domingo, 1 de dezembro de 2013

O Cinema de Ozu - "Era Uma Vez um Pai"



Era Uma Vez um Pai (Chihi Ariki, 1942)
Um professor viúvo matricula o filho em um colégio interno, partindo para ganhar a vida em Tóquio. O amor entre pai e filho precisará resistir a esta separação.

Lançado logo após os ataques em Pearl Harbor, talvez esse seja o filme de Ozu com a narrativa mais simples, por conseguinte, terreno fértil para sua Arte germinar. Existe uma aura de respeito que se faz notar nos pequenos momentos entre pai e filho, entre professores e alunos. O conceito que move a trama é lindo: o homem que sabe que precisa conseguir verba para manter seu filho na escola, pois apenas a educação faz uma pessoa evoluir. A ideia de redimir seu erro fazendo de seu filho alguém muito melhor do que ele havia sido. O subtexto da obediência como causadora de extrema dor, o sacrifício do afastamento como bússola moral e a figura do trem como elemento imagético que representa os laços familiares. Nenhum realizador dizia tanto com tamanha sutileza.

A emoção que nasce da silenciosa cena de pescaria, onde vemos Chishu Ryu e o pequeno Haruhiko Tsuda harmonicamente balançando várias vezes suas linhas em direção ao rio, somente é superada pela simbólica repetição da cena em um momento posterior, onde reencontramos Ryu e Shûji Sano (que vive o filho, quando adulto). O rio é o mesmo e a água continua em constante movimento, ainda que os reflexos deles tenham modificado. A utilização recorrente das estupas budistas (como moldura na cena da pescaria, por exemplo) reforça o sentimento de paz e harmonia.  Podemos encontrar também uma referência ao rito de purificação xintoísta pela água, o misogi, na cena em que pai e filho se banham juntos. Mais para frente, o olhar moderno, acostumado ao ritmo frenético dos blockbusters, deixa cair uma lágrima ao presenciar a elegância da representação visual da morte como uma ausência, uma cadeira que estava ocupada minutos antes, mas que agora se mostra vazia.

A Seguir: "Pai e Filha" (1949)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Kung-Fu Fighting (Bônus) - Bruce Lee, Mestre de Si Mesmo


Um jovem que nunca envelhecerá e que tornou sua imagem um símbolo de seus ideais em vida. Uma morte física que apenas afirmou sua real imortalidade. Um gênio em sua arte, disciplinado, justo, veloz como o raio e, ao mesmo tempo, frágil e humilde. O nome pelo qual o mundo o conheceu: Bruce Lee.

“Ninguém pode fazê-lo sentir-se inferior sem o seu consentimento”.

Muitos procuram debater sobre quem era melhor lutador. Todos têm seus méritos e deméritos, mas vejo a perfeição em apenas um. Enquanto Jet Li possui ótimas lutas muito bem coreografadas, sinto uma tremenda falta de empatia com o público. Como ator ele não me convence, sempre sisudo. Diferente de Jackie Chan, que consegue atuar muito bem, mesmo nas mais incríveis peripécias acrobáticas. Extremamente simpático, talvez até demais, falta a ele o ar de superioridade que outros possuem. Sonny Chiba é muito técnico, mas falta carisma. Jean-Claude Van Damme tem carisma de sobra, mas pouca técnica. Steven Seagal não possui muito carisma, nem sabe expressar bem para a câmera sua técnica, talvez por isso esteja utilizando-a tão pouco em seus últimos trabalhos.

“Covarde não é aquele que evita um combate, covarde é aquele que mesmo sabendo que é superior, luta e fere o mais fraco”.

