terça-feira, 12 de abril de 2016

O Inesquecível Chico Anysio


Hoje é aniversário de um ídolo que tombou em batalha eterna contra o comodismo: Chico Anysio. O maior ator brasileiro ficou afastado da televisão durante vários anos, incapaz de mostrar seu talento e tendo que assistir, como todos nós, a vergonhosa invasão da mediocridade que hoje impera nos horários nobres de nossas televisões. 

A mesma emissora que afastou meu brilhante homenageado do público, colocando-o na geladeira, maior crime que se pode cometer contra uma mente criativa, hoje celebra o circo de horrores que os ingênuos chamam equivocadamente de reality show, um jogo tolo onde a realidade/espontaneidade é algo que não existe, além de programas de humor com cores berrantes e bordões popularescos. Havia outrora inteligência, sensibilidade e ousadia, mas agora impera a cópia dos moldes estrangeiros, com a televisão buscando na internet o material para suprir suas programações. Quem se esquece dos monólogos emocionantes do Profeta? Da coragem crítica do pastor Tim Tones, que nos dias de hoje se comprovou profético? Como público, perdemos contato com esse mestre exatamente em seu ápice criativo, quando ainda estava plenamente saudável e disposto. Tarde demais, resolveram atender os apelos do público e trouxeram ele de volta, infelizmente no crepúsculo de sua vida. Como eu salientei num texto postado no dia de seu falecimento, ainda ganharão muito dinheiro com seu nome e suas obras, dirão que ele foi o mestre do humor e um gênio inegável. Ambiciosos empacotarão seus maravilhosos programas televisivos e irão vender com belos laços de fita, mas sem nunca revelar a razão de aceitarem calados tanto lixo, enquanto um inestimável patrimônio da cultura nacional foi mantido por vários anos exilado em sua própria nação.

Chico, em sua grandeza de caráter, nunca afirmou suas mágoas, mas sabemos que ele as sentia. Um homem intensamente criativo, que vivia pelo trabalho, sem poder exercer sua arte. A remuneração financeira não é suficiente para vencer o desconforto por não poder fazer o que realmente ama. Eu me envergonho, tenho certeza que os profissionais sérios da própria emissora também, ao perceber o extremo zelo dedicado até hoje ao BBB e a tantas outras bizarrices grotescas e sem nenhum valor, quando a mesma casa castigou tão severamente um artista como Chico. Ele será eterno, o seu legado servirá de inspiração para as próximas gerações. Espero apenas que o mesmo erro cometido com ele não se repita. Homens de televisão, ricos donos e operadores desse belo entretenimento, valorizem aqueles que merecem ser valorizados, sejam responsáveis, justos e conscientes. Aos familiares, meu respeito, sempre! Chico, grato por tudo que você representou em vida. O povo brasileiro jamais o esquecerá.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Cacaso na Corda Bamba", de José Joaquim Salles e PH Souza


Cacaso na Corda Bamba (2016)
É interessante que, de início, os primeiros depoimentos tentam resgatar a imagem do homenageado, como ele se vestia, o estilo dos óculos que imitava o de John Lennon, o desenho do cabelo, a altura, um menino num corpo de adulto, o professor hippie, o tímido com dificuldade de apresentar seu trabalho em público. Os registros dele em vídeos resgatados, a moldura em traços coloridos de giz, seguindo o espírito dos desenhos dele, realçam a infantilidade em seu conceito libertário, sem cabrestos, refletindo as múltiplas referências que ele utilizava em sua expressão artística. Cacaso escutava verdadeiramente o outro, comprazia-se com a companhia e, entregue no jogo da empatia, criava poemas como que celebrando a beleza da interação. Logo, todos aqueles ao redor, alunos e amigos, encontrando porto seguro naquela fonte de inspiração, de forma espontânea, já que ele se recusava a doutrinar, sentiam o despertar da criatividade.

Fascina o contraste entre o impulso dele pela respeitabilidade adquirida com a disciplina, confrontada diariamente por sua incapacidade de entender a vida sem o elemento constante do caos. Ele não concebia a criação sem o atrito entre esses dois fatores antagônicos. É importante o segmento que aborda a relação dele com o pai, o símbolo de um futuro profissional relacionado aos negócios rurais da família, um homem que não valorizava a arte da escrita, aquele passatempo tolo que havia cativado a plena atenção do jovem. O homem da fazenda considerava aqueles versinhos, como ele se referia aos textos filosóficos do filho, um revoltante atraso de vida. A mãe, por outro lado, enxergava no menino a esperança de que alguma parte dela iria se rebelar àquela realidade tão desencantada e industrial. Nesse ponto, o entrelaçar de trechos de seus poemas se torna não somente revelador da essência de Antônio Carlos de Brito, desnudado em sua angústia, como também enriquece a compreensão da resiliência que o tornou Cacaso. Uma gênese forjada pela gratidão dele pela mãe.

