sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O Centenário de Kirk Douglas

Links para textos anteriores sobre filmes com o ator:


Assim Estava Escrito (The Bad and The Beautiful – 1952)
O roteiro de Charles Schnee, baseado na obra de George Bradshaw, relata a ascensão e queda de um poderoso e tirânico magnata de Hollywood, abordando como eram feitas as produções atrás das câmeras, o funcionamento e a atmosfera no mundo do cinema. Um cenário rico que já foi explorado em grandes filmes, como “O Jogador”, de Robert Altman, e “A Noite Americana”, de François Truffaut. O diretor Vincente Minnelli, antes de iniciar carreira em Hollywood, sentia que os musicais estavam dominados por clichês, e ele passou a maior parte da década de 1930 revitalizando o gênero nos palcos de Nova Iorque. Por isso, quando o lendário produtor Arthur Freed o retirou da Broadway em 1940, ele fez um acordo incomum: Minnelli iria simplesmente observar (sendo remunerado) nos bastidores de uma produção musical por um ano. Caso ele não se convencesse de que havia possibilidade de revitalizar o gênero, ele voltaria para os palcos. O resultado: ele criou nos anos seguintes alguns dos melhores musicais da história do cinema. A experiência que ele obteve durante aquele ano, como observador nos bastidores da indústria, serviu como modelo para o excelente “Assim Estava Escrito”, um estudo antropológico sobre essa fábrica de sonhos. 

O personagem de Kirk Douglas é uma versão do produtor David O. Selznick, um homem intensamente criativo e apaixonado pela Sétima Arte, que inspirava lealdade e ódio, sabendo manipular qualquer pessoa que necessitasse para seus objetivos. Ele é megalomaníaco, tem um senso distorcido de moral e desconhece o conceito de ética profissional, mas sabe como mover a engrenagem do sucesso, ele reconhece a beleza que nasce do atrito artístico. A trama segue os pontos de vista de três desafetos do produtor, uma atriz (Lana Turner), um roteirista (Dick Powell) e um diretor (Barry Sullivan), totalmente desinteressados em ajudar o protagonista em uma crise financeira. A linda fotografia de Robert Surtees, em preto e branco, capta a melancolia da morte daquela velha Hollywood, como em “Crepúsculo dos Deuses”, que também fazia uso da narrativa alicerçada por flashbacks. É interessante como Minnelli encontra nobreza até mesmo nas atitudes mais equivocadas do personagem, quase como se ele enxergasse suas atitudes como um mal necessário para sobreviver na indústria, algo que só é possível ser transmitido com o auxílio de um competente ator. Kirk Douglas compreende as motivações de Jonathan Shields, enriquecendo sua caracterização ao nunca pender para a caricatura odiosa.


O Malabarista (The Juggler - 1953)
Kirk Douglas executa aqui o melhor trabalho de sua carreira, infelizmente em um filme praticamente desconhecido. Um drama minimalista com enfoque psicológico que aborda corajosamente, ainda mais para a época, as perturbações que acompanhavam as vítimas da guerra em seu lento retorno à vida rotineira. Ele vive Hans, um judeu sobrevivente de um campo de concentração que tenta recomeçar em Israel. Perceba a intensidade de emoções que ele deixa transparecer em seus olhos e sua extrema competência nas cenas em que atua como palhaço e titereiro. Foi o primeiro filme americano a ser rodado em Israel, mas o roteiro acerta ao manter-se centrado no drama do protagonista, ao invés de, como era usual, transformar-se em um cartão postal de suas locações. Uma produção dirigida com sensibilidade por Edward Dmytryk, com o padrão de excelência e consciência social do produtor Stanley Kramer. O roteiro de Michael Blankfort, adaptando seu próprio livro, consegue extrair tensão do silêncio, evidenciando as cicatrizes existenciais que dificultam a reinserção do protagonista na sociedade. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

