sábado, 5 de março de 2016

"A Garota do Adeus", de Herbert Ross


A Garota do Adeus (The Goodbye Girl – 1977)
Esse encantador filme do diretor Herbert Ross me remete a uma tarde chuvosa perdida na década de oitenta. O interessante é que eu só havia visto uma vez, quando criança, mas, revendo hoje pra escrever esse texto, percebi o impacto que ele me causou na época. Todas as cenas foram voltando na memória. Que roteiro incrível do Neil Simon, com um repertório generoso daqueles diálogos brilhantes que só ele consegue escrever, inserindo ternura na comédia, fugindo dos clichês dos romances modernos ao criar personagens estruturalmente falhos, adoráveis em suas características mais esquisitas.

Richard Dreyfuss vive o ator dedicado e desempregado que se angustia ao perceber que está inserido em uma peça comandada por um attention whore, um diretor que pensa seus projetos exóticos visando agradar apenas a própria mãe. Ele medita diariamente e troca medicamentos por alguns minutos terapêuticos de paz ao violão. O destino faz com que ele se veja forçado a dividir apartamento com uma bela e hostil ex-dançarina, vivida por Marsha Mason. A razão da hostilidade: Ela e sua pequena filha haviam acabado de ser abandonadas por um ator, trocadas por uma oportunidade de emprego em um filme. E, ao que tudo indica, ela já passou por esse trauma outras vezes.

É apaixonante a forma como o roteiro desenvolve a relação entre Dreyfuss e a criança, vivida por Quinn Cummings, que já havia começado a adotar inconscientemente o sistema de defesa da mãe. Apaixonada por cinema, sempre acompanhada de revistas sobre os artistas de Hollywood, a menina demonstra ser mais emocionalmente madura que os dois adultos. Quando o personagem de Dreyfuss, que verdadeiramente ama e se identifica com a pequena, percebe que precisa reconquistar o carinho dela, ele não pensa duas vezes, descola uma carruagem e, utilizando-se do imaginário cinematográfico que permeia os sonhos da criança, vai buscar ela no colégio como se estivesse inserido em um romance clássico, chega até a citar Tara, a residência de “E o Vento Levou”. E, num toque bonito, ele repete esse imaginário com a mãe dela, emulando Bogart em um elegante jantar à luz de velas no telhado.

O tema que envolve o lindo desfecho fala diretamente ao medo que pode abortar relacionamentos potencialmente transformadores. A protagonista trata o novo namorado mal por medo de sofrer novamente. Ele acaba levando a culpa por erros de desconhecidos. Em dado momento, inesperado para os dois, uma proposta de emprego faz com que ele precise ficar algumas semanas fora. Ela então irá receber a maior lição de sua vida: Nunca generalizar, nivelando por baixo. Ao desativar sua autodefesa emocional, ela descobriu o grande caráter que estava ao seu lado o tempo todo. E o homem, finalmente, encontrou uma companheira que escuta seu desabafo e segura firme sua mão, enquanto o mundo parece desabar à sua volta.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

sexta-feira, 4 de março de 2016

Tesouros da Sétima Arte - "A Confissão", de Costa-Gavras


A Confissão (L'Aveu - 1970)
Nesta história real, Costa-Gavras nos apresenta um tratado contra o totalitarismo. O sofrimento de Arthur London (Yves Montand), um oficial tcheco comunista que, em 1951, enfrenta o cruel dilema: sacrificar-se ou confessar crimes que não cometeu, pelo bem de seu partido.

O filme inicia como um thriller político, com o protagonista percebendo estar sendo vigiado por estranhos onde quer que vá, mas assim que o herói Kafkiano (assim como em "O Processo", London se vê pagando um crime que desconhece que cometeu) inicia seu calvário, sendo algemado, vendado e forçado a caminhar em uma cela, o roteiro procura nos fazer sentir sua fome, sua sede e sua angústia por tentar conquistar alguns minutos de sono. Seus carrascos clamam por uma confissão. O homem acredita a princípio que seu partido irá libertá-lo, porém acaba descobrindo que seus colegas também querem que ele confesse, fazendo-o entender que apoiar sua ideologia íntegra no podre sistema político, significa estar sempre sozinho. Pouco a pouco, seu caráter vai se curvando perante a brutalidade da tortura física e psicológica que sofre, levando-o a confessar inverdades, que são ainda mais distorcidas por seus algozes. No mundo exterior, sua esposa, vivida pela esposa de Montand, Simone Signoret, sofre ao ver que se tornou uma pária da sociedade, graças às manipuladas confissões que seu marido é forçado a revelar. 

A forma como o diretor evidencia a cruel criatividade dos torturadores e a transformação física (e, ainda mais interessante, a psicológica) do protagonista, são os pontos altos da obra. Outro aspecto interessante é sua edição, que insere cenas reais de Stalin e da invasão da Tchecoslováquia em 1968. Menos acessível que seu filme anterior ("Z" - 1969), mas tão corajoso quanto. Um cineasta que merecia ser mais reconhecido pelos jovens cinéfilos. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Entrevista com Saulo Adami, autor do livro: "Homem Não Entende Nada! Arquivos Secretos do Planeta dos Macacos"

Saulo e a maquiagem de Cornelius preparada para ele pelo maquiador Bill Blake.
Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso com o amigo Saulo Adami, com quem compartilho a paixão pela franquia "O Planeta dos Macacos". Ele está lançando o livro: "Homem Não Entende Nada! Arquivos Secretos do Planeta dos Macacos", que reúne os conteúdos de seus três livros anteriores sobre o tema, incluindo mais de 200 páginas com informações inéditas.

