sábado, 17 de dezembro de 2016

Blaxploitation - "O Chefão do Gueto", "Coffy", "A Máfia Nunca Perdoa" e "Truck Turner"


O Chefão do Gueto (Black Caesar - 1973)
Tommy Gibbs é um jovem revoltado criado no gueto, que pouco a pouco vai tomando conta dos negócios do submundo do Harlem. Cada dia mais ambicioso e agressivo, ele inevitavelmente se envolve com a máfia e o resultado é uma sangrenta guerra de gangues.

Pra começo de conversa, basta dizer que a trilha sonora desse filmaço foi composta por James Brown, com destaque pras faixas: “Down and Out in New York City” e “The Boss”. Só esse detalhe sonoro já faria a produção ser relevante nos dias de hoje, mas seria um crime não ressaltar também a ousadia técnica de sequências como o embate final entre Gibbs (Fred Williamson) e o policial que o perseguia desde criança, ou a montagem estilizada que mostra a escalada de violência dele como chefão.

A direção/roteiro de Larry Cohen, que faria depois o cult “Nasce Um Monstro”, um especialista em operar milagres com baixíssimo orçamento, garante ao projeto um resultado mais coeso do que se costuma encontrar no ciclo, alicerçado em um roteiro que toca no ponto nevrálgico da questão do racismo nos Estados Unidos da década de cinquenta, período em que a trama inicia, lidando de forma séria com um tema que era normalmente utilizado como recurso quase cômico em filmes similares. Quando Gibbs compra o apartamento do casal branco engomadinho, incluindo o vestuário completo da mulher, apenas para ter o prazer de jogar pela janela os caros casacos de pele, Cohen possibilita o revide daquele que sempre foi pisoteado por alegres escravos do hipócrita status social concedido por esses tolos símbolos de poder. Ele verbaliza claramente que faz questão de usufruir daquele estilo de vida, o que leva outro personagem, numa cena mais adiante, a afirmar que o pecado do chefão foi querer ser como os brancos. Ao despejar o casal, ele tira sua mãe da função de empregada doméstica, ela passa a ser a dona da casa. E, numa demonstração da complexidade da discussão proposta pelo roteiro, ela se recusa a acreditar nessa nova realidade, tão acostumada a servir, a assustada senhora teme sair de sua caverna existencial e ver a luz.

Gosto muito também do desfecho brutal, a forma como o adulto retorna moribundo para seu lar da infância em ruínas, somente para encontrar uma gangue de adolescentes. Pra essa garotada, ele não é um chefão, ele é apenas mais um idiota que deu bobeira na área deles. Gibbs, triste ironia, acaba sendo vítima de jovens tão ambiciosos quanto ele outrora foi. Assim como o romano Julio César, apunhalado por um grupo traiçoeiro, morto pelo próprio reflexo no espelho da vida.


Coffy (1973)

“Coffy baby, sweet as a chocolate bar...”.

A obra foi concebida pela pequena “American International Pictures”, responsável por vários filmes de baixo orçamento, como os projetos de Roger Corman.  Samuel Z. Arkoff, o idealizador da produtora, percebeu o potencial dos “blaxploitation’s” e abraçou a carreira da bela Pam Grier, realizando quatro filmes com a atriz. O público adorava esse estilo, mas os críticos e a própria indústria torciam o nariz.

Quando se analisa o filme no contexto de sua época, dois elementos se destacam como dissonantes no gênero: A mulher sendo respeitada, utilizando sua sensualidade como arma, uma variação feminina de “James Bond”. E as drogas e traficantes não sendo celebrados, numa atitude quase panfletária, politicamente correta. Como a vingativa enfermeira que busca exterminar os responsáveis pela overdose de sua irmã caçula, a personagem de Grier deixa claramente exposto em seus olhos o ódio que esconde por trás de cada gesto de sedução controlada. E essa emoção bruta transparece em cada cena, com o auxílio de ótimas one-liners, como “Vou urinar no seu túmulo amanhã”.