Bruce Lee não era apenas um lutador, mas também um filósofo. Sendo um ótimo ator, conseguia traduzir em seu rosto, nos movimentos corporais e em seus famosos gritos, toda a emoção da luta. Além de atuar, roteirizava e dirigia. Infelizmente não teve tempo de trabalhar mais esses dois elementos, mas deixou incompleto o que poderia ter se tornado o filme símbolo do gênero. Não aquele horrendo arremedo chamado: “Jogo da Morte”, que os gananciosos produtores americanos inventaram de fazer após a sua morte, utilizando cenas gravadas e truques baratos e ofensivos para tentar ocultar o dublê que estava presente a maior parte do tempo. Falo da ideia original de Lee, onde ele viveria um campeão de artes marciais aposentado, que entrava em confronto com gangues coreanas do submundo. Ele descobre a existência de uma torre, onde as armas de fogo não são permitidas. Guardada em cada nível por um representante de algum estilo de luta. Sua missão é chegar ao topo dela e resgatar seus irmãos que são mantidos reféns.

“Se você acreditar que uma coisa é impossível, você a tornará impossível”.

A intenção de Lee era clara, abominar o uso de armas de fogo e demonstrar fraquezas inerentes a cada um dos estilos de artes marciais, superando-os com sua técnica, uma mistura de todas as artes, de maneira fluida. Isso ia de encontro a todos os princípios ditados pelos mestres. Ele sempre foi uma pedra no sapato desses dignitários, que o acusavam de ensinar os segredos milenares para qualquer um, de qualquer raça ou credo. Ele os respondia dizendo que as religiões e as variadas artes marciais deveriam servir para unir os povos, não segregá-los. Ateu assumido, Lee acreditava apenas no seu aprimoramento físico e intelectual.

“Conhecimento dá poder, mas só o caráter granjeia respeito”.

Em seus filmes podemos assistir ele destruindo toda uma classe de alunos faixa-preta com extrema habilidade. Mas o momento que melhor expressa sua real intenção está presente na batalha final de “O Voo do Dragão” (The Way of the Dragon – 1973), quando após uma longa e exaustiva luta com seu adversário, vivido por Chuck Norris, Lee se ajoelha perante o corpo tombado dele e ora em respeitoso silêncio. Era seu roteiro e sua direção. Diferente de todos os outros astros do gênero, que sempre acabam com o vilão com soar de trombetas ao final e, se possível, jogando-os no moedor de carne mais próximo, Lee demonstrou respeito e admiração por seu oponente. Sua força não residia nos punhos, mas sim em seu caráter.

“Seja como a água que abre caminho através das pedras: não se oponha ao obstáculo; contorne-o”.

Até hoje se discute os mistérios que circundam sua morte, alguns afirmam que ele foi assassinado pela Yakuza, teoria que tomou mais força após a lamentável morte acidental de seu filho Brandon Lee nas gravações do filme “O Corvo”, quando foi atingido por uma bala que deveria ter sido de festim. Que tinha muita gente invejosa querendo sua morte, não tenho dúvida. Seu desejo de propagar as artes marciais para todos, sem preconceitos, ia de encontro a muitos poderes influentes na área, isso sem falar no seu posicionamento público a favor do desarmamento, o que para a indústria militar era algo que certamente lhes tirava o sono, devido ao forte apelo popular do astro. Mas, acima de tudo isso, eu prefiro lembrar-me de como ele viveu.

“Aquele que não sabe, e pensa que sabe. Ele é tolo. Evite-o!
Aquele que sabe e não sabe que sabe. Ele está adormecido. Desperte-o!
Aquele que sabe e não admite o que sabe. Ele é humilde. Guie-o!
Aquele que sabe e sabe que sabe. Ele é sábio. Siga-o!”

Faces do Medo - "Desafio do Além"


Desafio do Além (The Haunting – 1963)
Quando o diretor Martin Scorsese elegeu recentemente seus filmes favoritos no gênero terror, não me surpreendi com o primeiro colocado: “Desafio do Além”. O homem por trás da ótima adaptação do livro de Dennis Lehane: “Ilha do Medo” (Shutter Island), havia reverenciado o clássico dirigido por Robert Wise, buscando farta inspiração para conduzir a sua obra. Não apenas na narrativa similar, como também no elemento imagético, por exemplo, com o uso pleno em simbolismo da escada em espiral.

