terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tesouros da Sétima Arte - "7 Caixas"

Links para os textos do especial:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/tesouros-da-setima-arte.html



7 Caixas (7 Cajas - 2012)
Como sempre digo, o cinema necessita apenas de boas ideias. O baixo orçamento, a ausência de uma indústria nacional, nada é desculpa para a carência de criatividade. E é exatamente essa lição que os roteiristas e diretores paraguaios Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori entregam com esse thriller, que traz referências que vão do alemão “Corra, Lola, Corra” ao trabalho de câmera de Danny Boyle, compondo um retrato autêntico da pobreza de personagens que são os órgãos responsáveis pela vida caótica de um mercado popular em Assunção. 

O protagonista, vivido competentemente pelo jovem Celso Franco, sonha com o escapismo transmitido pelo entretenimento televisivo, ferramenta mostrada como eficiente construtora de desejos. Ele somente se interessava em adquirir um celular por causa do recurso de filmagem. Ao se deparar com sua própria imagem projetada naquelas telas mágicas, um leitmotiv que se repete com variações algumas vezes durante o filme, o garoto pobre encontra alguma esperança naquela existência momentânea e ilusória, uma possibilidade de fugir do seu cotidiano triste. Para conseguir o dinheiro necessário para a compra do celular, ele aceita uma proposta de serviço enigmática: transportar rapidamente sete caixas lacradas de madeira, conteúdo desconhecido, até um destino que ele somente descobrirá durante o trajeto. Quanto menos se souber da trama, melhor será a experiência. Como ponto negativo no roteiro, mas perdoável no contexto da obra, uma excessiva utilização de coincidências. Por exemplo: uma cena desnecessária que é inserida no primeiro ato apenas como forma de mostrar que um policial X flerta com uma personagem, apenas para que no segundo ato esse mesmo policial, dentre os vários que poderiam estar presentes no local, servisse como facilitador na resolução de um conflito narrativo.

Ainda que o projeto surpreenda na qualidade do suspense que estabelece, o que realmente o eleva a um patamar superior quando comparado a outros similares é a perfeita utilização do dinamismo na missão do garoto no estilo clássico dos filmes de ação americanos, com a inclusão de vários elementos com interesses conflitantes e câmeras que atravessam por baixo de mesas em perseguições empolgantes, como um McGuffin “hitchcockiano”, enquanto o verdadeiro conto moral envolve a subtrama de uma jovem grávida que está prestes a dar à luz. A mesma mulher que é estabelecida logo nos primeiros minutos como alguém que tenta desesperadamente vender o celular que se torna o objeto de desejo do protagonista. O desfecho do arco narrativo da mulher irá contrastar contundentemente com o do garoto, deixando clara a intenção do roteiro, uma mensagem muito mais perene que qualquer convenção de seu gênero. Podemos ficar fascinados pelas câmeras que seguem, em POV, as rodinhas dos carrinhos de mão em planos-sequência de ação que não deixam nada a dever para aquelas realizadas em indústrias já estabelecidas, mérito também do fotógrafo Richard Careaga, mas são as atitudes silenciosas que se manterão nas mentes do público, várias horas após a sessão.

"Noé", de Darren Aronofsky


Noé (Noah - 2014)
Quando descobri que o diretor Darren Aronofsky, declarado ateu, iria comandar um filme chamado “Noé”, eu comecei a ficar curioso. Não me surpreendi ao constatar que seu roteiro causa a ira daqueles membros do público que procuram nele uma satisfação ideológica religiosa padronizada. Já li comentários de católicos que chamam o diretor de herege. E, seguindo a doutrina católica, a acusação é correta. Como o tema da crítica é o filme, irei apenas usar um parágrafo para dissertar sobre sua ideologia. 

Alguns argumentos apontam o excesso de misticismo, o que chega a ser engraçado quando analisamos a essência do que os acusadores acreditam como verdade absoluta em seu livro sagrado. Conceitos presentes no roteiro, como o de Adão e Eva descarnados e luminescentes, até o momento em que comem o fruto proibido, são vistos pelos católicos com desagrado como puro misticismo. Só que existe um detalhe que esses acusadores não perceberam: em nenhum momento o diretor insinuou que estava realizando uma obra tradicionalmente bíblica. Os monstros gigantes de lava são tão absurdos quanto qualquer evento ocorrido no Antigo Testamento, como os “Nefilins”, gigantes vigilantes, mas por não terem sido incluídos nos escritos sagrados, os evangélicos conservadores atiraram pedras no projeto. Como era de se esperar de pessoas ideologicamente acabrestadas, que não são especialistas sequer na crença que defendem tão passionalmente, focaram a atenção demais no superficial e deixaram de captar a mensagem e a proposta do filme. “Noé” não é uma adaptação do Gênesis. Ele possui muito mais conexão com a Cabala Judaica e, com menos intensidade, o Gnosticismo Cristão. E, de fato, para os católicos/evangélicos, o Gnosticismo é uma doutrina herética, por criar oposição entre a matéria e o espírito, além da ideia de dois deuses. Quando cada homem possui a centelha divina, panteísmo, ele é deus, não filho de deus. A aproximação de Aronofsky com a Cabala (percebam a citação do filho de Noé ao “Zohar”, texto sagrado da Cabala), não é novidade, basta assistir seu primeiro longa: “Pi”, de 1998. Mas o que realmente importa é se o filme é eficiente ao que se propõe. 

