quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Cine Bueller - "Indiana Jones e o Templo da Perdição"


Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and The Temple of Doom - 1984)
Steven Spielberg odeia este filme, considera-o um erro. São exatamente os elementos que ele cita como falhas neste projeto, que fizeram eu me tornar um fã do personagem. A trama sombria que nos faz crer que o perigo é latente, o alívio cômico perfeito na forma do jovem asiático "Short Round" e um interesse romântico curioso na forma de Willie Scott (Kate Capshaw), uma artista medrosa que sempre acaba envolvendo o grupo nas piores confusões.

Enquanto que no anterior "Os Caçadores da Arca Perdida" (Raider´s of The Lost Ark), o personagem de Harrison Ford era um professor heroico, nesta segunda incursão ele se torna um mito. Spielberg e seu amigo George Lucas são fãs de Joseph Campbell e sua visão sobre o poder dos mitos na sociedade. Quando Indiana Jones aparece em cena com seu chapéu e chicote preso à cintura, nossa criança interior berra de pura empolgação. Quando o filme passava na "Sessão da Tarde", tinha a certeza de que estava compartilhando aquela experiência com todos os colegas da minha turma na escola.

A trama aborda um culto religioso hindu que escraviza crianças e sacrifica homens, retirando seus corações com as mãos antes de jogá-los ao fogo. Sombrio em excesso? Não mais que alguns contos infantis que escutamos no colo de nossas mães enquanto ainda bebês. Assisti pela primeira vez aos cinco anos e lembro que gostei tanto, que a imagem na velha fita VHS chegou a amarelar. Tenho as falas decoradas até hoje. Não me tornei um adulto violento por ter sido exposto ao filme por tantas horas seguidas, mas tive meus padrões de qualidade no gênero elevados.

Spielberg consegue incutir neste filme um ritmo acelerado, onde as pausas são tão ou mais interessantes que as cenas de ação. Acredito que o maior acerto da obra foi a escolha do tema. Alguns críticos reclamam que grande parte do filme é dedicada a mostrar as atividades nefastas do culto hindu, o que se afasta demais do conceito exibido nos outros projetos. Eu vejo de forma diferente: quanto maior o conhecimento que temos sobre o vilão, melhor nos sentiremos quando o herói o vencer. Quando enfim escutamos a fanfarra icônica do personagem (mérito do compositor John Williams) após um longo tempo, vibramos muito mais. Cada soco desferido por ele no vilão carrega nosso braço junto, nos levando até o tradicional final feliz, que nos satisfaz por completo. Mesmo que tenhamos assistido a pessoas comendo cérebros de macaco, corações sendo arrancados e pulsando nas mãos do algoz, o que fica na memória é a genialidade do diretor em reunir tantas referências de forma tão fantástica e divertida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Woody Allen (Bônus) - Sonhos de Um Sedutor

Eu estava voltando pra casa ontem, quando passei em frente ao monumento de Aguinaldo Tambor, maior herói indígena de Cascatinha e redondezas. Sentado aos pés da estátua, um jovem vestia um jeans de acordo com as tendências da moda, uma camiseta estilosa e um relógio maior que seu pulso. Ao notar minha presença, ele começou a puxar papo, contando suas aventuras na cidade grande. Em sua tribo ele era conhecido como Tabaré, mas ai de quem o chamasse por esse nome. Ele era o que poderíamos chamar de um “índio politicamente incorreto”, já que fazia todo esforço possível para vencer na vida como um cantor de sertanejo universitário. Ele tinha em seu flat, escondido dentro do armário, vários cocares e flechas, que utilizava em manifestações populares, sempre que sentia que poderia finalmente se beneficiar de suas origens. Ele era um praticante de Cosplay dedicado, tendo tido o trabalho de decorar expressões de seu povo, mesmo sem saber exatamente o significado das palavras. Como saberia? Ainda criança, após a quarta fuga da oca de seus pais, impulsivamente se jogou dentro da mala de um homem branco que havia sido encontrado deitado inconsciente nas areias da praia. O pobre mercador passou semanas boiando numa tora de madeira, castigando-se internamente por ter aceitado satisfazer o desejo noturno de sua esposa grávida. Ele nunca imaginou que seria tão difícil encontrar bolinhos de chuva. Tabaré chegou à cidade grande e foi criado pelo mercador e pela esposa, que diariamente repreendia o marido por ter utilizado os bolinhos como desculpa para tentar fugir novamente dela. Dois homens em fuga, unidos pela mão trêmula do destino.

