quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Walt Disney - O Patriarca dos Sonhadores


Desde 1892 que a exibição de desenhos em movimento entretém o público. Sempre visando o divertimento rápido e despretensioso em pequenas cenas, quase sempre de humor. Porém é impossível falar do gênero sem citar o homem que pegou as barrocas ideias do teatro de sombras chinesas e transformou em espetáculos mágicos, a notória Oitava Arte. Disney já exercitava seu talento na década de 20, em curtas metragens e peças publicitárias, mas foi no final da década de 30 que o jovem gênio elevou o nível do entretenimento mundial ao arriscar realizar uma animação de longa metragem, quando na época todos os críticos acreditavam que ninguém teria paciência de assistir um desenho animado de longa duração nos cinemas.

Baseado em conto dos irmãos Grimm, “Branca de Neve e os Sete Anões” estreou em 1937 com aclamação unânime de críticos e público do mundo inteiro. Tal sucesso foi um reflexo do árduo trabalho da equipe técnica, que demorou três anos para desenvolver o projeto, meticulosamente dando vida a todos os aspectos que apareceriam em cena. Um trabalho hercúleo e que garantiu um prêmio honorário da academia no ano seguinte, simbolizado por uma estatueta do Oscar em tamanho natural e outras sete em miniatura. A obra também criou o padrão Disney de fazer cinema: temas fantasiosos e com ensinamentos morais junto a lindas canções. Como Walt mesmo simplificou anos depois: “Em meus filmes, para cada risada, deve haver uma lágrima”. A fórmula de sucesso trouxe, em 1940, duas produções lendárias. Em “Fantasia”, Disney ousou realizar uma combinação de animação com as mais lindas composições clássicas em um épico de mais de duas horas. “Pinóquio”, a clássica história do boneco de madeira que queria se tornar um menino de verdade, obteve sua interpretação definitiva em uma animação mais bem acabada que “Branca de Neve”, com uma canção que ultrapassou os limites da Arte, entrando para a história da música mundial: “When You Wish Upon a Star”.

Nos anos seguintes, o mundo ficou conhecendo a linda história do elefante “Dumbo” e a bela fábula sobre maturidade “Bambi”. Após 1942, Disney entrou em uma maré de azar onde as bilheterias caíam drasticamente filme após filme. São dessa época produções como: “Alô Amigos”, “Você já foi a Bahia?”, “Tempo de Melodia” e “As Aventuras de Ichabod e o Sr. Sapo”. As empresas Disney desmoronavam, levando consigo o sonho de Walt e o futuro da animação no cinema. Em 1950, assim como nos contos de fada, uma palavra mágica fez ressurgir o império Disney das cinzas: Bibbidi-Bobbidi-Boo. A canção de mesmo nome foi indicada ao Oscar e o filme “Cinderela” foi uma das maiores bilheterias do ano. Além de ter sido indicado ao Leão de Ouro de Veneza, ganhando o prêmio especial do público. O mestre novamente sorria de orelha a orelha, com os sucessos que viriam nos anos seguintes: “Alice no País das Maravilhas”, o maravilhoso “Peter Pan”, “A Dama e o Vagabundo” e a obra-prima “A Bela Adormecida”.

A década de 60 principiava com uma pequena queda no lucro e todos imaginavam se a empresa iria se restabelecer como antes. Obras como “101 Dálmatas”, “A Espada era a Lei” e “Mogli, o Menino Lobo” faziam um sucesso mediano e nem de longe transmitiam o frescor e genialidade de outrora. “Mary Poppins” pode ser considerada com justiça a melhor produção da época, apresentando ao mundo a beleza e o carisma de Julie Andrews, assim como canções que entraram para a história do estúdio (como "Supercalifragilisticexpialidocious"). Em 1966, o baque definitivo, a morte de Walt Disney deixava todos em alerta. Como seriam as produções feitas após sua saída? Será que o legado Disney iria resistir? Durante toda a década de 70 e 80, os desenhos da companhia foram pálidas lembranças do que já haviam sido. Lançamentos inexpressivos nos cinemas, produções preguiçosas, formulaicas em excesso: um pouco de drama, umas canções nem sempre inspiradas e um genérico final feliz.