TOP - 2016


1 - A Chegada (Arrival), de Denis Villeneuve
"... Ao ser convocada para tentar estabelecer contato com os visitantes alienígenas, a doutora em linguística, mostrada inicialmente como uma pessoa melancólica que optou pela solidão como fuga, por medo de sofrer, encontra motivação profissional e refúgio existencial. A complexidade na expressão dos alienígenas, como o kanji japonês, através de ideogramas ricos em significados, representa um desafio amedrontador, assim como a perspectiva de futuro da mãe que precisa educar pelo exemplo, encontrando o equilíbrio entre as aspirações que nutre pela filha e o choque irreversível de estar lidando com um ser estranho e que precisa firmar sua personalidade própria, ainda que nascido de seu ventre. O delicado contato deve ser mediado sempre pelo desejo genuíno de compreensão do outro, mas, como o filme evidencia, a raça humana é propensa ao apedrejamento como resposta imediatista para qualquer pergunta mais difícil. A mãe repele o questionamento indesejado da filha, desviando a responsabilidade para o pai; os militares optam facilmente pela violência perante o medo do desconhecido. O resultado é o mesmo. Exatamente como no conto, “A Chegada” não é sobre uma invasão alienígena, não é sobre o contato com o desconhecido mundo externo. A alegoria apenas injeta suspense, serve na realidade como veículo refinado para uma linda história de amor entre mãe e filha, uma difícil jornada interna de compreensão da dor como elemento inevitável na experiência do amadurecimento, uma declaração libertária de união entre povos, um alerta precioso para a necessidade do diálogo como antídoto contra a agressividade da intolerância, em suma, um filme que traz esperança em um momento politicamente sombrio para os norte-americanos. Somos definidos por nossas escolhas, mas caso pudéssemos optar entre sofrer a dor de um amor fadado a ter um fim horrível, ou simplesmente evitar o primeiro encontro com a pessoa, qual caminho escolheríamos? Essa é a questão que o roteiro de Eric Heisserer faz, com plena consciência de que a única resposta humanamente aceitável é a mais sádica, emoções não são forjadas em ambientes assépticos, George Lucas já provava isso em “THX 1138”. A protagonista Louise, vivida por Amy Adams, sabe que a dor do término de uma relação, por mais avassaladora que seja a ruptura, não desvaloriza os bons momentos que a antecedem, a mágica interação, a troca de carinho, a força do perdão, pegadas na areia que serão inexoravelmente apagadas pelas ondas. É discutível até que a aceitação lúcida da finitude seja o elemento que verdadeiramente engrandeça a experiência. Sem um ponto final, qualquer frase perde relevância..."


2 - Elle, de Paul Verhoeven
"... O cineasta Paul Verhoeven, como de costume, utiliza a violência gráfica como veículo para tratar de assuntos espinhosos. O estupro sofrido logo na primeira cena, repetido em detalhes depois em flashback, existe como forma de colocar em confronto Michèle e suas muitas travas emocionais, os obstáculos que a impedem de seguir em frente, presa aos fantasmas do passado criminoso do pai, presa ao sentimento de culpa na criação do filho, presa à insegurança que o marido deixou de legado ao abandonar ela por uma mulher mais jovem, presa a uma imagem reducionista dela mesma. Perceba que o estuprador não teve interesse em roubar nada na casa, ele desejava apenas satisfazer seu impulso sexual. Ela, que frequentemente se sente inferior como mulher perante as figuras femininas mais jovens, descobre da pior forma possível que ainda é desejada. Não é coincidência que, após o estupro, ela conquiste confiança pra seduzir abertamente o vizinho na mesa de jantar de sua casa. Ela deixa de ser passiva sexualmente, cansa de ser vítima da deselegância do amante que a enxerga apenas como objeto, e parte para o ataque, com plena consciência da necessidade de satisfazer seus desejos. Quando ela vê que a esposa do vizinho é uma jovem recatada, altamente religiosa, nasce o desafio. Outra cena muito importante ocorre em um restaurante, o encontro com o ex-marido. Ele diz, sobre a namorada psicótica do filho: “Esse tipo de garota costuma ser boa de cama”. E ela responde ofendida: “Boa de cama? O que isso quer dizer? Eu nunca entendi”. Como mulher em transformação, ela, enxergando claramente o machismo repulsivo na sociedade, ganha a coragem de revidar. Várias cenas criam variações desse mesmo tema, a natureza constantemente a desafia, mas ela segue forte, rejeitando absolutamente a autocomiseração como resposta aceitável, ela não aceita entregar a responsabilidade nas mãos dos policiais, do sistema patriarcal, o problema tem que ser resolvido de dentro pra fora, a questão é existencial. Até mesmo quando um agressor tenta humilhá-la publicamente em seu local de trabalho, sodomizada por um demônio lovecraftiano em um jogo eletrônico, a resignação subjuga o medo, ela não aceita entrar no jogo psicológico dele, ela se mostra superior..."