Saulo no lançamento do seu livro nas Livrarias Curitiba (PR).
O - Saulo, você dedicou quase quarenta anos em pesquisas, não se trata apenas de um carinho pelo legado de Pierre Boule, imagino que haja uma relação que vai além do garimpo de um pesquisador, como o livro e os filmes te impactaram emocionalmente, como foi o seu primeiro encontro com eles? Isso tem relação direta com a forma como enxergo o cinema, como uma maneira de decodificar a vida. O que essas obras significam pra você?

S - “O Planeta dos Macacos” é meu projeto de arqueologia cinematográfica vitalício. Há 40 anos frequento a caverna descoberta pelo Dr. Cornelius. Escavo em busca de vestígios do passado e provas de que este universo continua vivo no presente desde 1975, quando eu tinha 10 anos de idade. A princípio, como um menino curioso para entender o que seus atores favoritos (Roddy McDowall, Charlton Heston e Kim Hunter, não necessariamente nesta ordem!), seu diretor favorito (Franklin J. Schaffner) e seu músico favorito (Jerry Goldsmith) estavam fazendo juntos em um mesmo filme. Depois, como fã do filme que me causou grande impacto, não apenas pela trama (a Terra de ponta-cabeça), mas por sua maquiagem, cenário, figurino... Que tipo de planeta era aquele? Quem teve a ideia de criar sua ambientação, quem escreveu o roteiro...? Sempre assisti este filme com o olhar de quem quer aprender mais alguma coisa, seja através das tiradas filosóficas ou através do olhar de um escavador de informações. Quem são os extras que aparecem naquela cena arriscada? Charlton Heston estava ali ou foi substituído por seu dublê? Por quem foi criada e como era aplicada a maquiagem dos macacos? Estes filmes – e seus derivados – são minha própria vida de escritor, pesquisador e fã. Não dá para separar um do outro. Nem quero!

O - Você se correspondeu durante muitos anos com a atriz Kim Hunter, eterna e querida Dra. Zira, minha personagem favorita na franquia. Como era pra ela ter um escritor brasileiro, após tantos anos, valorizando esse legado? Ela demonstrava surpresa pelo encantamento dos brasileiros com os filmes? Discorra sobre essa experiência.

S - Kim Hunter foi uma bênção na minha vida. Um privilégio conhecer – embora apenas por correspondências, de 1997 até sua morte, em 2001 – e entrevistar minha atriz preferida. Consegui seu endereço via internet, e enviei para sua casa, em New York City, um exemplar do meu livro, pedindo que me enviasse em troca, se possível, uma carta, uma fotografia autografada, para que eu pudesse saber se ela realmente o havia recebido. Algumas semanas depois, recebi um envelope com quatro fotografias autografadas. Nada de carta, nem bilhete. Imagine!” Receber em casa fotografias autografadas por sua atriz preferida, vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Uma Rua Chamada Pecado” (1951)! Eu também ganhei meu Oscar, naquele dia! Acredito que ela tenha se divertido bastante com a nossa “convivência postal”. Teve momentos em que se aborreceu porque, de tanto que gostava dela e do seu trabalho, enviei para sua casa itens como filmes, recortes de jornais... Em troca, recebi várias fotografias autografadas, respostas a diversas pequenas entrevistas para tirar dúvidas que eu ainda tinha sobre os filmes Apes. Nos divertimos trocando informações sobre o seu trabalho de bastidores em “O Planeta dos Macacos” (1968), “De Volta ao Planeta dos Macacos” (1970) e “Fuga do Planeta dos Macacos” (1971). Sempre amável, enviava cartões de Natal, e um dia mencionou ter assistido e gostado do filme “Central do Brasil” (1999), estrelado por Fernanda Montenegro, e que concorreu a dois Oscar:  melhor filme estrangeiro e melhor atriz. Pouco antes de sua morte, recebi sua última carta. Ela falava sobre a perda do marido Bob Emmett, também ligado a cinema e teatro, e dos aborrecimentos que estava vivendo em função da sua morte. Recebeu e fez comentários sobre meu livro “O único humano bom é aquele que está morto!” e meu fãzine “Century City News” (1985-2000), que trouxe várias matérias e entrevistas com ela e outras personalidades ligadas a “O Planeta dos Macacos”. Logo após que suas cartas pararam de chegar, foi anunciada a morte de Kim Hunter. Mas, a Dra. Zira continua aqui, viva entre nós, assim como a memória de sua intérprete.

Fotografia autografada pela atriz Kim Hunter.
O - No livro, o astronauta voltava ao planeta Terra ao final, após várias aventuras. Já no filme, numa inteligente mudança no roteiro, descobre-se que aquele planeta dominado por macacos era a própria Terra, após os humanos a destruírem com suas guerras nucleares. Como você enxerga essa modificação, no que tange o aspecto da crítica social que foi potencializada na adaptação cinematográfica? Você acredita que essa mudança, simbolizada pela poderosa cena final do filme original, foi fundamental para o sucesso do filme e, por conseguinte, para que a indústria até hoje lucre com a ideia?