O roteirista e diretor Jack Hill, mestre no estilo, ganha pontos ao não limitar a protagonista aos estereótipos de vítima ou criminosa, deixando-a revelar no poderoso desfecho uma insinuação de fragilidade que a humaniza. A boa trilha sonora de Roy Ayers apresenta os personagens, com destaque para “Coffy is The Color” e “Coffy Baby”, interpretados por Denise Bridgewater. No elenco secundário, Robert DoQui interpreta o extravagante “King George”, que participa ativamente de uma das cenas mais violentas do filme. Ele viria a ser reconhecido pelo grande público como o Sargento Reed, nos três filmes da franquia “Robocop”.

É interessante o arco narrativo da protagonista (e, levando em consideração o gênero, isso deve ser valorizado). “Coffy” passa o primeiro ato assombrada pelo remorso consequencial de sua vingança, chegando a encontrar uma paz temporária com sua consciência, até que assiste o brutal espancamento de seu ex-namorado. Ao final, traída de todas as formas, nem mesmo a resolução satisfatória de sua vingança traz paz ou conforto para sua alma, que irá vagar para sempre num limbo existencial. Ao lado de “Shaft”, esse é o meu filme favorito no gênero.


A Máfia Nunca Perdoa (Across 110th Street - 1972)
O roubo de US$300.000 de um ponto da Máfia no Harlem, por três homens negros vestidos de policiais, desencadeia uma busca frenética em toda a cidade para encontrar os autores.

Com valores de produção que o tornam mais refinado que a maioria dos filmes do gênero, esta obra merece constar ao lado de "Operação França" e "No Calor da Noite" (além da semelhança na temática, sua inspiração também se mostra presente na breve referência ao faroeste "Duelo em Diablo Canyon", que também lida com um conflito étnico, protagonizado também por Sidney Poitier), como um retrato pungente de sua época. Iniciando com a poderosa canção-título (composta e cantada por Bobby Womack), somos levados a sentir que estamos vivenciando, no meio do fogo cruzado, o confronto entre brancos e negros no Harlem. A câmera perscruta cada beco escuro, transpondo com facilidade a crueza necessária em cenas como a da perseguição ao final. 

Não existem heróis e vilões (percebam a atitude redentora de um dos ladrões, próximo ao desfecho), apenas homens falíveis e moralmente corruptíveis. Diferente da maioria dos filmes "Blaxploitation", o roteiro não entrega tipos estereotipados (quase personagens de histórias em quadrinhos), mas sim um olhar mais profundo sobre o racismo, acentuado na interpretação de Anthony Quinn (também produtor executivo) e em sua relação com o personagem de Yaphet Kotto. Subvertendo a animosidade que existia entre os personagens de Rod Steiger e Sidney Poitier (no já citado "No Calor da Noite"), garantindo momentos brilhantes, como quando Kotto pergunta à Quinn: "Quando você me verá como um policial?". O personagem de Quinn está subconscientemente propenso a crer que todos os negros do Harlem são marginais, então não consegue assimilar que seu colega (seu superior) possa ser confiável. Habilmente, Quinn estabelece a ideologia torta de Matelli, durante o primeiro ato, extravasando-a como uma fera enjaulada, disposto a esmurrar qualquer um que se colocar em seu caminho. Ao longo do segundo ato, percebemos que ocorre uma mudança física (consequentemente ideológica), como se ele enfim tivesse acordado para a realidade de que, naquela selva urbana, ele era um leão cansado, cujos métodos ultrapassados não se adequavam. A excelente cena final (que não revelarei) reforça de forma imagética o discurso proposto pelo diretor Barry Shear, mantendo-se na mente de quem assiste por muito tempo após a sessão.


Truck Turner (1974)
Esse filme pode não ser tão discutido quanto “O Chefão do Gueto”, ou “Coffy”, mas é um dos mais divertidos. Isaac Hayes, o músico responsável pelo tema blaxploitation mais famoso: “Shaft”, protagoniza com total segurança, trabalhando a agressividade necessária para o serviço, mas deixando transparecer nos olhos uma vulnerabilidade rara nos heróis do subgênero. Ele é amparado pela competente direção de Jonathan Kaplan (de “Acusados”, que deu o prêmio de Melhor Atriz para Jodie Foster, em 1988), que injeta um refinamento superior ao que costumava ser visto, cenas de ação muito bem coreografadas, especialmente a do tiroteio dentro do hospital, um toque claramente autoral. O texto também contrasta com os similares por ser mais elaborado, o humor é inserido com inteligente noção de timing, contando com a presença marcante da eterna Uhura de “Star Trek”, Nichelle Nichols, em uma rara exibição no cinema de sua incrível versatilidade. Vale destacar também a hilária relação entre Truck Turner e sua namorada cleptomaníaca, um dos poucos romances monogâmicos dentro da história do blaxploitation.