3 - O Quarto de Jack (Room), de Lenny Abrahamson
"... O primeiro aspecto brilhante que saliento é a atuação de Brie Larson. Vale perceber como ela reage quando o filho pede um cachorro. “There’s not enough room... Space, there’s not enough space”. Ela se pune internamente por ter dito a palavra “quarto” (room) levianamente, substituindo rapidamente pela palavra “espaço”, já que ela fez a criança acreditar que nada havia além daquele ambiente em que eles vivem: o Quarto (com letra maiúscula). Já fora do cativeiro, perceba como ela segue falando em tom extremamente baixo, até mesmo quando não há ninguém por perto, evidenciando o trauma de anos sendo levada a não chamar atenção. Pequenos detalhes que demonstram o cuidado do filme, sublinhando sutilmente as consequências psicológicas da terrível experiência na personagem. Esse recurso da ilusão mantida como forma de proteção incita reflexões que vão muito além do tema, que pode ser visto como alegoria para o sistema de crenças humano. O menino questiona a mãe sobre o mundo do sonho: “Quando sonhamos, nós entramos na TV?”. Ele acha que além das paredes há apenas o espaço sideral. Aquele é o universo que ele conhece como prisioneiro na caverna de Platão, criando possibilidades a partir dos elementos que enxerga ao seu redor. O real é apenas o que ele consegue tocar. A comida e as roupas, aos olhos dele, são trazidas pelo “Velho Nick”, o fator amedrontador, desconhecido e onisciente, que opera através da TV, por mágica. O que ele desconhece é explicado pelo sobrenatural. A mãe, em dado momento, começa a entender que o filho, com cinco anos, já tem idade para deixar de se apoiar na muleta da ilusão, então deixa de incentivar isso nele. O objetivo outrora era fazer com que ele se acostumasse a viver naquele ambiente. Mas a única forma dela conseguir reunir forças para escapar daquela prisão é com os dois pés fincados no mundo real. Ao explicar para ele como o mundo funciona, o menino se revolta, não consegue compreender, ele precisa viver aquela ilusão, por mais desumana que seja. Num toque genial, o roteiro mostra que Jack era mais alegre em seu Quarto. Ele descobre que o mundo real, aquele universo que ele desconhecia, é todo em tons de cinza..."


4 -  Carol, de Todd Haynes
"... Até mesmo a incrível semelhança de Mara com Audrey Hepburn, maquiagem e adereços, possui interessante simbolismo, traçando um paralelo entre ela e a personagem de Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”, uma princesa entediada que, abraçando o anonimato, embarca em uma viagem de exploração, inclusive, interna. O tédio faz parte da rotina de Thérese, vendedora em uma loja de departamentos, acostumada a ser incentivada pela gerência a se adequar a um padrão, simbolizado na cena em que ela lê o manual de condutas da empresa. A delicadeza na interação com aquela enigmática mulher que a aborda numa manhã, o gradual desejo cuidadosamente trabalhado nas primeiras conversas, a preocupação da jovem com a latente agressividade do marido de Carol, todas as etapas nessa relação conduzem naturalmente ao sexo, porém, até mesmo nessas cenas, a câmera se mantém por mais tempo nos olhares, no toque dos lábios, afinal, a coreografia dos corpos importa menos que a alegria do contato finalmente satisfeito..."


