terça-feira, 19 de abril de 2016

Introduzindo o Cinema na Vida dos seus Filhos (2 de 4)


Quando estava na época do ensino primário, torcia pra chegar logo a hora do recreio, para ler as revistas em quadrinhos que carregava orgulhosamente na minha mochila. E, ao final de mais um dia de estímulo à memorização passiva de assuntos que, em grande parte, não me interessavam, objetivando acertar a quantidade mínima de pontos necessários nas provas para passar de ano, corria para casa, louco pra continuar meu real estudo, os livros, gibis e filmes. Aquele material que verdadeiramente definiu meu caráter e me ensinou de forma divertida tudo aquilo que os professores ditavam monocordicamente em sala de aula, com um acréscimo que, infelizmente, poucos profissionais na área pedagógica incitam: a importância da mente aberta, sem cabrestos. Continuando as sugestões para essa “primeira fase”, de quatro a oito anos, nada melhor que apresentar a seus filhos os trabalhos deCharles Chaplin, especialmente os curtas que ele fez pros estúdios Keystone, Essanay e Mutual, deixe os longas-metragens pra mostrar quando a criança já tiver demonstrado carinho pelo personagem. Nunca me esqueço do impacto que esses filmes tiveram em minha infância, quando os conheci através de um programa na TV Cultura, apresentado por Carlos Heitor Cony. Tudo era fascinante, o preto e branco, a filmagem acelerada, a própria figura de Carlitos. Sente com seus filhos e explique o contexto daquelas cenas, a importância histórica do artista.

Com os olhos da criança acostumados ao estilo da comédia muda, apresente então os trabalhos deStan Laurel e Oliver Hardy, curtas-metragens como “Um Dia Perfeito”, “O Grande Negócio”, “Liberdade e seus Perigos” e “Um Fantasma Muito Vivo”. Conte a eles como os dois eram grandes amigos na vida real, pra que a criança, desde cedo, seja estimulada a discernir a diferença entre fantasia e realidade. Após a criança demonstrar carinho pela dupla, apresente então longas-metragens como “Filhos do Deserto”, “Perdão para Dois” e “Sossega Leão”. Uma boa opção é fazer uma sessão dupla com Harold Lloyd, evidenciando as semelhanças entre “Liberdade e seus Perigos” e o longa-metragem “O Homem-Mosca”, o mais famoso de Lloyd. Eu me recordo vividamente da reação que tive quando o personagem escala aquele prédio. Não era parecido com nada que eu tivesse visto até então. E, claro, por último, para que o fascínio da criança não atrapalhe um olhar mais atento, apresente a genialidade de Buster Keaton, o mestre em realizar o impossível. Sugiro inicialmente os filmes: “Nossa Hospitalidade”, “Bancando o Águia”, “Marinheiro de Encomenda” e, por último, “A General”. Se a criança perguntar: “Mas ele nunca sorri?”, ela está no caminho certo. Com essa base sólida na comédia muda, os seus filhos pequenos estarão preparados para a imersão plena em projetos mais ambiciosos no gênero.

No tempo em que a televisão aberta respeitava o público infantil, eu não perdia uma sessão do “Festival Jerry Lewis”. Ele é a opção perfeita pra inserir seus filhos no mundo da comédia moderna, com toques de sentimentalismo que estimulam a empatia, algo que os horrorosos desenhos animados infantis de hoje desprezam solenemente. Eu cresci numa época em que o poder da amizade, o “fazer o bem”, a força da união, eram celebrados em filmes, desenhos-animados e canções infantis. Não entregue aos seus filhos o lixo imediatista produzido hoje, não subestime as crianças. Ela irá te agradecer no futuro. Dos filmes protagonizados por Jerry, sugiro, na ordem: “O Professor Aloprado”, “O Terror das Mulheres”, “Errado pra Cachorro”, “Bagunceiro Arrumadinho” e “O Meninão”. Cinco produções, cinco tardes numa semana dedicada ao mestre do humor. Viva com seus filhos esse prazer, converse com eles após cada sessão sobre os temas dos filmes, pra que aquela magia não se perca até o final do dia.