É interessante como o documentário mostra que ele se reinventou no processo de realizar seu próprio livro, e, com seu sábio uso do silêncio, sendo beneficiado inconscientemente por sua timidez, acabou lapidando sua verve crítica. O segredo é que em sua expressão, nos poemas, poesias e canções, não havia interesse em complicar, engendrar uma intelectualidade distante e prolixa, isso ele deixava para os ídolos de barro, Cacaso articulava a sua arte com a carinhosa dedicação de um bom professor apaixonado pela matéria. Ele era simples, o traço mais marcante de genialidade, deixando transparecer a paixão que sentia pela literatura. A verdade do autor sempre alcança o leitor. Ao abalar os alicerces da arquitetura rígida da poesia dos mais antigos, aqueles sonetos impecáveis de rimas e sílabas calculadas dos mestres, com a fluência inconsequente de sua verborragia inebriante, entregando menos quando a tradição pedia mais, ele utilizou o desamparo editorial ao seu favor, promovendo uma anarquia sem censura, um poeta marginal.

Ao rejeitar ser líder, no calor de uma ditadura alimentada por discursos extremistas, a sua liberdade se tornou irresistível. Uma das razões da eficiência do filme pode ser explicada em um detalhe que passa despercebido pela maioria. Em dado momento, numa rara intrusão do diretor em um depoimento, ele complementa com: “A decoração era humana”, resumindo o que estava sendo dito sobre a residência de Cacaso, com poucos móveis, mas sempre lotada de amantes da literatura e da música. A poesia está entranhada na forma, não apenas no conteúdo. É um documentário que aprofunda o conhecimento de quem já respeitava o artista, sem gordura extra e acrobacias de estilo desnecessárias, algo que seria incoerente com o legado dele. Mas o real mérito da obra pode ser sentido naqueles que desconhecem o artista, já que o retrato é trabalhado com tanto esmero que desafio qualquer espectador a não correr para devorar seus textos, assim que os créditos finais, no mesmo tom lúdico infantil, acenarem a despedida. Há emoção, mas a sensação que fica é de alegria, uma celebração de um homem que, em pouco mais de quarenta anos intensos, deixou sua digital perceptível, ainda incomodando, ainda atual. O timing de lançamento do filme não poderia ser mais feliz, precisamos urgentemente resgatar esses valores, o brasileiro precisa desesperadamente de poesia.

Rebobinando o VHS - "Exterminador", de James Glickenhaus

Link para os textos do especial “Rebobinando o VHS”:


Todo mundo comentando sobre o Justiceiro na série do Demolidor na Netflix, mas, sinceramente, esse vigilante marrento é personagem da Disney perto do anti-herói John Eastland, vivido por Robert Ginty nessa fita esquecida do início da década de oitenta. Nunca foi lançada por aqui em DVD e provavelmente nunca será. O terrível politicamente correto impede que seja exibido na televisão aberta, na minha época era figura carimbada no vespertino “Cinema em Casa” do SBT. Aluguei muito na fase de ouro do VHS.


Exterminador (The Exterminator – 1980)
Veteranos de Guerra do Vietnã, John e Michael agora trabalham como estivadores num depósito que fica no bairro pobre do Bronx. Certo dia, Michael flagra uns folgados saqueando cerveja de um dos depósitos onde trabalha e dá uma lição neles. Poucas horas depois, ele é brutalmente atacado pelos mesmos marginais, sendo apunhalado e surrado. Acaba no hospital, paralítico. John sai então às ruas para limpar a cidade dos bandidos.


A única cena do filme que eu lembrava, antes de rever pra esse texto, aquela decapitação que ocorre logo no início, mérito do supervisor de efeitos especiais Stan Winston, continua um gore muito eficiente, dando o tom do filme. O protagonista serviu de inspiração para Kurt Russell compor o Snake Plissken do cultuado “Fuga de Nova York”, de John Carpenter. Produzido pela Avco Embassy, especialista em filmes de baixo orçamento, lançou muita bobagem, mas também distribuiu pérolas como “A Primeira Noite de Um Homem”, “Primavera Para Hitler”, “Scanners”, “Grito de Horror” e o já citado “Fuga de Nova York”. É exatamente o tipo de abordagem, nada polida e estupidamente violenta, que faz falta nos anti-heróis do cinema mainstream atual, idealizados para adolescentes. O roteirista/diretor James Glickenhaus é responsável pelos medianos “Dupla Fatal”, “Um Tira Implacável” e pelo bom “O Ultimato”, não é tão incompetente quanto “O Exterminador” faz parecer. Os excelentes primeiros dez minutos, que parecem enxertos de um projeto melhor, ambientados na guerra do Vietnã, são filmados na mesma locação onde o ator Vic Morrow sofreria o acidente fatal horroroso com um helicóptero, em um dos contos de “Além da Imaginação – O Filme”.

