quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

"O Senhor dos Anéis" e o Poder do Mito


Joseph Campbell publicou seu livro “The Hero With a Thousand Faces” em 1949. J.R.R. Tolkien publicou o primeiro volume de “O Senhor dos Anéis” em 1954. George Lucas assumidamente utilizou o trabalho seminal de Campbell como estrutura para sua saga espacial. Mas basta uma análise mais atenciosa para perceber que Tolkien também seguiu fielmente a mesma estrutura. Como ele oficialmente escreveu seus livros ao longo de vários anos (1937 a 1949), mas continuou revisando-os nos anos seguintes, nós podemos crer que houve algum tipo de inspiração nos estudos de Campbell (que afirmava publicamente que não gostava do trabalho de Tolkien). Provavelmente foi coincidência, já que ambos beberam na fonte dos mitos nativo americanos, hindus, gregos, bíblicos e nórdicos. Nunca saberemos a resposta, mas é interessante analisar as obras de Tolkien pela ótica de alguns estágios da jornada mítica do herói/monomito.

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Mundo Comum - O mundo normal do herói antes da história começar.
Frodo, Sam e seus amigos, vivem no idílico mundo do Condado.
O Chamado da Aventura - Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.
Gandalf convida o Hobbit para uma aventura, objetivando a destruição do Um Anel.
Reticência do Herói ou Recusa do Chamado - O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.
Frodo inicialmente se recusa a partir com ele, por medo de sair de sua zona de conforto.
Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.
Ele, ao ir mais longe de casa pela primeira vez, encontra seus mentores na forma da Sociedade. Ao lado desses guerreiros, ele aprende como se defender e percebe que a valentia estava dentro dele o tempo todo.
Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.
O encontro com os elfos e um mundo mágico que ele nunca imaginou existir.
Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia - O herói enfrenta testes, encontra seus aliados e enfrenta vários inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.
O Balrog, a aranha, Gollum, Saruman, em suma, todos os perigos que ele encontra no longo caminho até a Montanha da Perdição.
Aproximação da Caverna Interna - O herói se adaptou ao mundo especial e passa a buscar seu coração, a caverna mais profunda, onde deve usar cada lição aprendida para sobreviver.
Sua coragem ao buscar sozinho seu destino, tentando proteger seu amigo Sam.
Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte.
Seu momento definitivo com Gollum, tentando vencer a indecisão de destruir ou não o Um Anel.
Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).
A destruição do Anel na Montanha da Perdição, tendo como recompensa a liberdade de seu povo.
O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum.
Seu retorno para o Condado, tendo completado sua jornada de amadurecimento.

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Tolkien, como experiente filólogo, desenvolveu idiomas próprios para emoldurar seu rico universo, tornando cada cenário na Terra Média extremamente vivo. Para a maioria de nós, as árvores são simples organismos vegetais, mas Tolkien sabia que os primeiros homens a caminhar na Terra as viam de forma bem diferente. Para esses homens primitivos, o mundo era cercado de elementos mágicos. O céu noturno era uma incógnita, com deuses que os ajudavam com a ventania e demonstravam sua ira com barulhentos trovões. A mitologia sempre existiu e Tolkien acreditava que não havia problema algum em unir o intelecto com o poder criativo da imaginação. Diferente de seu colega C.S. Lewis (criador das “Crônicas de Nárnia”), que via os evangelhos católicos como um fato histórico, Tolkien via como mais uma forma de mitologia, um conto de fadas. O elemento da “Consolação”, a recompensa do final feliz, representada pela ressurreição de Cristo.

A adaptação cinematográfica de Peter Jackson para “O Hobbit” pode estar sendo vítima de sua aversão pela sala de edição (problema crasso em sua versão de “King Kong”), mas sua trilogia original é uma coleção de acertos, um marco no cinema de fantasia. Ele acertou, por exemplo, ao excluir Tom Bombadil da trama (critério que ele devia ter utilizado com Radagast na nova trilogia), priorizando a essência dos escritos de Tolkien e seu potencial imagético, em detrimento de uma fidelidade “ipsis litteris”. As versões estendidas da trilogia são dinâmicas, enquanto as versões comuns de “Uma Jornada Inesperada” (especialmente) e “A Desolação de Smaug” são arrastadas. 

A sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen) é um exemplo de sua sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o seu caminho fora das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se revela, mostra-se um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos Hobbits. Em “Silmarillion”, por exemplo, não existem personagens comuns que o público possa se identificar. Aragorn somente toca o mundo comum ao retomar a espada que havia sido quebrada, aceitando seu destino. Jackson deixa claro desde seus primeiros momentos sua doce e gentil humanidade, como um arquétipo de Jesus, um homem cheio de dúvidas e que sofre pelo amor de uma mulher. Já sua adaptação para a personagem feminina Éowin (Miranda Otto), falha no básico. Tolkien tinha um ponto fraco: personagens femininas. Mas a corajosa Éowin é a única mulher representada com alguma profundidade em suas páginas. Jackson potencializa sua dependência ao amor de Aragorn, fazendo dela uma estereotipada apaixonada adolescente, equivocadamente descartando a surpresa de sua aparição perante o Rei Bruxo de Angmar, transformando-a em uma frágil e atemorizada menina (ainda assim, conseguindo vencer o medo ao final).

A beleza da saga de Tolkien não reside nas batalhas e na riqueza do mundo fantástico que ele criou, mas sim naqueles elementos mitológicos facilmente identificáveis em nossas vidas comuns. A corrupção do caráter humano, a ambição, a resignação perante a inevitável mortalidade, a coragem que nasce forjada no calor dos desafios mais extenuantes e os laços de amizade que nos fazem “carregar nos ombros” (tal qual Sam) os irmãos feridos em batalha.

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O livro que foi lançado pela editora “DarkSide Books”, escrito pelo jornalista Michael White, reconta a vida de Tolkien, autor de clássicos como a trilogia "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", e considerado um dos maiores autores de fantasia de todos os tempos. 

A biografia acompanha a vida e a trajetória do escritor, come­çando por sua infância na África do Sul, seguida do retorno da família para a Inglaterra. A família se estabeleceu em Birmingham, cidade que passava por uma rápida industriali­zação nos anos 1890, mas ainda era cercada por uma paisagem de tirar o fôlego. Este cenário que reunia e mesclava o coração industrial do Império britânico próximo a bosques e mon­tanhas idílicas e selvagens, foi determinante para as ideias e a escrita de Tolkien.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A Arte do Silêncio

Arte: Atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoção e ideias, com o objetivo de estimular em seu público esses sentimentos.

Quando falamos da obra de Antonioni, Godard, Buñuel, Wenders e outros ícones do cinema usualmente chamado de “arte”, o mais cômodo é analisá-los pelo caminho da prolixidade, encaixando termos técnicos e entregando um texto tão distante e frio que nem os próprios diretores se interessariam em ler. A tendência é levarmos a sério demais um trabalho que essencialmente visa o entretenimento cultural, não públicos pequenos em salas e sessões alternativas. A arte deve caminhar lado a lado com a emoção. Para se entender a mensagem que Antonioni tenta nos passar em “Blow Up”, deve-se abrir o coração e os sentidos e caminhar junto ao fotógrafo vivido por David Hemmings. Vivenciar com ele cada descoberta, entrar no jogo que o diretor propõe e quem sabe ao final, estaremos também rebatendo aquela bola de tênis imaginária. Arte é isso. Ela demanda comprometimento emocional e intelectual. Quando assistimos Godard em sua obra “Alphaville”, devemos sorrir mais de sua irônica crítica do que analisar friamente cada som e movimentação de câmera, ou iremos ao término do filme estar tão desumanizados quanto o futuro que ele vislumbrou e o qual criticou.

Existem elementos intelectualmente elevados nas obras destes gênios, porém acredito que a intenção dos mesmos era ver seus filmes populares, sendo amados por cinéfilos do mundo todo, não apenas ter suas obras dissecadas cirurgicamente por “homens máquina”, tal qual profetizado por Chaplin em seu discurso de “O Grande Ditador”. A cada análise fria, menos pessoas se interessarão em conhecer o cinema maravilhoso destes poéticos sonhadores e o termo “cinema arte” continuará sendo visto com preconceito e arrogância pela maior parte do público. Chaplin fazia o genuíno cinema arte e é adorado por pessoas dos oito aos oitenta anos, popular e amado. Sua aparente simplicidade evitou análises frias de seus críticos, o que tenho certeza, ajudou a construir seu mito.