Recomendo que você apresente a seu filho, nessa fase introdutória, o belo “Labirinto”, protagonizado por David Bowie e dirigido por Jim Henson, criador dos “Muppets”, que, aliás, sugiro que tenha um de seus filmes, o original de 1979, incluído numa sessão dupla. A criança, já iniciada no gênero por “Mary Poppins”, não vai estranhar as sequências musicais na trama. É linda a forma como a mensagem é passada no roteiro, utilizando o mundo mágico dos bonecos, com toques sutis daquele senso de perigo contido nos melhores contos de fada, como moldura para uma defesa apaixonada: que o adulto nunca perca contato com sua criança interna. A linda cena final, no quarto da bela Jennifer Connely, sempre me emociona. Um detalhe muito importante: NUNCA deboche do seu filho menino por se emocionar em filmes. Pelo contrário, incentive nele esse extravasamento emocional. É uma estupidez tremenda, típica do adulto brasileiro machista, gozar com a cara da criança, afirmar que “homem não chora”. Se você pensa assim, por gentileza, não tenha filhos, adote uma tora de madeira e seja feliz. A sociedade atual precisa desesperadamente de pessoas sensíveis.

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Introduzindo o Cinema na Vida dos seus Filhos (1 de 4)


O maior presente que os pais podem dar aos filhos é incentivar desde muito cedo o amor pela cultura, um tesouro que, especialmente hoje em dia, não depende de condição financeira, apenas de uma mínima dose de interesse. O filho pequeno pode aprender sozinho, mas ter o apoio dos pais facilita o processo, possibilitando o tipo de companheirismo atencioso que, na sociedade atual, está sendo substituído por tablets e smartphones nas mãos das crianças, recurso que tenta mascarar a parentalidade irresponsável com o imediatismo tolo de babás eletrônicas, formando adultos emocionalmente imaturos que desprezam o passado, analfabetos funcionais com diplomas na parede, porém, existencialmente frustrados. O usual do adulto brasileiro é incentivar no filho pequeno o amor pelo time de futebol. Nada contra o esporte, mas caso você queira que seu filho seja um homem interessante no futuro, com um repertório mais eclético de assuntos, ao invés de comprar uma cara camiseta oficial do artilheiro para o menino, utilize o mesmo valor adquirindo pra ele uns vinte livros. E, melhor ainda, tire pelo menos quarenta minutos de seu dia, provavelmente metade do tempo que desperdiça no serviço debochando dos colegas da firma que torcem pelo time adversário, ou jogando conversa fora no WhatsApp, sentando-se com seu filho e lendo pra ele, explicando o contexto da história, tornando ainda mais fascinante essa importante experiência literária.

O cinema em casa pode ser um elemento complementar nesse delicioso aprendizado, nessa aventura que pode ajudar a definir o caráter da criança. Com o amor pela literatura, a cinefilia ganha ainda mais relevância. Um assunto normalmente puxa o outro e, mais importante, é enriquecido pelo outro. Eu costumo receber mensagens de mães carinhosas desejando iniciar os filhos nessa arte, então, ao invés de sugerir brevemente alguns títulos, elaborei um passo a passo que pode ser utilizado por todos. O primordial é que seja estimulado na criança o carinho pelo antigo, o fascínio pelo “como isso começou” e pelo “como isso se transformou através do tempo”. Sinto nojo quando vejo um adulto vomitar com repugnância frases como: “Preto e branco não, isso é tão velho…”, ou o clássico: “Mas esse eu já vi…”. Ensine à criança que o ato de rever, reler, revisitar arte, mais que algo natural, é uma forma de tornar ainda melhor aquela experiência. Ensine a criança a não ter preconceito com qualquer gênero. Tem coisa mais digna de vergonha alheia que um adulto afirmar que tem medo de ver filme de terror? E esse adulto acaba passando para os filhos pequenos essa trava emocional. Faça a criança entender que é natural sentir medo em um filme de terror, que faz parte da diversão, salientando que o sangue é de mentira, estimulando a admiração pela competência dos realizadores em operar bem aquele trem fantasma. Dito isso, inicio a proposta de passo a passo cinematográfico.

