terça-feira, 10 de março de 2015

Sétima Arte em Cenas - "Hannah e Suas Irmãs"

Link para os textos do especial:


Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters – 1986) 
A filha mais velha de um casal de artistas, Hannah (Mia Farrow) é uma dedicada esposa, mãe carinhosa e atriz de sucesso. Uma leal defensora de suas duas confusas irmãs: Lee (Barbara Hershey) e Holly (Diane Keaton), ela é também a espinha dorsal de uma família que parece se ressentir de sua estabilidade quase tanto quanto dependem da mesma. 


Na cena mais bela do filme, a que justifica sua inclusão nesse especial, Woody Allen captura aquela que considero a melhor explicação para a vida. Seu personagem acreditava estar prestes a morrer, entristecido também pela impossibilidade de sua esposa engravidar, sem paixão com relação ao futuro, então ele caminha pela cidade sem rumo por algumas horas, guiado apenas pela centelha de esperança que se recusa a ceder perante a doença fatal que acredita ter. Ele chegou a apontar o cano de um rifle para a própria cabeça, acreditando não haver motivação alguma em sua existência. Nada parecia fazer sentido, até que ele entra numa sala de cinema e, mesmo naufragando em um oceano de depressão, ele se surpreende sorrindo com uma comédia dos Irmãos Marx. 

O personagem conclui que, mesmo a vida sendo um passeio numa montanha-russa de mais baixos que altos, que aqueles breves momentos de conforto e alegria valem o preço do ingresso. E o elemento desconhecido inerente a todos nós, que o perseguia com tantos questionamentos, nunca seria plenamente revelado, independentemente do quão insistentemente perguntasse. Ele então relaxa na poltrona, com todos os seus conflitos internos sucumbindo ao peso daquele leve entretenimento, e se permitiu o prazer da diversão. O ânimo adquirido naquela sessão motivou seu espírito a enfrentar mais um dia. E, um ano depois, envolvido em uma relação muito mais feliz com outra mulher, num ato inesperado do destino, ele se emociona por ter realizado o sonho de ser pai.

Tesouros da Sétima Arte - "Nenette, a Meia-Irmã"

Link para os textos do especial:


Nenette, a Meia-Irmã (Demi-Soeur – 2013)
Nenette é uma senhora que tem a idade mental de uma criança de oito anos. Após a morte de sua mãe, ela parte em busca do pai, mas acaba conhecendo seu meio irmão Paul, um farmacêutico ranzinza.


Essa adorável comédia é injustamente pouco conhecida, sequer foi lançada em DVD por aqui. O projeto, comandado e protagonizado por Josiane Balasko, de “Les Bronzés”, ótima produção de 1978, também pouco conhecida pelos brasileiros, diverte o espectador com uma trama simples, até previsível. O roteiro toma liberdades surreais, utilizando pastilhas de ecstasy como um artifício saído de uma obra de Frank Capra, capazes de modificar totalmente o caráter de um personagem. É tolo, inverossímil, assim como a união da protagonista com uma banda de metaleiros, o evento nesse road movie que dá o gatilho para o plot twist, mas a execução é encantadora.

E funciona exatamente por causa do carisma de Balasko, com visível inspiração em Jacques Tati e na obra de Lewis Carroll, acompanhada de sua inseparável tartaruguinha, transmitindo toda a pureza de uma criança no corpo de uma senhora. Michel Blanc, que vive o sistemático meio-irmão farmacêutico, evidencia em sua interpretação a solidão como conforto imposto após vários traumas que a trama inteligentemente não revela. Ele rejeita o carinho exagerado de sua meia-irmã como forma de evitar o sofrimento de uma nova entrega emocional, uma proteção que é quebrada com a adição da droga em seu organismo. Em sua interação com o filho, o roteiro insinua que ele já foi um excelente pai, ainda que o jovem tenha se acostumado com a faceta negativa dele.

Odiado pela crítica internacional em sua estreia, que apontou apenas falhas, esse belo filme merece mais atenção por seus méritos.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Obrigado, sempre

Essa é a postagem de número 500. Um momento perfeito para que eu agradeça novamente o seu carinho, caro leitor, cara leitora. 

Você que acompanha todos os especiais do blog, que compartilha o link com os amigos, que dedica alguns minutos nos comentários, esse estímulo diário que faz valer todo o esforço de se entregar um trabalho de qualidade, sem patrocínio algum. 

O sonho de se trabalhar com Arte numa nação em que poucos valorizam a memória cultural, a palavra escrita. Uma nação em que poucos leem textos com mais de três parágrafos. 

De minha parte, prometo continuar enfrentando audaciosamente essa terrível realidade, jamais subestimando a inteligência do meu público, procurando sempre a fuga do óbvio. 

E, para isso, conto com o seu apoio. Juntos, compartilhando emoções nesse mundo de sonhos, conseguiremos atravessar a árdua experiência da vida com mais leveza. 

Muito obrigado pela companhia até esse momento. Que venham as próximas 500 postagens...

Octavio Caruso

quinta-feira, 5 de março de 2015

Alfred Hitchcock - "Interlúdio"

Links para os textos anteriores sobre filmes do diretor:


Interlúdio (Notorious – 1946)
Alicia Huberman (Bergman) é uma alemã naturalizada americana, convocada pelo agente secreto americano Devlin (Grant) para uma missão no Rio de Janeiro. Como espiã, Huberman terá que se infiltrar numa organização nazista que vem atuando no Brasil e, para isso, deverá casar-se com Alex Sebastian (Claude Rains), líder da organização.