Enquanto isso, no outro lado do mundo, era criado um marco na animação mundial: AKIRA (de Katsuhiro Otomo), uma obra violenta e adulta. Parecia não haver mais espaço no mundo para os contos de fada e o moralismo de Disney. Porém em 1989, algo novo mostrava-se no horizonte com o lançamento de “A Pequena Sereia”. As músicas eram melhores e o roteiro trazia uma jovialidade que fazia falta ao estúdio. Longe de ser perfeito,  o filme conseguiu fazer com que pessoas de todas as idades voltassem às filas dos cinemas. O sucesso comercial da obra provou aos técnicos que havia público para suas produções. Logo, começaram a idealizar a obra que trouxe de volta toda a magia de seu criador e alcançou muito mais do que o próprio almejara no passado. Em 1991 estreou a “A Bela e a Fera”. A linda fábula não somente revolucionou no quesito técnico (ao incluir uma cena em computação gráfica), como conseguiu a façanha de ser indicada ao prêmio de melhor filme no Oscar. Isso sem falar na expressiva bilheteria, a terceira maior do ano.  “Aladdin” (em 1992) tornou-se o filme mais bem sucedido do mundo (na época), rendendo 517 milhões nas bilheterias. A animação não só havia voltado com tudo, como também quebrava preconceitos de críticos que ainda a viam como uma Arte menor. Obras como "A Bela e a Fera" exalavam mais refinamento que muitas produções tradicionais.

Mas nada preparava o mundo para o fenômeno cultural chamado “O Rei Leão”. A trama que misturava influências de Hamlet, Bambi e temas bíblicos, trouxe lágrimas aos olhos dos mais frios homens. O maior mérito foi o de ser o primeiro na história da empresa com um roteiro original, não baseado em contos de fada ou em clássicos da literatura. O projeto tornou-se o mais lucrativo da história da Disney. O limite que dividia as animações dos filmes live action havia sido destruído impiedosamente, fazendo com que os críticos se curvassem perante o brilhantismo do filme, citando-o como uma das melhores obras da década.

O futuro glorioso traria a maravilhosa parceria com os estúdios Pixar, resultando em uma nova geração imersa nesse entretenimento de alta qualidade. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Jacques Tati


Jacques Tati era um genial arquiteto de sonhos. Desde a primeira vez que assisti aquele adorável “Sr. Hulot”, tive a clara impressão de estar vivenciando um mundo onírico. Pouquíssimos diálogos, sons ambientes exagerados, a forma como os personagens caminham (como o encarregado da limpeza das ruas em “Meu Tio”, que nunca consegue realmente realizar seu ofício, sempre tendo sua atenção desviada para algum elemento) e o ritmo sempre contemplativo, como se pedisse nossa total atenção. Cada detalhe é importante, assim como cada ser que habita um plano (que poderiam até ser emoldurados, de tão ricos) de Tati possui uma função. O espectador que busca gargalhar, já começa de forma equivocada (estes e os que assistem por obrigação escolar, são os primeiros a afirmarem seu ódio por este cineasta), pois sua mente programada busca aquele padrão já conhecido de comédia, frustrando-se já nos primeiros minutos. O ser humano não aprecia o que é novo, preferindo rir do mesmo bordão conhecido todos os dias.

Existem poucos diretores/atores de humor que podem ser chamados de refinados artesãos (Tati e Jerry Lewis são os que me vêm à mente), pois trabalham além das características de seus personagens, moldando com o mesmo esmero todo o ambiente que o circunda. As “piadas” quase sempre são elaboradas com riqueza de minúcias, como aquela de “Meu Tio” (Mon Oncle – 1958), quando Hulot suja a sola de seu sapato direito e acaba deixando um rastro de pegadas brancas no escritório onde procura emprego, inclusive no banco da gerente e na mesa, quando ele tira o sapato do pé e por deslize repousa-o nela. Ele leva o público a crer que o desfecho será simples, inserindo então algumas olhadas da mulher que o atende, em direção a uma janela superior que está parcialmente aberta (isto é feito com muita sutileza, somando-se ao fato de nossa atenção estar sendo direcionada para outros elementos da cena). Quando acreditamos que a cena terminou, Tati nos prova sua genialidade ao fazer com que a gerente o encaminhe ao salão do lado, dizendo com ironia: “para que não seja preciso o senhor fazer tanta ginástica” (ela acredita que ele subiu na mesa para poder averiguar o que ocorria na sala ao lado, pela janela). Percebemos então ao revisitarmos a cena, o cuidado que ele teve ao estruturar cada movimento, cada gesto.

