domingo, 25 de fevereiro de 2018

"Eu, Tonya", de Craig Gillespie


Eu, Tonya (I, Tonya – 2017)
O diretor australiano Craig Gillespie foi responsável por uma das melhores comédias de 2007, "A Garota Ideal", mas desperdiçou os últimos anos em produções comportadas ou irrelevantes, tendo como ponto mais baixo a refilmagem de "A Hora do Espanto". Com "Eu, Tonya", ele protagoniza uma impressionante redenção artística, contando a conturbada história real da patinadora Tonya Harding, vivida impecavelmente por Margot Robbie, a primeira mulher norte-americana a completar o Axel triplo em grandes competições, mas que ficou marcada por ser a mandante de um caso grave de agressão a uma colega no início da década de noventa. 

O roteiro brilhante de Steven Rogers utiliza variados recursos, subvertendo a narração convencional ao entrecortar ela com a quebra da quarta parede, fazendo uso generoso de depoimentos interrompidos, além de momentos que resvalam no pastelão, como na cena do primeiro beijo do casal, com os dois limitados pelas mãos nos bolsos. Ao utilizar o terceiro movimento do Verão, das Quatro Estações de Vivaldi, que descreve musicalmente as forças da natureza desatadas em uma terrível tempestade, do momento em que ela claudicante beija a mãe (irrepreensível Allison Janney) em casa, atravessando a passagem de tempo e acompanhando a sua primeira apresentação profissional, a opção conscientemente estabelece a ligação intrínseca entre a execução de sua arte e a rigorosa criação parental. Se na infância havia algum traço de espontaneidade em seu amor pela patinação, agora aquilo havia se tornado válvula de escape e, principalmente, instrumento de revide. O próximo passo, adaptar a realidade à algo confortável, desfazer-se do figurino tradicional das competidoras e forjar sua própria armadura de batalha, evidenciando na sua costura exatamente o elemento que foi mais tolhido por sua extremamente insensível, abrutalhada mãe, a sua feminilidade.

E, ironia do destino, quando ela finalmente oferece pela primeira vez a sua essência pura ao julgamento, entregando competência inegável no gelo, acaba recebendo críticas estéticas devido à simplicidade do figurino, a sociedade responde seu impulso existencial com a medíocre valorização da aparência. É, também, uma crítica ácida ao vazio culto das celebridades, a irrelevância dos rituais de premiação que se levam muito à sério, acusando o desespero em inserir no vulnerável psicológico da criança o ideal do "ser vitorioso", ao invés do pleno "ser", e, por conseguinte, exibindo de forma tragicômica o comportamento daqueles que alimentam esta indústria. Tonya pode ter um temperamento problemático, mas, como enfatizam estes sutis detalhes no relacionamento dela com a mãe e com o abusivo ex-marido (Sebastian Stan), ela nada mais é que o fruto de seu torto ambiente.

"Eu, Tonya", com sua leveza cativante ao abordar o tema espinhoso, ousadia narrativa inteligente e senso perfeito de ritmo é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "O Fantasma" e "Popeye"


O Fantasma (The Phantom - 1996)
Eu colecionava a revista do Fantasma, na época em que foi lançada pela editora Saber, início da década de noventa, uma professora na escola achava curioso que um garoto tão novo pudesse se interessar por quadrinhos em preto e branco de um material tão antigo, eu devorava as aventuras deitado no sofá da sala, a minha história favorita era "O Ninho de Tubarões", primeiro contato que tive com o personagem. Quando começou o burburinho sobre a produção do filme, impulsionada pelo sucesso do "Batman", de Tim Burton, "Rocketeer" e "O Sombra", eu fiquei realmente empolgado, fui com meu pai na primeira semana de exibição. Até hoje não entendo a razão de tantas críticas negativas, o roteiro respeitava o legado do espírito que anda, o senso de aventura capturava muito bem o clima dos cine-seriados clássicos, a trilha-sonora de David Newman extremamente competente, figurino, recriação de época, a femme fatale espetacular vivida pela Catherine Zeta-Jones, a interação com a espevitada Diana Palmes, vivida por Kristy Swanson, os méritos sobrepujavam os problemas, como a direção sem personalidade do australiano Simon Wincer. Até mesmo a tão discutida presença de Billy Zane, um ator inegavelmente limitado, vivendo o herói, não compromete o resultado. Com um péssimo timing, ele resolveu se assumir homossexual, o que acabou desviando a atenção da mídia, da divulgação do lançamento do filme, para a vida pessoal do rapaz. O papo entre a garotada tonta envolvia perceber os trejeitos dele na tela grande. Analisando em revisão, o roteiro de Jeffrey Boam, craque por trás de "Máquina Mortífera", "Indiana Jones e a Última Cruzada" e "Viagem Insólita", apesar de sofrer uma quebra de ritmo considerável no segundo ato, quando o protagonista viaja à cidade grande disfarçado, com a presença pouco carismática de Treat Williams, visivelmente desconfortável como o vilão megalomaníaco, sobreviveu com louvor o teste do tempo. 