S - A cena da Estátua da Liberdade não existiria no filme “O Planeta dos Macacos” (1968) se o produtor Arthur P. Jacobs e o diretor Blake Edwards – cogitado para dirigir o filme para a Warner Brothers no início da década de 1960 – não tivessem saído para um cafezinho. Na lanchonete que eles frequentaram, havia na parede um pôster com a Estátua da Liberdade... Foi aí que tudo começou. Ou terminou! Eu gosto do livro do Pierre Boulle, mas prefiro o filme. Não conheço todas as obras do Boulle, mas sei que ele não acreditava que o livro pudesse vir a fazer tanto sucesso. Sabe aquelas histórias que um escritor escreve mais para se manter ocupado do que propriamente para se expressar? Pois é, acho que assim estava se sentindo o escritor, ele queria dizer umas “verdades” para a humanidade, e aproveitou para se divertir. Na minha opinião, conseguiu! Aliás, ele jamais acreditou que “La Planéte des Singes” (1963) pudesse ser transformado em filme. Tanto é verdade que ao vender os direitos de filmagem para Arthur P. Jacobs, Boulle deixou bem clara sua opinião: “Vocês jamais farão deste livro um filme. Ele é infilmável”. Ao que Jacobs deve ter respondido: “Pois então, me aguarde, senhor escritor, em breve terei notícias!”. O sucesso do filme, no entanto, é o resultado da soma de muitas coisas, desde o roteiro até a criação da maquiagem, desde a construção da cidade cenográfica até a ambientação, desde o desenho do figurino até a música, que é espetacular. Aliás, o filme foi indicado aos Oscar de melhor figurino (Morton Haack) e melhor música (Jerry Goldsmith). Não posso afirmar se o filme teria o mesmo sucesso, caso tivessem optado por filmar a história que Boulle escreveu. Mas, de qualquer modo, “O Planeta dos Macacos” estava predestinado ao sucesso ou não teria acontecido tudo o que aconteceu, e hoje não estaríamos aqui conversando sobre isso.
               
O - Por falar nisso, como você avalia os novos filmes? Em minha crítica para "A Origem", saliento que não gostei do roteiro, dependente demais da auto-referência. E os novos são o reflexo dessa nova mentalidade mercadológica, onde os roteiros são escritos pensando no público que compra ingresso hoje, o adolescente. Na época dos originais, especialmente os três primeiros, o público-alvo era o adulto. Eu não imagino, por exemplo, uma sequência forte como a do assassinato de Zira e Cornelius em "A Fuga...", naquele tom pesado, em um dos novos. Como você analisa, em comparação, os antigos e esses novos?

S - “Planeta dos Macacos: A Origem” não nasceu para ser um filme “Planeta dos Macacos”. Os roteiristas vinham guardando recortes sobre experiências com símios em laboratório havia um bom tempo. Cada notícia de jornal ou revista era recortada e guardada, enquanto buscavam um caminho para escrever o roteiro para cinema ou TV. Um dia, sem um “tema da vez”, abriram a gaveta e reencontraram os recortes, começando a desenvolver uma trama. E a trama “se transformou” em “Planeta dos Macacos: A Origem”. Quando visitaram a Twentieth Century-Fox Film Corporation, propuseram escrever o filme e receberam sinal verde para dar continuidade ao projeto, foram para casa e começaram a fazer homenagens – até em excesso, na minha opinião! – aos filmes da Ape Saga. De onde se conclui que a princípio não havia intenção de criar nenhuma nova série, apenas produzir “um novo filme”. O filme foi para as telas, a audiência e a bilheteria surpreenderam, e não parava de entrar dinheiro no caixa da Fox! Ah, isso deixa qualquer produtor inspirado! E começou tudo de novo: sequência requerida, roteiristas se estrebuchando em cima de ideias antigas e novas, público de todas as idades pedindo mais, produtos de merchandise subindo pelas prateleiras... “O Planeta dos Macacos” reviveu, para a alegria de todos nós, fãs e estudiosos. Mas, fazer comparações, não! A Ape Saga é a Ape Saga, ponto. As séries de TV são as séries de TV, ponto. O filme do Tim Burton é um filme de Tim Burton, ponto. A nova série do cinema é uma outra história! Hoje, atores não usam maquiagem de macacos, nem são vistos como “macacos” enquanto atuam. A maior parte das cenas são interpretadas diante de gigantescos fundos em azul ou verde... Hoje, nem Hollywood nem “O Planeta dos Macacos” é o mesmo. Não perco meu tempo fazendo comparações, nem tentando encaixar em uma mesma “cronologia histórica” a Ape Saga, as séries de TV e os demais filmes. Isso é coisa para quem tem pouca imaginação – ou para quem tem certeza de que conhece tudo a respeito de tudo.

Sessão de maquiagem de Saulo por Bill Blake. Los Angeles, CA. 1999. Fotografia de Jeff Krueger.
O - Tenho um carinho especial por "Fuga..." e "Conquista...", talvez por terem sido os filmes na franquia que eu mais revia quando adolescente, gravados da televisão. Qual é sua análise desses filmes, levando em conta a dificuldade que os produtores tiveram de reverter aquele final apocalíptico do segundo, destruindo o sonho de Heston de enterrar pra sempre a franquia (rs)?

