segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Guilty Pleasures - "Rambo 3", de Peter MacDonald

Link para os textos anteriores do especial:


Rambo 3 (1988)
A minha relação com esse filme é anterior ao conhecimento que tive sobre os dois primeiros, quando eu já visitava semanalmente a videolocadora, minha primeira lembrança de “Rambo 3” é ambientada na minha primeira infância, Classe de Alfabetização no Jardim Escola Menino Jesus de Praga, que ficava na Tijuca, época em que eu apenas brincava de massinha colorida na sala de aula e torcia pro meu pai não ter esquecido de gravar a transmissão diária de Jaspion na TV Manchete. A sala de entrada da escola, onde nós deixávamos nossas pequenas mochilas e lancheiras penduradas em ganchos na parede, ao lado da escada que nos conduzia às salas, era o espaço em que brincávamos na hora do recreio, tinha uma vitrola e vários discos, quase todos direcionados para o público infantil. Eu disse: quase todos. Até hoje não entendo o motivo, mas entre os discos da Xuxa e do Trem da Alegria havia a trilha sonora de “Rambo 3”, com o Stallone e um helicóptero na capa, algo bem chamativo para alguém que já estava começando a se interessar por filmes. Gosto de pensar que é minha contraparte do futuro que voltou no tempo e deixou esse easter egg lá. O disco nunca foi escutado, algo compreensível, mas que aguçava ainda mais a minha curiosidade. Anos depois, como presente de aniversário, meu tio paterno Jorge Ricardo, também um apaixonado por cinema, acabou me dando esse LP, que guardo com carinho até hoje. O fato é que, por pior que seja o filme, não há como negar seus vários problemas, eu tenho uma forte conexão emocional com ele.

Apesar de todos os furos de roteiro, a produção tem méritos na parte visual, até pela ambição corajosa de emular “Lawrence da Arábia”. Michael Stevenson, assistente de direção, trabalhou no clássico de David Lean. A direção inicialmente seria de Russell Mulcahy, que havia feito “Highlander – O Guerreiro Imortal”, mas após duas semanas de muitos conflitos com o protagonista, ele foi substituído por Peter MacDonald, que tinha experiência como diretor de segunda unidade de filmes como “Excalibur” e “Star Wars - O Império Contra-Ataca”, e estava escalado na produção para exercer a mesma função, mas foi catapultado para a ponte de comando. Ele não levava a sério o personagem, alguém capaz de derrubar um helicóptero com um arco e flecha, então tentou injetar humor em algumas cenas, pra desgosto de Stallone. Foi dele a ideia de inserir uma sequência que mostrasse Rambo, o guerrilheiro monástico, tentando se recuperar de algum dano, já que o herói havia metralhado dois estádios de futebol lotados sem levar um arranhão, o que o diretor considerava mais tolo do que a violência das revistas em quadrinhos, uma sugestão que conduziu à clássica cena em que ele cauteriza com pólvora um ferimento na barriga. Mas realismo só foi o foco no primeiro filme, o segundo já dava uma pirueta no politicamente correto, com vietnamitas explodindo a torto e a direito, o terceiro apenas se manteve fiel à lógica que rege a possibilidade de um halterofilista sozinho enfrentar vários exércitos e não perder sequer uma perna em combate. Richard Crenna, o abnegado coronel Trautman, que se manteve lúcido e sensato até aquele momento, decide partir pra pancadaria, acaba virando refém dos russos, o gatilho que faz o herói abandonar seu repouso na Tailândia e entrar de cabeça no conflito dos rebeldes afegãos. 

