sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A Importância do Legado


Enquanto somos crianças, com sorte, costumamos escutar de nossos pais lições valorosas sobre a necessidade do altruísmo, os malefícios do egoísmo exacerbado e a importância de deixarmos como legado um mundo melhor do que aquele que nos recebeu. Crescemos e esquecemos estes ensinamentos, preocupados apenas em acumular o vil metal, fazendo dele um instrumento para conquistarmos poder, status social, fama. Poucos são os que utilizam seus recursos (financeiros ou intelectuais) para o bem maior. Ínfimos são os que reconhecem os esforços destes poucos. A questão que atinge a consciência com a força de um instrumento de silício: Vale a pena ser altruísta, sacrificar-se pelo bem maior, sabendo que existe uma grande possibilidade de, neste mundo moderno onde a elegância é alvo de deboche, você ser recompensado com o anonimato?

Um dos prazeres de um cinéfilo é realizar maratonas temáticas, misturando filmes de diversos gêneros e épocas. Como estamos vivendo um período de importantes mudanças de conduta em nossa sociedade, utilizo este espaço para recomendar três ótimos filmes que versam sobre o tema.

Em Cada Coração, Uma Saudade” (All Mine to Give – 1957) se passa por volta de 1850 e conta o drama de um garoto de doze anos que acaba de perder seus pais, necessitando cumprir a promessa que fez à mãe em seu leito de morte: distribuir seus cinco irmãos pequenos para boas famílias da região. Ele precisa amadurecer mais rápido e tomar uma decisão cruel, sacrificando seu amor pelos irmãos, objetivando o bem estar dos mesmos. O filme possui muitos problemas (grande parte causados pela direção de Allen Reisner), mas é difícil manter-se insensível aos vinte minutos finais. Os pais (vividos por Glynis Johns e Cameron Mitchell) eram imigrantes humildes, analfabetos, constantemente hostilizados pelos habitantes da região. O garoto, no dia do Natal, acaba se tornando o disseminador de uma nova geração, que levando em consideração a boa criação dos pais, constituirão uma cidade melhor no futuro. Esta é a mensagem que a bela obra busca transmitir.

Em “Viver” (Ikiru – 1952), de Akira Kurosawa, Takashi Shimura vive um homem no crepúsculo de sua existência. Vítima de um câncer, ele descobre ter desperdiçado sua vida sendo um funcionário modelo, sem faltas e reclamações, sem momentos de lazer, plenamente dedicado a uma função burocrática (que qualquer um poderia fazer) que só satisfazia seu empregador. Balançando-se em um parque de diversões, emociona-se tentando voltar no tempo e corrigir seus erros. Sobrando-lhe pouco tempo de vida, ele então decide deixar um legado eterno, útil como algo tangível (na forma de um parque onde as crianças pudessem brincar) e filosoficamente eficiente (incentivando seus colegas a seguirem seu exemplo). Já que a prefeitura sempre prometia, mas nunca construía aquela área de lazer, ele se redimiria com seu esforço, construindo algo que sobreviveria por décadas após sua passagem. Somente quando estava prestes a morrer, o nobre senhor decidiu viver.

Uma Voz nas Sombras” (Lilies of the Field – 1963) conta a simples história de um homem desempregado (vivido por Sidney Poitier, em papel que lhe rendeu um Oscar) que, numa parada para consertar seu carro em uma fazenda, acaba conhecendo uma pequena comunidade de freiras. Elas o veem como um enviado de Deus para ajudá-las a construir uma capela no meio daquele fim de mundo. Inicialmente ele se recusa, chega a desistir na metade, mas acaba retornando para finalizar aquela missão. Não existe motivo algum para que ele ajude aquelas senhoras, tampouco seu trabalho será reconhecido, mas ele parece encontrar um significado para sua existência naquele exaustivo trabalho braçal.