Aronofsky é um cineasta autoral corajoso, qualidade que é perceptível em vários momentos. Audácia que reside na própria escolha da lenda de Noé, talvez o protagonista do evento mais metafórico dentre todas as metáforas bíblicas. Ele estabelece sua crítica de forma contundente, elaborando uma polêmica interessante como um homem adulto e maduro, diferente das birras infantis eventuais de Lars von Trier, por exemplo. Inteligentemente ele compõe uma visão do protagonista, vivido por Russel Crowe, ainda em piloto automático, como o primeiro ecologista e adota o conceito da arca como um paralelepípedo de dimensões gigantescas, com fidelidade ao livro sagrado, como se dissesse debochadamente: desse absurdo inverossímil, não poderão reclamar. Anthony Hopkins, numa ponta como o avô de Noé, ultimamente parece ter entregado sua carreira nas mãos do agente, colocando como regra a ser respeitada que somente leria roteiros em que fizesse anciões sábios. É frustrante ver um dos melhores atores de sua geração sendo desperdiçado dessa forma. A excepcional fotografia do usual parceiro do diretor, Matthew Libatique, estabelece uma aura constante de pesadelo. Já a trilha sonora de Clint Mansell perde pontos pela repetição, como que se ambicionasse “dizer” o que já está sendo mostrado na tela. Um pouco de sutileza emolduraria melhor o conflito psicológico do protagonista, muito mais agressivo do que a força da tempestade que se anuncia no horizonte. 

Dentre os muitos questionamentos que o roteiro incita, acho interessante o confronto entre a visão de mundo em que existe um deus que pune severamente os pecadores com a destruição, em oposição a uma visão de mundo em que deus ama intensamente até os pecadores, não se importando em ser destruído na garantia de que eles sobrevivam. É uma crítica inteligente, nascida de uma mente dedicada ao estudo e não a qualquer fé cega, resultando em uma obra que poderia figurar ao lado de outras tão corajosas quanto no tema, como “A Última Tentação de Cristo” e “A Vida de Brian”.

"O Mestre", de Paul Thomas Anderson


O Mestre (The Master – 2012)
Paul Thomas Anderson requisita de seu público, algo mais que sua atenção por algumas horas. Assistir "O Mestre" sem prévio conhecimento, mesmo que básico, sobre o tema que o influenciou, prejudica a experiência. O personagem, vivido brilhantemente por Philip Seymour Hoffman, é inspirado no controverso escritor L. Ron Hubbard, criador de boas obras de ficção científica, como "Campo de Batalha: Terra", mas lembrado sempre pelo seu legado mais questionável: a cientologia, uma crença que envolve o conceito de reencarnação, hipnose e, extraoficialmente, trambicagem, seus seguidores acreditam em vidas passadas de até sessenta trilhões de anos, inclusive assinam contratos válidos para até um bilhão de anos de serviço. No roteiro original, o nome da esposa do personagem era Mary Sue, o mesmo da esposa de Hubbard, mas acabou sendo trocado para Peggy. Algumas passagens do roteiro causaram a ira do praticante da cientologia: Tom Cruise, amigo do diretor, com quem realizou: "Magnólia", como a frase proferida pelo filho do carismático líder, enquanto escutava o pai em seus sermões: "ele vai inventando, improvisando, todo o seu discurso".

Todo o elenco entrega atuações inspiradas e precisas. Amy Adams talvez seja a que menos se destaca, porém faz o mais difícil: ser o esteio emocional de um mentiroso profissional, sem aparentar submissão, que seria o mais óbvio. Como o roteiro é trabalhado em sutilezas, naquilo que não é dito, sua reação à chegada do personagem de Joaquin Phoenix, um inconsequente em um ninho de previsíveis, se alterna entre a necessidade de apoiar seu marido e o medo ao perceber que aquele homem pode ter despertado no líder algo mais que amizade. Qualquer atriz não tão competente reduziria a personagem a um arremedo de estereótipos.