Gosto bastante da sequência em que Stallone, pela primeira vez, entende o peso emocional da guerra desigual contra aquele povo, o silêncio dominando a cena. E minha contraparte infantil vibrava quando a cavalaria afegã chegava para ajudar Rambo e Trautman no combate final. Quando Rambo, emocionado com o retorno dos amigos, recarrega sua metralhadora e salta da trincheira improvisada, com sangue nos olhos, na frente de um tanque e um helicóptero, aquele menino de oito anos que usou bandana vermelha e camuflagem dos “Comandos em Ação” em sua festinha de aniversário puxou grito de guerra e metralhou junto. Essa magia lúdica morreu com a minha geração, as pobres crianças de hoje são presenteadas com “Peppa Pig” e trenzinhos falantes. 

domingo, 23 de outubro de 2016

Nos Embalos do Rei do Rock - "Garotas, Garotas e Mais Garotas"

Links para os textos anteriores do especial:
Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução:
Ama-me Com Ternura:
A Mulher Que Eu Amo:
O Prisioneiro do Rock:
Balada Sangrenta:
Saudades de Um Pracinha:
Estrela de Fogo:
Coração Rebelde:
Feitiço Havaiano:
Em Cada Sonho Um Amor:
Talhado Para Campeão:


Esse filme marca o início de um irregular período, de 1962 a 1967, em que Elvis precisou abaixar a cabeça para os argumentos de seu empresário, dedicando praticamente todo o seu tempo aos estúdios de gravação nada acolhedores de Hollywood, gravando faixas ruins para as trilhas dos filmes, uma realidade bastante diferente daquela que vivia em suas sessões musicais em Nashville.


Garotas, Garotas e Mais Garotas (Girls! Girls! Girls! - 1962)
Sonhando em ter seu próprio barco algum dia, o pescador Ross Carpenter (Elvis) trabalha também como cantor de um hotel para ganhar dinheiro. No palco ele atrai a atenção de todos e os olhares de mais de uma garota. Dividido entre a festiva atração principal da boate (Stella Stevens) e a charmosa garota da alta sociedade que posa de moça trabalhadora (Laurel Goodwin), Ross tem que decidir qual será aquela que vai fazer seu coração cantar.

A intenção consciente do produtor Hal Wallis era retornar para a fórmula dos sucessos que o cantor teve na Paramount, algo que o título nada sutil já escancarava, então decidiu que a ambientação seria novamente o Havaí, a trama novamente seria criada por Allan Weiss, que havia garantido o sucesso de “Feitiço Havaiano”, trabalhando o roteiro com Edward Anhalt, responsável por “Os Deuses Vencidos” e pelo noir de Elia Kazan: “Pânico nas Ruas”, e que depois faria os prestigiados “Becket, o Favorito do Rei” e “Mais Forte Que a Vingança”. A direção ficou a cargo do veterano Norman Taurog, com quem Elvis havia selado boa amizade em dois trabalhos anteriores (“Saudades de Um Pracinha” e “Feitiço Havaiano”), um profissional capaz de equilibrar o divertimento popular com o necessário refinamento técnico dos grandes musicais. E, vendo por esse lado, o resultado é muito satisfatório, ainda que represente uma zona de conforto para a ambição artística do protagonista. Poucos mencionam, mas “Garotas, Garotas e Mais Garotas” foi indicado para o Globo de Ouro, como “Melhor Filme – Musical”, competindo com “A Mais Querida do Mundo”, “Em Busca de Um Sonho”, “O Mundo Maravilhoso dos Irmãos Grimm” e o vencedor: “Vendedor de Ilusões”, que, vale salientar, envelheceu muito mal, enquanto a diversão despretensiosa comandada por Taurog segue encantando fãs e espectadores casuais.