Respondendo a pergunta do final do primeiro parágrafo: Vale cada segundo investido em construir um honroso legado. Pois no frigir dos ovos, somos e vivemos inspirados naquele “Übermensch” (o “ser superior” de Nietzsche) capaz de modificar o centro de gravidade, tornando-o escorregadio. Assistimos seres humanos se corrompendo diariamente, mas sabemos que ao final de tudo, nosso caráter é o único elemento capaz de impor resistência e levar-nos em paz, legando ao futuro um mundo melhor do que aquele que nos recebeu.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Lembrando Carlos Reichenbach


Dentre aqueles profissionais que transitavam pela pornochanchada da “Boca do Lixo”, ele talvez tenha sido o mais criativo e ousado realizador. “As Libertinas” (1968), “Audácia” (1970), “Corrida em Busca do Amor” (1972) são alguns dos vários projetos deste filão de qualidade bastante questionável, porém “A Ilha dos Prazeres Proibidos” (1979) e “Extremos do Prazer” (1984) demonstravam que era possível incutir uma trama interessante em um gênero apelativo e imaturo, que trouxe enorme lucro aos produtores, porém atrasou a cinematografia nacional até a recente retomada. Com o fim da ditadura, os brasileiros começaram a ter acesso aos filmes pornôs estrangeiros, o que enfraqueceu a indústria que havia se estabelecido.

Na segunda metade da década de oitenta ele elaborou o ótimo “Filme Demência” (1986), onde se utilizou do conto de Fausto para experimentar com o que aprendeu assistindo Godard, resultando em algo autoral e inventivo. “Anjos do Arrabalde” (1987) já levou o diretor a flertar com o cinema realista de Kenji Mizoguchi, criando um melodrama onde a violência circunda três dedicadas professoras da periferia de São Paulo. Porém foi com o maduro “Alma Corsária” (1993), que ele realmente fez uso de todas as suas referências com sensibilidade e perfeito equilíbrio. A trama segue a parceria entre dois jovens poetas (inspirados em Augusto dos Anjos e Cesário Verde) de estilos distintos, um sendo pura emoção, o outro cada vez mais absorto em questionamentos existenciais. Quando lançam um livro juntos, o cineasta utiliza o “micro” (festa de lançamento) para retratar a hipocrisia da sociedade (criticando inclusive alguns colegas de “Cinema Novo”), disposta a dividir com a precisão de uma lâmina samurai, aquilo que se estabelece como sendo “Arte” e o que é popular. Um negro com aparência de estivador aproxima-se de um piano em um bar e conduz “Clair de Lune” (junção do refinado Debussy com o popular poeta francês Paul Verlaine, escolha coerente com a proposta da cena), sendo prestigiado no mesmo ambiente pelo galã Walter Forster e pela Flor, a popular jurada de Silvio Santos. A comunhão entre as diferenças, proporcionada pela beleza da música. Uma das cenas mais poéticas do cinema nacional, infelizmente muito pouco conhecida pelos brasileiros.

Independente de seu valor como diretor, eu o admirava por sua conduta. Reichenbach valorizava gêneros normalmente desprezados pela crítica (e pelos próprios cineastas), como a comédia, o terror e o “Kung-Fu” oriental. Admirava a competência de Jerry Lewis como autor (“O Rei dos Mágicos” era um de seus favoritos), assim como reverenciava a ousadia estética dos criadores da “nouvelle vague”. Tendo iniciado sua carreira escrevendo sobre cinema, ele disse certa vez em uma entrevista: “O bom crítico de cinema é, essencialmente, um garimpeiro em busca das verdadeiras gemas. As maiores gemas estão sempre onde menos se espera”. Insatisfeito com o rumo do jornalismo cinematográfico conduzido nos grandes jornais (cada vez mais presos ao “lobby” e a interesses escusos, por vezes limitando-se a reduzir o valor de uma obra a um símbolo “positivo” ou “negativo”, em poucos caracteres), ele apreciava mais os textos que estavam sendo realizados em blogs, podendo então ser considerado o “patrono” de todos que, como eu, são apaixonados pelo cinema e expõem esse sentimento com responsabilidade e dedicação neste rico mundo virtual. Esteja em paz, Carlão. Obrigado!

