domingo, 29 de junho de 2014

Hitchcock - Um Corpo Que Cai


Um Corpo Que Cai (Vertigo - 1958)
Alfred Hitchcock prestava tremenda atenção nos detalhes e incitava seu público a acompanhá-lo nessa postura ativa, não apenas observando, mas fazendo parte da investigação. Basta nos lembrarmos da cena do infantilizado quarto de Norman Bates em “Psicose”, onde por alguns segundos, a câmera foca no vinil que repousava na vitrola: “Eroica, Sinfonia No. 3, E-flat major, Op.55 de Beethoven”. Na marcha fúnebre composta no século 19, à memória de Napoleão, está contido o trecho que serviu de inspiração para Bernard Herrmann emoldurar as facadas na cena do chuveiro. São detalhes que podem passar despercebidos, mas o mestre do suspense preferia nunca subestimar o indivíduo sentado na sala escura.

Em “Um Corpo que Cai”, um dos símbolos visuais mais fortes (além do verde como símbolo da morte) é a espiral, representando o vazio (o protagonista vive de frágeis ilusões mentirosas) e a impossibilidade do total controle emocional pelo ser humano. Na abertura clássica de Saul Bass ela aparece nos olhos de uma mulher. Quando o personagem de James Stewart olha para seu parceiro morto no asfalto, os membros de seu corpo formam uma espiral. Mais adiante na trama, a Carlotta pintada no quadro mantém seu cabelo preso em forma de meticuloso espiral, assim como Madeleine (a câmera foca nesse detalhe) que a observa. Judy ostenta um corte de cabelo com pequenas espirais caídas sem precisão sobre sua testa, como se simbolizasse um caos que Scottie (Stewart) precisará controlar. A morte do colega e a presença da enigmática mulher são fatores que auxiliam no gradual descontrole emocional do protagonista. A espiral retorna no brilhante desfecho, representada pela escada da igreja.

Analisando literalmente o roteiro, podemos (e boa parte da crítica da época assim o fez) vê-lo apenas como uma engenhosa história de detetive, mas pela ótica da psicologia a trama traça os meandros do labirinto da mente de um homem perturbado por um devastador sentimento de culpa, que o faz tentar desesperadamente transformar Judy (Kim Novak) em um objeto de fetiche, enquanto procura curar o deslocamento do seu ego. Ao resgatar Madeleine do afogamento certo, Scottie se torna Orfeu, disposto a tudo para trazer sua Eurídice de volta do Hades. Como Pigmalião, será sua insistência em recriá-la (recriar a perfeição que idealiza) no corpo de outra mulher a causa de sua tragédia, não sua recorrente acrofobia, um ótimo “MacGuffin”. 

O Mordomo da Casa Branca


O Mordomo da Casa Branca (The Butler - 2013)
Assim como o similar e superestimado “Histórias Cruzadas”, o filme do diretor Lee Daniels é um projeto que essencialmente vê o negro pelo olhar de uma sociedade branca, o que surpreende, já que ele é negro. Por trás de cada emoção manipulada com mão pesada, o roteiro é profundamente preconceituoso, pois utiliza os mesmos estereótipos da época em que os “generosos” brancos concederam à Hattie McDaniel o privilégio de desfilar no mesmo tapete vermelho, como se branca fosse. Infelizmente é dessa forma que os racistas disfarçados pensam. O prêmio não modificou sua condição como atriz na indústria, pois continuou atuando em variações da “Mammy” até o fim da vida.

É um tipo de “Blaxploitation”, só que sem coragem alguma. Não ajuda o fato de que, como cinebiografia, modifica tremendamente os fatos na vida do homenageado. Não podemos considerar nem como “livremente” baseado, já que o tipo caricatural que evidencia é criado unicamente para alcançar os efeitos dramáticos e desejos ideológicos do roteirista Danny Strong. Com uma clara e destorcida visão política, ele transforma os presidentes democratas em “ursinhos carinhosos” que se importam demais com os direitos dos negros, incluindo Lyndon B. Johnson, um dos maiores racistas na história americana. Strong evidencia no segundo ato a batalha pela igualdade entre os negros, porém com impacto anestesiado pela desnecessária utilização de subtramas, como a possível infidelidade da esposa de Cecil (Forest Whitaker), o homem de origem humilde que viria a trabalhar como mordomo de vários presidentes americanos, de Dwight Eisenhower (Robin Williams visivelmente desconfortável) a Ronald Reagan (Alan Rickman). É como se os realizadores não acreditassem no potencial da trama, apelando então para desgastados truques de manipulação emocional. 