S - Charlton Heston foi um dos atores da história do cinema que mais ganhou dinheiro com um mesmo filme. “O Planeta dos Macacos” deu a ele um cachê de US$ 250 mil, todas as suas despesas pagas durante o período de produção e mais 10% sobre a arrecadação. Sabe o que significa isso? O filme custou US$ 5,8 milhões e rendeu US$ 15 milhões nos Estados Unidos, US$ 30 milhões em toda a Terra, em 1968. Até final do século XX, rendeu US$ 100 milhões. É claro que nada mais interessava ao Heston quando o assunto era “O Planeta dos Macacos”, seu futuro estava garantido, nem queria participar da sequência “De Volta ao Planeta dos Macacos” (1970). Depois que concordou em estar no filme, defendeu a ideia da explosão da Terra. Mas, não contava com a criatividade do roteirista Paul Dehn, que criou as tramas de “Fuga do Planeta dos Macacos” (1971) e “Conquista do Planeta dos Macacos” (1972), para a alegria de Jacobs e dos executivos da Fox. Mas, não foi apenas Charlton Heston quem dificultou a vida de Jacobs e a sobrevivência dos macacos da Ape Saga. A Fox também jogou duro na questão orçamento: a cada filme, mais cortes de orçamento. Para se ter uma ideia, “A Batalha do Planeta dos Macacos” (1973) foi produzido com pouco mais de US$ 1,7 milhão.

Cena de "A Conquista do Planeta dos Macacos".
O - Compartilhe com meus leitores as situações mais interessantes/divertidas/emocionantes nesses 40 anos dedicados à pesquisa dos livros. Tem algum momento que você guarda como o mais especial?

S - São várias histórias e memórias que compõem este mosaico. Quarenta anos é bastante tempo. Prefiro lembrar apenas os momentos mais emocionantes. Viajar a Los Angeles em 1998 e 1999 para conhecer Ron Harper, John Chambers, Booth Colman, Linda Harrison, Natalie Trundy, Bill Blake, Don Pedro Colley, Buck Kartalian, William Smith, Lee Delano; poder abraçar meu amigo e colaborador Jeff Krueger e ser hospedado em sua casa, em Anaheim, CA, e ir com ela e Natalie Trundy pesquisar os arquivos de Arthur P. Jacobs. Passar pela sessão de maquiagem pelas mãos de Bill Blake, usando figurinos originais de Roddy McDowall. Autografar meus livros sobre os bastidores e segredos destes filmes e séries de TV. Quarenta anos depois de ter escrito a primeira linha como resultado das minhas pesquisas, ainda despertar o interesse de jornalistas, fãs e estudiosos deste tema, responder às suas perguntas e colaborar com outras obras e projetos que visam preservar e divulgar a memória destas produções. E, ao final de tudo isso, poder olhar nos teus olhos e afirmar: “Estou apenas começando”!

O - Talvez eu consiga encontrar em você um colega defensor de "A Batalha...", um encerramento de baixo orçamento, cheio de problemas compreensíveis, mas com alma, coerente ao que havia sido estabelecido nos filmes anteriores. Além de ter John Huston, vivendo o Legislador, o filme tem uma boa trilha sonora composta pelo Leonard Rosenman (lançada pelo selo FSM, lá fora). Você gosta do filme? Fique à vontade para defendê-lo.

S - Eu gosto das sequências de “O Planeta dos Macacos” (1968). Depois do original, meu favorito é “Conquista do Planeta dos Macacos”, e na minha opinião o mais fraco de todos é “A Batalha do Planeta dos Macacos”. O filme, na verdade, preparou terreno para o lançamento da série de TV “Planeta dos Macacos” (1974), onde, assim como em “A Batalha...”, os humanos falam, os macacos vivem mais primitivamente ainda, e tecnologia ainda é vista em cena. A trilha do Rosenman é ótima; aliás, a Ape Saga só teve boas trilhas. Este último episódio também tem o mérito de reunir um elenco de primeira, contando inclusive com John Huston, que topou fazer o Legislador para arrecadar uns dólares a mais para apostar nas corridas de cavalo.

O - Parafraseando o astronauta Taylor: "O homem, esta maravilha do universo, este glorioso paradoxo que me enviou às estrelas, continua guerreando contra seus irmãos? Continua deixando os filhos de seus vizinhos perecerem pela fome?". A profundidade desse trecho do filme original comprova a força filosófica inerente ao projeto. Claro que a imagem dos macacos falantes em cavalos ajudou na "Macacomania" que tomou de assalto o mundo, inclusive o Brasil (programas como "Planeta dos Homens", por exemplo), mas, pra você, qual foi o elemento essencial no filme original que cativou o público? E, complementando, analisando a sociedade de consumo tão menos corajosa de hoje (simbolizada pelos roteiros mais infantilizados dos novos), o que você acha que fez com que involuíssemos enquanto cinéfilos?

S - Praticamente todas as frases célebres dos filmes da Ape Saga foram citadas nesta entrevista. Mas, temos outras. Dezenas. “Era para isso que o homem queria petróleo, para matar peixe?”, pergunta a Dra. Zira (Kim Hunter) ao Cornelius (Roddy McDowall) em “Fuga do Planeta dos Macacos”. “Nós não matamos nossos inimigos, fazemos com que nossos inimigos se matem uns aos outros”, diz o mutante Negro em “De Volta ao Planeta dos Macacos” (1970), botando Taylor (Charlton Heston) e Brent (James Franciscus) para lutar. “O homem não é capaz de nada além da destruição!”, disse o Dr. Zaius (Maurice Evans), antes de Taylor detonar a bomba atômica. A Ape Saga colocou em cena personagens símios que falam e agem como seres humanos, somos nós diante do espelho. Este foi o pulo do gato – ou melhor, o golpe do macaco! – dos filmes, e de certa forma foi levado para todos os outros formatos nos quais a ideia original de Pierre Boulle foram transformados: filmes, séries de TV, histórias em quadrinhos, outros livros... Sim, os roteiros de Rod Serling, Michael Wilson e Paul Dehn são muito melhores do que os atuais. Se as tramas de hoje são inferiores é porque não existe tanta gente talentosa quanto o Oscar nos quer fazer acreditar – ou então os novos roteiristas da franquia não são tão inventivos quanto os do passado o eram. Talvez por isso tenhamos tantos roteiros fazendo “homenagem” ao invés de contar “uma história nova”. 