Considero “O Anjo Exterminador” de Buñuel um dos melhores filmes de todos os tempos, com sua crítica ácida atirando para todos os lados da sociedade burguesa. A história é simples: vários burgueses não conseguem ultrapassar a porta escancarada de um salão onde estavam reunidos para um jantar. Aquele lugar torna-se uma prisão e eles passam a noite inteira como náufragos em uma ilha. Aos poucos todas as “máscaras” sociais vão sendo destruídas, dando lugar ao lado humano, verdadeiro e bestial de cada um deles. A obra é maravilhosamente narrada, porém não é conhecida pela maioria das pessoas. É um filme tão bom quanto “A Felicidade não se Compra” de Frank Capra, então o que os difere? Enquanto a obra de Buñuel passou anos nas mãos de críticos tão burgueses quanto os que o diretor criticava no filme, o de Capra entregou-se ao público como um roqueiro que se joga na plateia de braços abertos, recebendo em troca o merecido carinho. O cinema é feito essencialmente para ser amado, recomendado e Wenders sabia disso muito bem quando idealizou seu fantástico “Asas do Desejo”, colocando os anjos próximos aos humanos, ajudando-os ao pé do ouvido. O toque de gênio foi ter feito um anjo se apaixonar por uma humana e ter vontade de desistir de sua divindade para viver ao lado dela. Arte: a união sincera entre o intelectual/divino e o humano/passional.

Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman são representantes de uma raça praticamente extinta no mundo da Sétima Arte. Enquanto fomos induzidos a crer por uma geração de cineastas que o que vemos na tela é real, esses dois desconstroem a fábrica de sonhos, deixando bastante aparente o trabalho da câmera, sua artificialidade e o silêncio. Esse silêncio incomoda os que não estão interessados em saborear uma completa experiência cinematográfica ou os que não possuem a maturidade cultural necessária, seja por pouca idade ou pueris prioridades. Torna-se comum receber como resposta de alguém a quem você indica uma obra destes mestres: “que coisa chata e arrastada”. A realidade é que a grande maioria das pessoas foi condicionada a preparar sua sessão de cinema com pipoca e muita euforia, preparados para algo que eles já sabem exatamente como vai terminar (o ser humano não aprecia o inesperado), que o mocinho vai matar o bandido no final, assim como é certo que o casal, mesmo brigando o filme inteiro, irá acabar junto e com direito a alguma música brega do Michael Bolton coroando o desfecho. Imaginem a desilusão desse espectador ao chegar aos créditos finais e constatar que mal ingeriu suas pipocas, pois passou o tempo todo com a testa franzida tentando entender de onde apareceu aquele personagem esquisito. Compreensível, já que ele só foi atender seu celular umas duas vezes no meio da sessão. Esse foi o impacto que a obra desses diretores causou entre os cinéfilos, que foram obrigados a prezar o silêncio quase ritualístico que precede um filme. Não querer impor o ritmo e sim deixar-se guiar pelas mãos e mentes destes diretores, deixando que as imagens e seus significados penetrassem pelos poros e não somente pelos olhos.

Porque as novelas são tão essenciais na vida dos brasileiros e Antonioni (por exemplo) não? Por uma inexplicável necessidade humana de se limitar e achar que se é feliz ao repetir de maneira robótica os códigos pré-determinados pelas emissoras, pensar como a massa pensa, saborear o gosto amargo da mediocridade. O que Ingmar Bergman nos mostra em filmes como: “Persona” (1966), “O Sétimo Selo” (1957) e “Morangos Silvestres” (1957) são alimento eterno para a alma, são adições preciosas em uma mente questionadora. Quando o personagem do idoso médico de “Morangos Silvestres” está prestes a receber um prêmio honorífico na universidade de Lund e começa a questionar sua vida à luz de sua morte, quase podemos sentir suas emoções. No jardim de sua antiga casa, ele relembra momentos de sua juventude, porém Bergman decide não mostrar seus pais nesses trechos. Somente no final, representando a conformação dele perante o abraço da morte, somos presenteados com uma cena de beleza sem par, quando a memória de um amor do passado diz que seus pais o estão chamando, no que ele emocionado olha para o horizonte e vê a silhueta do casal que, distante, acena para seu filho. A cena é conduzida silenciosamente. Não existe a intenção de incitar emoção pelo uso de uma trilha sonora melodramática, pois Bergman não subestima seu público.