Amor e Lágrimas - "Não me Abandone Jamais"


Revi alguns dias atrás o ótimo “Não me Abandone Jamais” (Never Let Me Go – 2010) e fiquei algumas horas, após os créditos finais, discutindo a eficiente crítica que ele apresenta. Obviamente que o mérito é do escritor japonês Kazuo Ishiguro, que em 2005 concebeu este brilhante conceito em forma de ficção científica. Tendo lido a obra antes mesmo dela haver sido lançada no Brasil, já considerava impossível que algum cineasta ousasse transpô-la para a linguagem cinematográfica. Pensava que, caso ocorresse, provavelmente seria de forma tão diluída que perderia todo seu significado. À época de sua pré-produção, lembrei-me do caso ocorrido com Jerry Lewis e seu projeto “The Day the Clown Cried” (O Dia em que o Palhaço Chorou), que causou enorme polêmica no início da década de setenta, levando-o a nunca lançá-lo comercialmente.

Lewis buscava demonstrar aos críticos seu talento como ator dramático, porém escolheu um tema “espinhoso”. Ele interpreta Helmut Doork, um simplório palhaço alemão que é expulso de um campo de concentração nazista após debochar de Hitler. Como castigo, vê-se forçado a entreter as crianças destinadas à morte nas câmaras de gás. Basta imaginar esta sinopse, para sentirmos um frio na espinha. Extremamente corajoso, porém terrivelmente mórbido. O filme foi completado e alguns produtores chegaram a assistir o corte bruto, inclusive sua roteirista Joan O´Brien, que ficou chocada com o resultado. O fato é que a obra tornou-se mítica com o passar dos anos, com os fãs (no que me incluo) desesperados para assistirem-no. Alguns dizem que após o falecimento de Jerry, o filme talvez seja liberado, mas acredito que infelizmente nunca teremos acesso ao material (existem várias fotos da produção, o roteiro em inglês e até alguns curtos vídeos de bastidores disponíveis na internet).

Felizmente, a trama do filme de Mark Romanek é fiel ao livro original, contando a trágica jornada de crianças clonadas, que são criadas, isoladas da sociedade, para serem futuras doadoras de órgãos. Indiferentes ao cruel processo, elas vivem uma rotina de brincadeiras e inocentes flertes românticos. Ao atingirem a idade adulta, passam a doar seus órgãos até que não suportem mais e “concluam” (morram). Na obra, os personagens não possuem sobrenome, apenas um “H.” que representa o brasão da “escola” onde vivem. A repressão ao individualismo encontra sua fuga (a natureza sempre encontra um caminho) no simbólico berro desesperado que o personagem vivido por Andrew Garfield emite em dois momentos distintos. A questão final que a obra apresenta é engenhosa, pois passamos a duração do filme lamentando o destino dos jovens, escravos de uma vida curta, porém esquecemo-nos de que muitas vezes desperdiçamos a nossa própria existência, inclusive dando pouco valor àqueles que mais amamos. Como a protagonista (Carey Mulligan) questiona em certo momento: “Será que a vida das pessoas normais é tão diferente da nossa?”. Eles são como nós, mais preocupados em suprir suas carências afetivas antes do fim, do que com a própria morte (que é a única certeza, em ambos os casos).

O filme termina e sentimos o louco desejo de aproveitarmos cada segundo de nossas vidas, apreciando cada pequeno detalhe. Como os geniais membros do “Monty Python” afirmaram na letra de “Always Look on the Bright Side of Life”: “A vida é bem absurda e a morte é a palavra final, você deve sempre encarar a cortina com uma reverência… Dê para a plateia um sorriso. Divirta-se, pois esta é sua última chance mesmo”.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