O carisma do músico, ainda motivado, continuava imbatível. Na sequência do bar, quando ele canta “Return to Sender”, composta por Winfield Scott e Otis Blackwell, a melhor música do filme, a presença no set do amigo cantor Jackie Wilson, conhecido à época como o “Elvis Negro”, que o rapaz admirava, injetou ânimo extra à performance, com a câmera captando Elvis no palco imitando a dança do colega e, com frequência, buscando sorridente a reação entusiasmada de Jackie na plateia. Quando Wilson teve um derrame em 1975, no auge da carreira, Elvis, até o fim da vida, anonimamente cobriu todas as despesas médicas e garantiu o melhor tratamento possível. A bela Stella Stevens, que no ano seguinte roubaria o coração do personagem de Jerry Lewis em “O Professor Aloprado”, faz o par romântico, mas a relação dos dois nas filmagens não foi muito amistosa, com a atriz desfilando arrogância com toda a equipe logo nos primeiros dias, o que fez com que seu papel fosse consideravelmente diminuído. Mais sorte teve a doce Laurel Goodwin em seu primeiro papel no cinema, já que conquistou a amizade de Elvis e, anos depois, fez parte do episódio piloto de “Jornada nas Estrelas”. Em uma entrevista posterior ao falecimento do cantor, a atriz relembrou os primeiros dias no set: “Elvis foi extremamente gentil. Não tivemos um romance, ele era mais como um irmão zeloso. Ele chegou a me defender de um ex-namorado agressivo nos bastidores. Aprendi com ele a não levar muito a sério o conceito da fama. Ele não agia como a grande estrela do filme, ele era informal e, por algumas vezes, ele chamou a responsabilidade para si nos problemas, ao invés de deixar a culpa cair nos ombros de algum técnico da equipe”.

O repertório musical, com exceção da já citada “Return to Sender”, variava do medíocre ao suportável. A faixa-título é uma tremenda bobagem, das piores compostas por Leiber/Stoller, salva apenas pelo excelente solo de sax do mestre Boots Randolph. “I Don’t Wanna be Tied”, “We’re Coming in Loaded” e a balada “Because of Love” são interessantes e inofensivas, mas atrocidades como “Song of the Shrimp” (canção do camarão), “Thanks to the Rolling Sea”, “We’ll be Together”, “Earth Boy”, “A Boy Like Me, a Girl Like You” e o tango “The Walls Have Ears” funcionam apenas como simpático acompanhamento para as suas respectivas cenas, o tipo de material que o cantor jamais cogitaria gravar em estúdio para seus discos. A demanda de canções que inicialmente era razoável, progressivamente foi se tornando absurda. O cantor já não podia se dar ao luxo de selecionar algumas das muitas composições que eram produzidas e pensadas para uma única cena no roteiro, decidindo no ensaio com a banda qual seria a melhor, o pouco tempo entre um projeto e outro, além da compreensível crescente falta de criatividade da equipe responsável, obrigavam que o artista aceitasse defender as fitas demo que chegavam, sempre com muita dignidade e profissionalismo, eventualmente tirando leite de pedra.

Pela primeira vez o elenco não tinha qualquer nome mais experiente, estratégia que era usada como forma de atrair todo tipo de público, inclusive aqueles que desprezavam a música de Elvis. As suas produções agora seriam direcionadas prioritariamente para os fãs, com eventuais veteranos respeitados buscando a parceria objetivando o lucro certo nas bilheterias. Com os pés fincados na onda do Twist, "Garotas, Garotas e Mais Garotas" é divertimento garantido. 

A Seguir: "Loiras, Morenas e Ruivas" (It Happened At The World's Fair)

sábado, 22 de outubro de 2016

"Viagem à Itália", de Roberto Rossellini


Viagem à Itália (Viaggio in Italia - 1954)
Dentre os grandes cineastas que são usualmente citados quase que como unanimidade em importância na história do cinema, eu confesso que Roberto Rossellini não é dos meus favoritos, apesar de obviamente reconhecer seu valor na escola do neo-realismo italiano, não me sinto tocado por grande parte de seus trabalhos, para além da apreciação acadêmica. As três exceções são “Alemanha, Ano Zero”, “Roma, Cidade Aberta” e “Viagem à Itália”, pérolas que revejo com frequência, especialmente o último. 

