sábado, 9 de julho de 2016

Rebobinando o VHS - A primeira vez em que exerci a função de crítico

Link para os textos do especial "Rebobinando o VHS":



Esse caso aconteceu no início dos anos noventa, época em que eu acompanhava meu pai religiosamente todas as sextas-feiras numa peregrinação até a RG Vídeolocadora de Vila Isabel (RJ), do meu amigo Ricardo, o momento mais aguardado por mim na semana. Ao fundo da galeria, a luz forte da loja surtia efeito hipnótico nos meus olhos de cinéfilo apaixonado, o frio na barriga de saber que eu estava a poucos passos de adentrar aquele universo incrível de filmes com ar-condicionado e balinhas no balcão. Com a Revista SET do mês debaixo do braço, já com os títulos que me interessavam assinalados, eu largava a mão do meu pai e inconscientemente pedia para que ele viesse me buscar no dia seguinte. 

Abrindo um parêntese, pra você ter ideia do nível de amor que eu sentia por aquele ambiente, era comum eu sonhar que havia sido esquecido dentro da loja depois do fechamento, já que eu ficava silencioso lendo as contracapas das fitas por muito tempo. Claro que nos sonhos a luz elétrica era mantida acesa por toda a madrugada, para que eu pudesse ver sem pagar todo o acervo. Fecho o parêntese exatamente no momento em que minha mente me conduz às costas de um cliente que frequentava o local apenas para jogar videogame. O jogo é “Batman – Return of The Joker”, que havia acabado de ser lançado para o Nintendinho 8 Bits, o aparelho que eu conhecia como o meu bom e velho Phantom System. Eu fiquei impressionado com os gráficos, mas não era o único, o desempenho do rapaz no jogo promoveu uma aglomeração de clientes atrás de sua poltrona. Um barulho na porta de entrada desviou minha atenção, uma família estava entrando, pai, mãe e dois filhos pequenos, mais ou menos da minha idade. O pai puxou papo com o atendente, enquanto a mãe se encaminhou para a seção de drama. Resumindo a história, os lançamentos que ele procurava não estavam na loja, mas o atendente avisou que estavam agendados pra retornar naquele dia. O homem não pensou duas vezes, apoiou o braço no balcão e viu naquele empecilho uma oportunidade para discutir cinema. Que saudade da época em que as pessoas se olhavam nos olhos em longas conversas com estranhos em locais públicos. Como eu me recuso a adotar a moda moderna do whatsapp, sequer tenho um smartphone, como uma relíquia empoeirada, eu sou obrigado a testemunhar diariamente em todos os ambientes um coletivo de robôs de cabeças baixas. 

Volto ao passado com a pergunta que me é feita pela mãe, curiosa com meu interesse por filmes de terror. Ao ver dois estojos do gênero em meus braços, provavelmente um dos títulos era algum “A Hora do Pesadelo”, a mulher sorridente disse que não deixava os filhos dela sequer chegarem perto daquela seção. E, de forma inconsciente, exerci a função de crítico, provavelmente pela primeira vez na minha vida para alguém que não era um parente próximo, lutando contra a introversão, explicando para aquela senhora a importância daqueles filmes. Os meninos se aproximaram e ela não parecia entediada com o meu falatório, o sorriso dela acabou me incentivando. Meu pai, como de costume, sentado à distância, aguardando o término do meu infantil garimpo, deve ter achado interessante aquele fenômeno: o tímido Tavinho falando em público. Eu sugeri a ela que os filhos vissem “As Criaturas Atrás das Paredes”, se não me falha a memória, que eu tinha alugado na semana anterior. Não sei se foi um gesto de educação dela, ou se realmente meus argumentos foram transformadores, mas a mulher acabou levando alguns títulos no gênero, pedindo minhas indicações. Eu me senti o cara mais importante no local, já estava praticamente pedindo comissão pra gerência. 

