sexta-feira, 11 de agosto de 2017
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
"O Cidadão Ilustre", de Gastón Duprat e Mariano Cohn
O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre - 2016)
Ao optar pelo caminho do autoaprimoramento constante, o
indivíduo conscientemente dá seus primeiros passos na estrada rumo à solidão. Quanto
mais aperfeiçoada a sensibilidade, mais irritantes se tornam os rituais sociais
envernizados pela mentira, quanto mais estimulado o desejo por aprender, mais
apreço pela simplicidade generosa e menos paciência com aqueles que necessitam
dificultar o discurso por pura insegurança existencial. A deprimente realidade
é que grande parte das pessoas se satisfaz sendo medíocre. O cidadão ilustre, o
escritor (Oscar Martínez) que conquistou o respeito profissional longe de seu
país representa a negação de tudo o que os acomodados de sua cidade natal desesperadamente
defendem. Ao aceitar o convite honorário e retornar após quarenta anos, o
veterano mestre das palavras identificou rapidamente o ímpeto que o fez querer
fugir outrora daquele coletivo de tolos, deselegantes, oportunistas, desinteressados,
agressivos e invejosos.
O roteiro envolve com humor críticas ferinas àquela
sociedade que, não muito diferente da realidade brasileira, prefere fingir não
perceber que o aroma fétido que os perturba diariamente advém da lata de lixo
que negligentemente esquecem aberta. A falta de pontualidade (o descaso do
motorista com o horário do evento de seu passageiro), a hipocrisia de
manifestar interesse temporário na obra de alguém apenas visando status social
(as palestras dele cada vez mais vazias, com pessoas visivelmente enfadadas), o
favorecimento injusto por interesse político (sequência do concurso de pintura),
o elogio que nasce por pura necessidade financeira (o estranho que pede uma
cadeira de rodas para o filho), a paixão avassaladora que busca apenas um
passaporte (a jovem que seduz o escritor na intenção de viver uma vida melhor
na Europa), o bronco estúpido que se sente superior por ter casado com a antiga
namorada do homenageado, em suma, o pior pesadelo na vida de alguém que lutou
tanto para ser uma pessoa melhor.
Mas há um elemento que compensou todos os absurdos vividos
por ele, uma réstia de luz que brotou de onde menos se esperava, o jovem
atendente do hotel, educado, de fala mansa, que, com toda delicadeza, ofereceu
seus despretensiosos escritos para a avaliação do visitante. Naquela cortês
figura que os clientes arrogantes nunca valorizam reside a matéria nobre que
jamais será reconhecida naquela cidade, o sonho profissional que nunca será
estimulado, a força de espírito que será pisada até se tornar uma lembrança
melancólica em uma rotina frustrante, o reflexo no espelho do veterano, a mão
estendida que implora por ajuda em uma massa de zumbis. E o homem, esgotado e
pronto para abandonar novamente aquele esgoto a céu aberto, dedica então preciosos
minutos para oferecer ao garoto o melhor presente de sua vida: esperança. Se
ele conseguir salvar pelo menos um indivíduo valoroso, a viagem terá valido a
pena.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Sétima Arte em Cenas - "A Filha Americana", de Karen Shakhnazarov
A Filha Americana (Amerikanskaya Doch - 1995)
Abandonado pela mulher que decide viver com um americano
rico no país do Tio Sam, músico russo vai ao seu encontro, dez anos mais tarde,
visando restabelecer os laços com a filha pré-adolescente.
Alguns textos estrangeiros criticam, por exemplo, a forma
como a pequena menina é esperta demais para sua idade, uma grande bobagem,
somente profissionais muito insensíveis são incapazes de enxergar que a
proposta da obra é ser como uma fábula cômica, não há qualquer traço de
realismo na abordagem, poxa, o desfecho entrega uma criança pilotando um
helicóptero! Conheci o filme por intermédio da CPC – UMES filmes, que está
realizando um belíssimo trabalho resgatando clássicos e pérolas modernas do
cinema russo. Gostei de “Tigre Branco”, do mesmo diretor, mas “A Filha
Americana” me encantou sobremaneira com sua simplicidade de roteiro e execução.