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Com a palavra, o crítico de cinema sergipano (de gosto extremamente duvidoso) Pierre Dominique:
“Essa história é tão linda, que se eu pudesse me transformar alquimisticamente numa poltrona de uma sala de cinema, eu nunca ia deixar um cabra amarrotar meu estofado”. 
Cotação: (3 Xenas)

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Tabaré passou por momentos difíceis, como todos que se aventuram sem preparo algum em terras estranhas. Quando foi visto caído bêbado na sarjeta, passou a ser chamado de “Tabaré, o Etílico”. O que o deixava mais irritado era não saber o que significava a palavra. Nas noites frias de inverno, o povo costumava escutar sua voz rouca entoando a clássica canção “New York, New York”, enquanto testemunhas afirmam que ele era visto constantemente azucrinando os policiais, questionando duramente sobre a ausência dos bonecos de neve nas ruas. O prefeito não colocava sequer o asfalto, pobre Tabaré, que agora me encarava sentado aos pés da estátua.

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Com a palavra novamente, o crítico de cinema sergipano (de gosto extremamente duvidoso) Pierre Dominique:
“Olhe, seu menino, tava bom demais pra ser verdade esse cabrunco bexiguento. Que final mais paia. É de lascar o cano”. 
Cotação: (Meia Gabrielle)

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Final severamente modificado após requerimento da Associação PECA (“Procure Esconder com Ajustes”)

Tabaré abraçou carinhosamente a estátua de seu antepassado, com o orgulho de um filho que vê seu pai moldado em bronze, numa pose esquisita e anatomicamente incorreta, servindo de tela para craqueiros praticarem suas pichações. Ele se despediu de mim, ostentando o cocar em sua cabeça, rumando em direção ao aeroporto. Estava com saudades de casa.

A biografia autorizada de Tabaré está sendo vendida nas melhores livrarias. Viva você também a “Indiomania” que tomou de assalto o país.


Sonhos de Um Sedutor (Play It Again, Sam – 1972)
Allan (Woody Allen), um crítico de cinema que consome filmes ansiosamente e idolatra “Casablanca”, é abandonado por Nancy (Susan Anspach), sua mulher, que quer o divórcio já que não aguenta mais a insegurança emocional dele. Incapaz de lidar com este momento conturbado da sua vida, o sonhador busca consolo nos filmes que ama, enquanto imagina Humphrey Bogart (Jerry Lacy) lhe dando conselhos de como deve lidar com as mulheres. 

Entre o humor tresloucado e episódico de “Bananas” e “Tudo o Que você Sempre Quis Saber Sobre Sexo...”, Woody Allen filmou sob a direção de Herbert Ross (de “Adeus, Mr. Chips”), uma adaptação do seu texto para uma peça (encenada pela primeira vez em 1969), que acabou marcando o primeiro encontro nas telas entre Allen e sua primeira musa Diane Keaton. Interessado apenas em dirigir roteiros inéditos, Allen acreditava que Ross poderia transformar sua ideia já trabalhada na Broadway em um projeto de maior apelo comercial, conquistando um público maior do que em seus próprios filmes. Diferente do pastelão que ele vinha realizando, o roteiro se preocupa em desenvolver as motivações narrativas dos personagens, com uma aura sentimental que encontraria ressonância apenas cinco anos depois, com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Um bom exemplo está na repetição de um tema, mas com objetivo contrário. No caso, o clássico momento em que Allen é intimidado por valentões. A cena não é trabalhada visando fazer graça da situação, mas sim acentuar a humilhação sentida pelo protagonista perante sua acompanhante.