Ao sair, nem fiquei chateado de não ter encontrado a maioria dos títulos que procurava, a sensação de dever cumprido superava o número menor de estojos pretos na sacola. 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Minha relação com a obra de Abbas Kiarostami


Ao ler sobre o falecimento do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, minha mente me conduziu a um fim de tarde perdido em minha adolescência. Como era costumeiro no início do boom da internet, eu estava ansioso pra começar mais uma maratona de filmes outrora impossíveis de achar em videolocadoras, baixados em boa qualidade com legendas em inglês por aquela ferramenta maravilhosa. O escolhido da semana havia sido Kiarostami, minha curiosidade era tremenda, já tinha lido muito sobre seus trabalhos. 

Os dois primeiros títulos selecionados para aquele dia: “Gosto de Cereja” (T’am e Guilass – 1997) e “Close-Up” (Nema-ye Nazdik – 1990). Ah, como eu gostaria de ter visto eles em ordem inversa. Eu sempre tentava, em respeito à minha paranoia sistemática, acompanhar a progressão natural dos realizadores, mas a Palma de Ouro em Cannes recebida pelo primeiro falou mais alto. O caso é que odiei “Gosto de Cereja”, amaldiçoei o júri e cheguei a cogitar postergar a maratona. Não estou sozinho nessa, o colega crítico norte-americano Roger Ebert só faltou xingar os antepassados do diretor em seu texto, deu a cotação de uma estrela. Eu não fui tão radical, o que senti estava mais próximo de uma profunda decepção pelo potencial que a obra me passou, o roteiro feito quase todo em improviso mostrava um suicida buscando alguém que se responsabilizasse por jogar terra em seu corpo. Sem interesse no investimento emocional do público, o roteiro não revela nada sobre as razões dessa atitude extrema, o homem vivido por Homayoun Ershadi é um completo estranho para o espectador. Após um primeiro ato bastante contemplativo, quase beirando o tédio insuportável, fiquei apaixonado pelo discurso de um dos passageiros, um taxidermista que tenta fazer o motorista repensar sua decisão contando anedotas e mostrando como ele foi salvo de um ato igual por uma deliciosa amora, que sua mão tocou enquanto ajeitava a corda no galho para se enforcar. Pena que o desfecho, ponto que irrita até mesmo os defensores mais ferrenhos, jogue no lixo as poucas reflexões propostas, abraçando uma metalinguagem pretensiosa, mal desenvolvida. O segundo filme do dia, pelo contrário, insere uma reflexão profunda em uma moldura despretensiosa, um resultado que me agradou mais e me fez compreender a grandeza do diretor. Ao documentar um acontecimento criminal e convencer os envolvidos a reencenar os eventos que o antecederam, Kiarostami evidencia a simplicidade inerente às melhores ideias. A emoção brota naturalmente no terceiro ato, algo pouco usual em sua filmografia, o que me leva a indicar “Close-Up” como ótimo ponto de partida para os interessados. Se o diretor não tivesse feito mais nada em sua carreira, esse belo tratado sobre a relação entre a arte e a vida já o posicionaria entre os nomes mais importantes do cinema. 

No dia seguinte vi “Onde Fica a Casa do Meu Amigo?” (Khane-ye doust kodjast? – 1988) e “Através das Oliveiras” (Zire darakhatan zeyton – 1994), eu me lembro de ter checado bastante o meu relógio de pulso nas sessões, o que não considero um bom sinal. Seus últimos filmes, “Um Alguém Apaixonado” (Like Someone in Love – 2012) e “Cópia Fiel” (Copie Conforme – 2010), produtos muito inferiores, não fazem justiça ao talento que encontrei em “Close-Up”. Como espectador, agradeço por ter apresentado ao mundo seu colega Jafar Panahi, que começou como seu assistente, adepto de um estilo que me encanta, obras menos umbilicais, com maior empatia pelo público. Não estaria sendo sincero se afirmasse que Abbas Kiarostami está entre meus cineastas favoritos, mas estaria sendo um tolo se ignorasse o impacto de pedaços de suas obras, um todo que é definitivamente melhor que a soma de suas partes. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Entrevista com o crítico norte-americano Tim Lucas, especialista na obra de Mario Bava


Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso com o competente colega crítico de cinema norte-americano Tim Lucas, autor de "All The Colors of The Dark", a maior referência literária sobre a carreira do diretor italiano Mario Bava, que conta com uma introdução escrita por Martin Scorsese. Na opinião de Quentin Tarantino, "o melhor livro sobre cinema já escrito". 