O casal de ingleses, Ingrid Bergman e George Sanders, viaja por uma Itália perdida no tempo, com suas características mais exóticas potencializadas para agradar turistas, uma artificial fachada, assim como a relação deles, frágil aparência que rui ao primeiro sinal de que estão sozinhos em um ambiente. O objetivo da venda da mansão que ganharam como herança de um tio segue numa camada inferior, mais como alegoria para o interesse nacional em esquecer o passado e seguir em frente, enquanto testemunhamos duas pessoas que já se amaram intensamente colidirem nos escombros de suas próprias escolhas. Rossellini se desprende do modelo clássico de progressão dramática, o estilo fala mais alto que o conteúdo, experimentando a antinarrativa que seria abraçada por Antonioni e pelos franceses na década de sessenta. O homem está interessado em testar seu charme em novas conquistas amorosas, ainda que pueris, mas a mulher parece dominada por um desejo arqueológico, visita museus, templos e o Vesúvio. Ele, metaforicamente, está querendo forjar uma nova identidade, uma nova imagem pessoal, enquanto ela claramente tenta investigar em seu passado os erros que a colocaram nessa realidade conjugal desastrosa. A aparente simplicidade da trama pode fazer com que o espectador não dedique atenção a vários detalhes preciosos. Ela encontra em uma escavação em Pompéia os corpos calcinados de um casal que morreu abraçado há dois mil anos, um casal que poderia ser eles, pessoas que poderiam estar sofrendo com os mesmos questionamentos, mas que as cinzas do vulcão eternizaram em um momento de carinho, o afeto que nasce do desespero ao encarar a morte certa. Ela se vê como uma estátua, parecida com aquelas dos imperadores romanos no museu que visitou horas antes, uma figura que está fadada a desaparecer no tempo e espaço, esbarrando frequentemente com grávidas e carrinhos de bebê, a ideia da continuidade física que não a satisfaz. 

Toda a angústia existencial, as dúvidas, as brigas, a preocupação em ter razão, tudo que soa tão urgente no momento irá se tornar irrelevante, somos poeira de estrelas, ossos em uma vala, cinzas espalhadas ao vento, corpos observados de perto por um Vesúvio implacável, somos viajantes em uma estrada onde cada bifurcação oferece possibilidades enigmáticas, aventura e solidão, mas temos estoque muito limitado de combustível. O belo desfecho ambientado na procissão religiosa simboliza a resolução encontrada pelo casal, o abraço desesperado de afogados. E há ternura, apesar de tudo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

TOP - 2010


1 - A Fita Branca (Das Weiße Band - Eine Deutsche Kindergeschichte), de Michael Haneke
“... Haneke vai fundo em sua tese sobre a raiz do mal estar no próprio ser humano, sem distinção alguma, mostrando que a única coisa que muda é o gatilho, a motivação, mas a fragilidade do caráter acolhe graciosamente a corrupção dos valores, o que mantém o homem íntegro é sua capacidade de administrar seus impulsos, canalizar essa força nas situações certas. A fita branca da pureza esconde a hipocrisia mais suja, a torpe sociedade que parece se alimentar de monstros, o ovo da serpente. Mais do que uma alegoria à gênese do nazismo, pensamento reducionista, o roteiro provoca o confronto do espectador com o reflexo do espelho, apontando o dedo para as raízes do totalitarismo, o moralismo mentiroso das crenças religiosas, os rituais seguidos sem questionamento, a inevitável desumanização do homem ao abraçar sorridente a manipulação social...”


2 - Ilha do Medo (Shutter Island), de Martin Scorsese
“... A grande questão do filme não é o truque, a surpresa do final, mas a forma elegante como Scorsese elabora cada ponto do enigma, a ilha como metáfora para a mente destroçada do protagonista, com alas da memória que, por defesa instintiva, ele é incapaz de acessar, uma fantasia noir como projeção de uma realidade apavorante. E o roteiro trabalha esse tema com a mesma inconsequência raivosa de Samuel Fuller em “Paixões Que Alucinam”. A trilha sonora grandiosa no início evidencia o elemento da teatralidade, algo que ganha ponto em revisão...”