A ideia de um cinéfilo receber conselhos de um personagem de cinema é fantástica, mas poderia desandar caso a atuação de Lacy (Bogart) fosse um tom acima. Mesmo sendo essencialmente caricaturais, suas breves aparições trazem equilíbrio e sinceridade aos gestos histriônicos do protagonista. Allan respira cinema do segundo em que acorda até a hora em que vai dormir. Sempre que uma crise se insinua em sua vida, recebe a visita de seu ídolo Bogart, com conselhos objetivos de como ele deve agir nas mais variadas situações. Ele encontra na Arte a inspiração que precisa para superar suas limitações. O tema fala diretamente ao coração de Woody (isso transparece em cada cena), que ainda insere homenagens sutis a outros gênios da indústria de sonhos que ele admira, como François Truffaut.


O filme está sendo finalmente lançado em DVD, pela distribuidora “Classicline”, em parceria com a “2001 Vídeo”. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Quando Astaire encontrou Salvador Dali

O filme acaba de ser lançado pela distribuidora “Classicline”, em mais um trabalho primoroso de resgate da História da Sétima Arte.


Yolanda e o Ladrão (Yolanda and The Thief – 1945)
Uma linda e encantadora fantasia sobre o vigarista Johnny Riggs (Fred Astaire), que em visita a um país latino-americano mítico, convence uma herdeira ingênua (Lucille Bremer) de que ele é seu anjo da guarda. Mas ele nunca imaginou que seus sentimentos por ela pudessem mudar tão rapidamente.


Essa bela fábula de Vincente Minnelli é afinada no diapasão lúdico de “O Diabo Disse Não” (Heaven Can Wait), realizado dois anos antes por Ernst Lubitsch. Mas diferente da obra do diretor alemão, que não sobreviveu bem ao teste do tempo, esse musical se apresenta surpreendentemente moderno em seus diálogos irônicos, provavelmente ignorados pelo público da época, que não imaginava Fred Astaire como um trambiqueiro. Recebido de forma fria pela crítica, conquistaria décadas depois o status de Cult. O roteiro de Irving Brecher, com duas comédias dos “Irmãos Marx” no currículo (o que explica a superioridade de sua escrita cômica), apresenta situações muito à frente de seu tempo, ousadias (algo a ser aplaudido, considerando a fórmula dos musicais da MGM) que poderiam passar facilmente como material para esquetes realizados hoje em dia. Um bom exemplo ocorre na cena da banheira, com a personagem vivida pela bela ruiva Lucille Bremer induzindo sua tia (Mildred Natwick, cuja última participação em sua longeva carreira foi no excelente “Ligações Perigosas”) a pensar que ela estaria desesperada para encontrar um homem, quando na realidade ela queria tocar pela primeira vez em um telefone. A cena é conduzida com sutileza e ótimo timing.

Outro ponto que se destaca é a fotografia de Charles Rosher (responsável pela obra-prima do cinema mudo: “Aurora”, de Murnau), que aliada ao design de sets realizado por Edwin B. Willis (entre outras colaborações, trabalhou em “O Mágico de OZ”) e Cedric Gibbons, utiliza como inspiração os trabalhos surrealistas de Salvador Dali. O resultado é muito interessante, com a inocência da jovem encontrando ressonância imagética no mundo em que ela habita. As músicas de Harry Warren e Arthur Freed (“Angel”, “Coffee Time”, “Will You Marry Me?”, “This is a Day for Love” e “Yolanda”) não representam o melhor trabalho da dupla, mas emolduram com elegância o roteiro. E como não citar o maravilhoso, pioneiro (ainda que tenha sido utilizado em menor escala em produções anteriores) e onírico balé de quinze minutos, coreografado por Astaire e Eugene Loring, elemento que é injustamente pouco citado, normalmente substituído nas listas de críticos pela longa sequência de balé no superestimado “Sinfonia de Paris” (feito seis anos depois) ou pelo ótimo “Os Sapatinhos Vermelhos” (de 1948).