O - Tim, o trabalho de Mario Bava já sofreu e ainda sofre preconceito por parte do público e, especialmente, por uma parcela considerável da crítica, aqueles que desprezam o cinema de gênero. No Brasil a luta é constante. Os professores nas faculdades de cinema doutrinam os estudantes, desvalorizando filmes de terror e ficção científica. Eu sempre celebrei os gialli, meu gênero de formação é o horror. Um colega, o Fernando Brito, curador da distribuidora Versátil Filmes, responsável por lançar quase toda a filmografia de Bava em DVD, até ministrou um curso sobre ele. Qual você acha que é a importância do cinema de gênero, especialmente o horror, na formação de uma indústria de qualidade competitiva?

T - Nós não permitimos preconceito em nossa vida, então porque introduzir esse conceito em nossas percepções de arte? O cinema de gênero é apenas um termo acadêmico para cinema popular - o cinema amado pelo maior número de pessoas, o cinema cujas receitas permitem os chamados tipos "superiores" de cinema existirem. Por alguma razão, o gênero do horror parece incitar maior paixão entre os espectadores, mais do que outros tipos de filme, talvez por ser o que possibilita maior liberdade imaginativa. Você não encontra convenções de fãs de cinema dedicadas aos dramas e musicais, nem mesmo dedicadas ao que se chama de "cinema de arte". Uma das razões fundamentais que me fez começar a explorar a carreira de Bava quando eu era bem jovem, foi porque vi o mesmo personagem em OPERAZIONE PAURA, de Bava, e no filme de Fellini: TOBY DAMMIT - Achei os dois filmes maravilhosos, mas os críticos veteranos insistiam que o filme do Fellini era brilhante, mas o de Bava (quando era, por sorte, mencionado) era um lixo. Levou décadas para que esse preconceito começasse a ruir. E esse esforço transformador é mérito do poder individual de persuasão do crítico, ainda que sejamos poucos os valentes defensores do cinema de gênero. Entre críticos da língua inglesa, não haviam muitos antes da década de 90. Eu fico encantado de saber que vivemos agora em uma época em que TODO tipo de filme pode existir em Blu-ray, em restaurações 2K e 4K. 


O – Como um apaixonado defensor de Bava, quais são os aspectos de seus filmes que os fazem tão únicos e atemporais? E, tendo se dedicado anos na elaboração do livro, o que faz de sua obra algo tão interessante particularmente em sua vida?

T - A primeira coisa que me atraiu no trabalho de Bava foi a estética, o visual, que era agressivamente artístico e quase sempre metafísico, da mesma forma metafísica que a arte de Steve Ditko para os quadrinhos do "Doutor Estranho" da Marvel. Ao aprender mais sobre Bava, descobri que a família dele tinha raízes fortes nas artes, que ele chegou ao cinema não pela sala de edição, mas pela pintura. Ele era um cineasta que foi seduzido pelo cinema de horror por razões pessoais de autoexpressão, para confrontar e analisar os seus próprios medos, e ele fez isso de uma maneira muito espontânea e artística, de forma que você consegue enxergar as influências de sua base na pintura, música clássica e literatura de alta qualidade. Há um toque forte de Dostoiévski em Mario Bava, mas ele também abraçou o pulp mais popular. Quando descobri seus trabalhos no início dos anos 70, fiquei impressionado ao constatar que ele havia nascido em 1914, porque seus filmes parecem representar a expressão de um homem bem mais jovem.