Filmagens em Zuma Beach, CA. Fotografia autografada por Linda Harrison em 1998.
O - O que você achou da versão feita por Tim Burton? Fique à vontade pra analisar os pontos fortes e fracos da adaptação.

S - É um filme de Tim Burton: sombrio, pesado de humor duvidoso. Roteiro fraco, infantil e confuso. A maior bobagem que já vi na tela do cinema foi a estátua de Abraham Lincoln como a cara do general Thade. Um ator sem carisma no papel do astronauta sem destaque, sem uma frase marcante em quase duas horas de filme. Um maquiador presunçoso que transformou a personagem Ari em uma caricatura de Michael Jackson. Um ponto forte? Dois pontos, então: 1) ter arrecadado quatro vezes o que custou; 2) ter trazido de volta as discussões em torno do futuro da franquia.   

O - Saulo, por gentileza, deixe uma mensagem final para meus leitores, fãs da franquia como nós. E fique à vontade para divulgar tudo relacionado ao livro.

S - É muito bom saber que há outras pessoas interessadas por este tema que me fascina há 40 anos. Conhecer o interesse de outras pessoas por uma série da qual a gente gosta é um estímulo para que continuemos em frente. Que continuemos nos reunindo nas sessões de autógrafos, nas salas de cinema, nos fãs clubes, na internet – hoje o grande ponto de encontro de todas as tribos. Gostaria que todos tivessem acesso ao livro “Homem não entende nada! Arquivos secretos do Planeta dos Macacos” (Editora Estronho, 2015), que em suas 612 páginas comporta 40 anos de pesquisas, uma declaração de amor aos filmes e profissionais que fazem parte da nossa vida há tanto tempo, e os quais – apesar de anônimos ou desconhecidos – nos parecem tão familiares. E fiquem atentos pois teremos muito mais boas-novas em um curto espaço de tempo. E o melhor: sem precisar sair da Terra! Muito obrigado!

quarta-feira, 2 de março de 2016

Faces do Medo - Del Toro, Reeves, Fulci, Hayers, Cohen e Bava

 

A Espinha do Diabo (El Espinazo Del Diablo – 2001)
Durante a Guerra Civil Espanhola, o menino é levado a um orfanato, que esconde macabros segredos que envolvem uma criança desaparecida.

O filme de estreia de Guillermo Del Toro, “Cronos”, sinalizava um grande potencial, que o diretor viria a exercitar com mais competência nesse excelente conto de fantasmas. Ao negar a estrutura simplista de jump scares das tramas fantasmagóricas de Hollywood, resgatando a influência dos clássicos orientais no tema, como “Onibaba” e “Kuroneko”, dirigidos por Kaneto Shindo (torço para que a distribuidora Versátil inclua essas pérolas em uma próxima caixa), misturada aos livros de M.R. James, o diretor entrega um relato pessoal pungente e melancólico sobre os efeitos da Guerra Civil Espanhola, o precursor de todos os conflitos fascistas da Europa, no psicológico das crianças. A imagem do fantasma Santi, visualmente inesquecível, funcionando como uma metáfora para o legado de sofrimento que assombra o presente de um povo. Como o próprio narrador informa: O fantasma é uma tragédia que está fadada a se repetir eternamente. Complementado ideologicamente por “O Labirinto do Fauno”, esse filme é uma prova de como o gênero do terror e da ficção científica podem ser, e quase sempre são, veículo para temas muito mais profundos do que os ditos dramas sérios e respeitados pela crítica.


Sob o Poder da Maldade (The Sorcerers – 1967)
Um casal idoso passa a usar um novo método de hipnose para manipular a mente alheia e conseguir tirar vantagens. 

O roteiro une a temática do cientista louco, frequente nos clássicos do gênero realizados nas décadas de trinta e quarenta, ao frescor anárquico que estava sendo trabalhado na safra dos estúdios Hammer, com o elemento adicional do contexto social da swinging London do final dos anos sessenta, representado pela forma como os personagens jovens são retratados. A presença de Boris Karloff, em ótimo momento, reforça esse resgate, mas é a fantástica Catherine Lacey, vivendo uma idosa que deseja experimentar novas emoções, numa interpretação que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Trieste Science Fiction Film Festival, a responsável pela força dramática do projeto. A história é simples, o que realmente engrandece o resultado é a eficácia na criação da atmosfera inquietante, onde o senso de perigo é uma constante. O diretor Michael Reeves, um jovem talento que faleceu dois anos depois da estreia, consegue, com baixo orçamento, estabelecer suspense até mesmo em sequências comuns, como na tentativa de um assalto a uma loja de casacos de pele, ou na perseguição de carros que ocorre no terceiro ato. O nível de violência gráfica perturbou os censores, demonstração da coragem do cineasta, dois anos antes da indústria se chocar com o faroeste de Sam Peckinpah. E vale ressaltar o impacto da cena que fecha o filme, uma das imagens mais emblemáticas do cinema de terror de sua década.


A Casa do Cemitério (Quella Villa Accanto al Cimitero – 1981)
Norman Boyle muda-se com a família para uma velha mansão ao lado de um cemitério. E violentas mortes começam a acontecer.