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito.

"Rogue One - Uma História Star Wars", de Gareth Edwards


Rogue One – Uma História Star Wars (Rogue One – 2016)
Quando J.J. Abrams entregou “O Despertar da Força”, o detrator da trilogia prequel de George Lucas teve que dar o braço a torcer, já que, apesar de tropeços constrangedores, como Jar Jar Binks e o desnecessário conceito dos Midi-chlorians, os roteiros traziam elementos novos, expandiam incrivelmente o cenário político daquele universo, em suma, eles arriscavam. Por mais divertida que seja a aventura de Rey, por mais encantador que seja o BB-8, a trama é uma reutilização preguiçosa de elementos trabalhados no filme original de 1977. “Rogue One”, um spin-off tonalmente antagônico ao que já foi feito na franquia, comete a audácia de correr riscos consideráveis, ousando subverter as expectativas do fã mais xiita, opção corajosa que merece ser salientada. É a prequel que todos esperavam desde meados da década de noventa, abordando objetivamente o contexto que foi estabelecido na trilogia clássica, ainda que sem se escorar na fácil identificação do espectador com seus personagens familiares. O desafio dos roteiristas Tony Gilroy e Chris Weitz era apresentar esse novo grupo, criando situações que auxiliassem o necessário investimento emocional do público no terceiro ato, sem muleta narrativa alguma.

Não há preocupação em aprofundar a caracterização dos rebeldes, algo que faz sentido ao analisar o todo, alguns passam batido, mas todos são carismáticos e visualmente interessantes, especialmente o monge-guerreiro cego vivido por Donnie Yen, espécie de Zatoichi que reforça a presença mística da Força com sua devoção religiosa. A intenção é evidenciar com traços rápidos a formação de uma equipe improvável, personalidades totalmente diferentes e conflitantes, mas com um ideal nobre que os torna iguais, uma missão perigosíssima que, não importando o resultado, não irá trazer paz para suas consciências. A jovem Jyn, vivida por Felicity Jones, traz em sua psique a dor de ter sido afastada do pai (Mads Mikkelsen), cientista brilhante responsável pela criação da Estrela da Morte, a arma definitiva de destruição em massa do Império. Sem um momento cinematograficamente poderoso que a mitifique como heroína, talvez por não ter sido concebida com esse objetivo, a protagonista representa, em síntese, a mensagem mais bonita do filme: ao abraçar a causa rebelde, ela encontra o caminho do perdão e possibilita a concretização da redenção do pai, um leitmotiv fundamental na saga. É interessante que ela lidere um grupo que vai contra os dois lados oficiais na batalha, essa atitude preenche lacunas de sua personalidade no texto.

É, acima de tudo, uma história de guerra, gênero que até agora havia ocupado lugar periférico na franquia, sem peso dramático. Sob a direção de Gareth Edwards, o impacto dos tiros assusta, os stormtroopers transmitem real ameaça, você consegue entender o medo que a presença dos gigantescos AT-AT’s incita nas vítimas (com a ajuda sensorial do design de som), a morte ronda cada trincheira, nada é tratado com leveza, não há espaço para piadinhas enquanto os personagens se esforçam para desviar das rajadas. Não há mágica Jedi à mão, a simples necessidade de mover uma alavanca no campo de batalha se torna uma tarefa hercúlea. O alívio cômico inteligente é defendido pelo robô K-2SO, voz de Alan Tudyk, que me remeteu ao comediante Lenny Bruce, programado para dizer tudo sem filtro moral, invariavelmente ofendendo seus colegas. Na figura de Cassian (Diego Luna), que dedicou sua vida inteira à Aliança Rebelde, enxergamos as consequências, as cicatrizes existenciais decorrentes dessa escolha. Em cenas breves, como quando ele acalma a vítima antes de desferir um tiro fatal, o roteiro delineia uma personalidade torturada, alguém que já ultrapassou todos os limites e sabe que não há vitória capaz de fazer com que ele tenha uma segunda chance na vida. A trilha sonora de Michael Giacchino não traz um tema forte, o que pode ser explicado pelo pouco tempo que ele teve, apenas um mês, substituindo Alexandre Desplat, mas compreende artisticamente e respeita o trabalho de John Williams na trilogia clássica e na prequel, sem cometer o equívoco de reverenciar demais e soar forçado, ele entrega variações criativas de temas como o “Across the Stars”, de “Ataque dos Clones”.