O roteiro, adaptado do livro “The Haunting of Hill House”, de Shirley Jackson, pode ser interpretado simploriamente como um conto de casa mal-assombrada, mas possui um forte subtexto (pelo menos em sua versão cinematográfica) psicológico, que possibilita uma interpretação muito mais instigante e satisfatória. Assim como o personagem de Leonardo DiCaprio no suspense de Scorsese, a trágica Eleanor (Julie Harris) parece estar vivendo uma ilusão induzida, como parte de uma experiência de tratamento para sua neurose, nascida de um fenômeno estranho que testemunhou quando criança. Convidada pelo parapsicólogo Dr. Markway (Richard Johnson), para unir-se a dois outros jovens (uma também afetada por fatores inexplicáveis), em uma visita a uma casa com fama de mal-assombrada, como parte de uma pesquisa que ele está conduzindo sobre o mundo paranormal. Ele acredita que a presença dessas jovens irá incitar os “espíritos” a se manifestarem.

Os ângulos de câmera (Wise foi o mestre responsável pela edição de “Cidadão Kane”) que captam várias partes da casa, transformando-a em um personagem vivo, uma entidade que observa seus ocupantes e os pressiona cada vez mais. Pode-se dizer que algumas das manifestações físicas que ocorrem são representações das distorções internas de Eleanor, cada vez menos no controle de suas emoções. Wise gradativamente incorpora os momentos de paranoia às cenas onde os “espíritos” são explícitos, tornando difícil diferenciar o que é real e o que pode ser realmente paranormal.

Estátuas parecem mudar de posição no escuro, como se a arquitetura da casa tivesse vida própria (auxiliado pela utilização distorcida das lentes olho de peixe) e visse seus visitantes como ratos em um labirinto. É comum escutar de jovens, quando indicamos o filme, que ele não dá medo. A mente do jovem está tão acostumada ao assalto visual dos filmes de terror modernos, que simplesmente não aceita a estimulação sonora. O real elemento paranormal no filme é mostrado excessivamente através do som. As vozes estranhas nas noites e as batidas nas portas e paredes, gradativamente aumentando de intensidade. Mas ficamos com a impressão de que o verdadeiro monstro não é a casa ou os “espíritos” que possivelmente a habitam, mas a própria Eleanor, cada vez mais perdida no labirinto de sua mente. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sábio Silêncio - Parte 9


Diário
13 de Janeiro – 1920 – Tarde

Aproveitei que Chaplin estava próximo e visivelmente descontraído, para abordá-lo com mais informalidade. Eu queria registrar uma entrevista com aquele gênio, mas não sabia se conseguiria manter a atenção dele por mais que alguns minutos, então eu tive que ser bastante objetivo. Chamei sua atenção e, para minha surpresa, ele já me conduziu pelo braço para dentro da casa. Ele era tímido, mas extremamente atencioso, quando percebia que estava falando com alguém minimamente interessado em seu trabalho, não em se aproveitar de sua fama para outros interesses. Notei que ele tinha paranoia com relação a oportunistas (principalmente do sexo feminino), algo que ele deixou transparecer em algumas das conversas que presenciei ao longo daquele dia. Passamos pela elegante escadaria curva de corrimão negro e sentamos num belo sofá ao lado de uma aconchegante lareira, descansando os pés no confortável apoiador. Apoiando a cabeça no braço direito, que se estendia pela parte de cima do sofá, sentado sobre a perna esquerda cruzada, Chaplin parecia uma criança, o que contrastava com a roupa formal que estava vestindo. Sem ele perceber, liguei o gravador e comecei a conversa:

- Você imaginou que chegaria tão longe, Charlie? – ele sorria e já meneava uma negativa com a cabeça, antes mesmo de eu terminar a sentença.

- Eu estou até agora esperando a herança da minha tia-avó, sonhando com a riqueza e a glória que ela pretensamente irá me trazer. – percebendo que não captei a piada, ele continuou em tom mais sério. – Quando o empresário de Fred Karno me mostrou um telegrama dos donos da New York Motion Picture Company, eu me enganei achando que eram alguns advogados me procurando por conta da minha tia-avó Elizabeth Wiggins, que achei que tivesse morrido e me deixado uma boa herança. Aquilo iria me salvar naquele momento. Na verdade, acabou me salvando, pois eles estavam me chamando para trabalhar para a Keystone, substituindo Ford Sterling. Sennett já havia falado comigo quando eu me apresentava nos teatros, mas nunca iria imaginar que um dia acabaria trabalhando pra ele. Em uma semana estava passando fome, na outra estava recebendo 150 dólares. Incrível, não?