O – O Bava tinha bom gosto, algo que o colocou em confronto com o sistema industrial italiano da época, como quando ele rejeitou algumas ideias desavergonhadamente exploitation do produtor Alfredo Leone. Aborde essa luta de toda uma vida dele pelo equilíbrio entre suprir as necessidades de mercado e satisfazer os seus interesses artísticos. 

T - A grande batalha de Bava era que ele só tinha permissão de fazer filmes derivados. Era tudo o que o mercado italiano podia oferecer. Ele tentou iniciar o gênero de horror na Itália, por volta de 1955, mas foi apenas com o primeiro Drácula, da Hammer, um sucesso surpreendente na Itália, que ele recebeu sinal verde pra dirigir BLACK SUNDAY. Muitos dos títulos de seus filmes eram paródias deliberadas de projetos mais bem sucedidos - como ERCOLE AL CENTRO DELLA TERRA, em referência ao "Jornada ao Centro da Terra". Mas ele fez filmes de forma tão barata, fez de forma tão econômica, que ninguém se preocupava muito com o que ele fazia, não havia policiamento - as bilheterias respondiam positivamente no mercado internacional - então ele tinha liberdade para ser artisticamente autoral, até mesmo experimental. E, mesmo assim, ele negou isso até a morte, dizendo em entrevistas que seus próprios filmes eram terríveis, que os filmes faziam ele sentir vontade de vomitar. Foi a forma que ele encontrou pra continuar trabalhando, e com uma boa dose de liberdade.

O – Considero "Cães Raivosos" (1974) uma genuína obra-prima, um dos melhores filmes de sua década. É um trabalho incompleto, um corte bruto, uma colcha de retalhos, mas ainda assim, um poderoso soco no estômago. Como você enxerga passionalmente essa obra dentro da filmografia dele?

T - Eu concordo que é um dos melhores filmes dele, mesmo em sua forma bruta. Um fã do trabalho prévio dele teria dificuldade de identificar ele como o diretor - era uma reinvenção completamente nova, agressiva, de sua persona. Esse filme provou que ele poderia fazer qualquer coisa que ele quisesse. No que tange obras de ação/crime, "Cães Raivosos" é muito melhor que qualquer projeto que era realizado na época por diretores jovens norte-americanos, como Wes Craven e John Carpenter.

O – Você acredita que há espaço na indústria cinematográfica moderna para um profissional tão autêntico quanto o Bava? Você enxerga aquela fagulha criativa dele em algum diretor dessa nova geração?

T - Essa "fagulha" do Bava era que ele tinha um pleno entendimento das mecânicas básicas do cinema. Ele era um cineasta completo: ele dirigia, roteirizava, fotografava, editava e criava os efeitos especiais para seus filmes. Ele podia fazer tudo isso sem muito esforço criativo, e sem nunca parecer um egomaníaco, porque, se fosse pra rotular, ele era um tipo Garbo que se escondia conscientemente dos olhos da crítica. O cinema de hoje não é mais sobre esse tipo de eficiência, mas sobre o respeito que é conquistado por despesas cada vez maiores e um grande desperdício. Não acho que podemos ter outro Mario Bava hoje em dia porque 1) filme não é mais filme, ele tem  uma textura diferente - vídeo é como pintar em vidro, ao invés de pintar em tela, numa analogia válida e 2) os cineastas de hoje tendem a ser informados somente por filmes recentes, não fazem mais filmes em que o espectador consegue discernir a influência de todas as sete artes. 


O – Como você vê os filmes de horror modernos, como "The Babadook", "Invocação do Mal", "A Bruxa"... ? Você encontra a influência de Bava em produções atuais?

T - Eu enxergo referências ao Bava, mas não uma real influência. O trabalho mais interessante realizado hoje, na mesma linha, são os filmes que estão sendo feitos pelos belgas Hélène Cattet e Bruno Forzani, que reconhecem a tradição de horror italiana, enquanto forjam algo fantasticamente novo e progressivo. 