Antonioni e sua aclamada cena final de “Profissão: Repórter” (1975): em um plano sequencial espetacular, mostra Jack Nicholson e Maria Schneider conversando em um quarto (cuja janela é protegida por espessas barras de ferro e dá para uma praça do lado de fora) de hotel. Nicholson se deita, acende um cigarro e lentamente a câmera percorre o ambiente em direção à janela, atravessa as grades, observa o movimento da praça e do hotel do lado de fora, retorna à janela onde vemos as barras e Nicholson deitado. A cena, que até hoje gera debates sobre como foi realizada, dura aproximadamente dez minutos de puro silêncio. Em uma sociedade cada vez mais imersa em ruídos e bocas que falam incessantemente em uma catarse de sons, que na maioria das vezes não representam nada, Bergman e Antonioni tentaram nos ensinar a importância do silêncio, realizando obras que deveriam ser primordialmente sentidas e não analisadas, assim como a vida.

sábado, 14 de dezembro de 2013

A Incompreendida Função do Crítico


Criticar não é fácil. Faz-se necessário um domínio sobre o tema proposto, além de humildade perante o objeto de crítica. Por mais espetacular e bem escrita que seja uma resenha, nunca poderá ser equiparada à mais medíocre criação analisada. As reais intenções de um crítico de cinema devem ser complementares ao filme e não apenas um frio e técnico estudo sobre ele. Para isso é necessário um conhecimento aprofundado sobre os vários elementos que constroem um filme, conhecer métodos de atuação, entender sobre posicionamento de câmera (como saber se é revolucionário, se não sabe a diferença entre um plano médio, plongée e um plano de detalhe?) e tentar estar sempre atualizado quanto às inovações na área. Cada profissional possui uma maneira de abordar o que se propõe a criticar. Todas as maneiras são válidas, quando existe o embasamento. Desde aquele que analisa de forma excessivamente racional até o profissional que coloca as emoções à frente, ou aquele que facilmente transita por um meio termo, todos possuem um elemento em comum: Conhecimento.

O crítico possui basicamente duas maneiras de iniciar um texto sobre um filme que o desagradou: Ele pode maquiavelicamente se empolgar em destruí-lo, ou ficar triste com o potencial desperdiçado pelo cineasta. Como muitos não são realmente apaixonados pelo tema (por vezes são designados por seus superiores para a área cultural do veículo), a escolha mais fácil e divertida costuma ser pela primeira opção, pela intensa variedade de emoções que ela suscita. O resultado: Textos saborosos em sua ironia, mas que não possuem uma linha sequer que possa ser considerada construtiva. Aliem a isto o fato de que a cada ano que passa, boa parte dos jornalistas da área se tornam cada vez mais interessados no lobby. Sites e jornais que elogiam obras que de alguma forma os patrocinam, o crítico vira assessor de imprensa informal da distribuidora. Um processo de prostituição criativa que se for analisado em longo prazo, leva a apenas um caminho: O total descrédito desta profissão junto ao público.

Para uma grande parte dos leitores, o crítico é um chato que vê defeito em tudo, sempre “do contra” e odiado por não ter visto qualidade numa comédia escatológica de mau gosto. A pessoa se pergunta: “Como ele deu nota zero para um filme tão espetacular, que me fez rir do começo ao fim?”. Da mesma forma que uma pessoa que passa horas admirando uma pintura de Monet pode parecer um louco aos olhos de alguém que se contenta com seu quadro de natureza morta acima da mesa de jantar. Existem aqueles que preferem os textos que falam contra o que pensam sobre a obra. Acabam descobrindo outros pontos de vista, que enriquecem suas próprias análises. Estes possuem as qualidades de um cientista, não a de um religioso. O cientista está sempre disposto a ter suas crenças desafiadas, pô-las à prova e evoluir. Já o religioso, não aceita opiniões contrárias e abomina o confronto de suas ideias com as de qualquer pessoa que pense diferente. Os críticos e o público precisam andar de mãos dadas, mesmo que suas opiniões se confrontem de tempos em tempos. O confronto saudável e respeitoso de ideias é o que nos faz humanos.