5 - A Assassina (Nie yin niang), de Hou Hsien-Hsiao
"... A ação, quando ocorre, é abrupta, turva momentaneamente a água de um rio plácido, gestos rápidos e frios, anti-ação, porque o interesse do diretor está nos sentimentos dúbios que movem os personagens em seu cotidiano, não nos consequentes impulsos imediatistas. Os confrontos, doce ironia, são coerentes à realidade intensa desses guerreiros, altamente precisos e ágeis, sem a glamourização excessivamente elaborada, visando empolgação e não reflexão, que o cinema consagrou. O estudo dedicado sobre o período da dinastia Tang, pesquisa que se reflete na primorosa direção de arte fiel à arquitetura e ao estilo de vida, serve à adaptação do conto “Nie Yinniang”, de Pei Xing, como um estofo de realidade que inteligentemente evidencia ainda mais os elementos utópicos, com a fotografia de Ping Bin Lee, do inesquecível “Amor à Flor da Pele”, atuando em vários momentos de forma subjetiva, como se enxergasse o mundo pelos olhos da etérea protagonista, vivida por Shu Qi, uma assassina treinada para se misturar às sombras e se mover como o vento, metáfora visual executada com elegância, uma mulher consciente de que está se esvaindo existencialmente, consciente de que nunca terá o conforto de um lar, punida severamente por ter demonstrado piedade, punida por ser humana. A câmera pacientemente esculpe o tempo, como nas obras de Tarkóvski, conduzindo o espectador a apreciar cada detalhe do enquadramento..."


6 - Snowden - Herói ou Traidor (Snowden), de Oliver Stone
"... Joseph Gordon-Levitt realiza um trabalho assustadoramente competente, conseguindo captar com riqueza de nuances os trejeitos e a voz do protagonista, compondo uma caracterização tão fiel que, mais tarde, quando o próprio Snowden é mostrado, o espectador não sente qualquer abalo na imersão, o recurso potencializa o investimento emocional e não soa forçado. A intenção clara é fazer com que o público se identifique com o protagonista, buscando entender o escopo brutal do sacrifício, o incômodo sentido ao perceber que a omissão é o pior crime que pode ser cometido. Como é salientado em uma das cenas mais impactantes, o que se pode esperar de dignitários que são capazes de qualquer coisa, até mesmo utilizar o conceito da ameaça terrorista em um povo já doutrinado diariamente pela cultura do medo a “deixar o dedo no gatilho”, como bem mostrou Michael Moore em seu documentário “Tiros em Columbine”, como atroz desculpa para operar total controle social? Como prever o que será feito por aqueles que não possuem escrúpulos? É impressionante constatar que o material que era tido como ficção científica altamente engenhosa outrora, o Grande Irmão orwelliano, acabou se tornando uma preocupante realidade..."


7 - A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale), de Robert Eggers
"... A mente, tão acostumada e programada para reagir aos impulsos imediatistas tolos dos jump scares, não consegue aceitar que está diante de um roteiro que está impondo suas próprias regras sensoriais. Analisando bem, o recurso do susto é o artifício menos inteligente, o bom horror aposta no poder da sugestão. O público quer respostas fáceis, algo que o diretor Robert Eggers não está interessado em oferecer. A intensa religiosidade da família codifica todos os estranhos acontecimentos, o desespero diante do desconhecido faz com que eles ativem a suscetibilidade humana ao apedrejamento, alimentado pela culpa cristã e a consequencial punição, um fanatismo que nubla até mesmo os elos de amor familiar, cegando qualquer senso de lucidez, assim como nas perseguições dos inquisidores históricos. A utilização da cabra, símbolo pagão, reforça esse conceito. Conhecemos mais sobre os personagens através de suas atitudes quando confrontados por esses medos..."