Uma cena em especial transparece esse sutil preconceito, quando a personagem de Oprah Winfrey estapeia seu filho, após saber que ele havia entrado para o movimento “Black Power” e havia criticado seu pai (Whitaker) por ser um mordomo. A cena (sutil homenagem ao clássico “No Calor da Noite”) nos conduz a vibrar por sua atitude. A resistência armada feita pelos brancos é nobre e historicamente valorizada, enquanto qualquer imagem dos negros, que não seja uma resistência pacífica e subserviente, imediatamente é algo a ser duramente repudiado.

Fica claro que um dos lados recebe um olhar mais terno e condescendente. O filme oferece a história desta “guerra”, como é usual, pelo ponto de vista dos vencedores. Negros sendo salvos por brancos, mas continuando em funções servis. Cecil nunca contribui com ideias, apenas assiste os acontecimentos. Existem muitos negros cientistas, médicos e professores, com histórias de vida maravilhosas, mas que nenhum produtor de Hollywood se interessa em contar. Qual será a razão? 

A cultura da massificação ordinária

Nossa sociedade já foi mais inteligente. Ou na realidade seria esta afirmação mais um caso clássico em que a nostalgia, que possui o poder de embelezar tudo o que toca, remove todas as más recordações, deixando a impressão de que estamos sempre vivendo em épocas menos interessantes que a de nossos antepassados?

Não estaria nossa ignorância apenas tendo maior visibilidade, graças às redes sociais e a possibilidade, profetizada por Andy Warhol, de todos terem direito a seus quinze minutos de fama? Tenho pensado bastante nessa questão, analisando o histórico de nossa Arte, em especial a cinematográfica, e acredito ter chegado finalmente a uma conclusão satisfatória: nosso real problema não é puramente intelectual, mas também físico, com a maldita preguiça. O comodismo está destruindo nossa sociedade. Para que estimularmos nossa imaginação, adentrando no mundo proposto pelo cineasta, chegando a sentir até os odores, já que podemos simplesmente colocar um desconfortável óculos e ter a sensação fajuta de imersão com o 3D? Percebam como esse artifício está crescendo em popularidade.

Décadas atrás uma pessoa poderia passar dias tentando descobrir, por intermédio de conversas com vizinhos e ligações para aqueles familiares mais refinados, o nome de um filme antigo ou o sobrenome obscuro de algum artista famoso. Nunca me esqueço da mãe de um amigo meu, voltando da rua com “meio palmo de língua para fora”, frustrada de uma cansativa ida à biblioteca onde tentava encontrar um livro “x”, que poderia ajudar a encontrar uma informação “y” sobre um assunto, sei lá, “b”. Hoje em dia, bastaria ligar o computador e conseguir a informação em menos de dois minutos. Mas aí entra o problema: temos a ferramenta, mas não existe mais o interesse. Exatamente no momento mais maravilhosamente excitante de nossa jornada na Terra, quando as facilidades tecnológicas aproximaram continentes e homens, esses seres curiosos perderam completamente o interesse em aprender qualquer coisa. Senhoras se limitam a passar seus dias compartilhando nas redes sociais fotos de bichinhos fofos e notícias falsas, enquanto jovens divertem-se passando adiante correntes bobas e aprimorando uma técnica que consiste em escrever propositalmente errado, usando a desculpa de que é um artifício facilitador na comunicação pela internet. Não leem livros porque falta tempo, o que é compreensível já que passam dias inteiros enviando indiretas no Facebook ou narrando a conhecidos e completos estranhos, pelo Twitter, episódios tolos do seu cotidiano. A mesma ferramenta pode entregar, gastando os mesmos poucos segundos, uma obra literária ou um aplicativo bobo, que você nem lembrará que usou daqui a algumas semanas. Essa é a maior ironia de nosso tempo.