Nesse terceiro e último filme da trilogia dos portais do inferno, composto também por “Terror nas Trevas” (que a Versátil lançou numa caixa anterior) e “Pavor na Cidade dos Zumbis” (que acredito que a distribuidora também irá lançar), Lucio Fulci subverte algumas ideias já estabelecidas. Ao contrário dos filmes anteriores, dessa vez não há um livro mágico, nem mesmo há um portal. O roteiro, o mais problemático da trilogia, dá espaço para fantásticas cenas de morte, aquele gore competente e criativo usual nos trabalhos do diretor, mérito de Giannetto De Rossi, mas a estrutura dessa vez remete mais aos filmes de fantasmas, deixando para o excelente terceiro ato a resolução do mistério que envolve os estranhos barulhos escutados no sótão da nova casa da família Boyle. Vale destacar a ótima trilha sonora de Walter Rizzati. É curioso perceber que a citação que encerra a trama, informada como sendo do escritor Henry James, do clássico "A Volta do Parafuso", na realidade, foi criação do próprio diretor.  


A Filha de Satã (Burn, Witch, Burn – 1962)
Cético professor universitário descobre que sua esposa, com quem está casada há muitos anos, é uma bruxa. 

Uma peça importante no horror britânico do início da década de sessenta, essa produção da AIP me remete ao “A Noite do Demônio”, de Torneur, com o protagonista, alguém com uma profissão que representa credibilidade, sendo obrigado a colocar em conflito o lógico e o paranormal. A introdução narrada, um encanto proferido como forma de proteger o público da sessão, contribuição dos pensadores de marketing da produtora, exclusiva para o lançamento nos Estados Unidos, pode soar datada hoje em dia, mas é fascinante. O diretor Sidney Hayers dedicou grande parte da vida a projetos televisivos, mas sua contribuição ao cinema não pode ser menosprezada. “A Filha de Satã” é sua obra-prima, mas “O Circo dos Horrores”, feito em 1960, também merece destaque. O roteiro é do grande Richard Matheson, adaptado do livro de Fritz Leiber: “Conjure Wife” (ótimo, por sinal, facilmente encontrado em inglês na internet), que viria a retrabalhar conceito semelhante em “As Bodas de Satã”, em 1968, para a Hammer.


Nasce Um Monstro (It’s Alive – 1974)
Um bebê mutante nasce com um apetite voraz e canibal. Ao fugir do hospital, coloca em pânico uma pequena cidade americana. 

A capa do VHS nacional desse filme me causava pavor na infância, cometendo o erro de mostrar o rechonchudo bebê mutante na claridade, destruindo o elemento de mistério que é o grande mérito dessa obra do diretor Larry Cohen, que foi responsável também por outro clássico da minha infância: “A Coisa”, onde ele também insere o viés da sátira social, além de ter comandado um dos melhores blaxploitation: “Black Caesar”. Um ano antes do “Tubarão” de Spielberg mostrar ao mundo como o monstro que se esconde é mais aterrorizante, Cohen já fazia uso desse mesmo conceito, trabalhando metaforicamente o tema do aborto, que havia sido legalizado pela Suprema Corte norte-americana no ano anterior, por trás do verniz de Filme B, algo bastante corajoso pra época. Destaco também a trilha sonora do mestre Bernard Herrmann, injustamente pouco lembrada, onde conseguimos perceber vislumbres do que seria utilizado em “Taxi Driver”. Basta escutar na íntegra (foi lançada pelo selo FSM lá fora), para constatar que ela merece estar ao lado de suas composições mais famosas. Um exercício de criatividade que apenas o cinema independente de baixo orçamento pode oferecer, o filme venceu o prêmio especial do júri no Avoriaz Fantastic Film Festival, de 1975.


Schock (1977)
Ao voltar a morar em sua antiga casa, Dora passa a ser assombrada pelo fantasma do ex-marido. E seu filho pequeno age de modo estranho.

O roteiro de Lamberto Bava, que também ajudou bastante na direção, busca inspiração nos livros de Stephen King, uma referência que é perceptível na forma como o personagem do menino é desenvolvido. É impressionante como o genial diretor Mario Bava, mesmo em seu último trabalho, consegue demonstrar vitalidade e um desejo por trazer algo novo para o seu público. A opção pelos efeitos práticos, muito devido ao baixo orçamento, consegue ser mais eficiente do que qualquer computador moderno, o que me leva a crer que esse talvez seja o filme mais assustador em sua filmografia. Sem estragar a experiência dos que ainda irão conhecer a obra, eu posso salientar aqui um truque brilhante, que ocorre numa cena em que vemos o filho pequeno correr até os braços da mãe, já no terceiro ato. É um dos meus momentos favoritos no gênero. Toda a subtrama que envolve a espécie de possessão espiritual merece pontos pela coragem, inserindo cenas verdadeiramente perturbadoras entre o menino e a mãe, vivida pela musa de Dario Argento: Daria Nicolodi, conotações sutis de incesto, tipo de coisa que a insegura indústria de cinema moderna jamais cogitaria realizar. 


A caixa "Obras-Primas do Terror 4" está sendo lançada pela distribuidora Versátil, com a curadoria impecável de Fernando Brito.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Cine Bueller - "O Casamento dos Trapalhões", de José Alvarenga Jr. (Entrevista com Nádia Lippi)

Link para texto sobre “Cinderelo Trapalhão”:

Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso sobre a produção com a amiga Nádia Lippi, que viveu o par romântico de Renato Aragão em "O Casamento dos Trapalhões". Conheci a Nádia quando atuamos no longa "Histórias Íntimas", dirigido por Julio Lellis e Breno Pessurno, filme que recebeu o prêmio máximo em sua categoria no Los Angeles Brazilian Film Festival de 2014.