É uma espécie de tradição familiar apresentar o cinema para a criança, por volta dos seis/sete anos, com as animações de Walt Disney. As meninas normalmente começam com “Branca de Neve e os Sete Anões”, os meninos começam com “Pinóquio”, ou “Peter Pan”. Eu proponho algo diferente, atraente para ambos os sexos: “Guerra nas Estrelas”, o clássico de 1977. A fantasia na medida certa, um universo colorido de múltiplas possibilidades, uma trilha sonora marcante, valores importantes celebrados, com heróis e vilões bem definidos. Não conheci ainda uma criança que não tenha ficado apaixonada por esse despertar sensorial. Ao final da sessão, converse com a criança sobre os temas, estimule a reflexão sobre aquele mundo novo, ensinando que tudo é uma metáfora para os conflitos que todos nós compartilhamos diariamente.

Outra sessão com muito potencial é “Ben-Hur”, o clássico dirigido por William Wyler. Como é um filme longo, facilita a conversa sobre os temas no intervalo. Tem aventura, perigo, humor e romance, tudo que um bom conto de fadas oferece. Foi o filme que me despertou o amor pelo cinema, quando vi pela primeira vez, aos quatro anos. Nunca subestime a criança, entregue sempre algo que incentive ela a buscar compreender, ao invés do entretenimento mastigado. Ela pode entender apenas 1% do todo em uma primeira sessão. Mas se ela for cativada pela emoção do momento (filme + preliminares e pós-sessão), ela vai querer repetir no dia seguinte. Outra sugestão válida: “Mary Poppins”, a melhor introdução das crianças ao mundo dos musicais, com uma trama emocionante que aborda temas como a importância da atenção parental na vida dos filhos pequenos. Como introdução ao gênero do terror, eu sugiro “Gremlins”, uma trama que, em essência, fala diretamente à responsabilidade da criança com os bichinhos de estimação, com a indisciplina do personagem causando todo o problema. 

No gênero da comédia, nada melhor que “Os Caça-Fantasmas”, movimentado o suficiente para manter a atenção da criança, com personagens carismáticos e um nível de ousadia que vai sendo captado melhor em revisões. Esses cinco filmes representam o estágio inicial de apresentação do cinema, a “primeira fase”. Com durações que variam de 90 minutos até épicas três horas, são sessões que incitam a criança a testar sua resistência/paciência, fazendo com que ela se acostume a focar na tela por mais tempo do que um desenho animado comum. Quanto menos imediatista for o seu filho, melhores serão as chances dele se tornar um bom leitor e um bom cinéfilo. Ensine pra ele o valor do silêncio, já que todas as questões que ele tiver, com certeza, serão respondidas no próprio filme. E, caso ele não pare de falar o tempo todo, ele provavelmente não vai escutar as respostas das questões. As perguntas frequentes são uma forma de a criança pedir sua atenção. Mostre que você está vivendo plenamente com ela essa experiência (não atenda celular, por exemplo), que ela então irá se acalmar e ficará mais atenta à tela.

Quando seu filho pedir uma revista em quadrinhos na banca de jornal, não pense muito, compre e entregue sorridente pra ele. O interesse pela leitura nunca deve ser tolhido. Ele está no caminho certo. Dê o exemplo, leia com frequência em casa. A criança pequena imita os gestos dos pais. O hábito deve nascer antes de a paixão ser efetivamente despertada. Da mesma forma que os problemas de socialização de um cachorro encontram solução rápida na reeducação dos donos, os problemas de socialização dos filhos pequenos refletem erros dos pais. Seja violento, que a criança entenderá a violência como forma cabível de expressão. Seja um leitor, que a criança ficará interessada em conhecer o mundo fascinante daquelas páginas, antes mesmo de aprender a ler. Dê atenção ao seu filho, já que você optou conscientemente por inserir ele no mundo.

