terça-feira, 13 de outubro de 2015

"Perdido em Marte", de Ridley Scott


Perdido em Marte (The Martian - 2015)
Estreando com um timing perfeito, já que a NASA recentemente afirmou haver água em Marte, esse é o primeiro grande filme de Ridley Scott em muito tempo. Arrisco ir além, após algumas incursões desastradas no gênero da ficção científica, o diretor consegue aqui um resultado que faz justiça aos seus clássicos: “Blade Runner – O Caçador de Androides” e “Alien – O Oitavo Passageiro”. Um misto de “Gravidade”, “Náufrago” e “Interestelar”, que consegue ser melhor que essas três produções. E vale mencionar que a solução encontrada para aprofundar o arco narrativo de um personagem que passa todo o tempo isolado, o ato de se manter gravando o registro de sua jornada, é mais verossímil que Tom Hanks e sua superestimada bola Wilson.

O elemento da ciência, especialmente, raramente foi tratado com tanto respeito no cinema, com o astronauta, vivido brilhantemente por Matt Damon, utilizando-a amplamente na superação de seus vários obstáculos, dado como morto por sua equipe em solo marciano, trabalhando o leitmotiv da potencialidade humana, uma visão otimista e intelectualmente madura, um contraste interessante em um período dominado pela distopia na indústria. Até mesmo o recurso do 3D, usualmente dispensável, é utilizado com esperteza pela fotografia de Dariusz Wolski, sempre se beneficiando da profundidade de campo, explorando a dimensão do planeta, o que intensifica sobremaneira a tensão e a claustrofobia de algumas cenas importantes. 

A composição tridimensional de Damon, indo da resiliência inconsequente ao desespero existencial, que facilita tremendamente o investimento emocional do público no terceiro ato, injeta humor na medida certa, demonstrando a segurança do roteiro de Drew Goddard, que adapta com fidelidade o ótimo livro de Andy Weir, sobrando espaço para referências inteligentes de várias mídias. Só por não haver qualquer envolvimento romântico clichê, o texto já merece palmas de pé. É contagiante testemunhar o esforço criativo do astronauta, numa elegante montagem que, com grande senso de ritmo, alterna suas aventuras, pequenas grandes conquistas e eventuais frustrações, com a angustiante interação de sua equipe na Terra, com destaque para as fortes presenças dos sempre competentes: Jessica Chastain e Chiwetel Ejiofor. 

“Perdido em Marte” é, acima de tudo, muito divertido. Elemento que gradativamente foi sendo extirpado da ficção científica, um reflexo de nosso tempo mais cínico. 

domingo, 11 de outubro de 2015

O. Henry e "Páginas da Vida"


Páginas da Vida (O. Henry’s Full House – 1952)
Escrever sobre esse filme foi uma ótima desculpa para reler “Os Melhores Contos de O. Henry”, edição do Círculo do Livro, saboroso fruto de um dos meus garimpos nos sebos cariocas. Gosto demais do estilo desse autor injustamente tão pouco conhecido no Brasil, crônicas objetivas, traços rápidos que estabelecem bem os personagens e o contexto das situações, sempre com uma espirituosa reviravolta no final. Um humor que continua tão eficiente quanto em sua época, talvez, até mais moderno em sua estrutura, do que grande parte dos textos cômicos atuais. E aprecio, principalmente, a mensagem inerente aos textos, que celebram valores e princípios há muito esquecidos, como no meu favorito: “O Presente dos Magos”, que recebeu uma excelente adaptação nessa antologia, dirigida por Henry King e protagonizada por Farley Granger e a belíssima Jeanne Crain, fechando de forma magnífica a obra. O sacrifício de um casal, que aprende, na véspera do Natal, o real significado do amor.