Há um problema grave no segundo ato, o ritmo cai vertiginosamente, provável reflexo das constantes modificações que foram operadas na pós-produção, mas o terceiro ato redime e minimiza o estrago. A alegoria óbvia do Império atacando a lua de Jedha, um terreno fortemente marcado pela doutrina religiosa, com os conflitos reais no Oriente Médio, um subtexto que enriquece a obra, salienta a relevância da fantasia escapista como meio atraente de inspirar os adolescentes, facilita a identificação. Apesar de parecer uma grande brincadeira, a fantasia questiona os pontos mais espinhosos na sociedade, usualmente dizendo mais verdades do que muitos dramas pretensiosamente complexos. O Império deseja impor sua ideia de ordem a povos estrangeiros, utilizando violência quando necessário, mas, assim como os oprimidos, nunca haviam sido mostrados organicamente nas tramas, apenas o bom e velho “bem contra o mal”. O roteiro te faz entender o que estava em jogo em “Uma Nova Esperança”, aquilo que se resumia a uma linha no letreiro inicial, você se emociona com o esforço dos combatentes, tendo visto como eles eram tratados. Os rebeldes não são heróis caricatos, não são action figures reluzentes, são sabotadores sujos e assassinos frios, forjados desde a infância pelo ódio sentido por seus ditadores. O roteiro consegue até mesmo inserir novas camadas de interpretação aos filmes clássicos, sem exagero, “Rogue One”, além de ser uma ótima aventura standalone que satisfaz os fãs sem excluir os não-iniciados, consegue o feito admirável de agregar ainda mais carga emocional aos episódios 4, 5 e 6.

O parágrafo seguinte conterá SPOILERS, eu recomendo que leia o restante após a sessão.

Na indústria de Hollywood os produtores querem vender brinquedos, as refilmagens de ideias já testadas positivamente são a ordem do dia, não há espaço para melancolia em embalagens de McLanche’s felizes. A coragem de construir um produto infanto-juvenil, dentro de uma franquia internacionalmente reverenciada desde a década de setenta, em que todos os heróis morrem no final é impressionante. Nem o robô é poupado. O desfecho de “O Império Contra-Ataca”, em comparação, pode ser considerado até simpático. O grupo liderado por Jyn aceita a missão com a plena consciência de que não terá um final feliz, um esquadrão suicida que intenciona conquistar a única réstia de esperança contra o domínio supremo de seus algozes, um grupo que busca a ínfima possibilidade de um mundo novo e livre que não irão desfrutar. A ideia de terminar o filme exatamente momentos antes da icônica sequência inicial de “Uma Nova Esperança” é simples e genial, a utilização da computação gráfica no rosto de uma dublê para resgatar a jovem Princesa Leia é assustadoramente real. O trabalho digital feito com Tarkin/Peter Cushing é eficiente, mas, devido ao maior tempo de tela, causa um mínimo desconforto na imersão, o que é compreensível. Outra contribuição preciosa à história é a explicação finalmente dada para o ponto fraco da Estrela da Morte, algo estrategicamente incluído pelo pai de Jyn, um recurso que traz ainda mais poesia para a saga. Um detalhe que considero valioso é a inclusão de cenas de arquivo de alguns pilotos de X-Wing do filme original na grandiosa batalha final, um presente para os fãs mais puristas. Mas a cena que resume a importância do projeto é protagonizada pelo personagem mais celebrado, Darth Vader, voz indefectível de James Earl Jones. A chacina que ele promove no corredor da nave rebelde justifica o pavor que a simples menção de seu nome causa nos personagens de “Uma Nova Esperança”. O vilão nunca havia sido mostrado em ação, utilizando todos os seus recursos, com a brutalidade de alguém que sente não ter nada a perder, mais máquina que homem. E tenho certeza que está nos planos do estúdio um filme solo do personagem, algo que seria fantástico.