Um dos pontos que considero mais interessantes nessa obra-prima de Hitchcock é a forma como ela se encaixa, de maneira perfeita, na expectativa de quem o assiste. Caso você esteja procurando os truques do mestre do suspense, você terá uma verdadeira aula. Caso sua namorada esteja interessada em investir emocionalmente em um bom romance, ela receberá simplesmente o melhor. A trama, escrita por Ben Hecht, com uma inteligente execução, satisfaz ainda como thriller político, filme de espionagem, podendo ser também considerada uma das melhores no gênero Noir. O que impressiona é a facilidade do diretor em trafegar por esses caminhos, diferentes gêneros, entrecruzando-os com total segurança e com seu ácido senso de humor.

A narrativa é simples, um caso clássico de triângulo amoroso, ambientado nos escombros psicológicos da Segunda Guerra Mundial. O habitual uso do McGuffin, desta feita, a chave que abre a adega e a amostra de urânio escondida nas garrafas de vinho, pensada um ano antes da tragédia em Hiroshima, transforma situações comuns em momentos de grande tensão para o espectador. A câmera nos ilude apresentando uma festa em larga escala, somente para nos conduzir a observar atentamente a pequena chave que a personagem vivida por Ingrid Bergman esconde na mão, um objeto que, em sua pequenez, representa a resolução de todo o conflito proposto pelo roteiro. Outra cena que simboliza esse incrível poder alquímico de criar sequências densas a partir de eventos comuns: o longo beijo do casal. O Código Hays censurava beijos na boca que durassem mais de três segundos, obstáculo que Hitchcock audaciosamente ultrapassou ao inserir, entre uma carícia e outra, linhas de diálogo. Sua câmera nos faz voyeurs, apoiados no ombro de Cary Grant, enquanto a belíssima Bergman demonstra claramente que apenas realizou a sua perigosa missão, diferente de Mata Hari, por estar perdidamente apaixonada por ele. O ato de redenção, como forma de compensar os crimes cometidos pelo pai nazista, é pura consequência da paixonite dela, que se mostra, ao longo da trama, emocionalmente imatura e carente, ainda que revestida por um verniz de segurança que, salientado logo de início, é reforçado pelo vício no álcool.

Ao optar por filmar em primeira pessoa a sequência de introdução dela no ambiente do personagem de Claude Rains, o diretor evidencia que a mão que está sendo beijada é a da espectadora, ele busca a total identificação do público feminino nessa trama, uma espécie de tortura cinematográfica. Ele sabia que o filme seria um sucesso, quando o público se sentisse ameaçado, sofresse junto com os protagonistas. Ele priorizava mais os dez minutos de angústia que poderia conquistar, contando ao público que algo terrível iria acontecer, fazendo dele cúmplice, do que assustar os espectadores desprevenidos por alguns segundos. O plot twist sutilmente exposto no título original mostra o personagem de Grant, um espião profissional, altamente competente, percebendo que o nascimento de um inesperado sentimento de amor pela jovem, algo notório desde a primeira troca de olhares, superou toda a desconfiança essencial em sua função. Como não se apaixonar por Ingrid Bergman?

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com um documentário sobre a produção, pela distribuidora "Versátil", na caixa "O Cinema de Hitchcock", contendo também: "Quando Fala o Coração", "Rebecca - A Mulher Inesquecível", "Os 39 Degraus", "Correspondente Estrangeiro" e a primeira versão de "O Homem Que Sabia Demais".

terça-feira, 3 de março de 2015

Cine Noir - "A Dália Azul"

Link para os textos do especial:


A Dália Azul (The Blue Dahlia – 1946)
O capitão Johnny (Alan Ladd) retorna da guerra junto com seus dois camaradas, Buzz (William Bendix) e George (Hugh Beaumont). Separando-se deles para voltar para a sua esposa Helen (Doris Dowling), ele descobre que ela está tendo um caso extraconjugal. Tentando sair da cidade sob uma forte chuva, ele encontra a misteriosa Joyce (Veronica Lake), que não sabe quem ele é.


Essa foi a primeira, e única, incursão do grande escritor pulp Raymond Chandler, já com alguns filmes adaptados de seu trabalho, como roteirista em Hollywood. O estúdio Paramount estava empolgado com o sucesso de “Pacto de Sangue”, lançado dois anos antes, então procurava alguma trama que mantivesse o padrão de qualidade, logo, ninguém melhor que Chandler, de obras-primas literárias como: “O Longo Adeus” e “A Dama do Lago”, para essa missão, comandada pelo diretor George Marshall. Evitando qualquer risco, apostaram na química da dupla: Alan Ladd e Veronica Lake, que já haviam conquistado o público em dois projetos. Como forma irônica de salientar que o retorno do herói será fadado pela ilusão e pelos sonhos desfeitos, a câmera inicia mostrando “Hollywood”, o destino do ônibus que o conduz.

É uma pena que a solução para o crime tenha sido censurada pelo Ministério da Marinha, que não gostou de ver que no roteiro original, um oficial com uma placa de metal na cabeça, perturbado psicologicamente após a guerra, teria cometido o homicídio. Dá para notar que a substituição genérica foi feita na última hora, já que todo o arco narrativo do personagem é trabalhado nesse sentido. O desfecho perde um pouco o impacto dramático, mas não é um problema que prejudique demais. Essa confusão acabou desmotivando o escritor, que sofreu com a atitude dos produtores, até que conseguiu finalizar o roteiro totalmente bêbado, sendo indicado ao Oscar no ano seguinte. A fotografia de Lionel Lindon, responsável por filmes como “Sob o Domínio do Mal” e “Grand Prix”, evita trabalhar muito o contraste luz/sombras, elemento essencial no gênero, entregando um visual único. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".