A sequência da tortura do bandido preso em cima de um triturador de carne é a prova cabal da sutileza da obra. Mas nada seria mais sutil que o vigilante adentrando brutalmente numa festinha dos marginais, ao som de Disco Inferno (burn, baby burn), com seu lança-chamas. Infelizmente, como ele havia sido usado na cena anterior, em um interrogatório amistoso, o bochechudo anti-herói decide usar uma metralhadora gigantesca. E, pra não chamar muita atenção, ele carrega a arma até a porta devidamente ensacada, afinal, os vizinhos podem pensar que ele toca violoncelo, né? Nas paredes dos marginais, além das óbvias pichações sem sentido de toda gangue criminosa dos anos oitenta, fotos de Che Guevara e Bruce Lee. Realizado dois anos depois de “O Franco-Atirador”, com aquela trama densa sobre os traumas psicológicos dos veteranos da guerra, Glickenhaus insinua timidamente abordar o tema, mas acaba se deixando levar pela ideologia reacionária dos filhos de “Desejo de Matar”, onde os veteranos punem os jovens drogados das ruas seguindo a crença de que eles não merecem desfrutar da liberdade conquistada pelo esforço deles nos campos de batalha.

Vale ressaltar que foi produzida uma sequência: “Exterminador 2”, dirigida por Mark Buntzman, produtor do original, com Ginty reprisando o personagem, que utiliza com mais frequência o lança-chamas, praticamente se transformando em um herói de quadrinhos. Com a mão podre do picareta estúdio Cannon, o resultado conseguiu ser tão ruim que faz o original parecer uma obra-prima. Eu gostava mais da capa do VHS, com o protagonista desenhado num traço idêntico ao das cartelas dos bonecos “Comandos em Ação”. 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Cinema da Nova Hollywood


Corrida Sem Fim (Two-Lane Blacktop – 1971)
Os personagens Piloto e Mecânico viajam pelas estradas americanas em um Chevy 55 à procura de competições de corrida.

Monte Hellman é um dos grandes diretores da Nova Hollywood, ainda que seja talvez o menos lembrado, uma baita injustiça. Tive a honra de fazer uma entrevista exclusiva com ele para o blog (link para a entrevista: http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/12/entrevista-com-o-diretor-monte-hellman.html). Quando dirigiu “Corrida Sem Fim”, ele já havia lançado aquele que considero sua obra-prima, o faroeste “Disparo Para Matar” (texto sobre o filme: http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/11/chumbo-quente-disparo-para-matar-1966.html), mas não posso esquecer também pérolas em sua filmografia como “Galo de Briga” (texto sobre o filme: http://www.devotudoaocinema.com.br/2014/12/galo-de-briga-de-monte-hellman.html) e “A Vingança de Um Pistoleiro”. Que esse resgate da distribuidora Versátil motive os brasileiros nessa redescoberta. Quem conhece o estilo do diretor, incapaz de subestimar o público, não vai se surpreender com a grandiosidade deste road movie sem início e fim, uma estrutura aparentemente simples protagonizada por personagens lacônicos, vividos pelos músicos James Taylor e Dennis Wilson, com motivações enigmáticas, reforçada por uma atuação irrepreensível de Warren Oates. O silêncio dominante exerce efeito hipnótico, com a estrada simbolizando a necessidade de se manter a esperança enquanto todos os bloqueios são atirados em sua direção, o ronco libertário do motor como o grito de resistência do indivíduo, na busca incessante por um caminho, sem entender a funcionalidade do destino. Rever esse filme é, acima de tudo, um exercício terapêutico. A vida, afinal, não passa de um borrão que captamos de olhos marejados pela janela de um veículo que acelera rumo ao nada. E, mesmo assim, seguimos acelerando apenas para manter o motor funcionando.


A Outra Face da Violência (Rolling Thunder – 1977)
De volta do Vietnã como herói, após uma traumática experiência como prisioneiro de guerra, Charles Rane tenta lidar com problemas pessoais. 

Essa é a melhor introdução para aqueles que querem conhecer e entender o movimento da Nova Hollywood por essa caixa temática, o filme mais acessível, dirigido por John Flynn e com roteiro de Paul Schrader, trabalhando o leitmotiv da vingança com uma pegada brutal. Destaco aqui a atuação minimalista de Tommy Lee Jones, como o sargento amigo do major, um homem que, após a experiência da guerra, desaprendeu a viver em sociedade. Seu rosto inexpressivo, sua postura deslocada em qualquer ambiente, uma composição que já mostrava o grande ator que o mundo viria a reconhecer no futuro. No desfecho, quando ele e o major, devidamente uniformizados, partem para a selvageria em um tiroteio praticamente suicida que nos remete ao clímax de “Butch Cassidy”, o rosto do sargento se ilumina em um sorriso perturbador, mostrando que ele se sentia confortável apenas na batalha. O gancho que substitui a mão do major, elemento que inexplicavelmente não foi trabalhado no marketing da época, insere na trama um traço pulp empolgante. Há um senso de felicidade no major, quando ele, numa reviravolta do destino, encontra na vingança pelo assassinato da família uma motivação para se libertar das amarras que ainda o prendiam à qualquer ideia de civilização. Mais do que uma busca por justiça, ele vê na caçada um revide pelo orgulho de combatente ferido. A bela jovem que o mima de todas as formas não existe em seu horizonte, ele a suporta com reservas, ele utiliza a moça como ajudante em seu trabalho. O que importa para ele é o cumprimento da missão. 