Phoenix, em uma atuação impecável, vive um homem das cavernas, agarrado aos instintos mais primitivos do ser humano. Conseguimos ler o que se passa em sua mente, por trás de cada risada debochada e fora de hora, conseguimos prever o que o move em cada ação intempestiva. Excessivamente sexualizado, vide a cena com a mulher de areia e o teste Roschach, serve como contraponto ao mestre (Hoffman), que inibe seus impulsos sexuais, conduzindo à cena mais impactante, com Amy Adams. Alcoólatra, ele carrega em seu corpo o peso de suas decisões, numa caracterização assustadora, a tristeza por ter deixado a única menina que amou. Talvez a tristeza maior tenha sido ele reconhecer internamente a existência de tal sentimento. O mestre então busca dessensibiliza-lo com o processo de testes que o levarão a integrar "A Causa". O aspecto mais interessante na caracterização do mestre, talvez seja a forma como ele reage "dentro e fora" de seu personagem. Quando confrontado por elementos exteriores, a polícia, por exemplo, ele se mantém no controle, assustadoramente calmo e resiliente. Porém quando confrontado por pessoas envolvidas em sua seita, ele se mostra incapaz de formular qualquer tipo de argumento.

O que pode afastar boa parte do público é o desinteresse de Anderson em mastigar o desfecho, entregando resoluções que podem soar inconclusivas. O foco está no personagem de Phoenix, o que pode frustrar aqueles que buscavam aprofundamento na relação entre o mestre e sua crença. O filme não aponta o dedo em deboche, apenas mostra uma realidade, cada vez mais comum, inclusive no Brasil, que, de tão extremista e absurda, não precisaria de qualquer crítica. Bastaria o bom senso.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

"Até o Fim", de J.C. Chandor


Até o Fim (All is Lost – 2013)
É espantosa a precisão de J.C. Chandor, responsável pelo roteiro e direção, ao narrar essa batalha do homem contra as forças da natureza. Tendo passado por uma experiência quase fatal na adolescência, quando conseguiu se desprender das ferragens de seu carro, após uma forte colisão, ele constrói nesse filme uma fascinante parábola sobre a fragilidade da mortalidade, sobre a beleza triste de um homem que lamenta sua própria morte. Seu trabalho anterior, o excelente “Margin Call – O Dia Antes do Fim”, já demonstrava a força autoral do cineasta, mas nada indicava que ele seria audacioso a ponto de, em seu segundo projeto, desconstruir a estrutura de um subgênero e abordá-lo de forma nova. Inicialmente, temos uma introdução convencional narrada pelo protagonista, mas ainda nos primeiros minutos percebemos que estamos pisando em um terreno novo.

Ponto essencial de ruptura: Não precisamos nos conectar emocionalmente com o personagem. O roteiro não perde tempo em flashbacks idílicos, sequer introduz dicas consideráveis sobre a vida do homem de quem não sabemos o nome (Robert Redford). A Virginia Jean que dá nome ao barco pode ser sua esposa, sua mãe, sua filha ou ninguém em especial, não importa. O anel em seu dedo pode ser uma aliança, como também pode não simbolizar coisa alguma. Com exceção da narração no início, que pode ser direcionada a alguém ou à sua própria consciência, o filme praticamente é todo estruturado em silêncio. Cada espectador irá criar sua própria história sobre o homem e suas motivações.

É lindo que, até mesmo o tom espiritualista que o coloca como metáfora do encontro humano com sua própria finitude, não seja estimulado por nenhuma manipulação imagética (como nas obras de Terrence Malick), mas nasça espontaneamente nas análises daqueles que possuam internamente essa disposição. Aprendemos a admirar sua incrível resiliência perante provações cada vez mais estafantes, tecnicamente emolduradas pela eficiente trilha sonora de Alex Ebert, com o diretor exibindo competência ao aproveitar-se da clássica estrutura do suspense, alternando entre a angustiante antecipação (mérito para a atuação de Redford, que convence de perigos que não estamos necessariamente testemunhando) e a eventual resolução, com breves momentos lúdicos esporádicos para recuperarmos o fôlego. É um erro “ler” o filme com os olhos da razão, buscando verossimilitude nas atitudes do personagem ou perdendo tempo tentando decifrar seu histórico. Assim como o recente “As Aventuras de Pi”, trata-se de uma grande alegoria travestida de conto de sobrevivência.

