sábado, 17 de maio de 2014

Tesouros da Sétima Arte - "O Condenado de Altona"


O Condenado de Altona (I Sequestrati di Altona - 1962)
O industrial Albrecht Von Gerlach descobre que está perto da morte e nomeia o seu filho Werner (Robert Wagner) como seu sucessor, Johanna (Sophia Loren), sua esposa e atriz envolvida em uma obra de Brecht contra o nazismo, descobre os segredos da família. 


Pérola injustamente pouco conhecida, inclusive entre os fãs de Vittorio De Sica, ainda que ele tenha recebido por ele, o prêmio "David di Donatello", como Melhor Diretor. Adaptado da penúltima peça de Jean-Paul Sartre (com bastante fidelidade, excetuando-se a opção de incluir cenas externas, fora do confinamento), única em que ele aborda diretamente o nazismo, em uma crítica inteligente e ousada. Sophia Loren, Fredric March e Maximilian Schell, atuam corajosamente em papéis que fugiam completamente daquilo que o público estava acostumado, garantindo um clima ainda mais soturno ao projeto. Faz recordar, no tom e na complexidade, os trabalhos do escritor polonês Günther Grass, dentre eles, o mais famoso: "O Tambor". A ideia por trás de um jovem nazista que é mantido, anos depois do final da guerra, prisioneiro em um sótão por seu pai, sem qualquer comunicação com o mundo exterior, para que ele não perceba a realidade, causa arrepios só de pensar. O excelente desfecho, que obviamente não revelarei, contém uma das imagens mais fortes do cinema de sua década. Imprescindível!

Make 'Em Laugh - "A Incrível Suzana" e "Carrossel da Esperança"


A Incrível Suzana (The Major and The Minor – 1942)
Susan Applegate é uma jovem que se fartou da vida em Nova Iorque, e que regressa para a sua casa no Iowa. Como a sua poupança, feita ao longo do tempo, não é suficiente para pagar a passagem de volta, ela disfarça-se de menina de doze anos para poder comprar meia-passagem. Mas, as suas complicações começam mesmo quando ela divide um compartimento com Kirby, um major do exército.


A estreia de Billy Wilder em Hollywood, no filme que serviria de molde para um dos maiores sucessos de Jerry Lewis e Dean Martin: “O Meninão”. A trama, como quase todas na carreira do diretor, esconde uma alta dose de anarquia e ousadia, por trás do véu da ingenuidade de uma comédia romântica. Colocando a censura do “Código Hays” para brincar de “bobinho”, com um roteiro que aceitava a possibilidade de uma mulher com as belas pernas torneadas de Ginger Rogers, na melhor interpretação de sua carreira, numa improvável situação de desespero, fazer todos pensarem que ela era uma inocente criança com laços de fita no cabelo. Na relação dela com a jovem irmã (Diana Lynn) da esposa do Major Kirby (Ray Milland, com quem trabalharia novamente no ótimo “Farrapo Humano”), percebemos Wilder, com o auxílio de Charles Brackett, em sua zona de conforto, divertindo-se ao elaborar diálogos irônicos que continuam surtindo o mesmo efeito, ainda que com os pés firmes em sua época (Greta Garbo é alvo de uma das melhores tiradas, logo no início do filme). Ele novamente trabalharia o conceito da farsa/disfarce como catalisador dramático, no excelente “Quanto Mais Quente Melhor”.


Carrossel da Esperança (Jour De Fête - 1949)
Uma vez por ano, uma feira traz atrações para um pequeno vilarejo no centro da França, como um cinema ambulante e músicas, transformando a rotina e a vida dos moradores do lugar.


Excelente oportunidade de assistir um gênio em seu primeiro trabalho, experimentando com seu estilo autoral, alcançando diversos pontos onde, mesmo passados mais de 50 anos, com um humor puramente visual, diverte sem o menor esforço. São várias cenas que poderia destacar, como todas em que o carteiro (vivido por Jacques Tati), buscando emular a competência dos carteiros americanos (ótima crítica), corre com sua bicicleta para entregar as correspondências das formas mais estapafúrdias. Quando ele adentra a casa de um homem, elogiando-o por sua animação, sem saber que o mesmo estava velando um cadáver (excelente trabalho de câmera), não tem como segurar a gargalhada. São cenas simples, mas engenhosamente elaboradas, onde cada elemento de cena existe por um propósito. O filme foi originalmente filmado com duas câmeras, uma em preto e branco (caso algo desse errado), outra em cores (que era a prioridade do diretor). Com a falência da Thomson-color, antes do término da pós-produção, Tati foi obrigado a lançar seu projeto em preto e branco.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Razzle Dazzle - "Epopeia do Jazz" e "O Meu Amado"


Epopeia do Jazz (Alexander’s Ragtime Band - 1938)
Alexander (Tyrone Power) escandaliza a sociedade ao montar uma orquestra de Ragtime, estilo musical popular demais para se levar a sério.