8 - Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert
"... Muylaert encontrou no “caso Pedrinho”, o menino que foi roubado de uma maternidade em Brasília nos anos oitenta, a fonte para injetar um poderoso tratado sobre o conceito elástico de família. O filho pré-adolescente do casal é mostrado praticando judô, mas o roteiro salienta seu desconforto, seu desinteresse ao alongar sua pausa para água no meio do treino. Ao ser paquerado pela coleguinha de classe introvertida, ele se sente constrangido, ele se afasta com medo do que os outros irão pensar dele, um ato de imaturidade compreensível pela pouca idade. Essa preocupação é o reflexo do comportamento repressor dos pais, adultos apavorados com a opinião dos outros, tão imaturos quanto o menino, como é mostrado na sequência em que Pierre revela preferir se vestir como mulher. O arco narrativo se encerra brilhantemente ao focar no menino e no irmão mais velho que descobriu ter, uma relação conturbada a princípio, mas que é abraçada pela ternura quando a rebeldia social de Pierre conquista o respeito de um garoto que nunca tinha conhecido força de resistência tão pacífica e gentil. É uma das cenas mais bonitas da história do cinema nacional..."


9 - Café Society, de Woody Allen
"... Em uma indústria cada vez mais escrava da grandiloquência, o baixinho de voz mansa segue entregando anualmente os textos mais inteligentes do mercado, com pouco orçamento e disciplinadamente encaixando a duração final por volta de noventa minutos, exercitando sua incrível capacidade de síntese narrativa. Ele abraça pela primeira vez a filmagem digital, mas continua marchando no ritmo de seus próprios tambores criativos, o roteiro toca em temas essenciais em sua filmografia, como a discussão existencialista sobre a morte, a ironia do amor não correspondido e a desconstrução ácida da melancolia nostálgica, com a mesma vitalidade de seus primeiros trabalhos. Ao final, os dois apaixonados, em locais diferentes e estabelecidos em relações frágeis, olhares distantes e melancólicos, como que buscando a luz verde do farol do Gatsby literário, de Fitzgerald. E, ousado, Woody insinua no sorriso suave da mulher a possibilidade de que o amor verdadeiro ainda terá chance de superar a insegurança social. Poético desfecho para um dos melhores filmes em sua filmografia..."


10 - Coração de Cachorro (Heart of a Dog), de Laurie Anderson
"... O medo da morte é parte essencial de um processo importante e que não deve ser negado. O padrão dos veterinários, assim como o livro escolhido pela enfermeira, ao discursar um conteúdo memorizado sobre a possibilidade de acabar com o sofrimento do animal com apenas uma injeção, impede que o animal utilize o tempo necessário para reconhecer a finitude. O envelhecimento, essa aproximação natural da morte após a breve juventude, possibilitou que a diretora enxergasse em suas recordações o momento exato em que se sentiu amada por sua mãe, algo que parecia ter sido bloqueado em sua mente. Laurie propõe em seu documentário, acima de tudo, um convite para que o espectador também analise com carinho a efemeridade da vida, para que ele não perca precioso tempo em rituais que satisfaçam outrem, ou obedecendo a padrões desgastados. Crie seu próprio ritual, codifique sua linguagem única..."

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Férias Frustradas de Natal", de Jeremiah Chechik


Férias Frustradas de Natal (National Lampoon’s Christmas Vacation – 1989)
A indústria de Hollywood já produziu diversos filmes com a temática natalina, mas é difícil encontrar roteiros realmente bons, para cada pérola como “A Felicidade Não Se Compra”, de Frank Capra, existem cinco bobagens inofensivas e/ou constrangedoras. Ao ler o conto original escrito por John Hughes, “Christmas 59”, inspirado nas lembranças de infância do querido e saudoso poeta da juventude, você sente a ternura nostálgica por trás de todas as peripécias cômicas. A adaptação consegue inserir esse tom mágico, especialmente na sequência que mostra o desastrado protagonista, vivido por Chevy Chase, preso no sótão da casa após tentar esconder os presentes dos filhos. Ele então encontra um velho projetor de Super 8, com um registro em vídeo de um Natal de sua adolescência. Ao som da belíssima “That Spirit of Christmas”, na voz de Ray Charles, vemos o personagem vulnerável, humano, algo raro na franquia, genuinamente emocionado com o resgate. A resolução hilária da cena não consegue apagar a pureza do sentimento. 