Procura Insaciável (Taking Off – 1971)
Quando descobrem que sua filha adolescente desapareceu, provavelmente com um grupo de hippies, seus pais partem em sua busca. 

É interessante constatar que no mesmo ano foi lançado “There’s Always Vanilla”, de George Romero, filme quase sempre esquecido, mas que também defendia um discurso crítico com relação ao movimento hippie. Em “Procura Insaciável”, podemos ver a frustração do diretor tcheco Milos Forman após alguns anos pesquisando in loco esse estilo de vida despertado, enquanto revide lúdico, pela angústia e desesperança dos jovens que acompanhavam pela televisão a guerra do Vietnã. O que inicialmente seria trabalhado como um retrato fiel pelo ponto de vista dos hippies acabou se tornando um produto mais maduro, analisando o sofrimento dos pais que viam seus filhos adolescentes fugirem de casa, buscando aquela utopia frágil alimentada por canções que celebravam sonhos e por viagens lisérgicas. O ponto fascinante no roteiro, cristalizado no excelente desfecho, é evidenciar a impossibilidade de comunicação entre essas duas gerações, a negação de vencedores no confronto entre a repressão parental e a ignorância juvenil, uma guerra tão brutal quanto aquela transmitida pela televisão, onde o que se sacrifica é a confiança. A sequência mais comentada, o experimento da sociedade dos pais de filhos fugitivos com a maconha, traz entranhada no inegável humor da execução uma profunda crítica social. A droga que desnuda os impulsos emocionais dos adultos, tão frágeis e desamparados quanto os jovens, é tratada na cena como um enigma sedutor a ser estudado, enquanto os filhos continuam na sombra. A preocupação com o dedo apontado para a lua, ao invés da análise da própria lua. Não há interesse dos pais em compreender os anseios dos filhos, apenas o simplismo de reduzir a padrões banais, com o mínimo de esforço, aqueles jovens que vivem a fase mais complicada da vida. 


Voar é Com os Pássaros (Brewster McCloud – 1970)
O maior desejo do jovem Brewster é poder voar. Para isso, constrói enormes asas, mas, quando se prepara para voar, é surpreendido pela polícia. 

Robert Altman não gostou do roteiro de Doran William Canon, do fraquíssimo “Skidoo Se Faz a Dois”, o pior filme da fase final do grande diretor Otto Preminger. E, numa mostra de seu brilhantismo inegável já em início de carreira, ele decidiu desprezar o texto, criando as falas e muitas das situações, algo que ele também havia feito em “MASH”, ensaiando as modificações com o elenco no dia das filmagens, nesse que era sempre citado por ele como o seu projeto favorito. O resultado, ainda que, por contrato, carregue no crédito o nome de Doran como o único roteirista, não representa sequer 10% do material original. A trama é puro Altman, corajoso em seu senso de humor e com um tom diferente de tudo o que se fazia na época. E você percebe várias referências divertidas ao sucesso do ano anterior, de um óbvio pôster do filme em cena até uma sutil reação de Sally Kellerman, ao se banhar numa fonte, muito similar à reação da atriz em uma sequência famosa de banho em “MASH”, quando ela descobre que está sendo observada por um grupo de homens. O tema da desconstrução do molde cinematográfico, algo recorrente em sua filmografia, já se mostra presente no início, com uma correção dos créditos sendo feita na busca pela subjetiva perfeição da técnica, um esmero exagerado que intenciona reproduzir cópias em escala industrial. A sua arte não segue padrões, os personagens do diretor não respeitam qualquer código predeterminado, a estranheza é uma constante, o vômito da personagem de Shelley Duvall pode ser sucedido por um beijo apaixonado dela em seu namorado, o que garante o frescor atemporal de seus filmes. Esse risco necessário no trabalho de um artista, representado na parábola com traços de Ícaro protagonizada por Bud Cort, que faria no ano seguinte o adorável “Ensina-me a Viver”, é o leitmotiv nessa subestimada brincadeira séria do diretor.


O Comboio do Medo (Sorcerer – 1977)
Um grupo de proscritos é forçado a trabalhar na América do Sul, tendo que conduzir um caminhão de explosivos numa perigosa missão. 