O – Querida Nádia, essa é uma questão que sempre quis te fazer, como era o clima nos bastidores de uma produção dos Trapalhões? Havia liberdade de improviso, ou o roteiro era seguido à risca? Você tem histórias interessantes/divertidas de bastidores? Como era a sua relação com cada um dos quatro? Disserte à vontade sobre essas questões.

N - Bem vamos lá...

Quando se pensa em Trapalhões imediatamente vem na cabeça a graça de cada um, o estilo mocó de Didi ser, a risadinha tímida e jocosa, típica de Zacarias, o linguajar inventado por Mussum e a gaiatice do galã do quarteto, o Dedé, certo? 

Pois é, tudo existia na frente e atrás das câmeras nas filmagens, mas nunca a ponto de atrapalhar o ritmo dos trabalhos. O mais sério, ou melhor, menos brincalhão, sempre foi Mauro, o Zacarias, mas sempre participando das brincadeiras fora de cena também. O Mussum era o mais encapetado sempre (rs).

Renato alternava com Dedé, sempre um contradizendo o outro. Na brincadeira, claro, mas era divertido sempre.

Quando era necessária a troca de câmeras de lugar ou a iluminação ter que ser refeita, aí demorava mais, e se fosse sequência direta com os atores, ficávamos nas marcas e aí rolava tudo de engraçado. As falas quase sempre eram alteradas à maneira de cada personagem do quarteto, mas sem tirar significado. Horários eram respeitados e hierarquias também. Acima de tudo os Trapalhões eram super profissionais.

Nunca me esqueço, no último dia de gravação, quando Mussum já chegou soltinho no set, e as cenas que foram gravadas ao redor de uma mesa numa cena de jantar. Demorou tanto pra mexerem na iluminação, que uma roda de samba se instalou no set e aí nesse dia a continuidade dos trabalhos foi difícil. Boas lembranças. Mussum “atacadésimo” era uma loucura!

Minha relação maior sempre foi com Renato já que convivia com a família toda e a Thalita (filha) era muito amiga de Juliana, a filha mais nova de Renato e Marta. Não via o Renato como Didi e sim como o meu amigo. Renato já me conhecia desde que eu tinha uns 15 anos, em sua passagem pela TV Tupi. Faz tempo, né? (rs)

O – Você já havia participado de “O Trapalhão na Arca de Noé”, o projeto solo do Renato Aragão, mas como foi o convite para “O Casamento dos Trapalhões”? Sendo uma apaixonada por cinema, creio que a homenagem ao clássico musical “Sete Noivas Para Sete Irmãos” tenha sido um precioso estímulo, certo?

N - Sim eu já havia feito o Arca, e fiquei muito honrada, já que a atriz que faria o filme seria, segundo me disseram, a Regina Duarte, e, como ela não pôde fazer, achei um luxo, até porque eu já estava ausente da televisão ha alguns anos.

Era o filme da separação e o clima era bem esquisito pra mim, pois via um Renato mais introspectivo e a equipe que tinha muita gente da própria família de Renato, toda mais pragmática e preocupada talvez com o momento delicado de Renato, que demonstrava certa melancolia a meu ver. O clima das filmagens não foi ruim nem tenso, apenas sem a alegria deles juntos. Quem quebrava a seriedade era o Sergio Malandro. Mas foi legal assim mesmo.

Agora o outro, o do Casamento, nossa, foi bárbaro! Quando recebi o convite, nem acreditei. Pois já afastada de tudo, receber de novo um convite de Renato pessoalmente foi uma honra. Era o casamento de Didi Mocó e eu seria a sua parceira. Um luxo!

Foi o maior presente que eu poderia receber da família Aragão, aliás, saiba que sempre fui querida por todos e guardo lembranças muito agradáveis da convivência com a família Aragão e com a família Trapalhões.

Estar atrelado ao filme “Sete Noivas para Sete Irmãos”, para mim, não teve peso.

O – Qual você considera que foi a maior contribuição do diretor José Alvarenga Jr. para o projeto?

N - Bem, eu acho que o talento de Zé Alvarenga é hoje indiscutível e acho que mesmo já tendo dirigido um filme, o Trapalhões na Selva, foi no projeto do Casamento dos Trapalhões, já em outros tempos e com uma produção mais rica, que ele pôde trabalhar cada personagem e suas particularidades. Acho que foi a escolha perfeita, pois todos já se conheciam e existia a confiança profissional que permitia ousar.

Além de ser um diretor calmo, alegre, sem estrelismos e com muita competência. Eu adorei! Se tivesse que voltar à TV, adoraria trabalhar com ele. Sou fã!

O – O Dedé Santana, algo que muitos não valorizam, teve fundamental importância em vários filmes do grupo, até mesmo como diretor informal (e oficial em cinco, como “A Filha dos Trapalhões” e “Atrapalhando a Suate”), fazendo uso de um excelente timing cômico e dos ensinamentos de J.B. Tanko e Adriano Stuart. E como ele já afirmou que os musicais de Hollywood são sua grande paixão, eu creio que ele tenha demonstrado maior empolgação nesse filme. Você testemunhou alguma filmagem em que ele cooperou além da função de ator, para o resultado final?