É uma pena que o fracasso do filme em seu lançamento tenha desencorajado Astaire de continuar arriscando. Ousadias como essa, caso houvessem sido incentivadas, poderiam ter dado uma sobrevida ao gênero dos musicais nos anos seguintes, exatamente no período em que a fórmula deles começava a demonstrar sinais de cansaço.

domingo, 3 de novembro de 2013

Guilty Pleasures - "Mestres do Universo"


Mestres do Universo (Masters of The Universe – 1987)
Mais uma picaretagem da dupla de produtores Menahem Golam e Yoram Globus, desta vez mirando o imaginário coletivo infantil. Não bastou eles terem destruído um mito mundial em “Superman 4 – Em Busca da Paz”, desta vez atacaram o “He-Man”, que já estava em decadência como linha de brinquedos na época da produção. Eu era criança na época em que o filme apareceu, lembro que meu pai trouxe da locadora e eu fiquei todo empolgado para ver. O filme simplesmente não tinha nada a ver com o desenho animado, já que o roteiro utilizou levianamente a versão anterior do herói nos quadrinhos que vinham encartados com os bonecos da Mattel. O roteirista David Odell tinha no seu currículo pérolas como “Supergirl” (1984) e alguns episódios dos “Muppets”, o que nos leva a pensar quais foram os critérios para sua seleção nesse projeto que carregava nos ombros a responsabilidade de salvar a linha de brinquedos.

O personagem principal (vivido pelo Dolph Lundgren) não era o príncipe Adam, era apenas o cara que havia matado o Apollo Creed e arrebentado com o Rocky Balboa, só que mais falante e com mullets. Não tinha “Gato Guerreiro”. Isso era muito frustrante para uma criança, como você pode imaginar. E o pior de tudo era o vilão, que ao final retornava triunfante e afirmava: “Eu voltarei”. Até hoje nada. Pura propaganda enganosa. Mas agora vem a informação mais importante: Eu comprei o DVD de “Mestres do Universo”. Como eu fiz isso? A grande realidade é que aprendi a gostar deste filho bastardo e me surpreendo assistindo nas madrugadas insones. Mesmo que seja só pra ver a Courteney Cox (de “Friends”) pagando mico em início de carreira.

Para os padrões medíocres da produtora, até que esse filme não era tão ruim. Comparado ao “American Ninja 5” (de 1993), canto desafinado do cisne “Cannon Group”, o projeto comandado por Gary Goddard (primeiro e único como diretor... Imagine o trauma da experiência) é surpreendentemente interessante. O talentoso Frank Langella, interpretando “Esqueleto”, consegue impor uma presença marcante e ser mais carismático que o próprio protagonista, cujas falas tiveram que ser regravadas repetidas vezes na pós-produção, já que ninguém entendia o que o inexperiente (não ter vocação também é um fator) Dolph Lundgren murmurava. Já a bela Meg Foster levou muito a sério (talvez até demais) sua caracterização como “Maligna”, aquela boneca que eu achava que tinha vindo com defeito por ter a pele amarela, inspirando-se em Lady Macbeth. Shakespeare se sentiu ofendido, tenho certeza. E o que dizer do Gorpo, que foi substituído por um parente do anão Willow (aquele da Terra da Magia)? Mas o maior problema é o desfecho, onde após todo um suspense razoavelmente interessante, culminando no clássico bordão do herói e o choque das lâminas, termina sendo encaminhado para uma disputa visivelmente mal coreografada. A questão era que os produtores avisaram o diretor, no dia da filmagem da grande batalha, que havia acabado a verba e que era pra ele finalizar tudo o mais rápido possível. A equipe técnica, que já estava com pagamentos atrasados, teve que ser incentivada pelo bravo diretor a elaborar uma forma de filmar o combate de forma rápida e barata. Os esforços resultaram em um absurdo blecaute e uma disputa tão empolgante quanto um filme do Terrence Malick.