A cereja no bolo é a participação do escritor John Steinbeck, em rara aparição na frente das câmeras, como o narrador de cada trama. Como em toda antologia, a qualidade varia bastante, porém, dentre as cinco histórias, não há sequer uma ruim. A mais irregular, “O Resgate do Chefe Vermelho”, dirigida por Howard Hawks, consegue atingir pontos hilários, com a dupla de sequestradores atrapalhados percebendo que o pequeno refém é osso duro de roer, conduzindo a um desfecho brilhante, que obviamente não revelarei. A terceira, o ponto alto do projeto, “A Última Folha”, dirigida por Jean Negulesco, adaptada de um dos contos mais emocionantes do autor, consegue acertar no tom do melodrama, sem se debruçar demais na sacarina. Acredite nesse escriba, quanto menos você souber sobre essa trama, melhor será a experiência, e, não tenha dúvida, você vai precisar de muitos lenços ao final.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora: “Obras-Primas do Cinema”, com ótimo material extra, curtas e um bom documentário sobre a vida e obra do escritor O. Henry.

"Mentes Que Brilham", de Jodie Foster


Mentes Que Brilham (Little Man Tate – 1991)
Aos sete anos, Fred (Adam Hann-Byrd) demonstra ter talentos extremamente precoces, se destacando em áreas distintas como matemática e artes. Ele tem consciência de seu dom, da mesma forma que conhece a responsabilidade que ele lhe traz, o que o torna uma criança hipersensível. Sua mãe (Jodie Foster) é solteira e trabalha como garçonete em um restaurante chinês. 


Jodie Foster, nesse que foi seu primeiro trabalho na direção, consegue estabelecer, no superior primeiro ato, a beleza na relação entre a mãe, a garçonete vivida pela própria Jodie, e o filho superdotado, o elemento mais bem desenvolvido na trama. O garoto, vivido por Adam Hann-Byrd, uma das melhores interpretações infantis do cinema, evita os radicalismos do estereótipo de uma criança-gênio. A sua segurança, seu controle emocional, chega a contrastar com a abordagem equivocada de alguns colegas em cena, como a do menino arrogante que pratica bullying, sempre alguns tons acima do necessário.

O roteiro de Scott Frank, que anos depois faria “Minority Report”, acerta ao manter os personagens longe da caricatura. Ninguém é totalmente bom ou ruim, o que engrandece o conflito entre a mãe e a personagem de Dianne Wiest, que, apesar de querer ajudar a criança, com quem se identifica, demonstra pedantismo e certa tendência ao abuso de poder, por se considerar, devido ao seu intelecto, um degrau acima dos comuns. O tema da integração da criança superdotada na sociedade é muito bem trabalhado, evidenciando o conflito entre o método materno de superproteção/isolamento e o método da psicóloga, que estimula a valorização do diferencial dele como algo a ser exposto, colocando ele em competições, um farol das potencialidades humanas. O garoto acaba descobrindo que o melhor caminho é o meio-termo, a união do carinho protetor e da consciência do talento. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora: “Classicline”.

Guilty Pleasures - "Top Gang 2 - A Missão"

Link para os textos do especial:


Top Gang 2 – A Missão (Hot Shots! Part Deux! – 1993)
Como tentar transportar o leitor adolescente de hoje para o contexto em que vivi a experiência desse filme? Era uma realidade tão diferente. Pra começo de conversa, consigo me lembrar da exata sensação de euforia que sentíamos ao adentrar uma locadora de vídeo, com o intuito de selecionar quais títulos iriam nos consumir o tempo do final de semana. Uma boa comédia, mais do que qualquer outro gênero, era o sinônimo de família reunida. Num final de tarde, estava eu, com meu pai, na “RG Vídeo”, quando o atendente sinalizou a devolução do mais novo fenômeno de locações, a sequência de “Top Gang – Ases Muito Loucos”. O grande atrativo, você veja só, era um bônus que vinha antes do filme, um trecho do grande sucesso da época: “Mr. Bean”, se não me falha a memória, o encontro dele com a rainha da Inglaterra. Eu juro, tinha gente que alugava mais pra poder rir do Rowan Atkinson, em franca ascensão no Brasil naquele ano.