Comentários em vídeo (Sem Spoilers):

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Close-Up", de Abbas Kiarostami


Close-Up (Nema-ye Nazdik - 1990)
Ao escrever sobre o falecimento de Abbas Kiarostami (leia aqui), revelei que o único filme dele que realmente me marcou positivamente foi “Close-Up”. Eu consigo pinçar cenas brilhantes em toda sua filmografia, mas essa foi a única experiência plenamente satisfatória que tive com sua obra. Ele conseguiu extrair grandes reflexões, fazendo com que a espinhosa dificuldade conceitual desse docudrama parecesse simples. O argumento nasceu após a leitura de uma matéria sobre Hossain Sabzian, um fã de cinema sem histórico criminal que se fez passar pelo famoso cineasta Mohsen Makhmalbaf, cujo trabalho ele admirava. A família que o entregou à polícia temia que ele tivesse intenção de praticar alguma maldade, mas a razão para sua atitude era passional, o homem simplório e usualmente desprezado desejava ser tratado de forma especial. Ele busca na vivência da rotina de outrem a inspiração para elevar o nível de sua própria existência. Kiarostami então convida todos os envolvidos nessa manchete jornalística, inclusive o próprio impostor, para reencenar o ocorrido.

O drama real de Hossain havia sido transformado em espetáculo para vender jornais, “Close-Up” redime sua imagem ao tornar seu sonho uma realidade, exatamente ao transformar realidade em ficção, objetivando, toque genial, conhecer a verdadeira identidade do preso e a origem de suas motivações, algo que um documentário convencional não conseguiria, provavelmente encontraria resistência no próprio observado, ou como o próprio diretor afirma: “Em alguns casos, para ater-se à verdade é necessário trair a realidade”. O primeiro encontro de Kiarostami com Hossain na delegacia para abordar a ideia do projeto, filmado à distância como se fosse um documentário investigativo, não passa de uma óbvia recriação ficcional. Até mesmo a longa sequência de julgamento no tribunal soa irreal, já que o diretor faz questão de se mostrar bastante intrusivo, questionando o réu diante do juiz, manipulando emocionalmente a cena com a edição e a montagem. O homem que usou por tanto tempo a ilusão como escapista forma de expressão agora fala com plena consciência da presença da câmera. Grande parte do que é visto nessa sequência foi filmado horas depois do término do julgamento, sem a presença do juiz, com Hossain abordando diretamente sua identificação com o cinema, mostrando sua consideração por “O Viajante”, de Kiarostami, revelando que se sente como a criança da trama, que finge tirar fotos com uma câmera sem filme, tentando juntar dinheiro para ver um jogo de futebol. O sono a impede de realizar seu objetivo, o cansaço natural causado pelo esforço de manter a mentira. E Hossain desabafa afirmando que sente que também perdeu o jogo.

O terceiro ato promove o belo encontro entre a realidade e a ilusão, o impostor passeia na garupa da moto de Mohsen em uma jornada rumo ao perdão da família que o desmascarou. O caso real que conquistou a simpatia de Kiarostami teve um final poético: Hossain se tornou um personagem e teve sua imagem eternizada, os membros da família enganada, que buscavam no impostor uma ponte para o estrelato, engoliram a vergonha do ocorrido e conseguiram participar do projeto de um diretor renomado, um filme de verdade, enfim, o cinema, indústria de sonhos, proporcionou a redenção de todos. 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

"Aquarius", de Kleber Mendonça Filho


Aquarius (2016)
É uma pena que a recepção desse filme nacionalmente tenha sido prejudicada por questões políticas baixas, um barulho distorcido encabeçado pelo próprio realizador e que soou mais alto que a bela melodia da trama. Em minha lista de melhores do ano, recentemente postada, você irá encontrar “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, que considero uma obra mais bem resolvida, um roteiro preciso, sem gordura extra. O trabalho de Kleber Mendonça Filho em “Aquarius” peca pelo excesso, peca por querer dizer muito, falta foco narrativo, o que é uma pena, já que há um filme perfeito perdido no pretensiosismo do roteiro.