N – Sim, uma pessoa pra lá de importante para a história do quarteto, com certeza. Uma pessoa extremamente do bem, carinhoso parceiro de cena, amigo verdadeiro de todos. Esse pra mim sempre foi Dedé.

Como já disse, conheci o grupo há muitos anos e uma coisa que admiro são as pessoas que não se transformam com o sucesso, o Dedé sempre foi um exemplo disso. Vivi todas as fases do quarteto e sua maneira simples ao me encontrar em qualquer lugar sempre me chamou a atenção.

Quanto à sua importância no grupo é incontestável. Ele era a escada para toda graça de Didi. Consegue imaginar o Gordo e o Magro sem o Magro? Ou os três patetas sem um deles? Pois é, muitos não se davam conta da importância de cada um deles.

O – A crítica nunca prestou muita atenção nos filmes do quarteto, algo que sinceramente não consigo compreender. A comédia popular nunca é valorizada em seu tempo, até mesmo Jerry Lewis era desprezado pelos críticos norte-americanos, ainda que fosse idolatrado pelos franceses. Como você enxerga essa constatação? E, complementando, você teve a sorte de participar de um fenômeno cinematográfico que nunca foi sequer equiparado no Brasil. Como você analisa a importância dessa parceria com o grupo, no contexto de sua carreira profissional?

N - As produções da época das Chanchadas foram também discriminadas pela crítica, mas atualmente se tornaram ícones da história do cinema brasileiro. Acho que isso responde a sua pergunta.

O quarteto provou a sua importância pra gerações e sempre ocupará a lembrança de todos. E quanto à importância dentro da minha história, inegavelmente, uma das maiores honras pra mim.

Um dia, quando meus netos pesquisarem minha vida, saberão e irão rir por terem tido uma vó " trapalhona" (rs).

O – Eu revi o filme para escrever meu texto e, surpreendentemente, ele segue eficiente e simpático como na época em que o vi pela primeira vez, na minha infância. Como você analisa “O Casamento dos Trapalhões” em retrospecto?

N – Concordo. O filme é atemporal. Aliás, em sua maioria, os filmes do quarteto sempre serão atemporais. Isso, acho, faz parte da magia do humor tão bem demonstrado por eles.

O filme veio coroar o trabalho deles, os personagens criados por eles e tão bem definidos no filme. Cada um mostrando seus personagens com maiores características do perfil de cada um, vivendo histórias verossímeis e mais próximas da realidade. 

Acho que é assim que defino o sucesso do filme “O Casamento dos Trapalhões”, maior proximidade com a realidade.


O Casamento dos Trapalhões (1988)
Quatro irmãos, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, são caipiras que vivem na área rural. Didi vai até uma cidade próxima e, após entrar em uma briga com Expedito, conquista Joana, que o segue até o seu rancho. Eles resolvem se casar, apesar dela não se sentir muito à vontade com a presença dos seus irmãos, que são bem pouco educados.


Eu tenho um carinho especial por esse filme, já que ele foi lançado no período em que eu realmente me divertia com o quarteto em várias mídias. Eu nasci em 1983. Quando ele começou a ser exibido na “Sessão da Tarde”, eu passava horas entretido com os RPG’s: “Didi Volta Para o Futuro” e “Didiana Jones e a Ilha dos Dinossauros” (antes de me aventurar nos livros-jogo “Aventuras Fantásticas”, de Steve Jackson e Ian Livingstone), além de colar nas paredes do quarto os pôsteres que vinham no centro da revista em quadrinhos: “As Aventuras dos Trapalhões”, pela Editora Abril, que mostrava o grupo em paródias de filmes de Hollywood. E a animação de abertura do filme utilizava o mesmo traço infantil simpático dos personagens nesses gibis. Eu não peguei a fase dos quadrinhos da Editora Bloch. No vinil “Parque de Diversões”, de 1988, a última canção do segundo lado do disco era o animado tema do filme, com frases como: “Vida boa, boa nada, sem muié pra namorar... Vida boa, boa nada, tô querendo me casar”. Era uma overdose de humor circense, na televisão, no cinema, nos quadrinhos, uma fase que me traz recordações muito agradáveis.

A direção de José Alvarenga Jr. consegue estabelecer com muita naturalidade um clima de harmonia que transparece nas cenas, um tom muito menos formal do que era comum nos filmes que o quarteto realizou na década de setenta. Essa irresponsabilidade criativa, altamente técnica, conseguiu até mesmo inserir as necessidades mercadológicas, o product placement e a participação da banda Dominó, elementos que causam constrangimento em outras produções dessa fase final do grupo, com alguma relevância no contexto da trama, ou executadas de forma rápida e indolor, como quando o sorridente boneco Bocão das gelatinas Royal paquera a namorada de um dos integrantes da boy band formada por sobrinhos urbanos dos quatro caipiras. Sobrinhos urbanos, por sinal, que ainda tentam conquistar as gatinhas com piadotas de “Joãozinho”.

É uma ingenuidade que funciona bem com as crianças e ganha contornos irônicos que só os adultos percebem. Gosto também da sequência emoldurada pela boa canção “Alegria”, de Sullivan e Massadas, mostrando Didi e Dedé executando várias acrobacias circenses em uma apresentação pública, um momento que captura a magia única desse grupo. É, guardadas as devidas proporções, como ver as sequências musicais dos Irmãos Marx, com Chico tocando piano, Harpo se balançando e Groucho desferindo sua metralhadora verbal. O cerne criativo dos Trapalhões está registrado nessa cena.