Recomendação literária: A editora Pixel lançou quatro volumes de tiras clássicas do personagem criado por Lee Falk. Material indispensável.

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Popeye (1980)
Eu tenho uma relação interessante com este filme, apesar de, quando criança, acompanhar a animação do personagem na televisão, não conseguia me conectar emocionalmente com esta representação live action. Algo na fita me causava real enjoo, algumas sequências me deixavam deprimido, aquilo que a capa do VHS vendia, um musical divertido, estava longe de ser a realidade lúgubre que a fotografia do mestre Gioseppe Rotunno captava. À época, eu, ainda pequeno, não conhecia o trabalho do diretor Robert Altman, apenas quando revi a obra anos depois pude constatar a coragem do roteiro de Jules Feiffer. Qual filme direcionado às crianças começa com uma música que parece uma marcha fúnebre ("Sweethaven", de Harry Nillson), emoldurando a chegada do protagonista, que, antes mesmo de abrir a boca, já é recepcionado pelo cobrador de impostos? Se considerarmos que a indústria hoje em dia se acostumou a oferecer exatamente o que o público deseja, aniquilando a criatividade, dá gosto rever este símbolo de ousadia incomparável no gênero. A direção subverte as convenções do musical, inserindo momentos dignos do melhor Jacques Tati no meio de canções entoadas de maneira displicente. Robin Williams (Popeye), Shelley Duvall (Olívia) e Paul L. Smith (Brutus) são recriações exatas do visual e da essência dos personagens. O desfecho, em um toque esperto, resgata com fidelidade o espírito das histórias originais e da animação, como se tudo o que havia ocorrido até então fosse apenas a construção daquele universo, que se inicia verdadeiramente quando Popeye, vitorioso e reconhecendo a importância do espinafre, canta e dança sua clássica música-tema. 







Recomendação literária: A editora Pixel lançou as tiras clássicas do personagem criado por Elzie Segar, no período em que esteve nas mãos de Bud Sagendorf. 


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Nos Embalos do Rei do Rock - "Amor à Toda Velocidade"


Em uma entrevista recente, Ann-Margret, quando perguntada sobre seu relacionamento com Elvis, silencia respeitosamente e se emociona, o apresentador não disfarça sua surpresa, a mulher que foi desejada por todos à época, mesmo após tantos anos do falecimento do amigo, não consegue tocar em seu nome sem lacrimejar. Lucidamente, ela acusa todos que se aproveitaram dele e que não tentaram ajudar no período de crise, quando sua saúde já estava debilitada, especialmente os jornalistas da área que não o elogiavam em vida por inveja. Apesar das tentativas do entrevistador, ela se recusa a comentar detalhes de seu caso amoroso, na época em que ele estava oficialmente comprometido com Priscilla, afirmando que seria incapaz de trair a confiança dele. Dá para imaginar o nível de cumplicidade que existia nos sets de filmagem de "Amor à Toda Velocidade", a química do casal transborda na tela, a paixão era real e intensa, os dois se entendiam plenamente, já que viviam a mesma realidade do show business. E muitos fãs acreditam que se Elvis tivesse ficado com Ann-Margret, ele estaria vivo até hoje. 


Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas – 1964)
Em Las Vegas, um piloto de corrida (Elvis Presley) quer participar do 1º Grande Prêmio da cidade, mas perde o dinheiro que usaria para comprar um motor. Ele então passa a trabalhar como garçom e se envolve com uma professora de natação (Ann-Margret), que se sente incomodada pela obsessão que ele tem por corridas, pois teme que algo aconteça.