Algumas cenas parecem enxertadas para satisfazer interesses ideológicos externos à trama, similar ao que senti em “Que Horas Ela Volta?”, uma espécie de agenda politiqueira que soa intensamente artificial no papel e, por conseguinte, esbanja proselitismo raso na entrega do elenco. Não há problema em ser panfletário, mas tentar infiltrar sutilmente essa intenção causa o efeito inverso no espectador mais atento, desfila como um rinoceronte em uma loja de cristais. Outro problema, as sequências de sexo, a polêmica da censura na classificação indicativa. A questão é que essas cenas realmente são conduzidas de forma desnecessariamente explícita, contrastando com a sensibilidade dominante, parecem existir apenas para causar choque, como se a intenção fosse incitar a polêmica pelos mesmos motivos politiqueiros. A nudez é utilizada com inteligência quando Clara (Sonia Braga) revela ao público a cicatriz física e psicológica de sua batalha contra o câncer, mas os demais momentos envolvendo nudez são tolos, gratuitos, poderiam ser resolvidos com elegância coerente à alegoria central que o roteiro propõe, ou poderiam ser encurtados na edição. A cômoda, leitmotiv visual frequente, representa o elemento do desejo sexual que atravessa gerações, mas a forma como esse móvel é utilizado poderia ser menos didática, a câmera faz questão de registrar sua presença em várias cenas, a repetição subestima a inteligência do público e minimiza a beleza da simbologia.

Há tanto material interessante que é abordado sem atenção, como a crítica que é feita aos estelionatários neopentecostais, rascunhos que nunca são minimamente aprofundados, enquanto o filme perde tempo precioso em seu primeiro ato mostrando personagens ainda desconhecidos do público batendo cabeça dentro de um carro, escutando “Another One Bites the Dust”. Falta senso de direcionamento, a música exerce função primordial, simboliza a valorização da memória (não apenas cultural, nas relações humanas, em todas as vertentes), a protagonista resiste bravamente à mídia digital, ainda que a compreenda como inevitável, sabendo que informações na nuvem nunca irão substituir a poesia por trás de dedicatórias para estranhos em livros encontrados nos sebos, mas o espectador precisa se importar primeiro com a personagem para que o investimento emocional funcione. A utilização da música somente se torna parte orgânica do todo no segundo ato, resultando em momentos verdadeiramente bonitos, como quando Clara celebra sua liberdade dançando ao som de “O Quintal do Vizinho”, de Roberto Carlos.

Vale ressaltar também o reducionismo maniqueísta reservado ao discurso social que, por vezes, parece ser mais importante que o desenvolvimento dos arcos narrativos: empresários malvados, elite covarde, patroa que visita a casa humilde da empregada no dia de seu aniversário, pobres e ricos divididos sem tons de cinza, não há sutileza alguma na abordagem. Em alguns momentos, esse discurso social funciona, como na cena em que jovens negros da periferia se unem aos moradores dos condomínios de luxo no exercício teatral de gargalhadas ao ar livre. A intenção óbvia é desafiar o preconceito do espectador, a condução da cena (montagem e alguns enquadramentos) leva a crer que eles trazem algum perigo. Ao fazer com que esses rapazes entrem na brincadeira e, mais importante, sejam acolhidos carinhosamente pelos praticantes, o roteiro desfaz o preconceito e incita genuína reflexão. Em outros momentos, o discurso social soa forçado e constrangedor, como na cena em que o jovem sócio da construtora utiliza a cor da pele de Clara como argumento em uma discussão, ou quando justifica o roubo cometido por uma babá, colocando na boca de uma personagem a cretina frase: “É assim, a gente as explora e, de vez em quando, elas nos roubam”. É filosofia socialista de butique, o mesmo tipo de ideologia torta que defende as atuais invasões de adolescentes em escolas públicas, simplismo grosseiro que não combina, por exemplo, com a elegante referência ao escritor pernambucano José Luiz Passos, na cena em que vemos de relance a capa de seu livro: “O Sonâmbulo Amador”, que trata exatamente sobre o tema da resistência.