O pôster que eu tinha no meu quarto na infância não deixa negar, o Rambo era um dos meus heróis favoritos, o livro de David Morrell, a versão de bolso da série: “Campeões de Bilheteria”, era minha “Turma da Mônica”, então fiquei entusiasmado com aquela paródia, esse era o grande atrativo. O primeiro filme é tecnicamente melhor, mais redondo, focando as brincadeiras em apenas um projeto, porém, não tinha me agradado muito. Já o segundo, inferior em todos os aspectos, sempre me fez rir. O letreiro inicial, com o datilógrafo tendo dificuldade em escrever uma palavra, dá o tom da palhaçada, um humor menos elegante do que “Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu” e “Corra Que a Polícia Vem Aí”, com um clima constante de brincadeira da galera do fundão da sala de aula. Comparado aos vergonhosos similares realizados hoje em dia, pode ser considerado uma obra-prima.

Saddam Hussein vibrando ao assistir Arsenio Hall na televisão, biscoitinhos servidos de um busto de Abraham Lincoln, duas das várias piadinhas bobas que o roteiro joga logo nos primeiros minutos. É trivial, não há como disfarçar, risada sem contundência. O negócio começa a melhorar quando acompanhamos a viagem do Coronel Trautman genérico, vivido pelo próprio Richard Crenna, para a Tailândia, ao encontro de Topper Harley, Charlie Sheen na melhor fase de sua carreira, antes de virar uma paródia de si mesmo. Essa sequência conseguia homenagear, ao mesmo tempo, “Rambo 3” e “Kickboxer – O Desafio do Dragão”, duas das fitas que eu mais alugava. Nunca mais eu conseguiria ver a cena dos punhos dos lutadores no vidro sem sentir falta das jujubas e do doce de leite. Era a maior curtição ficar tentando captar todas as referências, que, vale dizer, não eram nada sutis. O mais interessante é que muitas das falas mais engraçadas eram tiradas quase que ipsis litteris dos diálogos em “Rambo 3”, salientando o fato de que o diretor Jim Abrahams estava conduzindo a paródia de uma paródia que se levava a sério. São muitas as cenas que funcionam no segundo ato. Só de me lembrar do momento de tensão sexual no banco de trás da limousine, ao som de “I’m So Excited”, com o motorista aproveitando a vista com óculos 3D e comendo pipoca, não consigo segurar o riso. Eu veria um filme inteiro composto dos bastidores das filmagens desse filme, imagino a diversão desse elenco no set.

É uma pena que não tenham realizado uma terceira parte. Com certeza seria mais um prazer culposo nesse especial.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Entrevista com Alice Gonzaga, da "Cinédia"


Em mais uma entrevista exclusiva para o “Devo Tudo ao Cinema”, um verdadeiro presente para os cinéfilos dedicados, dona Alice Gonzaga, filha do visionário criador do primeiro estúdio de cinema brasileiro, a “Cinédia”, aborda a situação cultural do Brasil de hoje, as dificuldades de se manter um legado em uma nação que não valoriza sua memória.


O - O seu nome, Alice, não virou sinônimo apenas da Cinédia, como guardiã desse legado, mas, também, sinônimo de resistência cultural em uma nação onde o sistema parece querer, gradativamente, desestimular na juventude o apreço pelo passado. Sem o respeito pelo passado, é impossível compreendermos o presente, além de facilitar tremendamente a manipulação no futuro. Como exemplo, eu cresci assistindo aos clássicos do cinema em exibições na televisão, horário nobre e horário da tarde. Hoje isso é quase uma utopia. Como você enxerga essa espécie de indústria nacional do desinteresse?

