quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Devo Tudo ao Cinema - S01E10 - É Possível Fazer Cinema Sem Recursos? (4 de 5)

Continuando no tema, abordo alguns livros que podem facilitar esse processo.

Cine Noir - "A Marca da Maldade", de Orson Welles


A Marca da Maldade (Touch of Evil – 1958)
Ramon Vargas (Charlton Heston) é um chefe de polícia mexicano que está em lua de mel com sua mulher Susan (Janet Leigh) numa cidadezinha fronteiriça com os EUA. Quando um crime acontece, Ramon se confronta diretamente com Hank Quinlan (Orson Welles), o capitão da polícia local, corrupto e tirânico.


Por mais que o investigador mexicano, vivido por Charlton Heston, seja mostrado em destaque no cartaz, o corrupto capitão, vivido por Orson Welles, é o real protagonista da trama, o personagem com o arco narrativo mais interessante. Como é sugerido na simbologia visual de uma das melhores cenas no terceiro ato, ele é, moralmente, um valente touro, porém, cansado, ferido por banderillas, consciente de sua queda iminente.

A esposa dele foi assassinada no passado por um criminoso que escapou impune, uma informação que o roteiro inteligentemente insere nas entrelinhas, explicando assim a conduta dele, sua ausência de escrúpulos. Para ele, os fins, por mais injustos que sejam, justificam os meios. A conclusão da investigação prova que, a despeito de seus métodos repulsivos, ele estava certo, a sua sempre celebrada intuição havia se provado correta. Numa análise mais profunda, pode-se afirmar até que ele seja o herói da trama, quase sempre mostrado centralizado no enquadramento. Perceba a forma como ele se recusa a atirar num homem pelas costas, um traço de caráter que demonstra a existência de um código de conduta. Vargas, por outro lado, pode ser visto como uma versão jovem de Quinlan, ainda dominado por seus princípios éticos, quase sempre ocupando os cantos da tela, uma representação de sua insegurança profissional, e, principalmente, de seu desequilíbrio emocional.

Welles, mestre na composição das imagens, utiliza generosamente elementos do cenário como forma de agregar mais camadas de leitura às situações. Quando o seu personagem esquece algo relevante em uma cena, um aviso na porta já sinaliza para o público esse equívoco, que será revelado numa sequência posterior. Em seus filmes, apaixonado por mágica, ele incita seu público a vasculhar cada enquadramento, enquanto opera o truque bem diante dos olhos. A opção consciente pelo ângulo baixo ao enquadrar os personagens, numa sugestão subliminar, injeta neles um senso de ameaça, que, complementado pela atmosfera criada pela fotografia expressionista de Russell Metty, estabelece um retrato muito mais tangível de suas características, mais do que o roteiro poderia informar.

Analisando com atenção, o celebrado plano sequência inicial, ainda que brilhantemente conduzido, é o fator menos interessante do projeto. O ouro está na composição dos personagens e na forma como o roteiro desconstrói as convenções do gênero.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline", com opção de dublagem e um ótimo documentário (legendado) sobre a produção.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Inversão de Valores

“Ele roubou porque é pobre, não teve oportunidade na vida...”

Eu sinto profunda vergonha, estou realmente preocupado com essa nova mentalidade que parece estar se espalhando, com as notícias recentes sobre os arrastões. Justificar a crueldade, a deficiência de caráter, a má índole, com a carência de bens materiais, não é somente um argumento incrivelmente desonesto e cretino, mas, também, uma atitude irresponsável de omissão perante um processo político de base ideológica simplista, com interesses populistas e eleitoreiros na manutenção do caos. A gênese pode ser traçada facilmente, um calculado interesse em dividir a nação, com um discurso de ódio, em duas trincheiras: pobres e ricos. Como se a desigualdade social fosse um fenômeno moderno. A única pobreza que verdadeiramente limita o ser humano é a de caráter.