O – Você consegue se lembrar do seu primeiro contato com um filme do Bava? Qual foi? E tente descrever, não como um crítico, mas passionalmente, como essa obra te tocou.

T - Eu vi BLACK SABBATH (I TRE VOLTI DELLA PAURA) e KILL, BABY... KILL! (OPERAZIONE PAURA) na televisão em 1970, quando eu tinha 14 anos. Gostei muito de BLACK SABBATH, mas tinham alguns momentos nele que me amedrontaram de um jeito que eu não estava acostumado - como quando a criança morta-viva se ajoelha do lado de fora da porta e chama pela mãe, cujos sentimentos maternais haviam se tornado tão dominantes que ela assassinou seu próprio marido como forma de responder ao seu chamado. Então era um horror com um toque adulto, sofisticado e poético. Havia algo muito profundo, incomum, nos dois filmes - e OPERAZIONE PAURA realmente mudou a minha vida, ao me mostrar como o cinema podia ser utilizado para expressar o lado metafísico da vida. Eu escrevi meu primeiro texto como profissional da crítica para o CINEFANTASTIQUE, algumas semanas depois de ver o filme. Ao final das sessões, eu não conseguia me lembrar deles como costumava lembrar de outros filmes que via - pensar neles era mais como tentar lembrar de um sonho ou de um pesadelo que tive. 


O – Meus filmes favoritos dele são: "O Alerta Vermelho da Loucura" e "Cinco Bonecas Para a Lua de Agosto". Quais são os seus favoritos? E as razões?

T - Eu tenho uma resposta complexa. Acredito que I TRE VOLTI DELLA PAURA e SEI DONNE PER L'ASSASSINO são seus trabalhos mais requintados. No entanto, OPERAZIONE PAURA é meu favorito absoluto, pelas razões que já afirmei - uma pequena joia muito preciosa. Chamar algo de favorito é isolar ele, prefiro considerar o trabalho de Bava como uma galeria de maravilhas, ao invés de citar uma única obra-prima. Gosto demais dos dois que você citou, são muito inventivos estilisticamente, de maneiras que creio ainda merecem maior reconhecimento, merecem ser mais discutidos. Esses dois seguem se revelando pra mim a cada sessão, enquanto os que citei me passam uma impressão de que já foram plenamente discutidos.

O - Uma pergunta fora do tema, mas relevante à nossa função na sociedade. Você acha que a crítica de cinema profissional está em extinção? Como podemos combater o interesse cada vez menor do público em ler textos com mais de três parágrafos?

T - Há muitos, muitos tipos de profissionais da crítica de cinema. Tem aqueles que escrevem sobre filmes porque acham que é uma vida fácil, e tem outros - como eu, como você, Octavio - que escrevem sobre filmes porque é um trabalhão danado! Fazemos isso porque é uma maneira de conhecer melhor a nós mesmos, e de nos tornarmos indivíduos mais conscientes. Toda forma de arte é um espelho, mas como em ORPHEE, de Cocteau, os espelhos são portais para uma rede de conexão que nos conduz aos nossos espíritos guias. Desde o início do tempo, existiram os sonâmbulos e os cognoscenti (pessoas que possuem um conhecimento profundo sobre algo específico). Ambos morrem, e existem argumentos sobre qual dos dois aproveita melhor sua vida - porque viver não é apenas estar consciente, mas estar ativo e com disposição para aventuras. Creio que o que estou tentando dizer é que os críticos de cinema verdadeiramente dedicados continuarão a escrever, não importa a forma como serão publicados, algo que hoje em dia não é mais um problema, todos tem voz com a internet. Talvez essa seja a lição que se deve tirar com a vida - a importância de continuar fazendo o que gostamos, aquilo que nos define, sem pensar em remuneração, até mesmo sem pensar em um público. Acredito que o bom trabalho sempre encontrará resposta.