Não gosto de comparar o filme de William Friedkin com a primeira adaptação do livro de Georges Arnaud, o impecável “O Salário do Medo”, de Henri-Georges Clouzot, o mestre do suspense francês, o único cineasta capaz de fazer Hitchcock tremer. Não seria justo, já que se trata de uma sincera homenagem, prejudicada terrivelmente em seu lançamento pelo fenômeno “Star Wars”. É muito importante esse resgate que a Versátil promove, inserindo ele em versão restaurada na caixa da Nova Hollywood, sendo favorecido pela contextualização histórica, rejeitando a pecha reducionista de fracasso de bilheteria que sempre acompanhou a obra. Um olhar mais atento é o suficiente para que se aplauda o preciosismo técnico desse thriller existencialista, não apenas na sequência da travessia do caminhão pela ponte, mas também na construção de um clima sufocante que beira o horror, com os veículos irrompendo na mata noturna como monstros sobrenaturais conduzindo os homens numa fuga do inferno, uma alegoria sombria do elemento da imprevisibilidade na vida, o feiticeiro (sorcerer) que rege os destinos. É possível perceber a influência de Luis Buñuel, especialmente na utilização generosa do realismo mágico no terceiro ato, do livro "Cem Anos de Solidão", de Gabriel García Márquez, e até mesmo do colega de movimento Monte Hellman, na forma como utiliza o silêncio para potencializar o caos interno dos personagens. O primeiro ato não funciona tão bem no objetivo de criar tensão, mas quando a trama se foca na missão do grupo, liderado por Roy Scheider, estrangeiros numa terra hostil e impiedosa, uma metáfora para a difícil relação entre os diferentes países, fica impossível tirar os olhos da tela. 


Essa Pequena é Uma Parada (What’s Up, Doc? – 1972)
Dois pesquisadores chegam a São Francisco para um congresso e acabam se envolvendo em muitas trapalhadas.

Peter Bogdanovich é um diretor que sempre imprimiu em seus filmes sua digital de crítico de cinema, função que nasceu de sua paixão pela arte e pelos escritos de Truffaut. Após o sucesso do ótimo “A Última Sessão de Cinema”, ele decidiu homenagear as screwball comedies clássicas das décadas de trinta e quarenta, especialmente as incursões de Howard Hawks no gênero, com Ryan O’Neal buscando inspiração para seu personagem nos trejeitos de um dos grandes da comédia muda: Harold Lloyd. O título original, referência ao bordão do Pernalonga, evidencia a terceira inspiração para a trama. Ao reinventar o formato com conhecimento pleno de suas engrenagens, atualizando apenas o contexto, ousando exatamente por se afastar da autocelebração exagerada de quem prestou atenção apenas na estética, equívoco cometido no moderno “Abaixo o Amor”, de 2003, o roteiro de Buck Henry, Robert Benton e David Newman encantou o público da época. Gosto bastante da atuação de Barbra Streisand, nesse que considero o seu melhor momento, ainda que ela sempre afirme que não aprecia o filme, possivelmente porque o diretor competente foi o primeiro que realmente dirigiu ela em cena e soube domar seu estrelismo. Em dado momento, O’Neal brinca com sua participação em “Love Story”, dizendo que a frase famosa do filme (“Amar é nunca ter que pedir perdão”) era a maior bobagem que já havia escutado. Isso pode ter origem em um evento ocorrido na fase da pré-produção, quando Bogdanovich estava buscando um ator para o projeto e foi ver uma sessão do lacrimoso romance, uma experiência terrível que o fez rir do início ao fim, mas serviu para ele enxergar em O’Neal, alguém que nunca havia trabalhado em uma comédia, o tipo exato que ele procurava. 


* A caixa "O Cinema da Nova Hollywood", com os seis filmes e ótimos documentários, está sendo lançada em DVD pela distribuidora Versátil, com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito.

sábado, 2 de abril de 2016

TOP - Os Filmes de James Bond


10 - 007 – O Amanhã Nunca Morre (Tomorrow Never Dies, 1997)
Muitos elementos deste filme remetem ao sucesso: “O Espião que me Amava”, talvez o mais forte destes refira-se a Bond Girl chinesa Wai Lin (Michelle Yeoh), sucessora de uma rara exceção na franquia, até aquele momento, a agente soviética interpretada por Barbara Bach no filme de 1977. A chinesa prova não precisar ser salva pelo espião, demonstrando sua perícia em cenas muito bem orquestradas. A veterana atriz Judi Dench retorna como a superiora de 007 e seus diálogos com o agente são um ponto alto do filme. Um exemplo é quando responde secamente ao almirante Roebuck (Geoffrey Palmer), após o mesmo duvidar de sua capacidade e firmeza no cargo: “pelo menos não corro o risco de pensar com a cabeça errada”. A cena de ação mais lembrada é a espetacular fuga do herói em seu BMW 750, dentro de uma claustrofóbica garagem. A invenção de Q (Desmond Llewelyn) é conduzida manualmente por um pequeno telefone celular, o que fará com que o agente possa manobrar o automóvel deitado no banco de trás. Um verdadeiro show de destruição, muito bem realizado pela equipe técnica. O compositor John Barry em uma conversa com Barbara Broccoli indicou um jovem talento que, em sua opinião, poderia elaborar uma trilha sonora à altura do agente secreto mais famoso do cinema. O escolhido foi David Arnold que misturou a techno music com a clássica sinfonia de Barry, criando uma trilha moderna, com personalidade e estilo. Pierce Brosnan supera seu trabalho no filme anterior, demonstrando muito mais confiança e serenidade. A recepção dos críticos foi boa, muitos elogios focaram-se na trama, abordando os malefícios da imprensa, quando utilizada em mãos erradas. Um problema ainda atual e bastante verdadeiro. O décimo oitavo filme da série é largamente apoiado na ação e pirotecnia, o que afasta um pouco o tom de espionagem inerente ao personagem criado por Fleming.


