua imaginação. Após uma briga na escola, decidiu que não iria mais retornar a ela, porém disse para sua mãe que havia sido expulso, mesmo tendo recebido as maiores notas em seu exame de história, o que também era fruto de sua imaginação. Esse temperamento ele iria carregar durante toda sua vida. Anos depois, durante sua temporada na universidade de Madrid, onde acabaria optando por filosofia, tornou-se amigo de Salvador Dalí e do poeta Federico García Lorca. Quase uma década depois teve seu fascínio pelo cinema despertado, realizando em parceria com Dalí seu primeiro curta: “Um Cão Andaluz” (1928). Iniciava seu exercício questionador acerca das sagradas instituições, criando obras subversivas em sua vã tentativa de compreender a necessidade das religiões e a razão que leva os homens a dependerem delas.

“Durante toda minha vida fui perseguido por estas questões: porque a vida é assim e não de outra forma? Este desespero em compreender, preencher as lacunas, somente torna a vida mais banal. Caso tivéssemos a coragem de deixar nossas vidas nas mãos da sorte, aceitando o fundamental mistério de nossa existência, talvez nos aproximássemos do tipo de felicidade que advém da inocência… Sexo sem religião é como fritar um ovo sem sal. O pecado produz o desejo… Graças a Deus sou ateu.”

Com a ascensão do fascismo na Europa, Buñuel acabou ficando nos Estados Unidos, onde durante anos supervisionou a dublagem dos filmes da Warner para o espanhol. Obras primas foram realizadas nos anos seguintes, como “Viridiana”, “O Anjo Exterminador” e “O Discreto Charme da Burguesia”. Tanto os questionamentos sobre a dublagem como a exagerada militância ateia, se é que chamá-la disto já não a enquadra em um tipo de seita própria, estão em moda hoje, sendo discutidas calorosamente entre os adolescentes intelectuais que exaltaram exageradamente “Os Vingadores”, mas costumam, quando convém, agarrar-se a Lars Von Trier e Terrence Malick em suas batalhas virtuais por autoafirmação. Engraçado encontrar na vida do diretor essas duas constatações:

A) Ele não somente compreendia a importância desta ferramenta (dublagem), como chegou a supervisionar esse processo.
B) Após passar sua vida inteira questionando suas crenças, ou a necessidade de existirem, afirmou em 1977, poucos anos antes de sua morte, ao “The New Yorker” em uma nota de repúdio à sua forma anterior de analisar o tema: “não sou cristão, mas também não posso me considerar ateu... Devemos fugir do sentimento de culpa, não do conceito de Deus.”

Buñuel lutou a vida inteira contra o comodismo. O surrealismo retratado em suas obras era um reflexo direto de sua forma de ver o mundo e a sociedade.Inteligente, sabia que quanto mais barulho faz uma carroça, menos conteúdo ela carrega. Ele não gostava de explicar ou promover seus filmes, pois não queria estragar a experiência do público. Quando perguntado sobre a razão que o impelia a realizar suas obras, ele afirmava:

“Para mostrar que este não é o melhor de todos os mundos".

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

"Tirem o Sorriso do Rosto", de Daniel Patrick Carbone


Tirem o Sorriso do Rosto (Hide Your Smiling Faces - 2013)
Daniel Patrick Carbone busca inspiração na abordagem da morte pelos olhos das crianças, em “O Espírito da Colméia”, de Víctor Erice, mas também na composição imagética da nostalgia executada por Terrence Malick em “A Árvore da Vida” e, especialmente, no filme “Conta Comigo”, de Rob Reiner, nesse seu primeiro projeto como diretor, no que tudo indica que será uma carreira promissora.

A trilha sonora sombria de Robert Donne, em seu segundo trabalho, surpreende pela segurança ao conseguir criar uma atmosfera de mistério que complementa e potencializa o universo onírico dos adolescentes, auxiliado pela fotografia de Nick Bentgen, que abusa dos tons verdes, símbolo da força vital. Eric (Nathan Varnson), Tommy (Ryan Jones) e Ian (Ivan Tomic), exploram os arredores de sua cidade rural como se estivessem no jardim do Éden (seria coincidência o filme iniciar com a imagem de uma serpente?), desafiando o medo constantemente ao flertar com o desconhecido, conquistando a simpatia do espectador logo nos primeiros momentos.

O uso frequente da voz over auxilia no processo de distanciamento necessário para que absorvamos o ponto de ruptura narrativo, uma tragédia anunciada que irá impulsionar os irmãos à maturidade. A dor silenciosa que os acompanha enquanto procuram lidar com a solidão, mais recompensador que uma trama formulaica, entrega uma experiência de imersão no psicológico dos personagens. Por mais que pareça “papo cabeça chato”, não te faz checar a hora no relógio em nenhum momento durante a sessão. A sensação é de que existe perigo em cada atalho no caminho dos meninos. O diretor é competente o bastante para trabalhar o ritmo, evitando a passividade de quem assiste, instigando a nossa imaginação, tornando-nos co-roteiristas. E quando as luzes se acendem, o filme continua sendo processado em sua mente.

