quinta-feira, 5 de novembro de 2015

"Ganga Bruta", de Humberto Mauro


Ganga Bruta (1933)
Um homem (Durval Bellini) casa com uma mulher (Lu Marival), descobre que ela não era virgem na noite de núpcias. Revoltado, ele mata a mulher com um tiro de revólver. Ele vai a julgamento e é absolvido por unanimidade. Sai da cidade grande, enriquece com sua usina, conhece uma jovem pura (Déa Selva) e acaba se apaixonando por ela. A garota tem um noivo (Décio Murillo), que, ao descobrir o romance, parte para o confronto, acaba morrendo. O homem termina casando novamente, com a jovem pura. Uma história simples em sua estrutura. Não há nada na trama que sinalize a importância desse clássico da Cinédia. É pura arte imagética, forma sobrepondo-se ao conteúdo, cinema em estado bruto, obra-prima do pioneiro diretor Humberto Mauro, falecido a exatos trinta e dois anos, no dia 05 de Novembro, de 1983. No mesmo dia, mês e ano, nascia este que vos escreve. Então, como forma de comemorar meu aniversário, o Dia Mundial do Cinema e celebrar o legado de Mauro, eu escolhi rever essa pérola da nossa cinematografia, um tesouro que continua injustamente esquecido por grande parte do público.

Iniciado em 1931, o longa mudo sofreu atrasos consideráveis. O produtor Adhemar Gonzaga sonhava rodar o projeto na Amazônia, o que acabou não acontecendo, com problemas de verba e carência de filme virgem. Ainda assim, a produção simbolizava uma maturidade profissional do cinema nacional, com cenas internas captadas por quatro câmeras, algo usual na Hollywood da época, porém, novo para os nossos padrões de outrora. Quando foi lançado, em 1933, já inserido numa sociedade deslumbrada com o cinema sonoro, o projeto teve que ser adaptado para a nova demanda, com a inserção de trechos de áudio, diálogos, ruídos e canções. O mais bonito é constatar que, a despeito dessas modificações, o silêncio continua sendo o aspecto mais interessante e criativo no resultado final. O som, uma inovação na época, analisado hoje, é o elemento datado, enquanto a poesia visual de Mauro segue relevante.

O que muda na mente do protagonista, do primeiro casamento, que inicia a trama, ao segundo casamento, no desfecho? O primeiro crime cometido foi consciente, o segundo foi involuntário, o rapaz acaba se afogando (simbolicamente, em seu próprio ódio), ainda que o homem tenha resgatado ele das águas. Vale destacar o simbolismo do afogamento, uma espécie de novo nascimento, já que o resgate da jovem que estava se afogando foi o gatilho emocional que despertou a paixão dele.  Outro símbolo que se repete é o do crucifixo, presente na montagem da cena do casamento final, metaforicamente dando àquele ritual o peso do sacrifício cristão, onde dois pecadores se unem na esperança da remissão.

O tom é irônico, o ser humano é o diamante bruto, frágil, inseguro, carente. O exílio na cidade do interior não se mostrou garantia de paz, muito menos interna. A virgindade da jovem não significava pureza moral, a garota se divertia jogando com os sentimentos dos dois personagens. Ao subverter esses valores, o roteiro se mostra à frente de seu tempo. Em sua dinâmica montagem claramente inspirada pelo trabalho de Eisenstein e Dziga Vertov, a relação sexual é insinuada em uma sequência que mostra os operários trabalhando na usina, ferramentas operando como símbolos fálicos. Vale salientar a competência da montagem na sequência de luta no bar, ainda hoje, um primor de ritmo. É lindo também o flashback despertado por um violão em seresta, um recurso que, somado aos ângulos e planos inovadores, representa uma audácia criativa ainda rara em nossa trôpega indústria. Humberto Mauro continua sendo, especialmente em nosso período pobre atual, dominado pela estética televisiva na tela grande, um dos poucos realizadores brasileiros que verdadeiramente compreendem o potencial da Sétima Arte. 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Faces do Medo - "Obsessão Macabra", de Roger Corman

Link para os textos do especial:


Obsessão Macabra (The Premature Burial – 1962)
Sem elementos paranormais, o filme trabalha o medo real da catalepsia, a obsessão do estudante de medicina, vivido com a elegância usual por Ray Milland, que, temendo ser vitimado pelo que parece ser uma maldição familiar, começa a planejar uma forma prática de evitar qualquer risco de ser enterrado vivo. Até mesmo a melodia tocada no piano por sua esposa, a bela Hazel Court, musa dos estúdios Hammer, consegue provocar náusea nele, já que se assemelha demais com a música que escutou sendo assobiada por um coveiro. Dentro do ciclo de adaptações de Edgar Allan Poe dirigidas por Roger Corman, acredito ser o roteiro mais fiel à essência do terror psicológico do original, com o protagonista recitando os trechos mais perturbadores que o autor utilizou para definir esse pavor primitivo.