Outro fator essencial na filmografia de Tati é a inteligente crítica feita à sociedade. No filme já citado, que considero sua obra-prima, demonstra de forma muito simples a mediocridade daqueles que vivem de aparência e ostentação. Uma dona de casa obsessiva por limpeza, que reformou sua casa com a tecnologia mais moderna (tão desconfortável que a faz assistir TV sentada no jardim), simplesmente para poder exibi-la, com a formalidade de um corretor de imóveis, aos vizinhos. O ápice de criatividade é o horroroso chafariz em formato de peixe, instalado em um jardim que mais parece o mitológico labirinto do rei Minos. Dependendo da importância do convidado, aciona-se ou não o chafariz (que fica sempre desligado), conduzindo a situações hilárias (como com a chegada do “vendedor de tapetes”). Neste microcosmo fútil e excessivamente organizado, Hulot torna-se um elemento de rebeldia (emulado por Peter Sellers em “Um Convidado bem Trapalhão”) e necessário caos.

Assistam Tati e percebam muitos outros toques geniais deste artesão do humor, que será eterno na mente dos apaixonados pela Sétima Arte.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Cine Samurai – “Os 13 Assassinos” (1963)

O filme está sendo lançado pela distribuidora “Versátil”, que nesse ano está investindo em uma lacuna irresponsavelmente deixada pelas majors: cinema asiático clássico. O box “Cinema Samurai” ainda traz mais 5 maravilhosos exemplares da fase de ouro dos Chambara. Imperdível!


Os 13 Assassinos (Jusan-nin no Shikaku – 1963)
Lorde Naritsugu comete todo tipo de crueldade e permanece impune por ser irmão do Xogum, até que 13 assassinos são contratados para detê-lo. 

Esse é o primeiro e melhor filme da “Trilogia da Revolução Samurai”, dirigida por Eiichi Kudo. Sua intenção era resgatar em um povo que vivia uma estagnação política no pós-guerra, um senso de heroísmo e coragem, nascido do confronto entre o individualismo rebelde e o autoritarismo. Ele faz parte de um movimento realista/pessimista chamado “Zankoku (cruel) Jidaigeki”, que potencializava a violência na tentativa de atrair o público japonês que já começava a se interessar mais pelo entretenimento televisivo (problema que todas as indústrias cinematográficas do mundo compartilharam), com tramas formulaicas que serviam como preparação para longos desfechos de pura ação épica. E Kudo ousou fazer isso nos estúdios Toei de Kyoto, berço do cinema fantástico (chamado de “Goraku Jidaigeki”), que focava principalmente os adolescentes.

O roteiro busca inspiração clara em “Os Sete Samurais”, de Kurosawa, mas também na tradicional lenda do código samurai do Bushido (caminho do guerreiro): “Chūshingura” (47 Ronins). Seus personagens são estereótipos amplamente utilizados no gênero, como o jovem inexperiente que passa a integrar a equipe, movido apenas pela paixão. Outro ponto que vale ser salientado, especialmente por provar a superioridade do original perante sua refilmagem moderna (pelas mãos de Takashi Miike), é a bela fotografia em preto e branco de Suzuki Jubei, potencializada em suas tomadas em ângulo baixo e limitadas pelo espaço, que acaba agindo como um personagem próprio e ameaçador.

Resumindo, o “Zankoku” representou para o cinema samurai japonês, o mesmo que o “Western Spaghetti” foi para o Western que era realizado pelos americanos. Personagens corruptos, traidores e emoldurados por um clima permanente de cinismo. De certa forma, esse estilo favorecia o sentido de honra inerente aos samurais, já que uma atitude heroica tende a cegar com sua luz, quanto mais escuro for o ambiente. E se torna impossível não se empolgar ao assistir a batalha dos 13 valentes guerreiros contra o exército inimigo ao final. 

Make 'Em Laugh – Um Estranho Casal

O filme está finalmente sendo lançado no mercado brasileiro pela distribuidora “Classicline”, que merece justo reconhecimento pelo zelo com a história do cinema, legando esses tesouros para uma geração tão maltratada pelas distribuidoras majors, sempre tão imediatistas.