A - Não sei se sou sinônimo de resistência, mas luto pela memória do cinema, do cinema brasileiro e da cultura brasileira. Rejeitar a memória é rejeitar a experiência e a possibilidade de descobrir algo que não está lá no passado, mas aqui ao lado. Tudo que sobrevive ao passado está sempre em nosso presente. É um tiro na cabeça desperdiçar conhecimento, afeto, sentimento, emoção, lazer e tudo o mais que a cultura pode proporcionar, além de ser um ativo que o país não deveria jogar fora. Vivo agora um momento kafkiano na trajetória da Cinédia. Existimos como empresa, temos 85 anos de existência, filmes que são considerados clássicos, e, agora, quando surge um mercado promissor com a TV a cabo, os filmes anteriores a 2008 não preenchem cota de lei, apenas “meia cota”, que leva ao desinteresse comercial, cultural, histórico. É um absurdo! Na era da internet, quando a lógica é a disseminação do conhecimento, é a disponibilização das obras, a televisão brasileira, que já foi assim no passado, chega ao absurdo de colocar tudo on demand e negar à quase totalidade dos brasileiros o acesso ao que esses mesmos brasileiros financiam com o suor do seu rosto. É uma baita contradição e uma injustiça.

O – Como era o Adhemar Gonzaga, pai? Acredito que a música exerce uma importância enorme na vida de mentes criativas. Quais músicas ele gostava de escutar em casa? Quais livros ele apreciava ler? 

A - Adhemar Gonzaga era criativo, mas à sua maneira. Ele não ouvia música ou lia regularmente. Toda sua vida foi voltada para o mundo do cinema, desde pequeno. Mas por conta do cinema ele entrou em contato com os espetáculos ao vivo, frequentou os espaços do samba, viveu as plateias e os bastidores do teatro da praça Tiradentes. Das artes, a que ele praticou mesmo foi o desenho e a caricatura, e, obviamente, o cinema, para onde tudo convergia.

O -  Lá fora, cineastas como Martin Scorsese, Coppola e Spielberg, verdadeiramente apaixonados, contribuem para manter viva a história da arte, patrocinando restaurações de obras que se perderiam. Acredito que essa é uma das razões que impedem que, no Brasil, amadureça uma indústria de cinema de nível competitivo: os atores e cineastas enxergam o trabalho de forma muito imediatista, pouco valor dão ao passado. Os poucos que tentaram nutrir uma indústria autossustentável, como seu pai e Mazzaropi, foram massacrados pela crítica, desestimulados de todas as formas possíveis. O governo tem sua parcela de culpa, claro, porém, não falta aos realizadores de cinema brasileiros o mesmo tipo de empenho pela própria classe? 

A - Olha, fazer cinema no Brasil sempre foi muito difícil e isso criou uma cultura imediatista, que teve seu lado bom – brigar pela existência de um cinema brasileiro – e ruim – verdadeiramente não se olha para o passado. O ponto central dessa questão é que não formamos uma tradição e isso está diretamente ligado ao reconhecimento de um passado, de uma história, de uma cultura cinematográfica própria. Meu pai, Adhemar Gonzaga, tinha consciência disso e insistiu em preservar documentos, filmes, tudo. Só assim poderia criar um sentimento de classe, um projeto de cinema que soubesse de onde vinha, para onde iria. Fazer por fazer, todo mundo pode fazer, mas, fazer consciente, dando uma contribuição efetiva, já é outra coisa.

O – Como a senhora enxerga a valorização atual das chanchadas pela crítica, quando, durante muito tempo, elas eram injustamente tratadas como um produto menor? A qualidade de produção era impecável, os figurinos e os cenários, grandiosos. Os musicais da MGM, da década de 50, muitos deles eram bregas, inferiores aos musicais que nós fazíamos, porém, ninguém reclamava. Essa reação era uma variação do complexo de vira-latas? 