A desgraçada preguiça pode ser sentida também nos filmes de terror, em que toda a criação elaborada de clima, estabelecendo os propósitos dos personagens e seus conflitos, esquecidos em prol do imediatismo mastigado dos efeitos, os sustos, esquecendo-se das causas. Qual o intuito de ler trezentas páginas de uma obra da Agatha Christie, já que podemos abrir logo no último capítulo e descobrir o assassino? Qual a razão de exercitarmos nosso lado “arqueólogo”, descobrindo com prazer livros interessantes em sebos, já que podemos posar momentaneamente como intelectuais para nossos amigos, dizendo que estamos lendo a biografia do Steve Jobs, ou qualquer outro “livro da moda”, mesmo que nunca tenhamos tido nenhum interesse na vida do biografado ou em seu ofício antes de sua morte?

A sociedade dá valor aos TT´s no Twitter, sem se importar que eles normalmente envolvam temas completamente irrelevantes. A cultura da massificação ordinária infelizmente sobrepujou a elegância do refinamento pessoal. Os “quinze minutos de fama” de um vídeo de dez segundos onde um garoto mostra seu mamilo recebe enorme atenção e repercute internacionalmente, enquanto vídeos sérios que tratam de temas importantes são esnobados. A Sétima Arte reflete nossa sociedade com incrível perfeição. Caso olhemos atentamente o panorama atual desta Arte, perceberemos nossas recônditas fragilidades em cada problema que salientamos. A celebração exagerada do 3D, a péssima qualidade dos recentes filmes de terror, a falta de ousadia dos roteiristas, entre muitos outros. O espelho reflete apenas o que se põe à sua frente, portanto sejamos mais criteriosos e respeitemos nossa curta jornada nesta aventura fantástica e misteriosa chamada: Vida.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ingmar Bergman - "O Rito"


O Rito (Riten – 1969)
Acusados de encenar uma peça obscena, três atores são interrogados por um juiz. Durante e entre os interrogatórios, os segredos mais íntimos de todos são revelados.


Essa produção feita para a televisão representa Ingmar Bergman em seu momento pessoal mais conturbado, existencialmente inseguro com as duras críticas negativas sobre suas peças, questionando a relevância de seus esforços no cinema e do teatro. “O Rito” é a resposta visceral para a pergunta mais terrível que pode atormentar um cineasta: o cinema, como linguagem, realmente possui valor? Na tentativa de encontrar a resposta, ele se divide em três personas, artistas de comportamentos radicalmente diferentes, mas que estão sendo analisados como micróbios sem valor em um microscópio. A primeira cena já mostra a figura do interrogador (Erik Hell), um homem que não entende absolutamente nada sobre a função daqueles que pretende censurar, empunhando uma lupa.

Hans (Gunnar Bjornstrand) é a faceta dócil, organizada e disciplinada do diretor, enquanto Sebastian (Anders Ek) é a sua insegurança infantil, o desequilíbrio emocional. O poético é perceber como, em suas metáforas por vezes herméticas, o roteiro defende que o artista maduro no comando conscientemente entenda que, por mais imprevisível e perturbado que seja seu lado “Sebastian”, nasce exatamente dele o seu impulso criativo. E Thea (Ingrid Thulin) simboliza os seus medos intuitivos, aquela pequena parte dentro de todos nós que busca se agarrar a qualquer muleta ideológica, por mais absurda e irracional que seja, contanto que traga uma paz momentânea. Ela é uma esponja emocional e busca a piedade dos outros, sente prazer em ser submissa, como é retratado na cena em que somos levados a crer que o interrogador está tentando cometer um estupro, quando na realidade a câmera nos mostra a jovem retirando tranquilamente sua calcinha, contrastando com os berros angustiados que escutamos. Bergman é a união lúdica desses três personagens, esse atrito constante de emoções tão antagônicas.