Dito isso, qualquer elogio feito à atuação de Sonia Braga é pouco, a melhor de sua carreira, capaz de suprimir as lacunas de seu desenvolvimento no roteiro com pausas estratégicas em frases, deixando transparecer o subtexto, as emoções disfarçadas, o perfeito timing no senso de humor, o conflito constante entre o compreensível medo residual e a coragem de quem já encarou a morte. Sonia é o coração pulsante e a alma do projeto. A jornalista aposentada que se recusa a abrir mão de seu apartamento, mesmo tendo condições financeiras de morar em qualquer lugar. Clara tem outros apartamentos, aquela batalha não é movida por mesquinhez, a ameaça invade sua história de vida, desconsidera todas as experiências belas e difíceis que forjaram seu caráter, os inescrupulosos no terceiro ato chegam a cometer um atentado à sua vida, alegoria que representa mais um câncer em seu combalido espírito, corroendo de dentro para fora após atingir de todas as formas o seu psicológico. A valente reação dela, na casa do inimigo, o testamento em vida de uma guerreira inabalável. “Hoje”, linda composição de Taiguara que emoldura a obra, “eu não queria andar morrendo pela vida”, síntese perfeita para a vitória pessoal da protagonista.

“Aquarius” é, com todos os seus problemas, o segundo melhor filme nacional do ano. Kleber Mendonça Filho é muito feliz ao propor a necessária valorização da memória, simbolizada no apego emocional de Clara com o apartamento e com seus discos, fragmentos de amor preservados nas estantes. Quando o indivíduo passa a se relacionar somente com genéricas informações desprovidas de encanto, tudo se torna dispensável, até mesmo o outro. Ao estabelecer esse resgate, o roteiro propõe uma resposta lúcida para o desolador panorama comportamental de nossa sociedade, cada vez mais conectada virtualmente, olhos fixos nas telas de seus celulares, sem empatia, sem respeito, sem sentido. A resistência é o único caminho aceitável. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

Cine Samurai - "A Tocha de Zen", de King Hu


A Tocha de Zen (Xia Nü - 1971)
Esse clássico influente do diretor King Hu, adaptado da antologia “Strange Stories from a Chinese Studio”, fez história ao ser premiado em Cannes, um selo de prestígio que alçou o subgênero Wuxia ao patamar que merecia. A longa duração, mais de três horas, prejudica o ritmo no segundo ato e pode afastar aqueles que não estão acostumados com essa caligrafia mais delicada, ou aqueles que equivocadamente esperam encontrar um genérico filme de ação. 

O olhar é contemplativo, as batalhas são pensadas em escala mitológica, a simbologia supera a beleza da coreografia, o protagonista apaixonado pela arte da pintura enfrenta as críticas da mãe que ambiciona para ele uma vida profissionalmente estável e romanticamente comum, cumprindo todos os rituais sociais; a busca espiritual representada pelos monges budistas é ativada por um primitivo desejo humano, o interesse romântico do rapaz pela enigmática jovem interpretada por Feng Hsu, uma relação conturbada que revela contornos antagônicos ao projeto conformista da mãe, poeticamente ressaltando que não há lógica alguma na existência que objetiva a negação das funções intelectualmente estimulantes como recompensa para uma vida de trabalho, em suma, o filme também pode ser interpretado como uma ode à rejeição da aposentadoria como algo aceitável. A mansão assombrada que afasta o povo temeroso, um recurso útil, acaba se revelando o cenário perfeito para que o protagonista treine estratégias de guerra, o misticismo sendo utilizado como veículo para uma modificação prática de atitude, a jornada que leva um homem inseguro a tomar o controle e aprender a se defender. 

A famosa sequência de luta na floresta de bambus, que inspirou visualmente Ang Lee em “O Tigre e o Dragão”, desafia as leis da gravidade e evidencia a metáfora da reação diante dos obstáculos naturais. Os vilões cortam as árvores com suas espadas para liberar o caminho, a guerreira valorosa se adapta ao terreno, ela utiliza as plantas como extensões de seus braços e pernas, ela toma impulso nelas e surpreende os adversários.


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras Primas do Cinema".