TOP - 15 Melhores Filmes da Hammer


Assistir aos filmes clássicos da britânica Hammer, mesmo os mais fracos, faz com que entendamos a fascinação que o horror proporciona àqueles que apreciam o gênero. Sem medo de arriscar, por não ter muito a perder, o estúdio encontrou sua mina de ouro no inconsciente coletivo dos jovens. Não havia limites para a criatividade dos realizadores, que flertavam com todos os conceitos possíveis. Da reutilização dos monstros sagrados da Universal Studios, passando por tramas demoníacas e serpentes-humanas, até uma refinada adaptação para “O Cão dos Baskervilles”, de Arthur Conan Doyle. Antes de George Romero revolucionar com seu “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), a Hammer atacava com “Epidemia de Zumbis” (The Plague of The Zombies – 1966), influenciando todas as produções posteriores, unindo os zumbis ao contexto político/social. A utilização do Technicolor também auxiliava na imersão, já que os fãs estavam acostumados aos sustos em preto e branco, nos filmes mais comportados dos estúdios americanos. As produções possuem um clima gótico que outros estúdios, como a Amicus e a Full Moon, tentaram emular, mas sem a mesma competência. 


1 - O Vampiro da Noite (Horror of Dracula – 1958)
Suas sete sequências são fracas, mas o original ainda resiste como a melhor representação do horror gótico e, no meu ponto de vista, a melhor representação do clássico personagem criado por Bram Stoker. O porte nobre de Christopher Lee, sua inesquecível primeira aparição envolto em sua capa e imerso na escuridão de uma escadaria, exalando uma silenciosa ameaça animalesca por trás de seus maneirismos aristocráticos. Seu caminhar que não produz som no chão, ao acompanhar Jonathan Harker pelo castelo, incitando sutilmente o sobrenatural, como se ele flutuasse. Numa esperta decisão do diretor Terence Fisher, para enfatizar o controle sexual do Conde em suas vítimas, todos os rostos das mulheres atacadas vão do puro terror (à aproximação dele) ao êxtase do prazer, como se tivessem tido a melhor noite de amor de suas vidas.


2 - A Maldição de Frankenstein (The Curse of Frankenstein – 1957)
É difícil adaptar a obra de Mary Shelley, já que o monstro em questão inspira mais pena do que medo. Assim como no “Nosferatu” de Murnau, a preocupação em evitar processos judiciais (nesse caso, da “Universal”) foi um elemento positivo, já que os responsáveis tiveram que retrabalhar a trama e colocar a criatividade para funcionar. Até hoje, de todas as versões, essa é a que considero a mais interessante (superando até mesmo o clássico de Boris Karloff). A forma como o roteiro utiliza o tempo para humanizar o Barão, tornando-o uma figura tridimensional, alguém que vai sucumbindo perante sua própria ambição, alimenta o investimento emocional do público. O monstro é o próprio doutor, enquanto a criatura (Christopher Lee) é mostrada como um triste fantoche (uma cena que inspirou George Romero e seu zumbi treinado em “Dia dos Mortos”). O mais interessante aspecto reside na possibilidade de que toda a trama (contada pelo protagonista em flashback) seja a visão de uma mente perturbada, que inseriu a figura do monstro como forma de negar seus próprios crimes. Um olhar mais atencioso na sequência de acontecimentos sustenta esse viés psicológico, o que enriquece ainda mais o valor da obra em várias revisões.


3 - As Bodas de Satã (The Devil Rides Out – 1968)
O final da década de 60 deu luz a vários flertes cinematográficos com os cultos satânicos, sendo o mais famoso deles: “O Bebê de Rosemary”. Baseado no livro de Dennis Wheatley (com roteiro do mestre no gênero: Richard Matheson), essa produção da “Hammer” normalmente passa despercebida, mas é um excelente exercício em estilo e ambientação, conduzido com seriedade (uma das preocupações era a de retratar com fidelidade uma Missa Negra). Com Christopher Lee, numa rara inversão (no papel que ele considera seu favorito, por ser um dedicado estudante do ocultismo), sendo o herói que busca libertar um jovem amigo do controle hipnótico do líder de uma seita satânica (Charles Gray, ótimo em cena), o filme só perde pontos em seus minutos finais, quando decide por um desfecho ideologicamente fácil. Sinto arrepios só de pensar na cena em que o líder, após manipular a mente de uma pobre mulher que o desafia ao abrigar o jovem, friamente ameaça: “Eu não voltarei... Mas algo virá”.


