sexta-feira, 13 de maio de 2016

TOP - Sexta-Feira 13


Foi através de Jason Voorhees que conheci os gialli italianos em minha pré-adolescência, percebi que eles exerceram mais do que uma influência, os diretores norte-americanos dos slashers estavam copiando descaradamente sequências inteiras, os mesmos enquadramentos. Mas essa constatação não diminuiu meu carinho pelas peripécias do jovem filhinho da mamãe de Crystal Lake. Revendo toda a franquia para preparar essa postagem, reafirmei meu desprezo pelos episódios 5, 7, 8 e 9, bobagens que não funcionam como terror, nem como terrir. “Jason X” e “Freddy Vs. Jason” são curiosidades bizarras, com o último ganhando alguns pontos pela oportunidade de ver Robert Englund pela última vez no papel do carismático pedófilo de Elm Street. Eu irei escrever sobre os filmes no especial “Faces do Medo”, então eu não vou fazer análises longas aqui sobre cada obra, apenas despretensiosos comentários abordando a razão da posição na lista, que está, vale ressaltar, em ordem de preferência.


1 - Sexta-Feira 13 – Parte 2 (Friday the 13th - Part 2 - 1981)
O motivo principal que o faz constar na primeira posição da lista não é sua trama, nem a estilosa versão 1.0 do protagonista. O diretor Steve Miner, em seu primeiro filme, consegue criar a atmosfera perfeita de medo, copiando os melhores truques dos gialli italianos. Mais do que o gore, o clima constante de pesadelo é o grande mérito da produção, com destaque para os atordoantes quinze minutos finais. Os personagens, algo raro na franquia, são minimamente interessantes e carismáticos. 


2 – Sexta-Feira 13 – Parte 4 - Capítulo Final (Friday the 13th: The Final Chapter - 1984)
Com a responsabilidade de dar um fim ao personagem, algo que seria desrespeitado de forma pífia na produção seguinte, o fraco diretor Joseph Zito foi além de suas capacidades, compensando o roteiro tolo com o maior número possível de mortes criativas, ajudadas pela técnica do mestre Tom Savini em um de seus melhores momentos. É o filme que simboliza os méritos da franquia, com um Jason plenamente estabelecido e uma subtrama ousada envolvendo uma criança, com toques de "A Profecia", Corey Feldman antes de se tornar um dos Goonies. 


3 – Sexta-Feira 13 – Parte 6 (Jason Lives: Friday the 13th - Part 6 - 1986)
A esculhambação começou no anterior, ainda que tentasse ser sério, mas nessa incursão temos um Jason que homenageia a criatura do clássico da Universal Studios: "Frankenstein", sendo ressuscitado por um raio, uma cena inicial que dá o tom divertido que foi o recurso encontrado por todos os monstros da época. A metalinguagem que homenageia a franquia 007, com Jason e seu facão no cano da arma, outro momento impagável. Com roteiro e direção de Tom McLoughlin, na única produção relevante de sua carreira, o resultado é surpreendentemente bom. 


4 – Sexta-Feira 13 – Parte 3 (Friday the 13th - Part 3 - 1982)
O charme do 3D, recurso banalizado hoje, foi o grande mote dessa produção dirigida novamente por Steve Miner, a responsável pelo visual clássico do personagem. Com um irritante grupo de vítimas saído de uma caravana hippie e uma gangue de motoqueiros estereotipados, torcemos pelo silencioso e imponente assassino, o que é o objetivo da obra. O gore é prejudicado pela necessidade de favorecer o 3D, com alguns erros indisfarçáveis.


5 – Sexta-Feira 13 (Friday the 13th - 1980)
O original tem seu valor no contexto do subgênero, tentando capitalizar com o sucesso de "Halloween", mas a realidade é que a trama não se sustenta, a reviravolta final é bastante óbvia. A melhor cena é exatamente o último jump scare, de arrepiar os pelos da nuca, mas o suspense é mal trabalhado. Tem seu charme, mas o roteirista/diretor Sean S. Cunningham, que comandaria alguns anos depois o clássico do "Cinema em Casa": "Primavera na Pele", nunca foi muito competente em seu ofício. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O Milhão", de René Clair


O Milhão (Le Million – 1931)
Quem me apresentou esse filme adorável, meu primeiro contato com a filmografia do francês René Clair, foi o extinto programa “Cine Vida”, apresentado pelo saudoso crítico José Tavares de Barros e pelo Brancato Jr., que passava há uns quinze anos no horário nobre dos Sábados no canal católico “Rede Vida”. A programação era formada só por biscoitos finos, passava Irmãos Marx, Chaplin, Hitchcock da fase britânica, William Wyler, obras clássicas que eu não encontrava nos garimpos nas videolocadoras, então gravava tudo em VHS.