O ritual exposto como parábola no filme representa uma crença do diretor, uma forma de enxergar a Arte como um rito de cura, algo quase mágico/religioso, uma troca pungente entre o artista e o público/sociedade. O elemento dissonante nessa relação é representado pelo personagem do censor, um homem hipócrita demais e sem coragem alguma para cogitar participar desse ritual. Ele enxerga sua mediocridade na entrega sincera dos artistas, exatamente por isso deseja humilhá-los, posar com eles nas manchetes dos jornais, como o responsável pelo descrédito de suas funções. A faceta “Sebastian” em Bergman reconhece essa real intenção, tendo a impulsividade inconsequente de afirmar sua repulsa perante o homem, enquanto seu lado “Hans”, exímio na arte do “jogo de cintura”, em outro momento procura a saída mais fácil do suborno. O roteiro nos mostra o que acontece quando escolhemos o caminho interno mais fácil, contrariando nosso caráter, quando o censor faz Hans assinar um cheque, somente para rasgá-lo em sua cara, com a câmera mostrando em detalhe o sorriso malicioso pela momentânea vitória.

sábado, 21 de junho de 2014

Cine Samurai - "Yojimbo"

Link para os textos do especial:


Yojimbo (Yôjinbô - 1961)
Toshiro Mifune é Sanjuro, um ronin que chega numa cidadezinha a procura de emprego. O lugar é palco de uma guerra entre dois mercadores rivais, o samurai então se oferece aos dois para prestar serviços nada leais.


Akira Kurosawa buscou inspiração nos faroestes americanos e no livro “Seara Vermelha”, que Dashiell Hammett escreveu em 1929, carregando as artimanhas do detetive para o cenário do Japão na iminência da Restauração Meiji, transformando-o em um ronin com sérios problemas com piolhos, elemento que Toshiro Mifune trouxe para o personagem, fazendo seu constante balançar de ombros uma marca registrada. É interessante perceber o conflito modernidade/tradição, característica essencial em muitos faroestes, sendo representado pelo personagem Unosuke (vivido por Tatsuya Nakadai), sempre acompanhado de seu revólver.

A obra, além de ter servido de inspiração para Sergio Leone em “Por Um Punhado de Dólares”, foi também bastante representativa dentro de seu próprio gênero, estabelecendo com seu anti-herói atormentado, cínico e irreverente uma fórmula vencedora para os chambara subsequentes. Ao revê-la, constatei que talvez seja a mais acessível do diretor, mérito dos eficientes alívios cômicos e da narrativa objetiva, ágil e empolgante. Outro aspecto que considero válido salientar é a excepcional trilha sonora subversiva de Masaru Sato, um mestre que acompanhou Kurosawa desde “Trono Manchado de Sangue” e também trabalhou com o diretor Kihachi Okamoto (em “A Espada da Maldição”). Esse pouco reconhecido talento teve como mentor o grande Fumio Hayasaka, compositor de “Rashomon” e “Os Sete Samurais”. Com ousadia, Sato misturou influências europeias e jazzísticas americanas às tradições asiáticas, ajudando a moldar sonoramente o gênero, além de ter sido clara inspiração para o celebrado trabalho de Ennio Morricone nos Westerns Spaghetti.

Sanjuro decide seu destino jogando um graveto para o alto, seguindo a direção que o vento escolheu apontar. Aquela cidade esquecida pelo tempo, onde é recebido por um cão carregando uma mão humana na boca, parece sobrenatural, uma sensação que é reforçada pela trilha sonora. O único indivíduo que prospera naquele ambiente é o responsável pela construção dos caixões. Como moldura, a fotografia do sempre competente Kazuo Miyagawa, repetindo a parceria estabelecida em “Rashomon”. O protagonista age então como um anjo da morte no inferno, decidido a limpar aquele local de toda a corrupção.

*O filme está sendo lançado pela distribuidora Versátil, em versão recentemente restaurada com um ótimo documentário, num belo digistack que inclui a sequência do filme: “Sanjuro”.