A paixão do crítico deve ser sentida em cada linha, pois se a pessoa que escreve não demonstra estar feliz em seu trabalho, muito menos o fará aquele que dedica seu tempo na leitura (isso vale para qualquer tipo de trabalho que uma pessoa vá exercer na vida). Texto sem amor, o leitor percebe. Texto pedante, o leitor percebe. Por essa razão, tão poucos profissionais desta área são lembrados pelo grande público, pois com o passar dos anos o olhar distante e técnico tende a sobrepujar o olhar apaixonado e os textos perdem emoção. O maior desafio para um profissional dessa área é manter-se encantado, mesmo após várias possíveis desilusões. Ver cada filme como se fosse o primeiro, continuar aplaudindo uma mágica cujo truque ele já conhece. Meu principal objetivo neste texto é romper definitivamente este muro que parece existir entre o público e os profissionais da crítica. Mesmo que muitos críticos pareçam gostar deste status autoimposto de “donos da verdade”, isto não ajuda em nada o real astro dessa história: A Sétima Arte. Nossa função principal é fazer de cada leitor um potencial estudioso do tema. Tive a inspiração após assistir um elucidativo (mas tedioso) vídeo de um enólogo, intencionando explicar como faz a apreciação de um vinho.

Imaginem a cena: O vídeo dura por volta de doze minutos, com uma introdução em tom sério (uma garrafa de um lado, taça vazia do outro) seguida de uma extensa explicação sobre como a bebida ativa todos os sentidos humanos. Nos cinco minutos finais, o enólogo despeja o líquido no cálice e apanha uma folha de papel e uma caneta. Muito compenetrado e sério, inclina o cálice cerca de quarenta e cinco graus e franze a testa ao observar sua cor. Devolve o cálice à mesa e faz anotações na folha. Novamente segura o cálice e agora o agita em movimentos circulares, levando-o próximo às narinas (repetindo a mesma ação cinco vezes) e depois volta a fazer anotações. Somente no minuto final o enólogo prova o vinho, deixando o líquido passear por sua boca durante alguns segundos e o engole. Anotações finais, um olhar sério para a câmera e uma afirmação: “Minha nota para este vinho é 82,5”. Não sei a reação que vocês teriam ao assistir este vídeo, mas garanto que eu não senti o menor desejo em beber vinho. Aquela degustação não me tocou de nenhuma maneira. Mesmo percebendo que o profissional dominava o assunto, não me senti motivado a conhecer mais sobre o mesmo. Mas quando assisti “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004), senti algo completamente diferente, estando imerso na trama e interessado na trajetória dos protagonistas. Em uma curta cena específica, obtive algo que aqueles tediosos doze minutos não conseguiram. A explicação que o personagem Miles (Paul Giamatti) faz sobre a sua paixão pelos vinhos. Ele esclarece que a uva deve ser plantada num lugar específico no mundo, num clima extremamente equilibrado, sem muita chuva ou muito sol, que deve ser colhida na hora exata, recebendo do proprietário da vinícola um cuidado muito especial, já que a casca desta qualidade de uva é muito fina. Só assim, depois de muita dedicação (desde o plantio da uva à fabricação do vinho) resultará em um produto de qualidade. O roteiro brilhante faz com que o personagem faça uma alusão a si mesmo, que de algum modo foi negligenciado pela esposa, já que não teve a afetividade suficiente para manter o relacionamento duradouro. Enquanto eu estava sendo entretido (lado emocional atuando), aprendi o suficiente sobre vinhos para me interessar em ler mais sobre o assunto.

O crítico de cinema precisa prioritariamente despertar o interesse no público, com técnica suficiente para elucidar suas primeiras dúvidas, mas nunca o bastante para que ele acredite já saber o suficiente e se acomode. O objetivo é que nessa “sala de aula” que pode ser de mil “alunos”, alguma parcela se apaixone pela matéria e queira buscar mais conhecimento autodidata. Não confundam “aula de cinema” com “aula de como ser crítico de cinema”. O verdadeiro apreciador desta arte não se produz em cursos, apenas “clones” inferiores de seu professor. Uma crítica longa e técnica demais servirá apenas aos que já possuem o conhecimento técnico. Ambos então “piscarão” um para o outro com cumplicidade, enquanto o resto do público que esboça um mínimo interesse provavelmente se entediará ao longo do texto e, ao final, demonstrará desinteresse. O cinema (assim como o vinho) deve trazer prazer intelectual. Os melhores degustadores italianos se sentam em mesas velhas no campo, rasgando pães com as mãos e dando fartas goladas. Se perguntá-los, confirmará que o essencial é o prazer que o vinho lhes proporciona, não sua cientificidade. O crítico está em processo eterno de aprendizado e refinamento, pois o cinema não é uma arte imutável ou equação matemática.