4 - Sepultura Para a Eternidade (Quatermass and The Pit – 1967)
Dirigido por Roy Ward Baker, o roteiro surpreende já nos primeiros quinze minutos, quando percebemos que estamos assistindo uma ficção científica de terror com ideias à frente de seu tempo, um dos mais criativos no tema de invasões alienígenas. Lançado antes de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, ele explora temas tão audaciosos quanto, porém com muito menos verba e pretensão. O mérito é todo da história de Nigel Kneale, um talento pouco reconhecido (até mesmo em sua incursão no mainstream com o subestimado “Halloween 3 – A Noite das Bruxas”, ele demonstra seu apreço pelos desvios menos trabalhados do sobrenatural). Antes da parceria Kubrick/Arthur C. Clarke e dos trabalhos literários de Erich Von Daniken, esse tesouro britânico já instigava nossa imaginação, incitando-nos a rever a história da evolução humana no planeta.


5 - Frankenstein Criou a Mulher (Frankenstein Created Woman – 1967)
O título sensacionalista pode afastar aqueles que acreditam se tratar de mais uma reutilização do tema clássico criado por Mary Shelley, mas o roteiro é bastante original, ainda mais se compararmos com o padrão das obras do estúdio. Tratado como um filme independente do cânone, ele foge da previsibilidade estrutural das sequências de “O Vampiro da Noite” (especialmente) e do próprio “A Maldição de Frankenstein”. Existe forte influência do francês “Os Olhos Sem Rosto” (de Georges Franju, 1960), aliado a uma aura de um perturbador conto de fadas. A realidade hipotética que trabalha, conjecturando o que teria acontecido ao ambicioso doutor (vivido novamente por Peter Cushing) após sua primeira criação, dá vazão a uma criatividade maior nos diálogos. O conceito da vingança é muito bem estabelecido, mérito da boa atuação de Susan Demberg (a trágica Christina), que convence nas duas versões de sua personagem. Vale ressaltar também a boa trilha sonora de James Bernard, que cria um tema simples e poderoso usando o lamento de um violino, representando a dualidade inocência/maldade. A ideia de que o objetivo da experiência está na preservação da alma, ao invés do desejo pela reconstrução da carne, provoca discussões posteriores (a violência como algo triste, não como uma catarse redentora), o que é raro nos filmes do estúdio, que normalmente visam apenas diversão descompromissada.


6 - A Múmia (The Mummy - 1959)
Com a direção sempre competente de Terence Fisher, Christopher Lee entrega mais um personagem icônico, o ancestral da tumba da princesa Ananka, a múmia Kharis, que recebe a missão de espalhar a maldição contra todos os profanadores. É muito difícil realizar algo criativo dentro de um tema que já era tão desgastado, mas a Hammer demonstra sua genialidade, inserindo no imaginário coletivo dos fãs cenas como a ambientada em um pântano sombrio. A construção de clima é impecável. E a parceria entre Peter Cushing e Lee, como sempre, garante a diversão.


7 - Grito de Pavor (Taste of Fear - 1961)
Suspense de altíssimo nível, elegante e injustamente pouco conhecido, com a direção de fotografia impecável do mestre Douglas Slocombe (para os jovens, responsável pela fotografia da trilogia "Indiana Jones"), além de um desfecho inesquecível.


8 - A Maldição do Lobisomem (The Curse of The Werewolf - 1961)
O único projeto sobre lobisomens dos estúdios Hammer mantém o estilo elegante de suas produções, ainda que não possa ser comparado em qualidade aos protagonizados pelo vampiro de Christopher Lee. Como opção à frente de seu tempo, recurso utilizado na série “Hemlock Grove”, a licantropia no personagem vivido por Oliver Reed é produto de sua concepção, tornando a situação da vítima ainda mais trágica. Nesse caso, foi utilizada uma analogia para o trauma de um abuso sexual, já que o garoto nasceu de um estupro. Esse aspecto reforça o interesse maior no desenvolvimento das motivações, em detrimento de cenas de ação, o que pode não agradar aqueles que buscam apenas a violência.