Continua...

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Chumbo Quente - "Winchester '73", de Anthony Mann

Link para os textos do especial:


Winchester '73 (1950)
A importância do diretor Anthony Mann para o gênero do faroeste é incalculável. Obras como “O Caminho do Diabo”, “Almas em Fúria” e “O Homem do Oeste”, representam peças fundamentais no viés psicológico que fez com que o bang bang entre mocinhos e bandidos com personalidades e motivações muito bem definidas, tido até então pelo público como entretenimento pueril e pela indústria como uma opção barata que quase sempre reutilizava cenários e tramas, conquistasse maior refinamento com roteiros que primavam pelos tons de cinza nas caracterizações. Essa abordagem, além de garantir a sobrevida do tema no cinema norte-americano, foi responsável, no futuro, pelo amadurecimento realista da estética nas produções italianas, com suas pradarias sujas e habitadas por personagens corruptíveis.

Do ciclo de cinco filmes em sua parceria com James Stewart, meus favoritos são “Um Certo Capitão Lockhart”, o último, e “Winchester ‘73”, o primeiro e único em belíssimo preto e branco. Nele, o diretor trabalha um dos seus temas mais reconhecíveis, a figura do protagonista como sendo um reflexo exato do antagonista, vulnerável emocionalmente e com o mesmo ímpeto pela violência, mas contido por sua força de caráter. No caso, o simbolismo é ainda mais óbvio, já que os dois são irmãos separados por um ato cruel de covardia cometido por um deles. O código moral do herói o impede várias vezes de cometer a tão desejada vingança, o que culmina no terceiro ato em um longo tiroteio onde ambos parecem, de fato, não querer acertar o alvo. Quando o corpo do vilão finalmente tomba, você sente a tristeza no rosto de Stewart. A simplicidade na concepção visual dos enquadramentos, algo que Mann aprendeu com o mestre John Ford, potencializa a crueza desse desfecho, um confronto onde os dois morrem um pouco a cada passo dado na direção de seu oponente.

É brilhante a forma como a trama escrita por Robert L. Richards e Borden Chase nos conduz desde o início a acompanhar o desenrolar dos acontecimentos pela perspectiva da trajetória sangrenta do rifle Winchester ’73, peça importante na mitologia do Velho Oeste, indo de mão em mão, desde o seu status como prêmio inestimável em um torneio, passando por moeda de troca em um jogo de azar, até se tornar símbolo de prestígio para um chefe indígena. O homem transformado que, na cena final, porta o estimado rifle, tão desejado por todos, não o faz com orgulho. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A rasa discussão política


Não é bom falar sobre política, a incursão no tema, quando você atua em qualquer outra área, pode até prejudicar carreiras, arrumar inimizades. Esse é o conceito que aprendemos a seguir, ano após ano, eleição após eleição. Mas silenciar algo tão primordial em uma sociedade não seria uma forma fácil de nos eximirmos de qualquer responsabilidade sobre algo que depende exclusivamente de nossas ações conscientes? Uma característica mais representativa do medo do que da lucidez? E, analisando com maior atenção, não seria uma explicação plausível para compreendermos o problemático estado atual do sistema político? Nós devemos temer ou respeitar? São perguntas que deveriam fazer parte do inconsciente coletivo de um povo, não somente em época de eleição.