O – Tim, obrigado pelo generoso tempo dedicado em cada resposta. Por gentileza, deixe uma mensagem especial para meus leitores, os cinéfilos brasileiros dedicados.

T - Uma das minhas memórias mais estimulantes da cinefilia adolescente foi, creio, por volta dos 10 anos de idade, vendo um trailer de ORPHEU NEGRO, de Marcel Camus. A música e as cores explodiam da tela, mostrando um mundo tão diferente do meu, que eu poderia pensar serem cenas da vida em Netuno ou Júpiter. Esperei um longo tempo para que o filme viesse ao meu cinema local, mas nunca aconteceu. Por anos depois, eu acordava de vez em quando com a lembrança daquele trailer na minha consciência. Eu finalmente consegui ver o filme, muitos anos depois, pela primeira de muitas vezes - e graças a isso, o Brasil reside em um lugar muito especial em minha consciência criativa, particularmente a minha consciência musical, já que amo samba e bossa nova. Eu sempre escuto quando estou escrevendo. Além disso, o Brasil parece ser o lar de uma emoção que sempre me inspira a escrever, sempre respondo de forma muito emocional na arte, a emoção chamada "saudade". Eu sinto isso quando vejo o cinema brasileiro, ou a Nouvelle Vague francesa, ou quando escuto uma canção como "Telstar", dos The Tornadoes - um sentimento que esses elementos abstratos são meu verdadeiro lar. Obrigado, Octavio, pelo convite e pelas perguntas muito interessantes.


TOP - 2012


1 - As Aventuras de Pi (Life of Pi), de Ang Lee
"... Pi foi uma criança indiana extremamente curiosa, como todas, disposta a não se contentar com apenas uma explicação para os muitos mistérios da vida. Com sua ingenuidade, aventurava-se nas histórias fantásticas que sua mãe lhe contava sobre os deuses do hinduísmo. Em uma atitude inconsequente, típica da idade, acaba conhecendo um porta-voz do catolicismo, que desnorteia sua mente ao inserir a presença de um único "Deus", que havia enviado seu filho à Terra, para que sofresse pelos seres humanos, atitude que o menino considera ilógica. Ainda não satisfeito, o menino abraça o islamismo, fascinado por seus rituais. Ao ser questionado, afirma com convicção que a fé é uma "casa de muitos quartos". Esses "quartos" podem possuir estilos arquitetônicos diferentes, serem pintados de cores radicalmente contrastantes, porém estão inseridos em uma mesma "casa". As religiões foram formas que os homens criaram para tentar entender o inexplicável, iluminar a escuridão, que com o passar dos séculos, com a ajuda da ciência, torna-se cada vez menos amedrontadora. Todas elas são nascidas da mesma dúvida, do mesmo essencial questionamento: Quem nós somos? De onde viemos? Para onde vamos?..."


2 - Holy Motors, de Leos Carax
"... O homem afirma que todos estão reclamando do evidente cansaço do ator: "Alguns não estão mais acreditando no que estão vendo". Ele então responde: "Sinto falta das câmeras. Elas eram mais pesadas que nós, depois elas ficaram menores que nossas cabeças, mas hoje nem dá para vê-las mais. Eu também acho difícil acreditar em tudo isto". O homem complementa afirmando que bandidos não precisam perceber as câmeras de segurança, para acreditarem que elas estão lá para flagrá-los no ato criminoso. O homem confronta em seu argumento a crença do diretor, representado pelo ator, nostalgicamente preso em uma realidade que não existe mais, questionando-o sobre a razão que o faz persistir no trabalho, mesmo desmotivado com este admirável mundo novo. O ator responde: "Aquilo que me instigou a iniciar nele, a beleza inerente à atuação". Beleza esta que é subjetiva e necessita de pessoas interessadas, capazes, em percebê-la, valorizá-la. Sem um público qualitativo, criterioso, o soar da salva de palmas representará apenas a consequência sonora e mecânica do choque entre duas mãos..."