A - Essa questão é muito complexa. Vem da própria formação do Brasil, que teria um povo de segunda classe, inferior, sem capacidade de criação sofisticada. Por outro lado, sabemos que o colonialismo não é apenas uma questão de “complexo de vira-lata”. O colonizador cria uma situação mental, como argumentava Fanon, e isso atravessou boa parte da crítica cinematográfica brasileira, que partia sempre da premissa de que o filme estrangeiro era melhor por ser “mais” (caro, luxuoso, grandioso etc.). O equívoco está em desconsiderar o próprio filme brasileiro como fonte do que se quer argumentar, pró ou contra, e sem comparações em um primeiro momento. E quando se comparar deve-se sempre ter em mente que os contextos são sempre diferentes. Há racismo no Brasil e nos Estados Unidos, como há cinema nos dois países, mas o racismo de lá não é da mesma natureza e intensidade do daqui. Compreender, um e outro, é se abrir às especificidades e características locais, sem partir de um ideal ou paradigma.


O – Comente um pouco sobre o profissionalismo das equipes que conduziam a Cinédia. Eram filmes realizados sem qualquer apoio governamental, muito pelo contrário, o governo quase sempre atrapalhava o processo. A paixão era o que movia o empreendimento. O que o cinema nacional de hoje poderia aprender com o cinema que era realizado pela Cinédia?

A - A Cinédia fez a maior parte de seus filmes em outro momento histórico. O cinema realizado pela Cinédia era uma vontade de ser um cinema forte, visto pelo público, um cinema brasileiro com temas brasileiros. O padrão de produção era profissional na medida em que o sistema de estúdio é muito mais regrado e hierarquizado do que hoje, quando se tem grandes equipes, mas muitos parecem apenas estar vagando pelo set, estando ali às vezes apenas para servir o cafezinho. O que talvez a Cinédia pudesse ensinar aos cineastas e profissionais de hoje é o comprometimento com uma causa, a da arte do cinema, qualquer que seja a sua convicção a esse respeito. Sobre o papel do governo, é preciso lembrar que meu pai já solicitava essa participação, embora a definição do que o governo deve fazer seja sempre uma discussão a ser feita dependendo do contexto.

O – A senhora acredita que deveria haver uma isenção do pagamento da Condecine, para a exibição de filmes clássicos brasileiros restaurados na televisão? Esse tipo de coisa não é mais um empecilho, um elemento desmotivador, que trabalha contra a preservação da memória cultural brasileira? 

A - Deveríamos sim criar uma isenção, pois o que a Condecine fez com o filme antigo foi promover a sua desvalorização. Paga-se pouco porque é antigo, e o líquido desse pagamento fica com o estado, que deveria estar trabalhando para difundir o patrimônio acumulado junto à sociedade e não taxando filmes que já pagaram top do tipo de imposto no passado e estão depreciados economicamente, mas não culturalmente. Caso seja preciso cobrar a Condecine, que o dinheiro acumulado com a Condecine estimule a indústria, preservação e difusão do cinema brasileiro. Por que apoiar apenas filmes novos se cobra de todos? Por que financiar distribuição de filmes e desprezar a distribuição de clássicos e obras antigas? Por que não apostar em todos os tipos de ativos, os novos e os antigos?

O – Como foi para a senhora abraçar a responsabilidade desse legado, após o falecimento de seu pai?  Foi uma atitude muito bonita, mas, tenho certeza, uma decisão tremendamente difícil, ainda mais tendo encarado esse trabalho sozinha, cara e coragem. 