Mas analisando com carinho, existem pontos positivos. A trilha sonora de Bill Conti é muito boa, a trama é simpática (ainda que seja um plágio dos quadrinhos dos “Novos Deuses”, de Jack Kirby) e o trabalho de dublagem nacional feito pela “BKS” é excelente. Garcia Júnior é um grande ator, coisa que Lundgren nunca foi. O sempre competente Isaac Bardavid como “Esqueleto”, além de Cecília Lemes (Courteney Cox), Eleu Salvador (Billy Barty) e Helena Samara (Christina Pickles), entre outros talentos dessa Arte.  

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Cinema de Ozu - "Filho Único"


Filho Único (Hitori Musuko – 1936)
Uma mãe solteira sofre para conseguir criar e educar seu único filho. Com muito esforço, consegue que o rapaz vá estudar em Tóquio.


“A tragédia da vida se inicia com a ligação entre pais e filhos”. (Ryunosuke Akutagawa)

O cinema mudo no Japão era especialmente lúdico, graças ao acompanhamento dos Benshi (homens que narravam o filme, utilizando inclusive instrumentos musicais). Essa forma de arte foi esquecida com a ascensão dos filmes sonoros, mas continua exercendo fascínio nos cinéfilos orientais, que de vez em quando insinuam reviver o interesse por esse método. De certa forma, esse acompanhamento aliviava o peso narrativo das imagens, promovendo um distanciamento, fazendo com que os sentidos se focassem em absorver sentimentos, ao invés de compreendê-los. Complexidade coerente à tradição nipônica, cujos caracteres de seu alfabeto (como “Kanji”) representam mais que apenas meios de se compreender um fim. Um diagrama constitui muito mais que uma palavra, representando um estado de espírito impossível de codificar literalmente.
   
Essa beleza poética é personificada nos Benshi, que eram muito populares e adiaram por bastante tempo a entrada da revolução sonora na sociedade oriental. Ozu somente utilizou o recurso do som quando se sentiu confortável para inseri-lo sem prejudicar seu estilo. “Filho Único” foi sua primeira experimentação (sem contar o curta documentário: Kagamijishi). E com total segurança, ele insere uma crítica bem-humorada na cena em que o jovem acompanha sua mãe no cinema com o intuito de fazê-la conhecer o “cinema falado”, assistindo um popular filme alemão sobre a vida amorosa de Franz Schubert. A mãe não consegue se conectar emocionalmente ao filme e dorme na sessão. Ozu respondia ao chamado da modernidade do Japão da década de 30 (que incitava uma hegemonia militar) com a simplicidade de seus temas, emoldurados por sua câmera baixa ao nível dos olhos, em um “plano tatami”. Um exemplo perfeito do estilo de Ozu pode ser notado em uma cena que mostra o filho dando uma aula de matemática sobre círculos e ângulos retos. Um aluno se levanta e pede que ele explique melhor o assunto. A câmera coloca os personagens em uma espécie de círculo dentro da cena, no qual todos os ângulos de câmera são cortados em ângulos de 45 graus como se estivesse em uma circunferência imaginária que o professor está diretamente explicando. É um momento que pode passar despercebido, mas que me fez pausar o filme e rever, para ter certeza que não era simples coincidência.

Encontramos no filme a frustração de uma sociedade sem emprego e desacreditada dos ideais do período Meiji, forçada a abandonar os campos em busca de melhores condições de vida na cidade. A invasão de culturas estrangeiras (simbolicamente mostrados no filme alemão já citado, além do pôster da estrela americana Carole Lombard na parede) e o constante sentimento de que tudo iria ruir a qualquer momento, exemplificado pelo uso (por vezes, propositalmente, irritantes) dos sons-off diegéticos que estabelecem o enriquecedor elemento surreal. Por esses e muitos outros detalhes técnicos, além do fator emocional eficiente de sua trama, um tesouro pouco reconhecido e que merece constar em qualquer lista de melhores obras do mestre japonês.

A Seguir: “Era Uma Vez Um Pai” (1942)