“O Milhão” é um dos poucos filmes que vejo do início ao fim com um sorriso no rosto, uma trama simples, onde um rapaz endividado vende o seu casaco sem saber que tinha um bilhete premiado de loteria no bolso. A estrutura da história contada em um estilo de vaudeville, fonte do material original de Georges Berr e Marcel Guillemaud, com a arriscada adição do elemento da opereta como forma de transformar os diálogos da peça em canções, resultou em um projeto que mantinha o charme da comédia muda na atuação do elenco, enquanto todos ainda se adaptavam ao recurso do som, experimentando ousadamente um musical onde as letras são inseridas criativamente nas cenas, trabalhadas de forma tão brilhante que esses interlúdios não quebram o ritmo da ação. Na sequência inicial vemos uma festa barulhenta que faz com que dois vizinhos adentrem tentando entender a razão de tanta alegria, o roteiro nos conduz então em um flashback, mas sem interesse em despertar dúvidas a respeito do destino do protagonista. Não há reviravolta chapliniana, o herói acabará nos braços da bela jovem, o bilhete será encontrado. Esse positivismo, sem traço algum de cinismo, faz falta nas comédias modernas.

Adoro a sequência da ópera, com o casal de cantores vendendo a ilusão do romance no palco, enquanto o casal protagonista, escondido no fundo do cenário, redescobre o amor e a cumplicidade outrora abalada numa mímica cômica de tudo o que está sendo cantado pelo tenor. Quando pensamos que a cena havia esgotado suas possibilidades, Clair insere uma hilária disputa pelo casaco, filmada como uma partida de rugby, com direito a ovação da plateia, um recurso inventivo onde o som divergia totalmente da realidade do momento, algo que os jovens da Nouvelle Vague fizeram na década de sessenta e muitos achavam cool. O diretor normalmente é lembrado por filmes menos despretensiosos, como “A Nós a Liberdade”, homenageado por Chaplin em “Tempos Modernos”, mas o meu favorito dele continua sendo “O Milhão”.

terça-feira, 10 de maio de 2016

TOP - Filmes Wuxia

Foi lançado nos cinemas nacionais no último final de semana o excelente “A Assassina”, de Hou Hsiao-Hsien, uma incursão poética no subgênero wuxia, filmes de época que misturam fantasia (personagens que voam, por exemplo) com artes marciais, sobre protagonistas que prezam a honra e a justiça, o molde que George Lucas usou na criação de seus Cavaleiros Jedi. Fiz uma maratona e revi os meus filmes favoritos, além de conhecer alguns novos, para preparar essa lista. Foi interessante perceber que, ao contrário de boa parte dos gêneros cinematográficos, a nostalgia não favorece os clássicos, considero que o avanço da tecnologia nos últimos trinta anos foi essencial para os wuxia. Muitos dos títulos importantes no contexto histórico, como eu pude comprovar nessa revisão, não foram beneficiados pelo teste do tempo. Alguns já tiveram textos aqui no blog, outros terão em breve, então eu não vou fazer análises longas sobre cada obra, apenas despretensiosos comentários. A lista está em ordem de preferência.


1 – Herói (Ying xiong – 2002)
É impressionante como o filme dirigido por Zhang Yimou se mantém tão emocionante quanto eu me lembrava, como o equilíbrio perfeito entre os impulsos wudang (força interior) e shaolin (força exterior) que movem o guerreiro sem nome vivido por Jet Li. A beleza contemplativa nos enquadramentos, uma fotografia deslumbrante, divide espaço com sequências verdadeiramente empolgantes.


2 – A Assassina (Nie yin niang – 2015)
Quando eu me lembro de “Barry Lyndon”, uma das obras-primas de Kubrick, as imagens se sobrepõem à trama, fortes e de uma beleza de se admirar de joelhos. O mesmo ocorre com essa preciosa incursão do taiwanês Hou Hsien-Hsiao no subgênero, subvertendo as expectativas de todos ao abraçar respeitosamente a tradição sem perder contato com seu estilo contemplativo.


3 – O Grande Mestre Beberrão (Da zui xia – 1966)
Hoje a indústria norte-americana celebra fortes protagonistas, heroínas que não dependem dos homens, mas esse filme pioneiro no subgênero, dirigido por King Hu, já fazia isso em meados da década de sessenta, com a temida Andorinha Dourada, vivida por Cheng Pei-Pei. Utilizando a técnica de dança da heroína na coreografia das lutas, Hu consegue elaborar um estilo elegante, onde cada movimento é friamente calculado, um contraponto interessante ao estilo despretensioso do bêbado, que é tão competente, que consegue fingir que não há disciplina alguma.