Finalizando, gostaria de citar um exemplo verídico que acho que define de maneira exemplar a função do crítico e sua importância. O renomado crítico francês André Bazin espalhou aos quatro ventos sua admiração pelo trabalho do diretor William Wyler no filme: “Pérfida” (The Little Foxes – 1941), ao demonstrar a excelência do diretor em criar uma cena onde a atriz Bette Davis fica sentada, imóvel em primeiro plano, enquanto atrás dela, o marido (vivido por Herbert Marshall) sobe uma escadaria e sofre um ataque cardíaco. Ele implora por socorro, mas Bette permanece de costas para ele, deixando-o morrer. Aos olhos do crítico, a imobilidade de Bette Davis filmada em apenas uma tomada e com profundidade de foco, revelava seu caráter e determinava a dramaticidade da cena. Anos depois, ao encontrar-se com o diretor no Festival de Cannes, aproveitou para congratulá-lo pela cena magistral, no que Wyler envergonhado lhe respondeu: “Não foi bem assim. Naquele dia, Bette Davis havia torcido o pé e não houve outro recurso senão rodar toda a cena com ela sentada num sofá.” O crítico então, com um sorriso no rosto, afirmou: “Mas então, o meu filme é melhor que o seu”.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O problema no cinema nacional...

Fazer cinema no Brasil é como tentar subir o Himalaia sem equipamento. Não existe incentivo algum, muito menos inteligência, por parte daqueles que comandam esta tentativa (mais uma das várias) de se formar uma indústria. Cineastas espertos, mesmo sem ajuda, acreditaram em suas ideias e utilizaram as potencialidades deste moderno mundo interconectado. “2 Coelhos” é um excelente exemplo de um projeto que ousou sair do lugar comum, usando de forma sagaz os recursos das redes sociais, abrindo inteligentemente o diálogo com seu público-alvo. O roteiro é tão bacana, que os americanos já planejam uma refilmagem. O diretor Afonso Poyart chamou a atenção dos industriais de lá, que já o contrataram (o filme “Solace”, que estreia em 2014, com Anthony Hopkins no elenco). O mesmo aconteceu com o José Padilha, que com “Tropa de Elite”, provou que conseguimos fazer uma obra de ação eletrizante, com direito a um protagonista marcante, que entrou para a cultura pop nacional.

O maior problema (não o único) no cinema nacional é o roteiro. Problemas técnicos graves, como o áudio, já superamos, mas não possuímos uma boa “escola” de roteiristas. Com raras exceções, as produções versam sempre sobre os mesmos temas (afinal, a maioria de complexados cineastas brasileiros quer ser Godard e não Billy Wilder), como se os realizadores tivessem medo de arriscar, elemento fundamental em qualquer atividade cultural. A nossa indústria precisa adaptar a criatividade visando não exceder os limites de verba, o que possibilitaria a criação de obras de ficção-científica calcadas nos diálogos (como “Stalker”, de Tarkovski), obras de terror psicológico (como os trabalhos iniciais de Roman Polanski) ou obras de fantasia lúdica, como o recente “Indomável Sonhadora”. Filmes que atraiam o público, não somente os familiares dos realizadores. Depois que já tivermos estabelecido uma indústria autossustentável, daí podemos partir para voos mais alternativos (como ocorre em Hollywood, por exemplo), intercalando uma obra popular (não “populista”) de um super-herói nacional (que trará lucro, ocasionando a necessária sustentabilidade), por exemplo, com um drama familiar denso e intimista.

