terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"Até o Último Homem", de Mel Gibson


Até o Último Homem (Hacksaw Ridge - 2016)
Mel Gibson é um tremendo diretor, porém, limitado. Não há problema nisso, muitos dos melhores e mais respeitados cineastas também o são. O caso é que ele se equivoca terrivelmente sempre que arrisca sair de sua zona de conforto, como na irritante primeira hora de “Até o Último Homem”. 

O australiano de temperamento forte é um poeta da violência, uma espécie de Sam Peckinpah fundamentalista católico, altamente competente ao compor visualmente personagens mitificados, o que obviamente funcionou em “A Paixão de Cristo”, mas desajeitado ao retratar personagens essencialmente humanos, falíveis. Os dois primeiros atos do filme poderiam facilmente ser resumidos em um letreiro introdutório, já que são executados da forma mais preguiçosa possível, os relacionamentos humanos, pai e filho, namorado e namorada, não soam minimamente críveis, o texto de Robert Schenkkan e Andrew Knight é frágil, todos os clichês são utilizados, o rodopio do casal feliz, o aproximar lento da câmera no rosto daquele que se vê oprimido em um julgamento, diálogos expositivos repetitivos, em suma, material de produção de baixo orçamento direcionada para o mercado gospel de vídeo.

A insegurança na direção nesse início caricatural é intensificada pelo contraste com a entrega visceral de Andrew Garfield, um coração que pulsa em um corpo robótico. Quem resistir ao ritmo modorrento dessa primeira hora no piloto automático irá se surpreender com o que Gibson oferece ao tomar o controle nos campos de batalha em Okinawa. Ajudado pela história real incrível do soldado adventista Desmond Doss, que se alistou no exército na Segunda Guerra e se recusou a sequer segurar uma arma, sofrendo com o deboche dos companheiros e o descrédito de seus superiores, o filme exibe sequências brutalmente realistas, o tom agressivo de sadismo purificador que é a marca registrada do diretor. A trilha sonora de Rupert Gregson-Williams, como era de se esperar, reverencia sem sutileza alguma o aspecto religioso da trama, potencializando a distância respeitosa que equivocadamente se estabelece entre o homenageado e o público que, como é usual, busca identificação. O nível de endeusamento pelo martírio encontra sua resolução mais coerente no terceiro ato, Doss, após completar sua missão, sendo metaforicamente alçado aos céus, uma cena absurdamente brega em todos os sentidos. Gibson se redime ao optar por utilizar registros reais no desfecho, depoimentos verdadeiramente emocionantes e que ajudam a tirar o gosto amargo de novela mexicana.

O que mais me agradou na experiência foram os pequenos momentos de interação entre o protagonista e seus companheiros feridos no campo de batalha. Doss fazia o mais difícil, conversava com aqueles homens interna e externamente despedaçados, negando o próprio medo e tentando acalmar aqueles que já sentiam a aproximação da morte, injetando morfina e, principalmente, esperança, a essência do pensamento religioso. Esse conceito é mais forte e simbolicamente poderoso que todas as cenas de violência. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"Teresa", meu segundo curta, está disponível na plataforma "Looke"


Link para o filme no Looke:
https://www.looke.com.br/filmes/teresa

Sinopse: Antes de passar as chaves para outra pessoa, um homem passeia pelo apartamento, revivendo momentos do seu passado. Mas nem todas as memórias são felizes como as brincadeiras da sua infância.

Elenco: Mário PC, Octavio Caruso e Teresa Cristina Oliveira.

Trilha Sonora: Mário PC.

Argumento, Roteiro e Direção: Octavio Caruso e Sihan Felix.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

"O Corvo", de Alex Proyas


O Corvo (The Crow - 1994)
O músico Eric Draven e sua noiva Shelly são brutalmente assassinados na noite que precede o Halloween. Um ano depois, Eric volta do mundo dos mortos guiado por um corvo. Inicialmente sem lembranças do ocorrido, ele volta ao seu antigo loft onde recobra as memórias e a dor da morte, e então inicia uma caçada para vingar-se de seus assassinos.