“Não fala sobre política, isso pode te complicar”, seria um parente próximo filosófico do terrível: “Se você soubesse como são feitas as linguiças, você não as comeria”? Esse medo de entender o processo democrático é o que afasta o cidadão das páginas políticas nos jornais, criando analfabetos que são funcionais apenas enquanto massa de manobra. O temor repele, fazendo com que o leigo não se interesse sequer em cogitar a hipótese de iniciar uma discussão sobre política com seu vizinho. Quando o faz, costuma sempre transitar naquela simplória conversa de elevador, criticando abstratamente questões que são essenciais em sua rotina diária. “Como pode o ônibus custar uma fortuna, sem nenhuma qualidade?”; “Em Curitiba não é essa vergonha, a rodoviária lá funciona que é uma beleza”; “Menina, essa chuva sempre transforma minha calçada em uma piscina, o prefeito nunca melhora isso”. O papo que dura uma eternidade de alguns andares termina sempre sem resoluções e poderia ter sido facilmente substituído pelo clássico: “Será que vai chover hoje?”. A política não pode ter a mesma importância que a popular vidência meteorológica.

Você pode e deve estimular o vizinho a pensar por si próprio, questionando e contra-argumentando, pois são as únicas ferramentas eficazes contra a cultura do medo. Você não pode ficar escravo de casos com apenas uma versão, pois é essa preguiça intelectual que cria em longo prazo os estereótipos, que fomenta o preconceito. Eu morro de medo quando escuto alguém responder mecanicamente, ao ser inquirido sobre algum tema específico, com frases feitas das manchetes sensacionalistas, repetindo a conclusão vendida pela mídia. O discurso político que deveria primar pela lucidez é então reduzido a uma batalha infantil de canalhas frases de efeito pró e contra o governo. O que deveria ser um debate racional se perde em um circo barulhento, um confronto que só favorece a manipulação de ambos os lados. E, tenha certeza, não seja ingênuo, os mestres de ambos os lados estão apenas preocupados com seus próprios bolsos, em manter ou conquistar o poder. Vivemos uma realidade sem a mínima qualidade de vida, sem moradia, sem transporte, sem saúde, sem educação, sem segurança e com altíssimos impostos. A internet fixa será limitada em breve, dando mais um passo largo em direção à Idade das Trevas. O povo morre esperando no chão das filas dos hospitais, a dona de casa morre afogada na garagem da sua casa com uma enchente, um mosquito se transforma num problema grave em pleno 2016. Caso você, consciente de todos esses absurdos, ainda se preste a defender a nossa classe política, sem meias palavras, tome vergonha na cara.

Você não pode se sentir confortável com apenas uma versão, deve questioná-la, contestá-la em debates, estudá-la a fundo. “Dona Maria, você leu sobre o caso do garoto que foi encontrado próximo da cena do crime?”, ela então responde: “Claro, aquele bandido tem que apodrecer na cadeia”. Dias depois, a imprensa solta um comunicado afirmando que o garoto foi inocentado, daí o discurso da Dona Maria se modifica: “Coitado do rapaz, aqui no Brasil é assim, só preto e pobre vai preso”. Temos que viver em uma sociedade onde a Dona Maria teria procurado outras fontes de informação, antes de formar sua opinião sobre o caso. E, hoje mais do que nunca, todos têm acesso à informação, basta apenas o essencial elemento do interesse.

Não tenha medo de discutir política, pois a sua passividade é que decidirá a nação que você deixará para seus filhos e netos. Você não tem que se adequar à mediocridade, estimulada especialmente pela medonha classe política brasileira, você precisa sobrepujá-la.

Suje as pontas dos dedos com a poeira dos livros


Ao iniciar a terceira releitura de "Esculpir o Tempo", que considero um dos melhores livros sobre cinema, escrito pelo genial diretor Andrei Tarkóvski, acabei recordando a forma como o encontrei, alguns anos atrás, num sebo carioca. O que me impressionou foi a forma como o dono desvalorizava aquele tesouro, acreditando que ninguém aceitaria pagar mais que Cinco Reais pelo tomo em ótimo estado de conservação. Ele chegou a afirmar que o livro estava parado lá por mais tempo do que ele se recordava, que ninguém sequer o folheava. Esse é o tipo de obra que somente melhora a cada reencontro, uma verdadeira aula sobre esse universo fascinante da Sétima Arte. Enquanto folheava as páginas um pouco amareladas, minha mente me conduziu até outro encontro curioso, que faço questão de reproduzir aqui.