"La Sapienza" / "O Cordeiro"


La Sapienza (2014)
A antinaturalidade bressoniana dos trabalhos de Eugène Green me encanta mais a cada projeto. Esse, ainda que não tenha superado “A Ponte das Artes”, que considero seu melhor trabalho, consegue injetar emoção e densidade intelectual em uma trama comum, que poderia facilmente se tornar um ótimo sonífero em mãos menos capazes. A trama aborda um arquiteto de meia-idade, vivido por Fabrizio Rongione, que se descobre intensamente frustrado ao perceber que desperdiçava seu talento em construções padronizadas, edificações que serviam apenas a uma funcionalidade que não dependia de qualquer traço de personalidade do seu criador. Ele decide então embarcar em uma longa jornada para reviver os passos de seu ídolo na profissão, um mestre barroco romano do século dezessete.

A bela alegoria trata verdadeiramente da erudita viagem interna de alguém que deseja se reencontrar com sua paixão inicial pelo trabalho que realiza, implacavelmente se desintoxicando da medíocre geografia urbana globalizada. O segundo ato ganha pontos com a entrada do jovem estudante, vivido por Ludovico Succio, completamente apaixonado pelo tema, muito esforçado, mas sem o aprendizado técnico, um reflexo do arquiteto de outrora no espelho da vida. Inicialmente pouco disposto a servir de tutor, mas eventualmente cativado pelo amor do discípulo pela arquitetura, o homem terá uma chance perfeita de recuperar o entusiasmo perdido, descobrindo ao constatar no horizonte crepuscular de sua vida que a real sabedoria, leitmotiv expresso já no título, reside na dedicada preparação para esse utópico e subjetivo conceito. O sonho que motiva o esforço, elemento que nunca deve se perder nas curvas frustrantes da vida.

O Cordeiro (Kuzu - 2014)
O diretor turco Kutlug Ataman consegue utilizar um tema incomum como ponto de partida para um bem-humorado conto em tom de fabulesca simplicidade, onde as famílias de uma pequena aldeia no leste da Anatólia se preparam para um ritual de circuncisão de seus filhos mais novos, uma cerimônia dispendiosa que causa conflitos e, no caso do pequeno Mert, vivido com graciosidade por Mert Tastan, profundo pavor, por ter acreditado na brincadeira de sua irmã, passando a pensar que será servido como refeição no banquete que tradicionalmente é servido na ocasião, já que sua família, muito pobre, não consegue encontrar um cordeiro.

Para o pai do menino, essa caçada é uma questão de honra, o que possibilita ao roteiro um aprofundamento nas alegorias sociais, já que a preocupação deixa de ser a importância transcendental do ritual na vida do menino, para gradualmente se tornar motivo de vergonha existencial, com a família preocupada com o que os outros irão pensar. É um conto moralista, mas que expõe seu discurso de forma bastante sutil, sem desvios excessivamente melodramáticos, conduzindo o público na maior parte do tempo pelo ponto de vista do imaginário infantil, como “Indomável Sonhadora”, “O Balão Branco” e “Os Meninos da Rua Paulo”.

É válido destacar o poético e melancólico desfecho, emoldurado pela bela fotografia de Feza Caldiran, ainda que contraste tematicamente com o distanciamento emocional que havia sido estabelecido, simbolizado especialmente pela ausência de uma trilha sonora em grande parte da obra.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cine Noir - "Pacto Tenebroso"


Pacto Tenebroso (Sleep, My Love – 1948)
Produzida por Mary Pickford, com o diferencial no gênero de ter uma heroína, vivida por Claudette Colbert, esse é um ótimo representante da fase inicial em Hollywood do diretor alemão Douglas Sirk, com a elegante fotografia que usa generosamente a profundidade de campo, de Joseph A. Valentine, de clássicos de Hitchcock como “A Sombra de Uma Dúvida” e “Festim Diabólico”, em sua última incursão no Noir. Semelhante a “À Meia Luz”, de George Cukor, o roteiro aborda uma esposa que é manipulada psicologicamente pelo marido, o sempre eficiente Don Ameche, que intenciona se livrar dela e colocar outra mulher em seu lugar, a femme fatale vivida pela bela Hazel Brooks. 

Os elementos de hipnose podem ter ficado ingenuamente datados, assim como a recusa da trama, por causa da censura do Código Hays, em permitir maior afeto entre a esposa e o personagem vivido por Robert Cummings, mas nada que prejudique o entretenimento. É válido salientar a eficiência, ainda hoje, da ótima cena em que a protagonista, em estado hipnótico, é levada a subir no parapeito da varanda. E, um detalhe interessante, vale a pena prestar atenção nas cenas em que Ameche e Brooks aparecem juntos, com ele sempre sendo mostrado no enquadramento de forma subserviente. O uso da escadaria, quase uma referência a Fritz Lang, num dos momentos mais intensos do terceiro ato, também merece destaque. Durante várias cenas de suspense na residência da vítima, o filme parece confundir deliberadamente os limites de interior e exterior. A porta da frente é deixada aberta durante uma tempestade, conduzindo o público a uma forte sensação de ansiedade. Sirk corta para um ângulo alto da escadaria nessa cena, mostrando-nos o interior da casa e o exterior, através da porta. 

O diretor é capaz de interromper o crescendo de suspense, desviando o foco para uma subtrama de um casamento chinês, como forma de surpreender o espectador com um alívio cômico que, de tão deslocado, eleva a sensação de pesadelo que compartilhamos com a protagonista. Um exemplo de que, já em seu início, Douglas Sirk exercitava seu estilo com muita segurança.

*  O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".