Quando vejo o panorama atual frustrante das adaptações de quadrinhos no cinema, produções que objetivam a formação de um universo grandioso e se esquecem de contar uma boa história, os pés e mãos atados evitando qualquer ousadia que possa pesar negativamente nas bilheterias, começo a acreditar que o filão pomposo quantitativo de hoje não resiste a uma revisão mais atenta, enquanto os esporádicos projetos temáticos da minha adolescência seguem relevantes e eficientes. Eu só fui ler a graphic novel de James O’Barr alguns anos atrás, gostei bastante do texto, mas a arte não me encantou. Creio que pode ter sido consequência do impacto visual que o filme me causou na década de noventa, mérito da fotografia de Dariusz Wolski e de seu colaborador Robert Zuckerman que operaram um milagre com baixíssimo orçamento, o tom sombrio alcançado fazia as obras de Tim Burton parecerem radiantes, o ritmo se impunha já nos primeiros minutos com extrema segurança. A chuva constante que representa o lamento da cidade, a violência bruta filmada sem glamour, a atmosfera gótica acentuada pela ótima trilha sonora de Graeme Revell, elementos preciosos na experiência.

É claro que a atenção da mídia estava voltada para o trágico acidente que tirou a vida de Brandon Lee, o revólver que deveria estar com balas de festim, o ator Michael Massee, falecido recentemente, que equivocadamente apontou o cano na direção do protagonista, um conjunto de deslizes graves provocado pela estafa de uma equipe que trabalhava apenas nas madrugadas. O mais triste é constatar o talento que não teve chance de desabrochar. Brandon havia atuado em alguns genéricos de ação medianos, os produtores sempre tentando transformar o jovem em uma variação similar dos tipos vividos por seu pai, Bruce Lee, algo que ele lutava muito para que não acontecesse. Rochelle Davis, que interpretou a pequena Sarah, afirmou em uma entrevista posterior que o ator ficou tremendamente feliz ao saber que a menina não dava importância alguma para o parentesco do colega. Ele queria ser respeitado profissionalmente e sabia que “O Corvo” simbolizava sua entrada pela porta da frente em Hollywood. A dedicação dele é perceptível, o peso da culpa que o personagem sente é transmitido na forma de andar e nas inclinações de rosto.

O diretor Alex Proyas tem apreço por temas esotéricos, melancólicos, enigmáticos, fantasticamente surreais, apaixonado pelas obras de Tarkovski e Ridley Scott. Eu gosto muito de “Cidade das Sombras” e “Presságio”, o primeiro ganhou status cult, mas o segundo foi apedrejado pela crítica na época de seu lançamento, talvez eu tenha sido um dos poucos que elogiou a sua estética. “O Corvo”, com sua montagem frenética alternando presente e passado, estava muito à frente de seu tempo. O que me emociona sempre é o desenvolvimento da relação entre Eric e a menina, vítima da parentalidade irresponsável. Sarah se sente sozinha em um mundo dominado por adultos insensíveis. Ao perder seus únicos amigos, ela encara a realidade de crescer e se tornar uma cópia da mãe drogada e promíscua. O espírito vingador a abraça e a faz entender que a morte não significa o fim do sentimento. Aquele que vive nas sombras, devastado internamente, conforta a menina. A cura pela dor. É uma linda mensagem. 







* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Cine Bueller - "Repo Man - A Onda Punk", de Alex Cox

Link para os textos anteriores do especial que resgata as memórias da "Sessão da Tarde" e do "Cinema em Casa":


Repo Man - A Onda Punk (Repo Man - 1984)
Um jovem punk trabalha recuperando carros que não foram pagos e acaba por conhecer um cientista louco que sequestrou alienígenas.

“Este é Otto, louco, rebelde, agressivo, até arranjar uma perigosa profissão”. A chamada televisiva não preparava o espectador para a experiência, fazia parecer ser uma trama convencional. O primeiro filme do cineasta britânico Alex Cox, que alcançaria maior reconhecimento com “Sid e Nancy”, não pode ser sintetizado em uma sinopse, nem reduzido a um gênero específico, “Repo Man” fala diretamente ao período sociopolítico norte-americano da era Reagan, debochando ferinamente do vexaminoso fenômeno dos televangelistas, cutucando a ferida exposta da desilusão nacional extravasada em rompantes patrióticos caricatos e vazios, além de criticar a pasteurização da atitude punk na juventude da época. Ele também encontra espaço generoso para brincar com as convenções da ficção científica na subtrama do cientista e seu misterioso automóvel Chevy Malibu 64, com um porta-malas que desintegra todos aqueles que tentam descobrir o que está sendo carregado, uma espécie de McGuffin divertido, que foi homenageado por Tarantino em “Pulp Fiction”.