O filho da comunidade mais pobre, aquele que foi criado com dificuldade por uma mãe analfabeta, que trabalhou em dois empregos, por toda a vida, para garantir que o menino fosse “do bem”, sabe que há valor na leitura de um livro, algo mais importante do que adquirir celulares caros. Prevejo com temor um futuro onde a mãe de um preso, ao visitar o filho na penitenciária, irá parabenizá-lo pelo compreensível revide na sociedade injusta. E irei dizer: sou de uma época em que as mães de presos, por menos instrução que tivessem, sentiam vergonha pelas atitudes do filho criminoso. É uma questão de caráter, índole. O real problema que deveria ser o foco nas discussões é a parentalidade irresponsável, uma família composta por seis crianças, inseridas em uma realidade onde apenas um deles, com dificuldade, poderia se alimentar de forma digna. E como o sistema atua nessa questão? Incentivando, com benefícios materiais, a produção irresponsável de filhos. Basta somar 2 e 2, não é complicado. O adulto que não compreende essa equação cruel, que formará um legado terrível para as próximas gerações, não enxerga dois palmos diante do nariz, ou, na pior das hipóteses, está sendo beneficiado nessa manutenção do caos. O tipo de egoísmo imediatista que possibilitou tragédias históricas.

A desigualdade social sempre existiu, sempre irá existir. Somente o trabalho e o estudo dignificam o ser humano. A dificuldade é um obstáculo a ser superado, ela engrandece o esforço. A pobreza que deve ser temida é a de espírito. O caráter se fortalece nas situações mais complicadas. O estímulo ao coitadismo, o vitimismo manipulador, é o recurso dos incompetentes, estratégia política pouco original que visa apenas a permanência no poder. Essa absurda inversão de valores, caso não seja interrompida, será um câncer maligno no futuro próximo do Brasil. 

domingo, 15 de novembro de 2015

Guilty Pleasures - "Psicose 2" e "Psicose 3"

Link para os textos do especial:


Psicose 2 (Psycho 2 – 1983)
Psicose 3 (Psycho 3 – 1986)
O segundo tem sua parcela de fãs, o que, sinceramente, não consigo compreender. Ele pode até funcionar medianamente enquanto suspense, mas, com a revelação bombástica do terceiro ato, onde Norman Bates descobre que sua mãe no original não era a sua verdadeira mãe, convenhamos, sem exagero, o roteiro cospe na cara de Alfred Hitchcock e do autor Robert Bloch, que havia escrito uma excelente continuação, que não foi aproveitada na trama, uma crítica bem-humorada ao cinema de terror comodista que os norte-americanos realizavam no período.

O livro era uma tirada de sarro com a indústria, uma espécie de gozação com a necessidade mercadológica de lucrar com um projeto tão desnecessário quanto aquela refilmagem posterior comandada por Gus Van Sant. Já o filme, ainda que seja protagonizado por Anthony Perkins e uma encantadora Meg Tilly, esquece praticamente tudo o que foi estabelecido sobre o personagem no original. Ao invés do suspense e do uso da sugestão, o diretor Richard Franklin, filmando às pressas, transforma o protagonista, tridimensional no clássico e unidimensional nessa releitura, em uma atração interessante para o público jovem que vibrava com as mortes perpetradas por Jason Voorhees. O assassino perturbado vira um gentil candidato a funcionário do mês numa lanchonete, uma ideia que, por si só, já é um atentado à suspensão de descrença. A relação dele com a bela colega de trabalho, uma jovem que, na realidade, tinha a intenção de facilitar o caminho dele de volta para a insanidade, é tão inverossímil quanto os termos de sua liberação da penitenciária. Ela, em questão de dias, simpatiza com o colega e, num ato de incrível ingenuidade, começa a extravasar seus instintos maternos com ele.