- Mas você se imaginava fazendo sucesso nos filmes, ou visualizava apenas os palcos?

- Eu tinha certeza que a exposição nos filmes iria ajudar minha carreira nos palcos. Tentei durante um período, antes de ser contratado pela Keystone, comprar os direitos de todos os esquetes de Karno, para filmá-los. Eu não via potencial nenhum na Keystone, pelo material que eu assistia. Era uma comédia muito simplista, repetitiva, gravada com rapidez, sem o polimento que eu considerava essencial. No entanto, eles eram ótimos na publicidade dos seus produtos. Algo que acabei me tornando. Talvez, com alguns meses lá, poderia voltar para o Vaudeville como um nome conhecido mundialmente. Essa era minha ambição quando assinei o contrato. Hoje existem pessoas que trabalham imitando o que faço, como Billy West.

- E você não se irrita com ele ganhar dinheiro copiando você?

- Ele imita o “vagabundo”, não Chaplin. Se ele me imitasse, ficaria muito irritado. O “vagabundo” não é meu, mas do mundo. Por mais que eu me esforce muito para que ele se apaixone por mim (risos), ele é do povo. E o West faz um ótimo trabalho, ou fazia, pois acho que ele está buscando agora novos caminhos em seus projetos. E, além do mais, ganhar dinheiro com Arte é sempre válido. Eu nunca impediria isso. Eu mesmo iniciei fortemente influenciado pelo francês Max Linder, de quem tive a honra de ser colega durante minha passagem pelos Estúdios Essanay, uns três anos atrás.

Senti que sua atenção começava a se desviar para a conversa que Fairbanks estava conduzindo do lado de fora da casa, então disparei a última pergunta:

- Como você teve a ideia pro “vagabundo”?

Ele se ajeitou no sofá. Dava pra ver a responsabilidade que ele sentia por esse personagem. Aquela criança havia se transformado subitamente em um empresário:

- Foi bem no início, em um dos filmes que fiz com Mabel Normand. Eu comecei mal no meu primeiro trabalho pra Keystone. Pensei que não teria outra chance, até que ela me indicou para esse filme dela. Eu entrei na última hora e fiz o que o diretor mandou. Sennett me disse para colocar alguma maquiagem e fazer o melhor que eu pudesse. Eu tinha odiado minha caracterização no anterior, então eu busquei equilibrar contradições (risos), com sapatos enormes contrastando com um chapéu pequeno. Calças largas demais, contrastando com um colete bem apertado. O bigode iria me fazer parecer um pouco mais velho, mas não caricato demais. Quando me olhei no espelho vestido como o “vagabundo”, foi como se eu já conhecesse aquela pessoa, foi realmente mágico. A recepção nas gravações foi tão calorosa, que Sennett acabou me colocando pra aparecer em quase todas as cenas. Na semana seguinte, filmamos “Corrida de Automóveis para Meninos” e o resto você já sabe (risos). Peço sua licença para me reencontrar com a luz do sol, antes que ele se despeça de nós.

E ele se levantou com mesura, deixando sentado no sofá um jovem muito sortudo. Se aquela noite fosse 10% como aquela breve conversa, seria fantástico...

Continua...

"O Tempo Redescoberto", de Marcel Proust


“Lá onde a vida levanta muros, a inteligência abre uma saída”.
Marcel Proust (1871-1922) chegou a afirmar que nunca havia assistido a um filme, aquela curiosa invenção muda que dominava as feiras e os pequenos Nickelodeon da época, dizendo ainda que não acreditava que aquela ferramenta conseguiria captar a vida com a mesma profundidade que a literatura. É interessante perceber, no entanto, como sua recorrente abordagem sobre o impacto da passagem de tempo nas relações afetivas e na personalidade de seus protagonistas é profundamente cinematográfica em sua essência. A dificuldade de transportar em imagens as contemplações dedicadas do autor foi um grande empecilho na indústria, fazendo com que as tentativas de Luchino Visconti e Joseph Losey (com roteiro de Harold Pinter) fossem interrompidas.