A - Sempre estive acompanhando o movimento do estúdio, da empresa, da vida de meu pai. Sempre tive consciência dos filmes da Cinédia. Desse modo, a responsabilidade já existia bem antes da morte de meu pai. Muito antes, talvez, desde minha infância. Na hora h, não sabia bem o que fazer, pois como mulher não tinha formação para assumir um negócio, ainda mais de cinema, mas segui em frente. Para mim tratava-se de preservar tudo, pois pensava no arquivo de documentos, que sempre fora cuidado por mim e por meu pai. Assim, não foi uma decisão propriamente difícil, em 1971, quando virei diretora. A rigor, não tinha noção do que vinha pela frente. Hoje, com o conhecimento e vivência que adquiri, talvez não aceitasse. A decisão foi repentina. Assumi sem saber o que vinha em seguida. Até hoje me surpreendo com minha coragem e desinibição, pois não fui educada para tal. E nunca me passou pela cabeça assumir. Entrei, gostei, mudei minha vida por completo. E não me arrependo! Fiz um trabalho que considero bonito, sério e importante. E espero continuar. Temos muito ainda a fazer.


O – Em qualquer nação séria, que valorizasse a cultura, a senhora seria considerada um patrimônio nacional, guardiã do legado da Cinédia, amparada de todas as formas, no intuito de seguir realizando seu trabalho, restaurando e preservando as obras, com conforto. Essa, infelizmente, não é a realidade. Como as pessoas podem ajudar efetivamente, com doações para a ONG? Comente isso e, também, como se pode contribuir.

A - Todos devem trabalhar e lutar pelo que acreditam. Uma das lutas atuais do campo da cultura é criar um comportamento novo no empresariado e na sociedade brasileiras, comprometendo-os não só com os tão necessários recursos financeiros, mas com uma atitude de valorização pública das obras artísticas e culturais. Nada de aplicar o dinheiro em sua própria “instituição cultural”, mas apoiar e apostar em quem dedica uma vida a criar e a preservar. Em vez de comprar um quadro (ou um filme) para sua coleção particular, doar a obra a um museu (ou a uma cinemateca). Isso é consciência pública e não apenas mero negócio. Tenho uma ONG, o Instituto para a Preservação da Memória do Cinema Brasileiro – IPMCB, que cuida não só dos filmes da Cinédia, mas dos de muitos outros produtores e diretores, como os do Moacyr Fenelon. Aceitamos sim, doações e patrocínios, pois não é um trabalho simples ou barato.

O – Sou apaixonado por “Limite”, de Mário Peixoto. É um filme que eu adoraria ter em DVD, na minha estante, lançado por uma distribuidora séria, como a “Versátil”, que já lançou “O Ébrio”, outra pérola. Imagino que seja difícil responder isso, mas, dentre todos os filmes da Cinédia, qual é o seu favorito? 

A - "Limite" foi lançado em DVD pela Cinemateca Brasileira. Os meus preferidos são “Bonequinha de Seda”, “O Ébrio”, “Alô! Alô! Carnaval!” e “O Cortiço”. Mas gosto de todos os filmes. Todos estão debaixo de minha asa. Todos tem uma característica que os diferenciam. Todos documentam uma época, costumes, a cidade,  a maneira de ser,  guarda roupa etc. Mas precisamos nos colocar na época em que foram produzidos e com os recursos disponíveis. A juventude tem que ter uma ideia do que foi produzido e reverenciar os atores e a equipe técnica, pois todos os filmes foram produzidos com muito sacrifício e garra.  

O – Dona Alice, eu quero agradecer muito sua generosa participação. Em nome de todos os brasileiros apaixonados pelo cinema, te agradeço pelo empenho incansável por todos esses anos. Por gentileza, deixe uma mensagem final para meus leitores.

A - Eu é que agradeço a oportunidade de dizer algumas palavras a você e seus leitores. A mensagem que deixo é que cada um de nós cuide do que temos sob nossa guarda. É um passo importante para o Brasil. É assim que se constrói a memória, a despeito da indiferença daqueles que tem a responsabilidade nas mãos e não a exercem. Se eu não entrasse na Cinédia, não corresse atrás, os filmes estariam todos perdidos. As palavras Restauração ou Recuperação não existiam. Garanto que servi de exemplo para alguns...