3 - A Separação (Jodaeiye Nader az Simin), de Asghar Farhadi
"... O roteiro de Farhadi não é sobre os costumes de um povo, o drama familiar de uma separação conjugal, muito menos sobre com quem uma filha irá decidir ficar. O que está em jogo é algo de apelo universal: o questionamento de um modo de vida, colocando luz intensa nos cotidianos rituais que nos desumanizam. Nada nos é explicado sobre a relação de Nader e Simin, somente somos levados a crer que havia extrema cumplicidade entre ambos e um agradável ambiente familiar. Ela busca ir embora, mas a trêmula mão do sogro, num estágio avançado de Alzheimer, tenta impedir. Nos momentos em que se sente indefeso, o fragilizado senhor chama repetidamente pelo nome da nora. Termeh, a abnegada filha pré-adolescente, se mantém próxima do pai, pois sabe que sua mãe nunca a deixaria. Enquanto ela se mantiver com seu pai, Simin poderá levar embora todos os seus pertences materiais, mas deixará seu coração, o que a fará eventualmente retornar. A mãe (reparem na forma como o figurino revela seu desejo por livrar-se do ritual, mostrando sua silhueta em tons coloridos e optando por uma calça jeans) busca proteger sua filha, encaminhando-a para um futuro de mais possibilidades em outra cultura. Ficar ao lado do pai é abraçar o passado, encontrando como mulher o conforto possível nas lacunas de sua religião..."


4 -  Moonrise Kingdom, de Wes Anderson
"... Ao optar deixar de lado a visão cínica de mundo, onde cada passo parecia ser extremamente calculado, entregando-se à inocência passional do cineasta que Anderson provavelmente gostaria de ser quando criança, ele entrega um conto de maturidade muito original, caloroso e genuinamente engraçado..."


5 - Looper - Assassinos do Futuro (Looper), de Rian Johnson
"... É tão difícil encontrar bons filmes atuais sobre viagens no tempo, a ficção científica normalmente está mais para a destruição em massa, do que para as reflexões existenciais suscitadas na literatura dos grandes autores, como Isaac Asimov e Philip K. Dick. Quando aparece um fenômeno criativo como "Looper", ele precisa ser celebrado, questão de honra. O diretor presta uma interessante homenagem ao pouco conhecido "Primer", de Shane Carruth..."


6 - A Invenção de Hugo Cabret (Hugo), de Martin Scorsese
"... Scorsese entrega uma preciosidade atemporal, homenageando o legado inestimável do pioneiro Georges Méliès, resgatando a inocência elegante de um período em que a indústria cinematográfica respeitava mais o público infantil. Somente o cineasta, com seu belo caso de amor com a sétima arte, poderia ser capaz de adaptar a sensível obra de Brian Selznick..."


7 - Operação Invasão (Serbuan Maut), de Gareth Evans
"... O roteiro é simples, o que facilita a inserção do maior número possível de exibições da técnica em lutas demoradas. A princípio, parece que se trata de mais um filme de ação no estilo americano, mas quando as metralhadoras são substituídas pelos punhos, percebemos que estamos diante de um novo clássico no gênero, obedecendo regras próprias..."


8 - Drive, de Nicolas Winding Refn
"... Refn bebeu bastante na fonte do cultuado "Tokyo Drifter", do japonês Seijun Suzuki, adaptando o ótimo livro de James Sallis, um retro-noir que melhora em revisão, quando o terrível elemento da expectativa é eliminado..."


9 - 2 Coelhos, de Afonso Poyart
"... Trabalhado na cara e coragem, com divulgação inteligente nas redes sociais, esse fantástico trabalho de Poyart evidencia que existem possibilidades mais interessantes dentro do tímido gênero de ação nacional. O roteiro esperto utiliza várias referências da cultura pop, sem medo de arriscar, alicerçado na figura poderosa de Alessandra Negrini..."