Quando Otto (Emilio Estevez) caminha pelas ruas de Los Angeles, ele encontra diversos adolescentes que agem de forma excessivamente agressiva, sem razão alguma, vestindo camisetas estampadas com seus ídolos na música, defendendo jargões batidos, uma rebeldia esquisita intensamente capitalista, nada orgânica, como na clássica frase “vamos comer sushi e sair sem pagar”, revolta de criança mimada, em suma, a visão estereotipada do movimento punk que o mundo do entretenimento eternizou em filmes tontos como “Desejo de Matar 3”. O rapaz acaba descobrindo que os seus colegas coroas de cobrança automobilística, marginais sem verniz estético algum, são, de fato, a essência do punk, nadando contra a corrente de um sistema que estabelece controle etiquetando a felicidade embalada para presente. Cox, genuíno apaixonado pelo tema, questiona o sentido dessa expressão artística, evidenciando a banalização midiática do espírito dessa subcultura.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, no digistack "Clássicos Sci-Fi, Vol. 3", que conta também com os filmes: "Colossus 1980", "Fase IV - Destruição", "Pânico no Ano Zero", "Daqui a Cem Anos" e "O Emissário de Outro Mundo". 

"McQ - Um Detetive Acima da Lei", de John Sturges


McQ - Um Detetive Acima da Lei (McQ - 1974)
McQ é um veterano da polícia de Seattle, um tenente que poderia ser capitão, mas seu jeito "duro" com a bandidagem atrapalha sua carreira. Ele e seu amigo e parceiro investigam o traficante Santiago, até que o parceiro é morto. McQ de imediato quer ir atrás de Santiago, mas seus superiores não lhe dão o caso. Ele então pede demissão e passa a agir como detetive particular.

O jazz de Elmer Bernstein emula o som característico de Lalo Schifrin, a identidade musical de “Dirty Harry”, filme de Don Siegel que ditou o tom sombrio do cinema policial norte-americano da década de setenta. Se Clint Eastwood, ícone do faroeste italiano, havia conseguido transpor sua persona das pradarias selvagens para as ruas povoadas por junkies, o próximo passo óbvio seria arriscar com o pai de todos os caubóis, John Wayne, afinal, ele rejeitou o papel principal no clássico de 1971. É interessante imaginar como a história poderia ter sido diferente caso a .44 Magnum tivesse caído nas mãos da primeira opção dos produtores, Frank Sinatra. Ele estava com a mão machucada, Clint aproveitou a oportunidade e redefiniu o gênero. Wayne acabaria trabalhando com Siegel em sua belíssima despedida: “O Último Pistoleiro”. 

“McQ” é dirigido por John Sturges, de “Fugindo do Inferno”, “Sete Homens e Um Destino” e “Sem Lei e Sem Alma”, um artesão capaz de garantir o refinamento necessário para um projeto que, desde o início, foi pensado como uma tentativa de lucrar com o sucesso de “Dirty Harry”, oferecendo ao público uma versão diferente da imagem consagrada de seu astro, que pela primeira vez atuava como um policial. Se Harry portava uma .44 Magnum, McQ faz estrago com sua Ingram MAC-10, novidade na época. O roteiro de Lawrence Roman é simples, falta polimento, mas entrega um desfecho ousado, fiel ao espírito decadente de obras como “Operação França” e boa parte dos melhores da safra blaxploitation. A idade avançada de Wayne pode ter preocupado o diretor, mas enxergo esse elemento como algo altamente positivo, o espectador sente no rosto dele o cansaço após uma perseguição a pé, o desconforto ao notar o flerte da prostituta viciada de meia-idade interpretada por Colleen Dewhurst, ou o olhar distante nas cenas em que descobre estar inserido em um sistema apodrecido, o seu personagem trazia muito da angústia que o ator vivia no momento com o término de seu relacionamento amoroso com Pilar Pallete. 






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic Filmes".