9 - O Cão dos Baskervilles (The Hound of The Baskervilles - 1959)
O compromisso nem é tanto com a obra literária, mas com o tom da aventura mais famosa de Sherlock Holmes. É uma pena que o estúdio não tenha produzido mais adaptações de Arthur Conan Doyle, Peter Cushing nasceu para interpretar o detetive da Rua Baker.


10 - Quatermass 2 (1957)
A sequência do projeto de baixo orçamento que colocou a Hammer no mapa surpreende pela ousadia na temática sci-fi, uma conspiração secreta para a conquista mundial por um gigantesco organismo amorfo formado por milhões de partículas inteligentes com uma só consciência. Com a direção esperta de Val Guest, superando o original em todos os quesitos, esta pérola segue eficiente, algo raríssimo nos similares do gênero no período.


11 - Cilada Diabólica (Nightmare - 1964)
A direção de Freddie Francis, diretor de fotografia de filmes como "O Homem Elefante", potencializa a atmosfera de mistério que envolve os frequentes pesadelos macabros da adolescente no internato, com forte inspiração em "Psicose", de Hitchcock.


12 - Carmilla - A Vampira de Karnstein (The Vampire Lovers - 1970)
Como esquecer a beleza hipnótica de Ingrid Pitt, musa da Hammer? A produção, já na fase final do estúdio, exala sensualidade e provocante erotismo, pioneira ao abordar o lesbianismo na indústria, ofendendo os censores da época, o que é sempre o melhor caminho.


13 - Os Malditos (The Damned - 1963)
Dirigido pelo grande Joseph Losey, metáfora para a paranoia atômica da Guerra Fria, com conceitos sobre delinquência juvenil que seriam trabalhados em "Laranja Mecânica", uma produção pouco celebrada até entre os fãs da Hammer, mas que merece maior reconhecimento.


14 - O Médico e Irmã Monstro (Dr. Jekyll and Sister Hyde - 1971)
Eu vi este filme numa transmissão televisiva na infância e nunca me esqueci dele. Ao rever pela primeira vez agora, para a elaboração desta lista, grata surpresa, o roteiro, que incorpora elementos de "Jack - O Estripador", segue eficiente. O conceito é tão bizarro, o cientista cria uma fórmula com hormônios femininos, fazendo com que ele se transforme em mulher, na sua versão comportamentalmente mais agressiva, selvagem. É a versão mais interessante da clássica obra literária de Robert Louis Stevenson.


15 - O Conde Drácula (Scars of Dracula - 1970)
Essa quinta incursão protagonizada por Christopher Lee é usualmente tida como uma das mais fracas, mas nunca concordei com esse senso comum. As primeiras sequências do original cometiam um equívoco crasso: seus roteiros nos faziam simpatizar e até torcer pelo vampiro. Em compensação, “O Conde Drácula” é o único que realmente se importa em utilizar elementos extraídos diretamente do livro de Bram Stoker, como o sensacional “passeio” noturno do conde, escalando pelo lado de fora do castelo. O filme também ousa dar o passo além, assim como o primeiro fez com relação à utilização das cores, explorando generosamente o gore. Como sempre deveria ter sido, o conde novamente se torna alguém a ser temido, um monstro sádico que pune severamente seus criados quando cometem algum erro, tendo sua presença sobrenatural potencializada pelas portas que se abrem e fecham sozinhas com sua passagem. E existe até uma breve referência ao histórico príncipe Vlad, inspiração para a criação do personagem, na cena que mostra uma de suas vítimas empalada. 