Para fãs de Irving Berlin, esse musical dirigido por Henry King é essencial. A ideia original era ser uma cinebiografia do compositor, mas ele preferiu contar uma história ficcional. De forma original, o roteiro traça um panorama histórico do jazz, desde a rebeldia do Ragtime até a aceitação do Swing como uma forma de arte, no final da década de trinta, utilizando como pano de fundo a trajetória de um jovem (interpretado por Tyrone Power) que desafia a sociedade em que vive, perseguindo a expressão mais popular da música.

Entre uma canção e outra (ao todo são vinte e oito, incluindo as excelentes: "Blue Skies", "Heat Wave" e "Alexander’s Ragtime Band"), somos apresentados a um triângulo amoroso. Stella (Alice Faye) desperta a paixão do compositor vivido por Don Ameche, causando idas e voltas típicas dos romances da época, onde são incluídas passagens marcantes da história do jazz, como sua participação na Primeira Guerra Mundial e a importante apresentação de Benny Goodman e sua orquestra, no Carnegie Hall, em 1938. Quem brilha mesmo é Ethel Merman, que aparece apenas no segundo ato, mas que encanta com sua linda voz.

Um tipo diferente de musical em sua época, que revitalizou o gênero com um fio condutor essencialmente sério, algo que contrastava com o glacê que abundava das produções de Astaire/Rogers, a leveza das comédias musicais dos Irmãos Marx ou a escala grandiosa dos projetos de Busby Berkeley. As várias sequências musicais não interrompem sempre a trama, como era usual, sendo inseridas na ação narrativa, fazendo com que o ritmo nunca diminua.


O Meu Amado (Rose of Washington Square - 1939)
Alice Faye interpreta Rose Sargent, uma cantora de NY da década de 1920 que se apaixona pelo bonito e arrogante malandro Bart Clinton (Tyrone Power). O novo romance de Rose é demais para o desespero de seu amigo e antigo parceiro Ted Cotter (Al Jolson), que não confia no escorregadio Bart. 


De certa forma, inspirado na vida amorosa de Fanny Brice (Barbra Streisand protagonizaria a cinebiografia oficial “Funny Girl”, em 1968), o que a levou a processar os estúdios Fox.  Alice Faye chega a cantar a música mais famosa de Brice: “My Man”, num dos momentos mais emocionantes. A publicidade desse problema jurídico acabou ajudando na bilheteria do filme, que se tornou o maior sucesso musical do estúdio naquele ano.

O projeto foi uma sensata resposta ao sucesso de "Epopeia do Jazz", que havia sido lançado no ano anterior, apostando na simpatia do casal Alice Faye e Tyrone Power. Mas o real valor atemporal da obra foi documentar com qualidade o trabalho de Al Jolson, um nome injustamente ignorado pelos jovens de hoje. Tendo entrado para a história da Arte ao protagonizar o primeiro filme falado ("O Cantor de Jazz", em 1927), ele teve em "O Meu Amado" a chance de imortalizar com melhor qualidade de som e imagem, suas interpretações consagradas: "My Mammy", "California, Here I Come" e "Rock-a-Bye Your Baby with a Dixie Melody".

quarta-feira, 14 de maio de 2014

TOP - Filmes Sobre Política (Parte 2 de 3)

Link para o texto anterior:


10 – Terra em Transe (1967)
Paulo é um jornalista que tenta mudar a situação ao planejar a ascensão de um candidato supostamente oposicionista chamado Vieira e buscando o apoio do maior empresário do país para deter o avanço de uma multinacional estrangeira sobre o capital do país. Tudo começou bem; porém, problemas sociais e a corrupção arruinaram sua intenção.