9 - 007 – Somente Para Seus Olhos (For Your Eyes Only, 1981)
O filme anterior havia ajudado a transformar o agente secreto em um super-herói espacial. Mesmo tendo sido um sucesso de público, o produtor Albert Broccoli sentiu que precisava retornar às raízes, encontrar-se novamente com o personagem idealizado por Ian Fleming. O primeiro passo dado foi a importante escolha de quem iria comandar o novo filme, quem seria o responsável por dar o novo tom a ser utilizado nos próximos projetos. Acertadamente decidiram-se por John Glen, um experiente editor de filmes de ação, que havia dirigido magistralmente a sequência da perseguição de trenós do filme de 1969: “A Serviço Secreto de sua Majestade”. O diretor foi o responsável por incutir na série um tom mais ameaçador, com cenas de ação de tirar o fôlego. O roteiro criado por Richard Maibaum seria uma colcha de retalhos, incluindo trechos da antologia de contos original: “For Your Eyes Only”, “Risico” e de “Live and Let Die”. Roger Moore já com cinquenta e três anos de idade, sentia-se um pouco constrangido por conquistar somente com o olhar e poucas insinuações, mulheres trinta anos mais novas. A solução encontrada pelos roteiristas foi trazer soluções cômicas para algumas cenas. Méritos para o diretor John Glen, que conseguiu trazer um pouco mais de seriedade à versão do agente interpretado por Moore, fazendo-o tomar parte em cenas brutais, como a do carro do vilão Locque no desfiladeiro, onde um chute certeiro de 007 foi o suficiente para que o automóvel caísse penhasco abaixo. Moore não queria gravar a cena, pois ia contra sua abordagem, porém Glen o confrontou e o persuadiu, garantindo com sua coragem e competência o comando das próximas quatro produções da franquia.


8 - 007 Contra o Satânico Dr. No (Dr. No, 1962)
A dupla de produtores Albert R. Broccoli e Harry Saltzman captaram a essência das obras de Ian Fleming e inseriram toques geniais, como o “cano da arma” no início de cada filme, a sequência inicial tensa que leva a um final em suspense, seguido por um magistral título colorido e povoado de belas silhuetas femininas, conceito criado por Maurice Binder. Outros toques importantes são a bebida favorita do agente, sua Vodka-Martini “shaked but not stirred” e acima de tudo sua famosa apresentação: “Bond... James Bond”. Elementos que, de forma espontânea, entraram no imaginário coletivo do público, tornando-se referências pop até hoje repetidas por pessoas de todas as idades. Para o protagonista, muito a contragosto dos executivos da United Artists, contrataram um jovem escocês motorista de caminhão chamado Thomas Sean Connery. Ele exalava certa arrogância que combinava perfeitamente com o personagem. Acredito sinceramente que sem a contribuição deste ator, não haveria uma franquia tão lucrativa até hoje. Seu sarcasmo em cena, o charme que ele imprimiu no personagem foi tão marcante que mesmo após várias encarnações, muitos ainda o consideram o melhor intérprete do agente secreto. Para viver Honey Ryder, jovem ingênua e valente que cruza o caminho do agente, foi chamada uma suíça filha de diplomata e que procurava sua grande chance, após participar de filmes pequenos e inexpressivos. Ursula Andress entrou para a história ao sair do mar em um ousado, para a época, biquíni branco, munida de um cinturão de couro onde carregava uma faca de caça. Estava iniciada a era das Bond Girls, que com o passar dos anos tornou-se um posto cada vez mais desejado por jovens atrizes. Para o papel do vilão Dr. No, convocaram Joseph Wiseman, que foi bastante elogiado pela excentricidade e ar exótico que incutiu ao personagem, uma moldura para todos os futuros vilões da franquia.