E, visualmente, considero o mais ousado, com uma ótima sequência onírica, plena em ângulos inclinados de câmera, lentes distorcidas, filtros azulados e efeitos de luz, criativamente sublimando o baixo orçamento, tentando traduzir imageticamente o pior pesadelo do personagem, encarando a fragilidade de suas várias estratégias de burlar seu medo. A floresta enevoada, um elemento constante no ciclo, contribuição da direção de arte de Daniel Haller, ajuda a estabelecer o clima único dessas produções. Sem a teatralidade excessiva de Vincent Price, o roteiro ganhou tridimensionalidade nas atitudes dos personagens principais, uma camada de realismo fundamental nessa história, o que agrega valor à reviravolta que ocorre no terceiro ato.

* O filme do ciclo dirigido por Roger Corman está sendo lançado em DVD pela distribuidora Versátil, em parceria com a Livraria Cultura, na caixa “Edgar Allan Poe no Cinema”, que inclui também: “Muralhas do Pavor”, “O Poço e o Pêndulo” e “O Túmulo Sinistro”.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Cine Samurai - "Lobo Samurai" / "Lobo Samurai 2", de Hideo Gosha

Link para os textos do especial:


Lobo Samurai (Kiba Okaminosuke – 1966)
O solitário ronin Kiba chega a uma aldeia para defender uma bela mulher cega de homens inescrupulosos.
Lobo Samurai 2 (Kiba Okaminosuke: Jigoku Giri – 1967)
O solitário ronin Kiba se envolve com os planos de vingança de um prisioneiro que se parece com seu falecido pai. 


Buscando inspiração em “Yojimbo”, de Kurosawa, e nos faroestes italianos, Hideo Gosha desconstrói as expectativas do chambara já nos créditos de abertura, onde, após uma rápida demonstração de técnica do protagonista com a espada, com direito a freeze frame sublinhando uma postura de agressividade, o foco da atenção acaba sendo conduzida para o trivial ato da alimentação, com ele, já adotando uma atitude brincalhona, devorando uma tigela de arroz. Com uma pegada de humor muito similar a “Três Samurais Fora da Lei”, de 1964, resgatado pela Versátil na primeira caixa “Cinema Samurai”, ele cria Kiba, vivido com carisma por Isao Natsuyagi, um personagem que foge da abordagem amarga e cínica usuais no gênero, uma espécie de variação do que viria a ser o cowboy Trinity, vivido por Terence Hill, combinado ao Sartana, de Gianni Garko. O segundo filme, ainda que consideravelmente mais sombrio, explorando as origens familiares dele, também ganha pontos pela leveza na abordagem.

Gosto muito de uma cena que ocorre no terceiro ato do primeiro, uma atitude de Kiba que sintetiza os códigos de honra de uma sociedade mais nobre, além de distanciar ele, positivamente, de grande parte dos heróis do gênero. Ao perceber que seu oponente está com um dos braços imobilizado, ele interrompe o confronto, atando sua mão à cintura, para que ambos estejam lutando nas mesmas condições. Há uma espécie de leitmotiv discreto, envolvendo um macaquinho e, no segundo filme, uma tala que protege o pulso, símbolos que, sem revelar momentos da trama, irão reforçar o valor do sacrifício e a necessidade de se sublimar os obstáculos físicos, temas recorrentes nas duas tramas. Gosha consegue injetar nessas sequências de ação, aparentemente minimalistas, um classudo tom de reverência, transformando os homens em mitos, com o uso generoso da câmera lenta e, principalmente, do silêncio. Vale salientar também a trilha sonora de Toshiaki Tsushima, um misto de gaita e piano, que me remeteu imediatamente aos trabalhos de Ennio Morricone.

O bonito desfecho do segundo filme, com o protagonista sofrendo uma traição inesperada, pode ser visto como a gênese do anti-herói amargo típico dos chambara. É uma pena que o diretor não seguiu adiante com a história de Kiba “Presas de Lobo” em outros projetos. O ronin, tendo aprendido com o sofrimento, caminha em direção a um precipício literal, e, principalmente, existencial. 

* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora Versátil na caixa “Cinema Samurai 4”, que inclui também: “A Última Espada”, “Juramento de Obediência”, “Crônicas dos Shinsengumi” e “Guerra de Espiões”. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

"Glória Sem Mácula", de Ronald Neame


Glória Sem Mácula (Tunes of Glory – 1960)
Um dos aspectos mais interessantes dessa injustamente esquecida pérola do cinema britânico, ainda que não seja algo proposital na trama, é sua crítica bem-humorada ao militarismo. O absurdo inerente às cenas que representam o conflito entre os dois oficiais experientes, vividos por Alec Guinness e John Mills, uma guerra de egos envolvendo a questão da dança tradicional escocesa ter uma pegada mais formal ou mais descontraída, parece material do grupo Monty Python. A direção sóbria de Ronald Neame ajuda, involuntariamente, a reforçar esse tom.

A vulnerabilidade emocional do personagem de Guinness, em um de seus melhores momentos no cinema, sofre um abalo considerável com a chegada do seu substituto no comando, alguém que simboliza perfeitamente esse sistema, um indivíduo que verdadeiramente se considera um ser superior apenas por sua posição na hierarquia militar. Ele, um idealista que vive e morreria para manter sua posição no regimento, despreza o relacionamento de amizade que se formou entre os companheiros, além de considerar um ultraje que os oficiais se divirtam e bebam enquanto dançam ao som de suas melodias de guerra. Jock, por outro lado, começou como um gaiteiro, tendo escalado os degraus até sua posição atual. Ele manteve em sua alma o espírito livre daquele jovem que entrou no sistema por amor à pátria, não pela ganância do acúmulo de poder, o que estimula naturalmente o respeito de seus comandados.

O que engrandece o roteiro de James Kennaway, muito eficiente em revisões, é a riqueza de motivações nos dois personagens. Você pode acompanhar cada sessão pelo ponto de vista dos dois, tomando partidos diferentes, encontrando vários argumentos que sustentem a razão em suas atitudes. Não há herói ou vilão, apenas dois homens com abordagens distintas sobre um tema em comum. O poderoso desfecho é desconcertante, um dos mais emblemáticos em sua década. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras-Primas do Cinema", em "Coleção Dose Dupla - Ronald Neame", tendo como extra uma entrevista com o diretor. O segundo filme é "O Homem Que Nunca Existiu", de 1956. 

"Apanhadora de Sonhos", de Kim Longinotto


Apanhadora de Sonhos (Dreamcatcher - 2015)
Brenda Myers-Powell sobreviveu a uma infância imersa na violência, sofreu abuso sexual desde os quatro anos, adentrando, em sua juventude, no ingrato mundo da prostituição. Ela lutava para manter alguma paz interior de forma lúdica, conversando com amigos imaginários, seus ídolos na música: Elvis Presley e Diana Ross, com quem dançava na solidão de seu quarto, inconscientemente fortalecendo seu espírito. Com quatorze anos, já tinha duas filhas. Anos depois, ao invés de buscar fama relatando suas experiências, ela preferiu trabalhar nas sombras, investindo seu tempo na construção da Fundação Dreamcatcher, visitando os bairros mais pobres e presenteando mulheres tão sofridas quanto ela, vítimas de todo tipo de agressão física e psicológica, com a esperança de quem percebe um reflexo diferente no espelho da vida.

A esperança envolta em um sorriso acolhedor, uma alegria que encoraja e afasta o danoso, porém, nesse caso, compreensível vitimismo. A diretora Kim Longinotto acompanha essa heroína, que, numa demonstração de tremenda resiliência, conseguiu manter intacta sua autoestima, sempre cuidando de sua imagem, em suas visitas regulares a prisões e centros de detenção juvenil. É impossível não se encantar por ela, pura simpatia e gentileza, provendo estranhas com auxílio prático, distribuindo camisinhas, além de dedicar também um tempo generoso ao ato mais precioso: escutar, sem julgamento, sem aquela superioridade típica dos hipócritas, o clássico tão popular no Brasil: “agora encontrei Jesus e sou melhor”, nada disso. Sua bondade é genuína, conseguindo, com seu olhar carinhoso, transformar o local mais opressivo, por alguns minutos, em um espaço de plena tranquilidade, possibilitando terreno fértil para que os corações mais sofridos consigam desabafar.

A câmera apenas observa à distância, a diretora não tem interesse em deixar sua impressão digital em cada cena, equívoco comum em documentários. Sem apelar para qualquer recurso de estilo que pudesse manipular o registro, evitando o sensacionalismo até mesmo nos momentos mais impactantes, “Apanhadora de Sonhos” é um documentário verdadeiramente essencial.