O José Wilker deu algumas entrevistas onde enaltece o trabalho da “Globo Filmes”, afirmando que ela “tem feito grandes benefícios” à produção nacional. Ele também defende uma atuação governamental para criar novas salas e modernizar os equipamentos audiovisuais, o que demonstraria que o governo leva o cinema a sério. São duas afirmações que se opõem. O que nutre uma indústria não é o quantitativo, mas sim a formação de um público criterioso. A maior parte do público que enche os cofres da “Globo Filmes” hoje, não faz a mais remota ideia do que seja a Sétima Arte, pois a reconhece apenas como aquele divertimento rápido, colorido e barulhento, que os entretém entre o atender de um celular e a última pipoca mastigada. Eles não vão à sala escura para conhecer personagens potencialmente interessantes. O problema já citado, sobre os roteiros, nem é percebido por este público. Acendem-se as luzes e eles se levantam sem recordarem sequer os nomes dos personagens. Em uma indústria já estabelecida e autossustentável, não haveria problema algum. Nenhum americano ia assistir aos filmes do Jerry Lewis e do Dean Martin, esperando não reconhecê-los nos personagens. Os roteiros eram bobinhos, para que eles tivessem a chance de realizar suas peripécias costumeiras. Mas já na década de 50, os norte-americanos davam aula de competência com sua indústria cinematográfica, enquanto nós lutávamos para manter viva a chama criativa da Atlântida e da Vera Cruz. Discordo do Wilker quanto à benesse que o populismo oferta à produção nacional. Os filmes de Amácio Mazzaropi eram populares e precários em vários sentidos, mas nunca populistas. Eles refletiam a forma de pensar de seu autor (“Portugal… Minha Saudade”, onde ele critica o tratamento aos idosos por seus filhos, por exemplo), um bravo sonhador que buscou formar uma indústria. Já as produções da “Globo Filmes”, que conquistam bilheterias monstruosas (somente devido à extensa divulgação em todos os tentáculos da empresa), não incitam nenhuma forma de atitude em quem assiste. Exatamente o oposto, sendo, em grande parte, completamente (e terrivelmente) inofensivas. O pior tipo de estímulo que um filme pode incitar em seu público: a indiferença.

Para cada obra-prima como "O Som ao Redor" (de Kleber Mendonça Filho), multiplicam-se como Gremlins, porcarias como "Crô". Sem formar em longo prazo um público minimamente interessado e criterioso, não teremos uma indústria de cinema de nível competitivo. Com o poder mercadológico da “Globo Filmes”, não seria maravilhoso se eles utilizassem todos os seus tentáculos de marketing na promoção de filmes bons, dos mais variados gêneros? Cinema é a arte da tentativa e erro, mas os produtores brasileiros querem conquistar para ontem, o status que as indústrias estrangeiras demoraram décadas de plena dedicação para conseguir. E reclamamos, pois nós adoramos nos colocar como os pobres coitados em tudo. Nossas novelas (e não estou discutindo a qualidade desta forma de arte) são consideradas as melhores do mundo. Ninguém faz novelas com a qualidade dos brasileiros. Mas você não lê sobre produtores de novelas americanas (e eles possuem algumas que duram décadas), pedindo para que seus produtos obtenham mais espaço no mercado exterior. As novelas brasileiras são transmitidas em Portugal com muito sucesso, mas nenhuma novela portuguesa é transmitida aqui (e teriam que ser dubladas, já que grande parte do povo não compreende a pronúncia. Que vergonha…). Eles reclamam e posam de pobres coitados? Temos que provar com competência a qualidade de nosso trabalho, buscando empatar o jogo, sem ficar mendigando a utilização de uma variação do sistema de cotas. 

Precisamos fazer bons filmes, com roteiros de qualidade. Voltando ao Wilker, não poderia desligar meu senso criterioso e “passar a mão na cabeça” de seu primeiro trabalho na direção, pois estaria fazendo um desserviço à arte e ao amor que eu sei que ele nutre por ela. “Giovanni Improtta” possui um roteiro fraquíssimo (de Aguinaldo Silva e Mariana Wilker), escrito por pessoas que demonstram pouca noção de como funciona a linguagem cinematográfica. Uma produção com orçamento de 6 milhões, que foi o mesmo valor (em dólares) utilizado por James Cameron no primeiro “O Exterminador do Futuro” (1984) e muito mais do que os 100 mil utilizados por George Miller em seu “Mad Max” (1979) ou os 27 mil utilizados por Kevin Smith em seu “O Balconista” (1994). Muitos clássicos que entraram para a História da Arte, sendo referenciados no mundo todo, foram produzidos com orçamento baixo, como “Rocky”, “Halloween” e “American Graffiti”. O cinema nacional precisa de boas ideias (e roteiristas competentes que as transportem para as páginas), não de grandes orçamentos. E, mais que isto, o cinema nacional precisa formar um público qualitativo, que valorize esta arte e conscientemente antecipe a estreia do novo filme do cineasta “x”. Lixo entregue em grande quantidade apenas fede. Precisamos parar de procurar esconder incompetência e amadorismo por trás do confortável véu de vítimas das circunstâncias.