7 - 007 - Operação Skyfall (Skyfall, 2012) 
A direção de Sam Mendes é elegante e inteligentemente autoral, mas sem nunca esquecer que precisa entregar o que os jovens fãs buscam, mas também abraçar aqueles que assistiram Sean Connery no cinema. Ele conduz os acontecimentos com o herói, potencializando o medo em suas variadas formas: medo de ser substituído, medo de ser superado, medo da solidão. Como consequência, humaniza-o sem descaracterizá-lo. O vilão Raoul Silva, vivido brilhantemente por Javier Bardem, busca vingança contra M, ela o abandonou quando era um agente do MI6, mas, na realidade, sofre mais pelo ciúme do carinho que ela nutre por Bond. Ao fazê-lo claramente homossexual, ainda que, felizmente, fugindo da estereotipação, o roteiro entrega diálogos inesperados e engraçados, como quando ele tenta seduzir o herói, que está amarrado em uma cadeira. Ralph Fiennes (Gareth Mallory, o M que nos acostumamos a ver sendo interpretado por Bernard Lee, só que numa versão mais jovem), Naomie Harris (uma Eve Moneypenny muito mais interessante, tendo estabelecido uma real química com o herói, algo que torna o usual jogo de sedução entre os dois, muito mais verossímil) e Ben Whishaw (um Q adolescente, possibilitando um relacionamento de irmão mais novo com 007) completam a gênese da criação de Fleming, preenchendo lacunas que até os fãs mais esperançosos não acreditavam que seriam preenchidas. Daniel Craig está totalmente confortável no personagem, que desta vez enfrenta a si mesmo, física e mentalmente. Levado a buscar em seu passado, que sempre buscou esquecer, a força que necessita para continuar realizando seu trabalho, mesmo que o governo de seu país o considere uma relíquia dispensável em um mundo onde um jovem de pijamas em seu laptop pode ser mais eficiente que ele. Skyfall é a propriedade de sua família na Escócia, local rústico cheio de passagens secretas. Em uma delas reside a essência inocente daquela criança de outrora, elemento captado com sensibilidade nos créditos de abertura, mostrando o olhar do personagem escondido atrás dos escombros, como que se escondendo. Simbolicamente representa o único elo entre o garoto medroso que ele um dia foi e o homem audacioso que precisa ser. 


6 - 007 – O Espião Que Me Amava (The Spy Who Loved Me, 1977)
Pela primeira vez na franquia, James Bond iria ser acompanhado de uma Bond Girl tão inteligente quanto ele, um reflexo do crescente movimento feminista pelo mundo. A agente secreta da KGB Anya Amasova, também conhecida como Triplo-X, foi interpretada pela bela atriz nova-iorquina Barbara Bach, que foi escolhida por Broccoli ao fazer um teste, totalmente desnuda, para um filme italiano. Ela sabe que o espião foi o responsável pela morte de seu namorado, um sósia de George Lazenby, demonstrando a revanche moral dos produtores, jurando assim vingar-se de 007 ao final da missão. O duelo psicológico pleno em sedução entre os dois agentes mostra-se uma bem-vinda novidade no caminho da série.  O filme inovou também com uma ótima gadget, a Wet Bike, um projeto do que viria a ser o atual Jet Ski. Como se já não fosse suficiente, o filme contém uma cena histórica e eterna no cânone: o mergulho submarino do carro Lótus Esprit. Após uma perseguição dramática envolvendo motocicletas e helicópteros, o espião leva seu automóvel para o fundo do mar, surpreendendo seus inimigos ao se transformar em um submarino. O forte impacto que esta cena teve na época, elevou ainda mais o padrão de excelência para os próximos projetos, que acabariam tornando-se durante um breve período um show onde se priorizava o espetáculo, acrobacias cada vez mais ousadas, mesmo que visualmente pouco eficientes, deixando o roteiro um pouco de lado. Celebrando o décimo filme da lucrativa franquia, determinou-se que havia chegado a hora de uma canção que falasse, não dos vilões ou da trama, mas sim do próprio protagonista. Marvin Hamlish, compositor deste projeto, criou então a canção “Nobody Does it Better” (Ninguém Faz Melhor), interpretada com emoção por Carly Simon.


5 - 007 – Permissão Para Matar (Licence to Kill, 1989)
Utilizando uma cruel sequência inserida no segundo livro de Ian Fleming: “Live and Let Die”, os produtores decidiram criar para este filme, o último dirigido por John Glen, uma razão consistente para que o agente ousasse se rebelar contra seus superiores e planejasse cuidadosamente um ato de vingança. O traficante de drogas latino Franz Sanchez, interpretado magistralmente por Robert Davi, sequestra Felix Leiter (David Hedison), o velho amigo de James Bond, logo após seu casamento. Sanchez assassina friamente a esposa e, com extremo sadismo, assiste enquanto o homem tem suas pernas destroçadas lentamente por tubarões. Obviamente o agente irá partir em uma missão de vingança, onde utilizará sua inteligência para infiltrar-se na gangue do vilão e, ganhando sua confiança, destruí-lo moralmente e fisicamente. Impossível imaginar Roger Moore ou até mesmo Sean Connery, capitaneando obra tão crua, muito se disse na imprensa inglesa da época, sobre a ausência do estilo tradicional da franquia, parecendo mais com os filmes de ação que eram realizados pelos americanos. A importância de Timothy Dalton na franquia é, por algumas pessoas e sem razão, subestimada. Acredito que quanto mais estabelecida for uma franquia, mais interessantes são os desvios realizados, as obras em que os roteiros ousam novos caminhos, muitas vezes subvertendo suas próprias verdades, desafiando a fidelidade ao cânone.