Hitchcock - O Mestre do Suspense


François Truffaut dizia que Hitchcock filmava cenas de amor como se fossem de assassinato, enquanto as cenas de assassinato eram filmadas como cenas românticas. Eu adicionaria nesta análise genial do diretor francês em ambos os casos o elemento do humor, que muitos equivocadamente encontram apenas em obras mais assumidamente cômicas, como “O Terceiro Tiro”, mas que faz parte de todos os filmes do mestre do suspense. Considero o inglês um dos pais da Sétima Arte, junto com Georges Méliès, D.W. Griffith e Charles Chaplin. Enquanto o mágico francês pegou o invento dos irmãos Lumière e o transformou em um catalisador de sonhos, Griffith mostrou ser possível concatenar os sonhos em uma narrativa, Chaplin deu a estes sonhos sensibilidade, ternura e emoção, Hitchcock pode ser considerado a evolução natural: expandiu os limites da realidade e criou a expectativa, o suspense.  Tudo que foi realizado após isto foi meramente um aproveitamento destes conceitos.

Ele iniciou sua carreira com quatorze anos como designer gráfico de publicidade. Na década de vinte, começou a trabalhar criando as telas de texto que representavam os diálogos nos filmes mudos. Por conta própria aprendeu a criar roteiros e a editar, o que acabou levando-o a ser assistente de direção de algumas produções inglesas do período. Dono de uma criatividade única, não demorou muito para que os dirigentes dos estúdios o promovessem a diretor principal. Em 1926, muito interessado pela história de Jack, o Estripador, criou o ótimo suspense mudo: “O Pensionista” (The Lodger: A Story of the London Fog), contando a saga de um homem (Ivor Novello) que é perseguido por acreditarem que ele seja o famoso serial killer. Devido a uma intensa admiração que o diretor tinha pelo movimento do Expressionismo Alemão, se mostra aparente ao longo desta obra, claras referências ao cinema de Murnau. Em entrevista para Truffaut, Hitchcock explica as razões que o levavam a abordar com regularidade, histórias sobre homens culpados injustamente: “O tema do homem acusado injustamente proporciona aos espectadores uma sensação maior de perigo, pois eles se imaginam mais facilmente na situação desse homem do que na de um culpado que está fugindo”. Demonstrando sua genialidade, preocupado com a realização de uma cena (lembrando que se tratava de um filme mudo), ele usa um efeito para mostrar os passos do pensionista no andar de cima. Colocando um piso de vidro, facilitou para quem estava em baixo, saber que o personagem misterioso estava caminhando de um lado para o outro em seu quarto. Uma forma criativa de contornar as limitações técnicas, criando um efeito muito mais eficiente que se houvesse som.

Já em “A Sombra de Uma Dúvida” (Shadow of a Doubt – 1943), o diretor nos apresenta a jovem Charlie (Theresa Wright), que começa a desconfiar que seu tio (que ela idolatrava) esconde segredos nefastos. Joseph Cotten realiza neste filme, o que considero seu melhor trabalho, como o serial killer charmoso, que casa com viúvas ricas, para depois assassiná-las. Novamente com fortes referências ao Expressionismo Alemão (por conseguinte, com o cinema Noir), a obra é permeada de ângulos de câmera irregulares e variações dos tons da iluminação, representando os altos e baixos na relação entre tio e sobrinha. Hitchcock considerava este projeto, seu melhor trabalho. O grau de interesse que o diretor nutria pelos seus filmes estava diretamente relacionado à admiração que o público sentia pelos mesmos. Esta preocupação com a preservação da experiência do público, somado ao seu cuidado com os detalhes e alto conhecimento técnico, fizeram com que ele produzisse obras refinadas e acessíveis para plateias de todas as classes sociais.