Karen Shakhnazarov é muito versátil, ele desta feita
propositalmente bebe da fonte dos melodramas norte-americanos, apostando em
soluções narrativas cômicas corriqueiras nestes trabalhos, sem qualquer toque
de cinismo, o tom é de reverência. Na época da produção, após a queda de União
Soviética, a relação entre as duas nações começava a dar sinais de vida, a filha
americana, vivida pela adorável Allison Whitbeck, que, vale salientar, carrega
o projeto nas costas com impressionante carisma, representando a intenção
sincera de união. Há um momento maravilhoso que representa bem este leitmotiv,
o pai, vivido por Vladimir Mashkov, após fugir com a filha, relaxa em um bar nos Estados Unidos cantando
em russo, os clientes felizes, genuinamente interessados na arte do estranho. Aquelas pessoas não conhecem a canção, sequer compreendem a letra, mas se divertem com a melodia. Ao
ver uma bela garçonete, ele, emulando Elvis Presley, canta “Love me Tender” em inglês,
colocando carinho em cada palavra, o clima no ambiente é de amor e respeito.
A cena evidencia que a união entre culturas diferentes é sempre o melhor caminho, o fascínio em tentar
compreender o outro, ao invés de alimentar o medo do desconhecido, menos muros,
mais pontes.
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "CPC- UMES Filmes".
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
"Shirley Valentine", de Lewis Gilbert
Shirley Valentine (1989)
Filmes com temática feminina são normalmente vistos com
preconceito por grande parte dos críticos, com certa razão, já que, na maioria
das vezes, abusam dos clichês e apostam no melodrama folhetinesco, resultando
em variações daqueles livros românticos de banca de jornal. Para cada comédia
romântica verdadeiramente interessante, original e inteligente, existem dez
genéricos imediatistas. “Shirley Valentine”, dirigida por Lewis Gilbert, em
1989, é uma dessas ótimas exceções.
O texto esbanja um senso de humor ácido, amparado por uma
estrutura deliciosamente farsesca, com o constante uso da quebra da quarta
parede. A protagonista, vivida competentemente por Pauline Collins, conversa
com o público, uma troca de experiências, já que, em algumas cenas, a
personagem parece seguir a resposta do público, como quando recoloca os óculos
escuros ao perceber seu marido se aproximando, perto do desfecho. Quase podemos
escutar o público feminino na plateia dizendo em tom orgulhoso: “Não desce do
salto, Shirley”. E ela sinaliza imediatamente para a câmera que escutou o
conselho. Esse diálogo franco com o público-alvo funciona porque é alicerçado
em grandes verdades, algo que se estabelece logo na primeira cena, quando vemos
a mulher confidenciando sua solidão para a parede de sua cozinha.
A química é irresistível, ficamos encantados com essa pessoa
minimizada pelo acúmulo de decisões equivocadas, mas que, como a bonita
música-tema cantada por Patti Austin evidencia, ainda busca reencontrar aquela
garota que foi outrora, o pássaro que nasceu para voar, porém, desencantado com
os sonhos desfeitos, acordou numa manhã e não se reconheceu no espelho de sua
gaiola.
Hábitos simples, como dançar e sorrir em uma manhã chuvosa,
substituídos implacavelmente no cotidiano por uma postura submissa ao marido,
vivido por Bernard Hill, um estranho grosseiro cuja única conexão aparente é a
aliança no dedo, fruto de uma antiga decisão inconsequente, um contrato
assinado por mãos jovens e que não haviam sido ainda castigadas pela realidade
da vida.
A simpatia dela contrasta violentamente com a
insensibilidade dele, demonstrando no subtexto uma tremenda resiliência de
Shirley. Qualquer mulher na mesma situação já teria se enclausurado na amargura
profunda, sem traço de esperança visível no horizonte. O prato simples, ovos
com batata frita, que ele agressivamente rejeita no início do filme, é o mesmo
que ela oferece aos clientes do restaurante, no terceiro ato, quando já está
avançando no processo de reinicialização do seu sistema pessoal, mostrando que
sua autoconfiança, primeiro elemento que é dizimado numa relação fundamentada
em ofensas gratuitas, não foi abalada por aquele evento. Ela viaja para a
Grécia, realizando seu maior sonho, sem utilizar qualquer muleta psicológica,
superando até mesmo a indiferença da amiga que a havia convidado.