4 - 007 - Cassino Royale (Casino Royale, 2006)
Daniel Craig aparenta ser um lutador de MMA em comparação com Sean Connery, porém a mudança é entendida se percebermos a real intenção dos produtores e de Martin Campbell: mostrar a transformação de uma pedra bruta em diamante, cortando as arestas sem piedade. O jovem agente sequer dá importância a qual bebida tomar, contanto que mate sua sede. Por pura imaturidade, cometerá o erro primário de se apaixonar. Este evento e suas consequências irão moldar indelevelmente o caráter do espião, levando-o a dar o primeiro passo rumo ao personagem estabelecido nos filmes da década de sessenta. A ausência de elementos fundamentais da franquia, como o personagem Q e a secretária Moneypenny, irritaram muito os fãs mais devotos. Faz-se preciso entender que esta fase representa mais um degrau na evolução do personagem. Como ficaria provado anos depois, não seria um definitivo adeus aos elementos clássicos, mas sim um promissor “até breve”. Os produtores decidiram dar um passo atrás, como que um respiro final antes do salto, algo que ocorre com frequência nesta produção, graças à excelente utilização do Parkour, que inclusive funciona também no nível narrativo, pois diz muito sobre a intempestividade desse 007 1.0, que atravessa paredes ao invés de abrir portas. Com essa decisão, não só conseguiram trazer novos fãs à franquia, como também abriram um leque de oportunidades nunca antes abordadas.


3 - 007 Contra Goldfinger (Goldfinger, 1964)
Tudo começou quando os empreendedores produtores Albert Broccoli e Harry Saltzman contrataram o diretor Guy Hamilton para substituir Terence Young, que estava indisponível na época. O novo diretor idealizou uma sequência inicial fora do contexto do filme, algo que não era usual na indústria, com o estilo das matinês de aventura nos cinemas, abraçando a literatura pulp. A cena em que o espião sai da água com seu equipamento de mergulho e revela por baixo dele um sofisticado e impecável smoking de paletó branco com um cravo na lapela, tornou-se a personificação exata do personagem. A ideia de Hamilton tornou-se uma tendência muito explorada, de forma cada vez mais inventiva, nos sucessivos filmes da franquia. Outro símbolo de 007 que faz sua estreia neste projeto é o seu automóvel Aston Martin DB5, munido com um assento ejetável, um localizador, muitos anos antes do GPS ser criado, escondido na mala, cortinas de óleo e fumaça, metralhadoras sob os faróis e placas rotativas. Terence Young havia sido o responsável pela elegância e charme do protagonista, que recebia sugestões nos sets de filmagem, mas os aspectos mais fantasiosos e criativos foram idealizados por Guy Hamilton. 


2 - 007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty´s Secret Service, 1969)
Independente dos problemas que causou e de sua equivocada atitude, eu ainda considero a atuação de George Lazenby coerente com o que o roteiro pedia. Ele interpretou um herói diferente do vivido por Connery, um homem sensível, que chora o trágico assassinato da mulher amada na cena mais impactante do filme. Suas cenas de batalha corporal ainda estão entre as melhores da série, podendo ser comparadas às demonstradas por Daniel Craig nos filmes mais recentes. O ponto forte do filme foi a magistralmente editada perseguição na neve, com a equipe de esquiadores profissionais liderados por Willy Bogner, realizando feitos esteticamente belos e que se tornaram um símbolo da franquia. É um filme formidável, desde sua sequência inicial musicada por John Barry, que espertamente remete aos filmes anteriores, passando pela bela montagem romântica ao som de “We Have All the Time in The World”, última canção gravada por Louis Armstrong, até seu desfecho surpreendentemente triste. Peter Hunt em sua única participação na cadeira de diretor realiza uma obra pungente e apaixonada, que merece obter um melhor lugar no coração dos fãs da série, até por sua fidelidade ao livro original.


1 - Moscou Contra 007 (From Russia With Love, 1963)
Neste segundo filme, a gênese do personagem torna-se completa com a inclusão do personagem Q, vivido em dezesseis filmes por Desmond Llewelyn, um armeiro da organização MI6 que oferece ao nosso herói as últimas novidades do ramo tecnológico, as famosas gadgets que sempre o salvam no último segundo. Ao longo da série estes equipamentos acabaram influenciando o mundo real, como a máquina de café expresso em “Viva e Deixe Morrer”, os telefones nos carros, os pagers e o jet ski, criado para “O Espião que me Amava”, tornando-se um grande equívoco analisá-los sem contextualizá-los em seu tempo. Outros elementos iniciados nesta obra, que iriam ser abraçados pelo inconsciente coletivo dos cinéfilos: as cenas pré-créditos iniciais, sempre estabelecendo um momento de tensão, muitas vezes um cliffhanger e a canção-tema, no anterior havia sido utilizada uma canção genérica: “Kingston Calypso”, sem relação com a trama, que desta feita foi interpretada de forma refinada por Matt Munro. Dentre as empolgantes sequências de ação, destaco a caótica batalha no campo cigano ao som da excelente trilha “007”, composta por John Barry, a perseguição ao agente perpetrada por um helicóptero, baseada livremente na cena clássica de “Intriga Internacional”, de Hitchcock, e o sensacional embate final entre o herói e o calculista Grant, que consegue emular com perfeição o senso de perigo e suspense construído no livro.