Um Estranho Casal (The Odd Couple – 1968)

Adaptada por Neil Simon a partir de seu próprio sucesso nos teatros da Broadway (protagonizada por Matthau e Art Carney). Após acabar o casamento de 12 anos, Felix Ungar (Jack Lemmon) decide morar com seu melhor amigo Oscar Madison (Walter Matthau), pois ambos estão divorciados e sozinhos. Mas eles logo descobrem que os seus temperamentos são bem diferentes e o modo de comandar uma casa é muito conflitante, pois enquanto Oscar é um tremendo bagunceiro, Felix é um maníaco por organização e limpeza.

Neil Simon escreve diálogos divertidíssimos, que explodem inesperadamente como consequência de um atrito situacional. A chave criativa é inserir em um mesmo ambiente, pessoas que nunca administrariam uma amizade no mundo real. Transitando entre o amor e o ódio, essas pessoas estão aprisionadas a um padrão de comportamento que, de tão trágico, acaba se tornando cômico. Basta lembrar que o personagem de Lemmon busca cometer suicídio logo nos primeiros minutos. Todas as sitcoms bebem dessa fonte, normalmente com menos elegância e refinamento nos textos.

O diretor Gene Saks não possui muito mérito no sucesso dessa adaptação, que transporta com fidelidade o texto original de Simon e as ideias cênicas da direção teatral de Mike Nichols (como pode ser notado no posicionamento pouco cinematográfico na cena do jogo de pôquer). Fico imaginando a obra-prima que poderia ter sido, caso Billy Wilder estivesse no comando. E é indiscutível que a mágica que torna o filme irresistível até hoje, reside na sua dupla de protagonistas, imortalizada em seu melhor momento. Lemmon e Matthau (que já haviam trabalhado juntos em “Uma Loura por Um Milhão”, de 1966) se divertem em cena, mastigando com fome cada one-line espirituosa e sempre evitando a óbvia caricatura, ponto fraco dos textos de Simon e da sitcom em geral.

É engraçado perceber a forma como o roteiro inteligentemente demonstra as falhas comportamentais dos personagens, que culminaram nos divórcios de suas respectivas parceiras, nas discussões que eles mantêm regularmente (percebam como eles acabam se referindo um ao outro, com o nome das esposas), ressaltando o absurdo de que, mesmo em uma relação de amizade, eles acabam cometendo os mesmos erros que os conduziram anteriormente ao fim de seus relacionamentos conjugais.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O Cinema de Ozu - "Era Uma Vez um Pai"



Era Uma Vez um Pai (Chihi Ariki, 1942)
Um professor viúvo matricula o filho em um colégio interno, partindo para ganhar a vida em Tóquio. O amor entre pai e filho precisará resistir a esta separação.

Lançado logo após os ataques em Pearl Harbor, talvez esse seja o filme de Ozu com a narrativa mais simples, por conseguinte, terreno fértil para sua Arte germinar. Existe uma aura de respeito que se faz notar nos pequenos momentos entre pai e filho, entre professores e alunos. O conceito que move a trama é lindo: o homem que sabe que precisa conseguir verba para manter seu filho na escola, pois apenas a educação faz uma pessoa evoluir. A ideia de redimir seu erro fazendo de seu filho alguém muito melhor do que ele havia sido. O subtexto da obediência como causadora de extrema dor, o sacrifício do afastamento como bússola moral e a figura do trem como elemento imagético que representa os laços familiares. Nenhum realizador dizia tanto com tamanha sutileza.

A emoção que nasce da silenciosa cena de pescaria, onde vemos Chishu Ryu e o pequeno Haruhiko Tsuda harmonicamente balançando várias vezes suas linhas em direção ao rio, somente é superada pela simbólica repetição da cena em um momento posterior, onde reencontramos Ryu e Shûji Sano (que vive o filho, quando adulto). O rio é o mesmo e a água continua em constante movimento, ainda que os reflexos deles tenham modificado. A utilização recorrente das estupas budistas (como moldura na cena da pescaria, por exemplo) reforça o sentimento de paz e harmonia.  Podemos encontrar também uma referência ao rito de purificação xintoísta pela água, o misogi, na cena em que pai e filho se banham juntos. Mais para frente, o olhar moderno, acostumado ao ritmo frenético dos blockbusters, deixa cair uma lágrima ao presenciar a elegância da representação visual da morte como uma ausência, uma cadeira que estava ocupada minutos antes, mas que agora se mostra vazia.

A Seguir: "Pai e Filha" (1949)