“Você beijou minhas estrias!”
Shirley utiliza o silêncio como ambientação para refletir
sobre suas decisões, aprendendo que deve buscar a satisfação sexual. Quando
descobre que seu amante grego, vivido por Tom Conti, é, na realidade, um
mulherengo, ela não se sente ofendida. O que importa para ela é que aquele
homem a enxergou como a mulher interessante e bela que sempre foi. Como ela
afirma assustada, após fazerem amor, ele havia beijado as suas estrias.
Ela chega a invejar a atitude gazeteira e libertária dele,
aproveitando cada momento de sua existência. Talvez, Shirley tivesse se tornado
uma conquistadora, abraçando as possibilidades apaixonantes da vida, caso não
tivesse se prendido tão cedo em um ritual secular de hipocrisia. Essa
identificação carinhosa, simbolizada na cena em que ela o flagra passando mais
uma cantada em uma turista, é a constatação definitiva da sublimação de sua
insegurança.
“Eu não me apaixonei por ele. Eu estou me apaixonando pela
ideia de viver”.
terça-feira, 1 de agosto de 2017
"Em Ritmo de Fuga", de Edgar Wright
Em Ritmo de Fuga (Baby Driver - 2017)
Analisando unicamente a trama, “Em Ritmo de Fuga” não traz
nada novo, ou especialmente interessante, não é esta a proposta. É em essência,
algo explícito já na arte do pôster, uma nostálgica homenagem a filmes e
videogames em que o automóvel é figura central, como “Driver”, “Grand Theft
Auto”, “Operação França” (1971), “Mad Max” (1979), “Bullitt” (1968), “The
Driver” (1978), “The Blues Brothers” (1980) e ao gênero de filmes de assaltos.
O jovem protagonista, Baby, vivido por Ansel Elgort, sofreu
um acidente de carro na infância que o deixou com um zumbido permanente no
ouvido, problema que ele ameniza escutando música o tempo todo. Ele trabalha
para um gângster como motorista de fuga, com uma frieza impressionante, não há emboscada
que ele não consiga reverter com as mãos firmes no volante e a canção certa
tocando no iPod. Os tipos criminosos que ele ajuda são caricaturas hilárias de
personagens durões do cinema dos anos oitenta, com destaque para Jamie Foxx e
Jon Hamm. O chefe do bando, mais uma aula minimalista de Kevin Spacey, pensa
controlar o rapaz, mas, na realidade, faz parte dos experimentos das fitas de
remixes preparadas por Baby, que, ao registrar secretamente diálogos comuns,
frases simplórias, cria música a partir do cotidiano, tentando trazer ordem ao
caos. Como ele se sente culpado por não ter podido fazer nada para salvar os
pais na infância, ele conquista algum conforto nesta despretensiosa alquimia
sonora. Quando o amor de uma garçonete, bela Lily James, apresenta novas
possibilidades, ele começa a repensar suas escolhas perigosas.
A genialidade do filme está na forma como a trilha sonora
exerce papel fundamental em cada cena, nos momentos grandiosos e naqueles
aparentemente irrelevantes. O próprio título do filme faz referência a uma canção
de Simon and Garfunkel. O som é o coração pulsante da obra, todas as decisões
criativas da direção são pensadas como coreografia musical, cada freada do
carro sincronizada com a batida, o ritmo dos tiros disparados em uma sequência
frenética rima com a trilha, o gestual de um personagem está em harmonia com a letra,
o movimento dos corpos responde diretamente ao estímulo sonoro, enfim, um
trabalho minucioso e esteticamente muito original.
Edgar Wright é um diretor muito competente por entender que
a montagem, até mesmo o enquadramento, podem servir à comédia, ele não fica
refém do texto. Ao administrar com inteligência este aspecto ele consegue, como
um maestro de orquestra, manipular o ritmo e evoluir a narrativa sem recorrer à
diálogos expositivos, criando uma linguagem própria altamente intuitiva e
universalmente compreensível.
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