3 - Mother - A Busca Pela Verdade (Madeo), de Joon-Ho Bong
“... A sequência inicial mostra uma senhora dançando de maneira quase perturbadora, nada parece fazer sentido, o leitmotiv da irracionalidade de uma mãe para proteger sua cria é estabelecido sem qualquer diálogo expositivo. O filho tem problemas mentais, novamente a razão sendo subjugada pelo instinto, uma condição que potencializou nele a dependência em todos os sentidos, encontrando resposta imediata na carência da solitária mulher. Ao ser acusado de um estupro seguido de assassinato, o rapaz vai preso e sua mãe inicia uma batalha para provar sua inocência. O roteiro inverte expectativas, subverte a estrutura do suspense clássico com uma segurança rara...”


4 - A Origem (Inception), de Christopher Nolan
“... O conceito, por si só, já merece crédito, mas o esforço hercúleo de Nolan para manter o refinamento da trama equilibrado com as necessidades mercadológicas de um produto mainstream, sem nesse processo subestimar o espectador, evidencia a competência do realizador. Ao se desviar de respostas fáceis, atitude claramente simbolizada na impactante cena final, o roteiro, que homenageia os grandes “filmes de assalto”, explora as infindáveis possibilidades do inconsciente humano filosófica e visualmente. A execução do conceito, apesar do esperneio dos pseudointelectuais, pode ser considerada uma enriquecedora aula para todos, especialmente os cineastas brasileiros, de como produzir entretenimento inteligente e altamente eficiente, essencialmente industrial, mas com pegada experimental...”


5 - Toy Story 3, de Lee Unkrich
“... A animação utiliza os personagens de forma mais inteligente que suas versões originais, garantindo tremendo impacto emocional, um desfecho que sinaliza a beleza de um roteiro que acompanhou a maturidade do público e recompensou a atenção dos pais. A trama se desenvolve pela ótica nostálgica da infância, mas o foco está no sentimento da solidão, do abandono, tendo o necessário resgate da inocência como fio condutor da aventura escapista dos bonecos. A Pixar consegue um feito raríssimo, uma trilogia verdadeiramente impecável...”


6 - O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos), de Juan José Campanella
“... Campanella consegue mais uma vez entregar uma pérola que, provavelmente, será copiada pelos realizadores norte-americanos. Um filme policial sem ação, de baixo orçamento, variadas camadas de interpretação, uma atuação impecável de Ricardo Darín e um desfecho surpreendente. Revelar mais seria prejudicar a experiência do espectador...”


7 - Enterrado Vivo (Buried), de Rodrigo Cortés
“... Só o fato de conseguir criar noventa minutos de tensão ininterrupta com apenas um ator dentro de um caixão, um ator mediano, vale salientar, já seria mérito suficiente para esse filme de estreia do diretor Cortés constar nas listas de melhores do ano. Mas ele ainda tem algo interessante a dizer sobre a ocupação norte-americana no Iraque...”


8 - O Profeta (Un Prophète), de Jacques Audiard
 “... O roteiro trabalha muito bem o xenofobismo entre árabes e corsos, sendo a prisão, com seu sistema corrupto e truculento, um microcosmo para os problemas políticos da França. Se a desnecessária subtrama sobrenatural enfraquece o resultado, o tratamento dado aos personagens compensa qualquer problema...”


9 - O Concerto (Le Concert), de Radu Mihaileanu
"... O diretor Radu Mihaileanu cria uma comédia farsesca que trata de um tema muito sério. Ele aborda com leveza e de forma mais popular e eficiente, algo que Fellini procurou expressar em seu “Ensaio de Orquestra”, uma ode à anarquia. O protagonista, vivido por Aleksey Guskov, que passa seus dias como faxineiro limpando o ambiente do teatro, que outrora reverberava ao apaixonante som de sua arte, vive do desejo incontido de voltar a reger sua orquestra, numa incessante busca pela harmonia perfeita, interrompida bruscamente quando foi vítima de seu próprio íntegro caráter. Por outro lado, o roteiro nos apresenta uma jovem que representa simbolicamente um futuro ideológico mais esperançoso (antitotalitarista) para o país, a violinista Anne-Marie Jacquet, vivida pela bela Mélanie Laurent..."