"Noites Brancas", de Dostoiévski


Conheci Dostoiévski quando eu tinha quatorze anos, lendo seu conto “Noites Brancas”. A leitura foi ininterrupta, tomou-me algumas horas da madrugada, à época ainda proibida, pois devia acordar cedo no dia seguinte e ir à escola (engraçado como sempre tive a convicção de que aprendi muito mais fora dela). Sentia-me preso àquela prosa tal qual a jovem Nástienka pelo fantasma de seu amor de outrora. Identifiquei-me imediatamente com a figura do sonhador sem nome, solitário e tímido, que ao encontrar a jovem chorando no parapeito do cais, aproxima-se e irreversivelmente lhe nutre ternura. Para ela, ele conta sua história, plena em ilusão (sua fuga da realidade) e sonhos. Durante quatro noites, os dois se encontrariam para conversar e preencher lacunas, mascarar carências com gargalhadas nervosas, consolarem-se mutuamente por suas tragédias pessoais: ela, por amar alguém do passado e ele, por querer amá-la no futuro. Claro que não contarei o final desta linda história, que recomendo fortemente. Diferente das obras mais complexas de sua carreira (como “Crime e Castigo” e “Irmãos Karamázov”), este conto é perfeito para aqueles que ainda estão começando a se aventurar nas páginas deste gênio literário.

Aproveito o tema para contar algo curioso que ocorreu comigo na época em que li o livro pela primeira vez. Como já disse, era adolescente e fiz a besteira de indicar o livro para alguns colegas de turma, que estavam elogiando bastante um filme que haviam assistido no “Cinema em Casa” alguns dias antes. Tratava-se de “O Último Americano Virgem”, um daqueles típicos exemplares adolescentes da época, porém com um diferencial interessante: além de uma bela trilha sonora (“Just Once” de James Ingram), exibia um caso de amor que possuía semelhanças com o do casal de “Noites Brancas” (pelo menos é o que eu achava na época). Quem assistiu o final do filme e leu o livro, talvez concorde comigo. De qualquer forma, achei interessante indicar o livro para eles, mas adivinhem o que aconteceu? Muito provavelmente eles nem se preocuparam em procurar o livro, mas conseguiram assistir o filme de Luchino Visconti (“Le Notti Bianchi”), realizado em 1957 (com Marcello Mastroianni e Maria Schell). Alguns dias depois, praticamente fui encurralado no pátio da escola, sendo questionado por meus colegas devido ao meu “péssimo gosto”. Reclamavam que eu havia lhes feito perder um precioso tempo assistindo uma porcaria em preto e branco (enfatizavam o que para eles era o equivalente a uma tortura medieval), onde nada acontecia. Ao que me consta, não chegaram a assistir o filme todo. Eu, que naquela época ainda não havia visto a adaptação cinematográfica (de Visconti, apenas conhecia “Rocco e seus Irmãos”), fiz questão de alugar e, como esperava, adorei! Sempre que penso em Dostoiévski, recordo-me deste evento surreal e das semanas de chacota juvenil que eu tive que aguentar devido ao meu “péssimo gosto” cultural.

Sobre o filme, tenho ótimas recordações. Visconti suavizou tremendamente as nuances psicológicas do personagem masculino, negando-lhe o longo monólogo em que conta sua história. O que durava várias páginas foi adaptado para uma hilária cena em que Mastroianni e Maria dançam ao som do infante Rock and Roll. Outro momento que recordo com emoção é a frase (tirada do livro) com que Mastroianni define seu personagem: “Obrigado pelo momento de felicidade que me proporcionou”. Difícil conter as lágrimas também com a bela analogia feita entre o sonhador e o velho cão de rua: ambos dispostos a dar atenção e carinho a todos os estranhos com quem cruzam nas ruas, porém destinados a terminarem solitários, como que esperando um dono (a) que nunca os socorre.