Adaptar os sete volumes (quase 4000 páginas) do maravilhoso “Em Busca do Tempo Perdido”, onde Proust trabalha o tema do sentido da vida pelo filtro das memórias, seria algo extremamente complicado. Os fatores que fazem um indivíduo ser algo único, através da criação de sua identidade. O respirar de um novo ar, que sendo uma constante reminiscência de sua experiência de vida, mantém-se irremediavelmente puro. São reflexões filosóficas que surpreendem pelo bom humor. Pérolas como: “deixem as mulheres bonitas para os homens sem imaginação”. O autor não é reconhecido por isso, talvez porque muitos que o celebram objetivando algum tipo de status intelectual, nunca leram com atenção os sete volumes. Ele segue estimulando-nos a desconfiar daquela realidade proposta nas páginas, assimilando a identidade dos personagens pelo filtro de suas variações, atravessando o fogo cruzado entre o tempo e a memória, vista como instrumento de aprendizado para a inteligência. O autor vê o homem como um ser em constante evolução, indiferente às explicações nascidas das ideologias religiosas e dos estudos científicos. O mais bonito na experiência dessa longa leitura é constatar que após o término, ficamos com vontade de reiniciar apenas para usufruir da retrospectiva com o acréscimo de nossas próprias memórias, um passo a frente do autor. E posso constatar que vale cada segundo investido.

O corajoso e intensamente criativo diretor chileno Raoul Ruiz (falecido em 2011) selecionou logo o último volume, o mais lúdico, para transportar em seu “O Tempo Redescoberto” (Le Temps Retrouvé, d'après l'oeuvre de Marcel Proust – 1999), conseguindo captar com sensibilidade a fusão entre o narrador Marcel (como ele divertidamente cita no livro, esse seria seu nome caso fosse o autor) e o romancista experiente Proust. Nos primeiros minutos, que acompanham o autor (vivido por Marcello Mazzarella) em seu leito de morte, podemos perceber que estamos diante da tela de um artesão, experimentando truques visuais, com móveis que se deslocam em cena, transpondo a sensação de que fazemos parte do resgate emotivo do personagem, que deseja profundamente terminar sua obra, mas que também se questiona sobre a validade de tão hercúleo esforço, já que todos aqueles que ele ama e a sociedade em que vive, irão perecer. Seu livro irá acabar acumulando poeira em alguma estante, muitos anos após sua morte. Ele inicia buscando conscientemente inspiração na memória resgatada pelas fotografias, mas terminará descobrindo que o segredo reside no poder daquelas lembranças involuntárias. A forma como o diretor utiliza esse conceito no filme (com clara inspiração em “Ano Passado em Marienbad”, de Alain Resnais), não ajuda a torná-lo fácil, até mesmo para aqueles que leram as obras. Mas o esforço de acompanhar a trama é muito válido, sobretudo pelo brilhantismo estético e pelas invenções narrativas, como portas que se abrem para revelar o “eu” criança do personagem. Ainda mais se consideramos que ele foi lançado em um dos períodos mais fracos em criatividade no cinema mundial.

O filme eleva sua qualidade ao depender da reação do espectador descobrindo os elementos que o fascinaram na leitura. A Arte justifica a existência humana, ou como Proust afirma no livro:

“... Um minuto livre da ordem do tempo recriou em nós, para senti-lo, o homem livre da ordem do tempo. E pode-se entender que este homem deve ter a confiança em sua alegria, mesmo que o simples sabor de uma Madeleine (bolinho cujo sabor evoca o passado no autor) não parece lógico para conter dentro dele as razões para esta alegria, pode-se entender que a palavra "morte" não deve ter nenhum significado para ele, situado fora do tempo, por que ele deveria temer o futuro?...”.