As loucuras da família Griswold para alcançar seus objetivos nunca foram tão bem fundamentadas, Clark, insatisfeito profissionalmente, desejava desesperadamente reencenar a atmosfera da cerimônia de outrora como forma de tentar revisitar a paz de uma época livre de maiores preocupações. Não é simples saudade do ritual coletivo, ele adentrou o universo da maturidade cheio de sonhos e descobriu que a estabilidade profissional é uma prisão elegante. Da mesma maneira que a jornada para visitar o parque “Walley World” no filme original, o leitmotiv do desconforto do adulto com o sistema entrega camadas de interpretação que engrandecem a obra. A frustração com o bônus financeiro tão aguardado acaba explicitando o descaso, a falta de empatia do patrão com o empregado, apenas mais um número na estatística da empresa, alguém cujo nome é frequentemente trocado sem qualquer senso de remorso. Outro ponto bonito que pode passar despercebido é a evolução na relação entre Clark e seu aborrecido sogro, a figura que sempre tem algo depreciativo a dizer, como ao desconsiderar todos os esforços dele na montagem da iluminação externa, mas que, no apoteótico final, quando mais uma vez a família se vê envolvida em um crime, faz questão de ser o primeiro a se levantar do sofá para o apoiar. Vale ressaltar a direção segura de Jeremiah Chechik, em seu primeiro trabalho, comandando com tranquilidade um elenco de peso, com veteranos respeitados como John Randolph, E.G. Marshall, Mae Questel, Diane Ladd e Doris Roberts, dividindo espaço com jovens talentos que viriam a ser reconhecidos na área, como Juliette Lewis e Johnny Galecki. 

Uma comédia deliciosa que segue eficiente após várias revisões, um jovem clássico no gênero, obrigatório nessa época do ano.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Chumbo Quente - "A Um Passo da Morte", de André De Toth


A Um Passo da Morte (The Indian Fighter - 1955)
O primeiro filme da produtora criada por Kirk Douglas, Bryna, nomeada em homenagem à mãe dele, um projeto muito pessoal que fala diretamente aos valores do ator, que optou realizar todas as suas cenas de ação sem a utilização de dublês, com o rigor cênico da direção do competente húngaro André De Toth se destacando em cenas espetaculares como a do ataque ao forte. O roteiro refinado, com toques de humor e sem gordura extra, de Frank Davis e Ben Hecht, adaptando a história original de Robert L. Richards, que utilizou pseudônimo por fazer parte da lista negra do macartismo, utiliza a trama simples como meio para estabelecer importante humanização da figura do índio norte-americano, elemento essencial na caracterização do protagonista, um homem desprovido de qualquer preconceito, antítese de praticamente todos os heróis dos faroestes de John Ford, que é apaixonado pela índia Onahti, vivida por Elsa Martinelli, bela italiana que protagoniza sequências bastante sensuais.

Johnny Hawks é o guia de uma caravana de pioneiros que viaja para as belas paisagens do Oregon, realçadas inteligentemente na fotografia de Wilfred M. Cline pelo Cinemascope e emolduradas pela trilha sonora de Franz Waxman, um homem justo e íntegro que é escolhido para a tarefa por sua relação de amizade com os Sioux, especialmente com seu chefe, vivido por Eduard Franz, um povo que se orgulhava de um histórico violento de contra-ataque. O problema começa quando os personagens vividos por Walter Matthau e Lon Chaney Jr., dois contrabandistas de bebida que ambicionam o ouro da região, aproveitando a ausência de Johnny, derramam o sangue de um índio. A ausência que motivou o ódio foi causada pelo amor, metáfora para os riscos de ser guiado apenas pelo emocional. O texto é muito eficiente ao evidenciar o drama da espoliação de suas terras e a exploração dos homens brancos em troca de álcool, uma atitude extremamente corajosa para a indústria da época, que refletia a visão racista de sua sociedade, quinze anos antes de “Pequeno Grande Homem”, de Arthur Penn.