Na obra-prima de Glauber Rocha, o poeta intelectual Paulo (Jardel Filho) mostra-se como grande parte da sociedade, desesperado para encontrar um porto seguro nas promessas de algum líder, alguma voz ativa. Sua grande estatura e compleição rochosa escondem uma alma frágil e amedrontada. Ele abraça o recluso conservadorismo de Diaz (magnífico Paulo Autran), que lhe foi útil durante um tempo em sua escalada social, porém cujo verniz foi descascando até exibir sem pudores uma megalomania doente, com um complexo de César que o faz trair quem seja preciso. Fascinado por uma militante (Glauce Rocha), acaba sendo atraído para uma voz menos arrogante, porém ainda mais hipócrita: Vieira (incrível José Lewgoy), um reformador populista que beija os pés do clero e promete representar a verdadeira voz do povo no poder. Um povo miserável, analfabeto e que não pensa duas vezes antes de aplaudir o agressor com as mesmas mãos que ainda recuperam-se das feridas do recente açoite sofrido. Paulo logo percebe que Diaz e Vieira estão interessados apenas no poder, nos privilégios. 


9 – Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd – 1957)
A história gira em torno de um andarilho chamado Larry “Lonesome” Rhodes (Andy Griffith), que é descoberto em uma cadeia no nordeste do Arkansas por Marcia (Patricia Neal), uma produtora de um programa de rádio, e seu assistente (Walter Matthau). Ele se transforma numa estrela do rádio e da TV, da noite para o dia. Mas, à medida que a sua fama aumenta, o sucesso lhe dá mais poder.


Foi uma genial decisão do diretor Elia Kazan a escalação do comediante Andy Griffith para um papel dramático que o fazia sair de sua zona de conforto, como o popular apresentador de televisão que é convidado a utilizar sua fama como elemento facilitador na carreira política de um congressista insosso. O filme é ousado por ser um dos primeiros a abordar um tema extremamente atual: a influência manipuladora da televisão na política. Como o personagem de Matthau chega a afirmar brilhantemente: “Você precisa ser um santo para se negar a utilizar o poder que aquela caixinha te oferece”. O apresentador simplório passa a se ver como um deus da comunicação, o braço direito do presidente americano. 


8 – JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (JFK – 1991)
Oliver Stone não só reconstitui o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, mas defende a tese polêmica de que o crime fora uma conspiração envolvendo revolucionários cubanos, a CIA e a própria cúpula do governo americano.


Nessa longa dramatização de várias teorias conspiratórias sobre o assassinato de Kennedy, a coragem de Oliver Stone se faz presente ao defender uma opinião controversa, com total senso de ritmo narrativo. O grande mérito é que o roteiro coloca o espectador imerso na investigação do corajoso protagonista, vivido por Kevin Costner, instigando questões pertinentes, fazendo-nos acreditar na legitimidade de sua batalha. Poderia Lee Harvey Oswald ter disparado três tiros em seis segundos? Por que tantas pessoas ligadas ao assassinato depois apareceram mortos em circunstâncias peculiares? A riqueza de informações é valorizada em revisões, fator que nesse caso melhora a experiência. Impossível esquecer o impacto da cena do encontro com o misterioso militar vivido por Donald Sutherland, em seu espetacular monólogo, que evidencia feridas abertas ainda hoje na política americana. 


7 – Mera Coincidência (Wag the Dog – 1997)
Menos de duas semanas para a eleição e o presidente dos Estados Unidos candidato a um segundo mandato envolve-se em um escândalo que pode acabar com sua carreira política. Antes que o pior possa acontecer, entra em cena Conrad (Robert de Niro), um homem com a habilidade de manipular a imprensa e, principalmente, a opinião pública. Com a ajuda de Stanley (Dustin Hoffman), um famoso produtor de Hollywood, ele cria a perfeita distração: uma guerra de mentira.


É incrível como esse excelente filme é pouco lembrado hoje em dia. Como não se lembrar da guerra dos Estados Unidos contra as armas de destruição em massa que nunca foram encontradas? Nada melhor do que inventar um motivo mirabolante para desviar os olhos da população, como faz o produtor vivido por Dustin Hoffman, para salvar a pele do presidente que está metido em um escândalo sexual, mas precisa ser reeleito. Eles inventam uma guerra, forjando o herói que poderá salvar a nação de qualquer perigo. O espirituoso título nacional nasceu como resposta ao caso de Bill Clinton com sua secretária, ocorrido pouco tempo antes do lançamento do filme. Na vida real, Clinton oportunamente aproveitou para se empenhar em campanhas de bombardeio no Iraque e no Sudão, enquanto caíam por terra todos os esforços de seus assessores em promover sua imagem como um respeitável homem de família. A crítica mais contundente do filme é que vivemos uma realidade onde as guerras são criadas e manipuladas por homens da mídia, que organizam até seus “heróis” e “vilões”, com direito a temas musicais e pomposas adaptações cinematográficas, negociadas antes mesmo do som das bombas ter se dissipado. E essa realidade é extremamente perigosa, pois com o avanço da tecnologia, a câmera mente com maior facilidade. E quando o povo é estimulado a não questionar...