10 - O Impossível (Lo Imposible), de J.A. Bayona
"... As imagens que resistem na mente após a sessão não são do desastre em si, mas daqueles belos momentos em que completos estranhos se unem em perfeito uníssono na batalha catártica pela vida. Um dos melhores filmes em seu subgênero..."

sábado, 2 de julho de 2016

"Grey Gardens", de Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer


Grey Gardens (1975)
Em 1973, um escândalo ocupou as manchetes dos jornais americanos. Autoridades locais tentaram expulsar mãe e filha de uma mansão decadente no balneário de luxo de East Hampton, alegando falta de condições sanitárias. Uma notícia banal, não fossem elas as ex-socialites Edith Bouvier Beale e sua filha Edie, respectivamente tia e prima de Jacqueline Kennedy Onassis. 

Um dos documentários mais fascinantes da história do cinema, “Grey Gardens” felizmente está sendo resgatado em DVD no mercado de home vídeo nacional. Conheci o filme na minha época de garimpo adolescente numa cópia em VHS pirateada de uma versão importada, com péssima qualidade de imagem, já que a obra nunca havia sido lançada oficialmente por aqui. Não fiquei muito impressionado outrora, a expectativa trabalhou contra, eu entendia a grandeza em sua abordagem, mas acho que não tinha maturidade pra compreender as camadas de interpretação. Revendo hoje, não consigo descrever a sensação quase hipnótica que me conduziu até os créditos finais, tampouco sou capaz de tirar da minha mente a figura de “Little Edie” Beale, com seu belo rosto emoldurado pelo véu, um estilo de vestuário maravilhosamente exótico, dançando pela decrépita mansão, entre guaxinins, gatos e lixo acumulado.

Sem reforçar no melodrama, sem estabelecer julgamento no que mostra ou tentar orquestrar a emoção, apenas registrando o cotidiano de mãe e filha, a câmera dos diretores Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer, consegue captar todo o espectro psicológico das mulheres, simbolizado na decadência do local, paredes que são gradativamente destruídas, uma tela pintada eternizando a juventude luxuosa da mãe servindo como esconderijo tranquilo para um gato urinar. A mulher mais velha, sem pudores, com sérios problemas de locomoção, parece rejuvenescer décadas ao se escutar cantando na vitrola “Tea for Two”, exercitando a grande paixão de sua vida, acompanhando a canção com gestos de menina sonhadora, orgulhosa de ter mantido sua voz treinada, enquanto ajeita como moleca o chapéu na cabeça e, pouco depois, sensualmente penteia os cabelos brancos. A filha, amargurada pelas muitas oportunidades, profissionais e românticas, perdidas ao longo de sua juventude por ter optado ficar cuidando da mãe, protagoniza os momentos mais interessantes do filme. Ela flerta ingenuamente com o operador da câmera, desabafa frequentemente sobre seu desejo de sair daquele lugar, mas também parece encontrar a pura felicidade ao se expressar por meio da música, treinando suas coreografias encantadoras para uma plateia ilusória. “Little Edie” ama a mãe, mas sabe que o egoísmo dela em uma relação destrutiva a privou de todos os passos que tentou dar na sua jornada, aprisionando seu espírito radiante em um mausoléu de lembranças profundamente tristes, um altar vivo de um passado glorioso que sumiu em longa agonia. As muitas discussões parecem reverberar na sujeira dos móveis, no resto de comida no chão, nos cantos escuros, como lamentos repetitivos de fantasmas em vida que assombram seus próprios destinos.

“Grey Gardens” me remete à Norma Desmond de “Crepúsculo dos Deuses” e acho que faz uma excelente sessão dupla temática com “Sonata de Outono”, de Ingmar Bergman.


 * O documentário está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema”, que conta também com uma longa entrevista em áudio legendada com “Little Edie” e alguns vídeos analisando a influência da obra, especialmente no mundo da moda.