Ann-Margret era dinamite nas telas quando cantava e dançava, levantava a moral dos soldados em shows durante a guerra, uma bela garota com personalidade forte na época auge do machismo, ela acabou ficando nos bastidores com fama de "mulher fácil". Quando conheceu Elvis nos estúdios de gravação da MGM, apresentada cordialmente pelo veterano diretor George Sidney, já envoltos pela máquina de marketing da empresa, ela se surpreendeu com a gentileza do rapaz, que a enxergava com muito respeito e a tratava com ternura. Aos olhos dele, ela podia deixar de se preocupar com a imagem de musa sexy e voltar a agir como a jovem imigrante sueca cheia de sonhos, os dois não levavam muito à sério os estereótipos criados sobre eles, brincavam constantemente, compartilhavam o amor pela música, o relacionamento amoroso se manteve por todo o ano, a amizade, até o falecimento do cantor.

É a melhor bilheteria na carreira cinematográfica de Elvis e muitos afirmam que este é o melhor filme que ele fez, eu não concordo, mas entendo os motivos, o diretor, responsável por obras-primas como "O Barco das Ilusões", "Scaramouche", "Os Três Mosqueteiros", "Marujos do Amor", "Melodia Imortal", entre outros, era especialista em musicais elegantes, o que garantiu um ritmo verdadeiramente único na produção, a trama não apresenta qualquer barriga, todos os momentos funcionam, as músicas se encaixam perfeitamente nas cenas, o resultado diverte sem subestimar a inteligência do público. A alta qualidade era perceptível em todos os setores. A produção refinada foi de Jack Cummings, de "Sete Noivas Para Sete Irmãos". O roteiro foi escrito por Sally Benson, responsável pelo excelente "Agora Seremos Felizes", com Judy Garland. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade de Joseph F. Biroc, que trabalharia anos depois em "Inferno na Torre". A trilha-sonora manteve o alto nível, com destaque para "What'd I Say", composta por Ray Charles, "C'mon Everybody" (Joy Byers) e a linda balada "Today, Tomorrow and Forever" (Giant-Baum-Kaye), com direito ainda a uma interpretação marcante do rei do rock no clássico italiano "Santa Lucia". A canção-tema, "Viva Las Vegas" (Pomus-Shuman), apesar de frenética, acaba pecando pela artificialidade, típico tratamento genérico e pasteurizado que acabou diluindo a espontaneidade do cantor em sua segunda fase em Hollywood.

Um aspecto que poucos lembram é que a montagem da sequência de corrida de carros no desfecho, com generosa utilização da câmera em primeira pessoa no volante, foi celebrada pelos críticos à época como a melhor do tipo até o momento. Apenas "Bullitt", com Steve McQueen, conseguiria superar o feito, quatro anos depois. 

A Seguir: Carrossel de Emoções (Roustabout)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"Lady Bird: A Hora de Voar", de Greta Gerwig


Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird – 2017)
Serei objetivo, já que nada soa orgânico neste filme. É perfumaria feminista indie das mais bregas, roteiro calculadamente pensado para atingir as expectativas emocionais da garotada que abraça da forma mais rasa o importante movimento como cafona modismo, diluindo tudo em palavras de ordem tolas e que cabem nas camisetas vendidas a preços altos, defendidas por meninas altamente inseguras e rapazes que escondem a sexualidade real num frágil disfarce social oportunista de nobre ativista pela causa, em suma, todos ambicionando atenção, aplausos da massa de manobra, ou, na hipótese mais baixa, lucro financeiro aproveitando o zeitgeist atual na indústria.

Analisando a obra sem o peso do gigantesco (e nada espontâneo) hype, constato que os diálogos são simplórios, ou apelam de maneira pouco criativa para clichês já desgastados. Greta Gerwig, enquanto diretora inexperiente, consegue iniciar com uma montagem brilhante mostrando o vazio dos rituais, mas se perde ainda no primeiro ato, pecando pela pouca sutileza com que lida com as cenas, o ritmo não engata nunca, porque o desenvolvimento dos personagens é morno, caricaturas que poderiam ser melhor utilizadas em tramas essencialmente despretensiosas. O cinema já encontrou diversas formas de retratar contos de amadurecimento, mas raras vezes ousou tão pouco. A protagonista Christine, vivida por Saoirse Ronan, prefere ser chamada de “menina pássaro”, a típica adolescente irritante que se considera vítima das circunstâncias e que acredita que ter personalidade é chocar outrem. 