Não existe o elemento da outridade, clichê em qualquer obra similar. Até mesmo Ernest Hemingway presenteou o seu Santiago com um espadarte que lhe serviu de confidente silencioso. O homem que acompanhamos não interage ou interdepende de ninguém. Ele apenas existe a partir do outro, nesse caso, o espectador. No horizonte se insinua cada vez mais ameaçadora uma devastadora tempestade, que aniquilaria facilmente o barco mais resistente, um destino inevitável, como a morte. O barco de nosso Sísifo fica cada vez mais desgastado, após cada obstáculo superado, mas existe alguma força inexplicável que, contra todas as probabilidades, mantém o homem acreditando que aquele “corpo” irá resistir. Numa analogia ao “O Velho e o Mar”, o homem é o peixe, restando ao final apenas a alma. Apenas? 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Razzle Dazzle - "Dirty Dancing"

Links para os textos do especial:


Dirty Dancing – Ritmo Quente (Dirty Dancing – 1987)
É curioso perceber que a crítica especializada foi bastante hostil com o filme em sua estreia, o saudoso Roger Ebert chegou a dar cotação mínima, elogiando apenas a criatividade do título. O fato é que, passados 27 anos, ele ainda garante altos índices de audiência em suas frequentes exibições, fazendo parte do universo pop, com suas cenas sendo representadas em festas de casamento ao redor do mundo. Existe algo de especial nele que atrai pessoas de todas as classes sociais, algum elemento que faz com que o público se interesse em repetir diversas vezes a mesma experiência. Esse fator mágico que evidencia a negação do cinema como equação matemática, onde o conceito subjetivo de perfeição pode comportar uma soma de defeitos.

O diretor Emile Ardolino, que só alcançaria o gosto do público novamente cinco anos depois, com a comédia de Whoopi Goldberg: “Mudança de Hábito”, era especialista em documentários sobre o mundo da dança, tendo lutado para provar à roteirista Eleanor Bergstein que, mesmo sem um projeto de ficção no currículo, seria capaz de dirigir aquela obra, inspirada em eventos reais ocorridos na juventude da escritora. A coreografia, essencial por ser parte da narrativa em um musical, foi elaborada por Kenny Ortega, discípulo de Gene Kelly. A opção por dançarinos que soubessem atuar foi crucial no resultado final, fazendo com que nenhum momento soasse forçado, artificial. Por trás da trama aparentemente simples e usual nos chamados “chick flicks”, uma adolescente sempre colocada pra escanteio e que encontra sua voz ao lado de um rapaz mais velho, existe um subtexto que poucos discutem. Quando se analisa mais profundamente, costuma ser abordada a questão óbvia do feminismo, mas quase nunca é citada a referência ao livro “A Nascente”, de Ayn Rand. Uma cena muito rápida, onde o arrogante garçom que engravida a dançarina (Cynthia Rhodes), que considerava uma classe inferior, se recusa a ajudar, entregando o livro para Baby (Jennifer Grey), como sugestão de leitura, afirmando que “algumas pessoas importam, outras não”.

O livro celebra o Objetivismo, os esforços de gênios criativos que conduzem suas vidas focadas completamente nos seus objetivos profissionais. A necessidade de precisar recusar ceder a qualquer impulso que tire o indivíduo de sua trilha, para que eventualmente obtenha sucesso pleno profissional e felicidade pessoal. O garçom estava tomando de forma torta a filosofia do livro para defender seus atos, considerando-se uma versão do protagonista Howard Roark, já que até mesmo o estupro deveria ser desculpado quando perpetrado por um indivíduo extraordinário. A desorientada irmã de Baby, aquela a quem ele realmente intencionava sugerir o livro, deveria, em seu ponto de vista, encontrar identificação com as personagens femininas das páginas, perdoando seu impulso sexual e considerando-se privilegiada por ser desejada. Mas Baby se ofende com a indicação literária, atacando-o agressivamente, ameaçando até causar sua demissão caso ele se aproximasse de sua irmã. Esse é o momento em que ela, sem ajuda de ninguém, existencialmente “sai do escanteio”, muito antes do clássico desfecho, onde é convocada por Johnny (Patrick Swayze) para o palco.

Ela já demonstra força de caráter desde o início, conquistando o respeito de Johnny com sua reação ao erro na primeira dança, quando estava se adaptando apressadamente a uma coreografia que pertencia a uma dançarina profissional, aquela que havia sido violentada e necessitava do dinheiro para o aborto, um tema que o filme aborda de forma corajosa para sua época. Ao invés de colocar tudo a perder, ela improvisa um passo esquisito, mas funcional, sem medo da vergonha. Diferente do que muitos pensam ao terminar o filme, não se trata da história de uma patinha feia, Baby tinha consciência de que era um cisne desde o início. A simbologia da cena em que ele a levanta no ar é interpretada usualmente de forma machista. Não se trata do príncipe encantado que escolheu salvar a dama em apuros. Johnny é quem aprende e amadurece, sendo salvo e inspirado pela integridade de caráter da jovem. Ele a levanta no ar como forma simbólica de salientar a grandeza da personagem, acima de todos os comuns. Ao final da dança, Swayze sublinha o trecho da canção que explicita sua gratidão: “And i owe it all to you” (e eu devo tudo a você).