Não existe arte mais voyeur em sua essência que o cinema. Hitchcock sabia disto e criou “Janela Indiscreta” (Rear Window – 1954). Nele, James Stewart vive um fotógrafo confinado a uma cadeira de rodas após um acidente. Genialmente o mestre nos apresenta nos segundos iniciais do filme, por intermédio de simples movimentação de câmera, elementos que explicam perfeitamente as razões do protagonista estar naquela situação. Sem diálogos ou narrações em offdesnecessárias, ficamos sabendo todo o necessário para nos ligarmos empaticamente ao protagonista. Novamente com James Stewart, Hitchcock entrega seu trabalho mais complexo: “Um Corpo que Cai” (Vertigo – 1958). A faceta manipuladora do diretor encontra neste filme sua catarse mais vibrante. Deixando de lado certos aspectos mais comerciais de sua filmografia, o diretor aborda os radicalismos do amor, sua intangibilidade e loucura. Stewart vive um detetive que descobre sofrer de acrofobia (medo de lugares altos) ao presenciar um colega cair do telhado de um prédio. Aposentado, acaba sendo contratado por um velho amigo para investigar a sua mulher (Kim Novak), que aparenta estar possuída por uma ancestral suicida. Com o uso de um truque de câmera (posteriormente chamado de “Hitchcock Zoom”), a sensação de vertigem é transmitida com elegância e incrível funcionalidade. A ausência de um final feliz, aliada a uma trama complexa fizeram com que muitos na época rejeitassem o filme, porém o tempo fez justiça a esta monumental obra-prima, inclusive sendo eleita em enquete recente e prestigiada, em um honroso primeiro lugar. Preocupado com as críticas pouco simpáticas à complexidade estrutural de “Um Corpo que Cai”, o diretor acabou realizando no ano seguinte sua obra mais escapista: “Intriga Internacional” (North by Northwest – 1959). Para entender sua importância, basta dizer que sua condução acabou inspirando o primeiro filme do agente secreto James Bond, em 1962.

Truffaut disse certa vez: “Por dominar os elementos de um filme e impor ideias pessoais em todas as etapas da direção, Alfred Hitchcock possui de fato um estilo. Todos reconhecerão que é um dos três ou quatro diretores em atividade que conseguimos identificar só de assistir a poucos minutos de qualquer filme seu”. Isto fica bastante claro nesta aventura, pois sua trama não possui nenhum elemento claramente engenhoso, trata-se da clássica história do homem inocente em fuga. Porém o diretor consegue inserir pequenos detalhes que modificam completamente a imersão na história. Cary Grant vive um executivo que é erroneamente tido como um agente secreto e se vê perseguido por agentes inimigos por todo o país. O detalhe que torna esta obra algo atemporal é o desenvolvimento do personagem principal. Grant no início é apenas um americano típico de meia idade, preguiçoso, sem uma personalidade marcante ou brilho interior. Ao ser caçado como um agente secreto, ele torna-se como que por osmose alguém heroico, vibrante e confiante. O próximo passo do diretor foi se testar como realizador. Cortando consideravelmente a verba, decidiu contar a história de Norman Bates em “Psicose” (Psycho – 1960), primando pelo minimalismo. Fica difícil imaginar o choque que a obra causou em sua época, posto que atualmente seus temas e estrutura narrativa já foram copiados à exaustão. Vale lembrar que não era nada comum uma troca radical de protagonistas, na primeira meia hora de projeção. O famoso assassinato no chuveiro não foi marcante apenas pelo uso da trilha sonora de Bernard Herrmann ou pelos cortes de câmera inovadores, mas sim por ser algo completamente inesperado. Quem imaginaria que a protagonista (Janet Leigh) iria morrer logo no início do filme?

Finalizo com o primeiro que eu me lembro de ter assistido, ainda pré-adolescente: “Os Pássaros” (The Birds – 1963) é um exercício de suspense dos mais intrigantes. A trama é simples: sem motivo aparente, pássaros começam a atacar uma pequena cidade litorânea, no exato momento em que uma jovem (Tippi Hedren) de outra cidade intenciona se envolver com um dos moradores. O roteiro é trabalhado de forma lenta e progressiva, apresentando os personagens, fazendo-nos conectar empaticamente com aquelas pessoas, para logo em seguida iniciar os ataques e deixá-los completamente desamparados. Esta aparente lentidão inicial pode ser mal interpretada como uma falha, porém trata-se de uma aula de suspense que infelizmente muitos diretores atuais parecem ter cabulado. Novamente abdicando de um final feliz, Hitchcock nos apresenta uma visão apocalíptica inesquecível. Após tantas décadas destruindo o habitat natural de outras espécies, o diretor nos deixa na posição de indefesas vítimas de uma força sobrenatural e irrepreensível, tão bestial e inconsequente quanto nós mesmos.