10 - Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha
“... O primeiro filme explodia na cara do espectador como espingarda, o segundo é como aquele disparo de projétil dundum que penetra no corpo e causa maior estrago. A reflexão crítica que o roteiro propõe é o elemento que faz dele um produto superior, o inimigo deixa de ser o criminoso violento, mas, sim, o sistema podre que rege a sociedade em que ele está inserido...”

terça-feira, 18 de outubro de 2016

"Senta a Pua!", de Erik de Castro


Senta a Pua! (1999)
Nesse final de semana perdi um bom amigo, o capitão Osias Machado da Silva, um herói nacional, veterano da Segunda Guerra Mundial, fez parte do lendário Primeiro Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, que tinha o “Senta a Pua!” como simbólico grito de guerra. Uma amizade de onze anos de muitas histórias sobre sua experiência militar e anedotas, já que ele era um senhor que tinha uma piada reservada na manga para qualquer situação. Grande orador, ele aproveitava todos os eventos festivos familiares para fazer um discurso, sempre muito enriquecedor. Ele tinha um orgulho tremendo de todas as condecorações que recebeu ao longo da vida, como Mérito Santos Dumont, o Mérito Aeronáutico e a Presidential Unit Citation dos EUA, entre muitas outras que estão emolduradas nas paredes da sala de seu apartamento, Osias era um tipo de pessoa em extinção, um indivíduo que se importava em deixar um legado que honrasse os valores que ele defendia, mérito importante em um período tão dominado pela absurda inversão de valores.

Um dos últimos registros fotográficos com o querido amigo Osias, na festa de seu aniversário.
Nas nossas primeiras conversas, pra quebrar o gelo, eu procurava questionar sobre a guerra pela vertente do cinema, falávamos de “Patton”, “Casablanca” e “O Mais Longo dos Dias”, mas o filme favorito dele era “... E o Vento Levou”. Gentil, ele sempre torcia pela minha jornada na área artística, fez questão de me dizer, com toda cerimônia, palavras lindas após ler meu livro. Ainda triste por saber que não escutarei mais suas histórias e piadas, mas feliz com as belíssimas homenagens que foram prestadas em seu funeral, acho importante realizar essa singela homenagem abordando brevemente o melhor documentário sobre a participação brasileira no conflito contra o nazifascismo na década de quarenta, dirigido por Erik de Castro, com a participação do meu amigo em vários momentos. Esse filme, junto com o livro homônimo escrito pelo brigadeiro Rui Moreira Lima, são registros essenciais que deviam fazer parte do currículo estudantil de todos os jovens brasileiros. 

A estrutura didática e estilisticamente pouco ousada do documentário, com narração de Silvio Vasconcellos, facilita a compreensão da magnitude do evento para todo tipo de público, mas o mérito da obra está no foco que inteligentemente se mantém no material humano, relatos emocionantes dos sobreviventes abordando situações que facilmente renderiam filmes específicos seguindo cada depoimento, já que transbordam perigo, altruísmo, sacrifício e redenção, utilizando até mesmo vídeos das câmeras dos próprios aviões, além de ilustrações e fotos garimpadas do Arquivo Nacional de Washington. Se a abordagem nada crítica do diretor reduz o projeto a uma homenagem sem espaço para qualquer questionamento, o extremo oposto de “Rádio Auriverde”, de Sylvio Back, o espectador mais dedicado pode imaginar que a verdade reside em algum lugar entre a desconstrução debochada de Back e o heroísmo clássico celebrado por Castro. A preservação histórica no Brasil, terra onde o povo despreza a memória, não poderia ser pior, então é dever cívico nadar contra essa corrente de mediocridade. Estudar, questionar, mas acima de tudo, respeitar os esforços desses combatentes, para que as próximas gerações de brasileiros não precisem depender dos arquivos estrangeiros para entenderem a história da própria nação.