6 – A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington – 1939)
Inocente homem do interior (James Stewart) é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos e aos poucos se descobre em um mar de lama que ameaça tudo o que ele acreditava em relação à bondade e ao caráter dos comandantes de seu país.


A mão de Frank Capra pode pesar no piegas em certos momentos, mas poucos filmes souberam retratar tão bem o esforço de um elemento individual íntegro em um covil de serpentes, arriscando-se a perder até sua sanidade, mas não admitindo que seus valores tombem ou sequer se curvem perante o que considera errado. O roteiro nos apresenta um símbolo das reais qualidades que deveriam ser comuns aos homens que ingressam na política, mas deixando clara a razão que impede que essas qualidades sejam valorizadas: o ser humano é ambicioso. Apenas as crianças, seres ainda não tocados pelo instinto predatório dos adultos, conseguem enxergar os méritos na aparente causa perdida do protagonista. James Stewart me fez acreditar em Jefferson Smith. No famoso e emocionante discurso final do personagem no julgamento, exaurido física e mentalmente após horas falando ininterruptamente, apenas seu caráter o mantinha de pé. Nunca me esqueço da breve tomada que mostra o tímido sorriso de encorajamento do juiz, mesmo sabendo das poucas chances do rapaz. O juiz sabe que todos deveriam ter aquela coragem, mas muito mais que isso, ele enxerga naquele alquebrado homem o motivo principal que o fez adentrar outrora em sua profissão. 

Continua...

sábado, 10 de maio de 2014

Cine Samurai - "Rashomon"


Rashomon (1950)

“O demônio vive em Rashomon, fugindo com medo da ferocidade do homem”.

Um lenhador e um monge budista conversam sobre um estupro, seguido de assassinato, ocorrido num bosque nas imediações da cidade. O relato deles para um incrédulo plebeu é complexo em suas várias versões, que incluem até o testemunho do próprio morto, através de uma evocação mediúnica. O aspecto mais genial é que não é possível afirmar qual dos relatos é o verdadeiro, já que cada depoimento é cinematograficamente reconstituído com base na verdade absoluta de cada personagem.

Akira Kurosawa trabalha com simbolismos muito profundos nessa obra, como a analogia do local onde os três personagens se encontram, buscando abrigo até a chuva estiar, o “Rashomon” (portão do castelo) em ruínas, como a sociedade japonesa da época, vítima de um declínio moral já criticado sutilmente no conto original “Dentro de Um Bosque”, de Ryūnosuke Akutagawa, que é fielmente transposto no roteiro, com exceção de seu desfecho, um brilhante adendo imaginado pelo diretor. Numa nação que vivia a angústia do pós-guerra e que necessitava, mais do que nunca, de gestos de humanidade e otimismo, foi com extrema sensibilidade que ele incluiu a ideia do bebê abandonado, logo após a exposição crua, por diversos pontos de vista, de um evento marcado pelos elementos mais odiosos no ser humano. A ideia do homem que, num ato de puro egoísmo, roubava o quimono que cobria o pequeno abandonado foi levemente inspirada no conto “Rashomon”, que Akutagawa escreveu em 1915, onde uma mulher era flagrada roubando o cabelo de corpos tombados numa cidade em ruínas.

Ao final, temos um quebra-cabeça impossível de ser montado, já que somos levados a crer que cada versão mente em algum ponto, exagerando ou omitindo detalhes essenciais para a plena compreensão do evento. Cada ator deturpa a realidade a seu favor, refletindo perfeitamente nesse microcosmo o escopo do que vemos diariamente no macro, uma sociedade onde não existem simples alternativas duais, entre o bem e o mal. O samurai/ladrão (vivido por Toshiro Mifune) surpreende como, talvez, o mais digno, já que em seu depoimento não negou seu próprio crime, teve consideração pela nobreza da vítima, afirmando que ele foi o homem com quem durou mais tempo em batalha, tendo consideração também pela honra da esposa da vítima, elemento moral altamente questionável nas outras versões, ao afirmar que ela havia fugido no meio da batalha. 
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O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", em impecável versão restaurada.