4 – Cinzas do Passado (Dung che sai duk – 1994)
Esse foi melhorando com o tempo, acho que eu não tinha maturidade suficiente na estreia para absorver os temas abordados, estranhei as poucas cenas de lutas. Quando saiu a versão Redux, em 2008, foi como ver algo totalmente novo, compreendi a relação entre a vastidão dos cenários e a pequenez dos personagens. Wong Kar-Wai estabelece um clima tão hipnótico que a trama, seja ela qual for, não se torna relevante. Não pode ser reduzido a apenas um wuxia memorável, ele é um dos filmes mais bonitos de todos os tempos.


5 – Era Uma Vez na China (Wong Fei Hung – 1991)
Uma ótima introdução para o subgênero, já que mistura elementos dos wuxia com a ação menos fantasiosa e o senso de humor dos projetos mais populares de artes marciais. O diretor Tsui Hark, da geração que renovou o gênero no final da década de setenta, também entregou uma sequência tão boa quanto, mas o último projeto da trilogia é fraco. Jet Li vive o herói histórico que lutou para encontrar paz trilhando um caminho honrado em meio a um conflito entre culturas.


6 – O Tigre e o Dragão (Wo hu cang long – 2000)
Talvez seja o mais popular wuxia de nosso tempo, um projeto pensado para exportação, o seu sucesso de público e crítica foi avassalador, mas não apresentou grandes novidades para aqueles que já conheciam o subgênero. Ang Lee é um artesão minucioso, o que se reflete em cada cena. A trama de conceitos diluídos, um romance no diapasão ocidental, mas emoldurada com raro requinte. Vale destacar a química entre o trio de protagonistas: Michelle Yeoh, Chow Yun-Fat e Zhang Ziyi.


7 – O Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu – 2004)
O desfecho poderia ter sido mais bem pensado, prejudica o filme, mas a soma dos fortes méritos na condução de Zhang Yimou faz valer a experiência. Mais sentimental e romântico do que “Herói”, esse é o filme perfeito para apresentar o subgênero para aquela sua namorada que diz não suportar filmes de artes marciais. A sequência da batalha na floresta de bambu é impressionante, as lutas coreografadas por Ching Siu-Tung são inesquecíveis, intensamente criativas na utilização de elementos do cenário.


8 – A Tocha de Zen (Xia nu – 1971)
Esse clássico influente de King Hu fez história ao ser premiado em Cannes, um selo de prestígio que alçou o gênero ao patamar que merecia, mas a sua longa duração, mais de três horas, não ajudou no teste do tempo, percebi nessa revisão que a trama se arrasta em diversos momentos, com desajeitado equilíbrio entre a lenta primeira metade e o excesso de ação na segunda. Mas os seus pontos fortes, a fotografia que me remete ao “Kwaidan” de Kobayashi, o simbolismo dos valores budistas e a jornada espiritual representada nos confrontos do terceiro ato, compensam com folga os problemas.


9 - Dragon Gate Inn (Long men kezhan – 1967)
Mais um importante filme de King Hu na lista, cineasta que precisa ser resgatado pelas distribuidoras de nosso home vídeo, para que a nova geração não tenha que garimpar tanto quanto eu precisei na minha adolescência. Em essência, um filme de câmara, que tenho certeza que foi uma das inspirações mais fortes de Tarantino em seu recente “Os Oito Odiados”, com uma primeira hora brilhante, que se perde um pouco no segundo ato.


10 – The New One-Armed Swordsman (Xin du bi dao – 1971)
Por mais que seja importante valorizar o pioneirismo do original “One-Armed Swordsman”, de 1967, não consigo gostar do filme. Assim como Howard Hawks, que reutilizou a trama de “Rio Bravo” em mais dois projetos, o excelente diretor Chang Cheh consegue com essa reinvenção aprimorar todos os elementos já trabalhados no primeiro e no segundo, tendo com David Chiang um protagonista mais talentoso. Mas vale destacar que a obra não tem a elegância dos filmes já citados na lista, seguindo mais a pegada das produções de artes marciais dos Shaw Brothers, nem representa o que de melhor o diretor fez fora dos wuxia, como “Vingança”, “O Assassino de Shantung”, “Os Cinco Venenos de Shaolin” e “Shaolin Martial Arts”. 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sétima Arte em Cenas - "Um Dia, Um Gato", de Vojtech Jasný

Link para os textos do especial:


Um Dia, Um Gato (Az Prijde Kocour – 1963)
Essa joia tcheca pouco comentada, uma fábula infantil lírica com uma forte crítica comportamental, recebeu o prêmio especial do júri em Cannes. A trama é simples e brilhante. Um vilarejo, microcosmo para a nossa sociedade, recebe a visita de um mágico, uma bela jovem e seu gato de óculos escuros. Com poderes especiais, o felino vê os seres humanos com cores diferentes, de acordo com o caráter e os sentimentos deles, por exemplo, um casal de namorados em intensa cor vermelha, os hipócritas e mentirosos em roxo, resultando em um show de cores vibrantes que garantem ao filme uma estética verdadeiramente única, um tom antirrealista onde os personagens dançam sem música, um agradável sonho lúcido. É interessante constatar que os ilusionistas profissionais da trupe circense atuam exatamente retirando o véu de ilusão/falsidade que move os personagens, o que obviamente não os torna uma unanimidade em popularidade no local, já que o mero vislumbre do gato passa a incitar o pavor daqueles que, até por profissão, precisam defender mentiras. 

A cena que justifica a inclusão do filme nesse especial ocorre quando Diana, vivida pela encantadora Emília Vášáryová, retira os óculos do gato em um espetáculo noturno de magia, apresentando ao público, pela primeira vez, essa peculiaridade do animal. Mesmo sem saber o significado das cores diferentes, grande parte da população se desespera e corre para fugir do alcance dos pequeninos olhos. As crianças, puras, intocadas pela hipocrisia adulta, não se incomodam com esse fenômeno, assim como os avermelhados apaixonados, absortos em suas esperanças românticas. Enquanto os adultos caçam o gato, símbolo da queda de suas máscaras sociais, as crianças protegem o bichinho de todas as formas. Uma das alegorias mais bonitas da história do cinema, que nunca resvala no moralismo panfletário, estimulando uma profunda reflexão humanista. 

sábado, 7 de maio de 2016

Cine Samurai - "A Assassina", de Hou Hsien-Hsiao


A Assassina (Nie Yin niang - 2015)
Quando eu me lembro de “Barry Lyndon”, uma das obras-primas de Kubrick, as imagens se sobrepõem à trama, fortes e de uma beleza de se admirar de joelhos. O mesmo ocorre com “A Assassina”, preciosa incursão do taiwanês Hou Hsien-Hsiao no gênero wuxia, uma mistura de fantasia com artes marciais, subvertendo as expectativas de todos ao abraçar respeitosamente a tradição sem perder contato com seu estilo contemplativo.

A ação, quando ocorre, é abrupta, turva momentaneamente a água de um rio plácido, gestos rápidos e frios, anti-ação, porque o interesse do diretor está nos sentimentos dúbios que movem os personagens em seu cotidiano, não nos consequentes impulsos imediatistas. Os confrontos, doce ironia, são coerentes à realidade intensa desses guerreiros, altamente precisos e ágeis, sem a glamourização excessivamente elaborada, visando empolgação e não reflexão, que o cinema consagrou. Mas vale ressaltar que a narrativa não simplifica esses sentimentos com diálogos expositivos, o roteiro pede que o público absorva com dúvida a informação fornecida, já que as poucas palavras ditas parecem contrastar com o que nos transmitem os rostos enigmáticos, que lutam para encontrar alguma emoção possível em meio ao caos, um desconforto constante realçado na tensão criada pela impecável trilha sonora.

Essa escolha por superestimar o interesse do olhar do outro, como boa parte da crítica corrobora, resultou em um produto que será tido por muitos como insuportavelmente lento, especialmente aqueles que, estimulados pelo título e desconhecendo os trabalhos anteriores do diretor, esperam um convencional espetáculo de violência. O estudo dedicado sobre o período da dinastia Tang, pesquisa que se reflete na primorosa direção de arte fiel à arquitetura e ao estilo de vida, serve à adaptação do conto “Nie Yinniang”, de Pei Xing, como um estofo de realidade que inteligentemente evidencia ainda mais os elementos utópicos, com a fotografia de Ping Bin Lee, do inesquecível “Amor à Flor da Pele”, atuando em vários momentos de forma subjetiva, como se enxergasse o mundo pelos olhos da etérea protagonista, vivida por Shu Qi, uma assassina treinada para se misturar às sombras e se mover como o vento, metáfora visual executada com elegância, uma mulher consciente de que está se esvaindo existencialmente, consciente de que nunca terá o conforto de um lar, punida severamente por ter demonstrado piedade, punida por ser humana.

A câmera pacientemente esculpe o tempo, como nas obras de Tarkóvski, conduzindo o espectador a apreciar cada detalhe do enquadramento. Jogado sem muito cuidado em poucas salas de cinema brasileiras, entre tantas bobagens facilmente esquecíveis, esse filme será melhor servido pelo tempo, senhor da razão, uma obra-prima rara em nosso circuito.