O terceiro, terrivelmente mal dirigido por Perkins, retomaria, sem sutileza, algumas características de Bates, como o apreço pela taxidermia, porém, na maior parte do tempo, parece mais preocupado em proporcionar momentos de nudez gratuita. Uma cena, em especial, abusa do exploitation, quando uma jovem vítima tira o blusão na cabine telefônica, sem motivo algum, antes de ser esfaqueada. E, para reforçar o impacto, a cena insere um gore tolo, com ela pisando em cacos de vidro. Vale salientar que o mestre Hitchcock, no original, criou a cena imortal do banheiro, impactante até hoje, sem mostrar o facão penetrando o corpo de Janet Leigh. E, falando nela, acho bizarra a subtrama da freira fugitiva, que acaba atravessando o caminho de Norman, que fica obcecado por ela, já que é loira, com o mesmo corte de cabelo de Marion Crane, e, numa forçada de barra espetacular, tem as mesmas iniciais do nome: Maureen Coyle. O roteiro nos conduz a um final que, ouso dizer, está entre os mais toscos já imaginados no gênero. Nada é mais constrangedor do que ver um ótimo ator como Perkins, símbolo da era de ouro do cinema, acarinhando o braço decepado de sua mãe, enquanto repete aquele sorriso sombrio da cena final do filme original. É, literalmente, fim de carreira.

Os dois filmes são horríveis, indefensáveis, mas, por uma estranha razão, paro para assistir quando estão passando na televisão. O terceiro é praticamente uma comédia involuntária. A cena final do segundo, com Bates metendo uma pazada na cabeça da velhinha, é o único momento genuinamente interessante dos dois filmes. O ator chegou a retomar o personagem em uma sofrível quarta produção: “Psicose 4 – A Revelação”, provando que não tinha o menor senso crítico. 

"Aliança do Crime", de Scott Cooper


Aliança do Crime (Black Mass - 2015)
Um dos problemas principais do filme, sua estrutura convencional, altamente dependente de cenas expositivas, guiada por interrogatórios que conduzem a flashbacks, é temperada, de vez em sempre, por uma imersão no padrão do mafioso estereotipado estabelecido pelo “Os Bons Companheiros”, de Scorsese. Aquela agressividade exagerada no tom dos diálogos, até mesmo pra perguntar as horas, sem o cuidadoso estudo de personagem do já citado mestre, acaba potencializando apenas os aspectos caricaturais, algo péssimo em uma trama baseada em eventos reais. 

Johnny Depp é um ator esforçado, tem grande carisma, mas, desta feita, parece estar emulando, entonação de voz e maneirismos, aquela fúria contida de Jack Nicholson. As próteses no rosto, a careca, a maquiagem que deveria ser absorvida pela credibilidade da atuação, acaba se destacando nas cenas, uma distração que minimiza o impacto de várias sequências importantes. O cérebro segue consciente de que estamos vendo o ator em uma festa à fantasia. E, em dado momento, ainda no início do filme, por volta dos vinte minutos, o roteiro, de Mark Mallouk e Jez Butterworth, demonstra outro problema crasso, a falta de coragem. Vemos o Depp maquiado com o filho pequeno e a esposa, na mesa do café da manhã. O menino diz que estava sofrendo bullying e, pra se defender, esmurrou um coleguinha. Depp diz algo como: “Muito bem, filhão”, o que leva a esposa a reclamar. Cena típica de sitcom, com fotografia típica de sitcom. O protagonista então, por um generoso tempo, passa um sermão, indicando ao menino o real problema: O ruim não é a agressão, mas, sim, a agressão na frente de outras pessoas. A esposa, com a leveza de uma coadjuvante de “Friends”, responde: “Olha, acho que essa não é a melhor forma de se educar uma criança”. Por vários minutos, achei que estava no sofá de casa vendo um comercial de margarina na televisão. Ela é a esposa de um assassino, um mafioso, não há credibilidade alguma na forma como o roteiro, com mão pesada, conduz esse momento intimista do casal, que se estende por muito mais tempo do que deveria. Quando você se revira na poltrona, olha para o relógio e constata surpreso que se passaram apenas trinta minutos, sem sentir o menor interesse em acompanhar o desenrolar da história daqueles personagens, você percebe que o filme tem sérios problemas. 

Como recomendação, para aqueles que realmente se interessem em conhecer melhor a história do gângster Whitey Bulger, sugiro o documentário: Whitey: United States of America v. James J. Bulger, do ano passado, dirigido por Joe Berlinger. O diretor Scott Cooper faz o que pode com o fraco material à disposição, mas, apesar de todo o lobby que já se faz para o filme no Oscar, “Aliança do Crime” é muito pouco inspirado, com um ritmo moroso, coadjuvantes sem brilho, e salvo, na maior parte das vezes, pelo carisma do protagonista.