O discurso de Hawks, alguém avesso à utilização gratuita da violência, para o rancoroso chefe índio no desfecho é poderoso em sua síntese, evocando a necessidade da paz entre os povos para que a próxima geração, a dos filhos resultantes da miscigenação, os frutos da integração, conquistem a real liberdade e, mais que isso, que eles sejam capazes de mantê-la viva a despeito de todos os obstáculos, com a imagem final simbolizando a fragilidade dos seres humanos diante da natureza, o casal sorridente sendo levado pela força da corrente do rio. Por mais valentes que sejamos nas batalhas diárias, não podemos escapar de nossa natureza, nossos ideais, então devemos forjar um caráter sólido, valoroso.

Um bom filme que ainda não ganhou o reconhecimento que merece, sendo usualmente citado apenas pela impecável atuação de Douglas, mérito justo, mas que não supera a mensagem humanista que a trama defende, trabalhada com precisão pelo roteiro. 





* Texto escrito para o livro da Mostra "O Último Durão - Centenário Kirk Douglas", organizada por Mario Abbade, realizada na Cinemateca do MAM (RJ), de 25 de Novembro a 11 de Dezembro.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"Os Pássaros", de Alfred Hitchcock


Os Pássaros (The Birds - 1963)
Caso minha memória não esteja me pregando uma peça, creio que “Os Pássaros” tenha sido minha primeira experiência com Hitchcock, na época de garimpo adolescente nas locadoras de vídeo. É impressionante como a linguagem cinematográfica, o estímulo sensorial inteligentemente trabalhado, pode conseguir fazer com que um bando de pássaros inofensivos se torne uma perturbadora ameaça capaz de conduzir a sociedade a um cenário apocalíptico. 

Muitos comentam sobre a eficiência dos efeitos visuais para a época, mas as sequências mais movimentadas não representam o apogeu de terror que o diretor alcança em momentos silenciosos, como os segundos que antecedem o primeiro ataque no barco de Melanie (Tippi Hedren), ou o simples caminhar lento de um personagem que atravessa um parque onde os brinquedos infantis foram dominados pelos pássaros. A engenhosidade narrativa é impulsionar o filme com o ritmo trivial de uma comédia romântica, conduzindo o espectador até o turning point, mas negando a ele a possibilidade de prever os acontecimentos e, por conseguinte, preparar emocionalmente as reações enquanto passivo elemento diante da tela. Até mesmo a trilha sonora convencional é descartada nesse processo, o que desorienta ainda mais o espectador. É comum encontrar cinéfilos que não compreendem o impacto do filme, até mesmo fãs do diretor que afirmam não gostar dele, o produto final talvez seja o mais experimental em sua carreira, mérito precioso já que ele não precisava provar mais nada, aquele que menos se debruça na padronização retórica do suspense que ele mesmo patenteou. 

Os mais dedicados buscaram explicações psicanalíticas, filosóficas e científicas sobre o comportamento dos pássaros, na tentativa de agregar maior valor, mas eu creio que o real pavor do roteiro resida na impossibilidade de se compreender o que ocorre na cidade de Bodega Bay, o medo se intensifica quando cogitamos a hipótese de não haver lógica alguma nesse fenômeno, logo, somos incapazes de estudá-lo, totalmente indefesos.


* O livro escrito por Frank Baker está sendo lançado pela Editora Darkside Books, com o usual refinamento, em Limited Edition (capa dura), fiel à versão definitiva, revisada à mão pelo próprio autor, em 1964.