Alguns meses atrás eu entrei em um sebo que eu desconhecia, bastante organizado, mas com pouquíssimo espaço, algo que sempre me motiva a praticar meu talento inexplorado de arqueólogo. Como eu era o único no lugar, depois de me observar curioso por uns trinta minutos, enquanto subia em caixotes improvisados e vasculhava pilhas empoeiradas de livros, fui chamado pelo dono do local. O senhor devia ter por volta de sessenta anos, muito educado e de fala mansa. Ele olhou com atenção os títulos que eu já havia selecionado. Quase todos custavam Um Real, um valor altamente convidativo. Era época de Natal, então expliquei que gosto de presentear os amigos com livros e filmes. Ele sorriu debochado e questionou se eles não ficariam chateados ao serem presenteados com livros usados. Achei tão interessante aquele questionamento vindo de alguém que deveria compreender a riqueza inerente àqueles tomos, a carga de fascinante mistério que reside, por exemplo, numa dedicatória romântica a alguém que desconhecemos. Passei então uns bons cinco minutos explicando pra ele a real dimensão daquelas páginas amareladas, o universo que vai além da apreciação da obra, impossível de atribuir um valor monetário. O homem sorriu e disse melancolicamente que estava cogitando há semanas desistir daquele empreendimento, pois passava por problemas de saúde na família e o lugar simplesmente não estava dando lucro. Ele decidiu colocar a maioria dos livros a Um Real, incluindo os grandes escritores e clássicos, mas mesmo assim não estava tendo saída, aquele empreendimento havia se tornado um fardo praticamente insuportável.

Contei para ele sobre minha área de atuação e disse que eu vivenciava diariamente essa realidade de desinteresse cultural. Você posta na rede social o link de algum vídeo sensacionalista bizarro, e, por mais longo que ele seja, será assistido por muitos, mas se postar o link de um texto de três parágrafos sobre qualquer assunto relacionado à cultura, qualquer vertente abordada, terá alguns poucos e fiéis interessados, aqueles que eu costumo chamar de guerreiros da resistência à mediocridade. O senhor perguntou se eu não ficava desanimado com essa situação. Olhei fundo em seus olhos, deixei o instinto formular a frase seguinte: "O senhor, sabendo que ninguém entrará aqui num dia inteiro, quando volta pra casa, dorme tranquilo?". Ele ficou levemente emocionado, percebi que seus olhos brilharam, o que já era a resposta que eu sabia que encontraria. Eu precisava voltar pra casa, tinha um compromisso ainda naquela tarde, mas enquanto pagava os livros, aproveitei para, em tom descontraído, contar sobre a importância que os sebos tiveram em minha pré-adolescência. Ele ficou feliz ao saber que eu tinha lançado um livro, que estávamos lutando a mesma guerra, em frentes diferentes. Gastei ao total a absurda soma de Vinte Reais, o que não paga nem 1/3 do que um jovem brasileiro consome de álcool, em média, numa balada semanal. Questão de prioridade. Prometi ao senhor que iria voltar em breve, para presentear ele com o meu livro, já que o mesmo me confidenciou, quando eu estava pronto para sair do sebo, que ele havia mudado de ideia e não iria mais desistir do empreendimento. O livro foi entregue, o senhor, num gesto de extrema gentileza, retribuiu me dando a opção de escolher cinco livros da loja. E eu fiz questão de pagar os cinco.

Entre nos sebos, valorize esses nobres propagadores de cultura, eles possuem incríveis histórias pra contar. Suje as pontas dos dedos com a poeira dos livros.