A construção do relacionamento entre ela e sua mãe (Laurie Metcalf), elemento que poderia elevar a qualidade do material, acaba se resumindo a discussões sobre tolices, com a jovem birrenta, mimada e maníaco-depressiva desfilando grosseria e recebendo sermões homéricos, só que sem a inteligência refinada de um John Hughes, que compreendia como poucos as angústias naturais deste período da vida. Em revisão, os problemas se intensificam, as escolhas narrativas se mostram ainda mais frágeis, incoerentes e dramaticamente pueris.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Vampirella" e "O Monstro do Pântano"


Vampirella (1996)
Ah, doce Vampirella, uma das musas mais queridas da minha pré-adolescência, vivida no filme pela belíssima Talisa Soto, a Gal Gadot da década de 90, que eu já admirava como a Bond Girl de "007 - Permissão Para Matar", a Doña Julia de "Don Juan DeMarco" e a princesa ninja Kitana, de "Mortal Kombat". No roteiro, a primeira pessoa que ela salva é um jovem nerd de óculos que a leva para seu quarto cheio de cartazes de filmes na parede, com direito até a beijo na boca de despedida, sim, inegável, rolou uma forte identificação que me fez fazer vista grossa para todos os problemas desta produção de irrisório orçamento e muitos (d)efeitos especiais. Outro detalhe bacana que vale destacar é a ponta de luxo do carismático diretor John Landis, de "Um Lobisomem Americano em Londres", como um dos astronautas que encontram a jovem anti-heroína seminua em Marte. Houve uma tentativa da indústria de lançar a personagem no cinema na década de setenta, mas foi somente em meados da década de noventa, com ajuda do produtor Roger Corman, que "Vampirella" finalmente estreou na tela pequena, aproveitando o boom do mercado de home video. Levando em conta que a direção ficou sob responsabilidade do incompetente Jim Wynorski, de bombas como "Sorceress" e "Deathstalker 2", até que o produto final não é tão desastroso, cumpre bem sua função, auxiliado pela presença marcante de Roger Daltrey, vocalista da banda "The Who", exageradíssimo como o vilão Vlad. 


Recomendação literária: A editora Mythos lançou a melhor fase da personagem criada por Forrest J. Ackerman e Trina Robbins no belo encadernado de luxo, capa dura: "Vampirella - Grandes Clássicos". Histórias trabalhadas por Archie Goodwin, T. Casey Brennan, Budd Lewis e Steve Englehart, desenhadas no afrodisíaco traço de José González. 

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O Monstro do Pântano (Swamp Thing - 1982)
Fora o fato de que a Adrienne Barbeau no filme está a cara da cantora Karen Carpenter, pouca coisa chamou minha atenção nesta revisão para o texto, eu lembrava que esta obra dirigida por Wes Craven era ruim, mas a experiência desta vez superou os limites do tédio. É impressionante imaginar que este mesmo profissional iria realizar dois anos depois a obra-prima do terror: "A Hora do Pesadelo". Quem não conhece o personagem nos quadrinhos e vai buscar direto na fonte do cinema, vai tomar raiva e acreditar que o conceito é tonto, tolo e risível, muito longe da realidade filosoficamente profunda trabalhada especialmente no longo arco escrito por Alan Moore. A trama básica segue com relativa fidelidade a origem do monstro, o cientista Alec Holland (Ray Wise) fica preso em uma armadilha explosiva em seu laboratório, quando tentam roubar sua fórmula. O seu corpo flamejante cai no pântano e renasce como uma criatura híbrida. Vale destacar que a subtrama romântica com viés de "A Bela e a Fera" foi criação do roteiro, algo que seria depois utilizado com excelência no arco dos quadrinhos já citado. O vilão Arcane, vivido pelo veterano Louis Jordan, pagando as contas do mês, traz charme, mas não o suficiente para que não nos incomodemos com a representação física do protagonista verde, provavelmente o cosplay mais horroroso da história do cinema trash, consegue ser pior que o clássico da Troma: "O Vingador Tóxico". Veja como curiosidade, caso tenha duas horas para desperdiçar. 


Recomendação literária: A editora Panini lançou a magnífica "Saga do Monstro do Pântano", escrita por Alan Moore, em seis encadernados. É material adulto de altíssima qualidade, imprescindível na coleção de todo fã de quadrinhos.