domingo, 5 de janeiro de 2014

A Violência em Filmes e Jogos Influencia a Violência na Vida Real?

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)

A sociedade caminha para um futuro de incertezas e violência. Basta ligarmos a TV para que percamos a esperança, se não são nossos jovens admirando produtos de pouca ou nenhuma qualidade, são os crimes e assassinatos horrendos. Há aqueles que colocam a culpa na violência exibida em filmes e jogos. A violência é inerente ao ser humano, canalizada serve a propósitos maiores, porém se aliada a uma total ausência de cultura, torna-se uma arma letal.

Em “Taxi Driver” de Martin Scorsese, podemos testemunhar a degradação mental do personagem de Robert De Niro, cada vez mais inconsequente em sua jornada. Insatisfeito com os rumos da sociedade, a qual ele vê como totalmente corrupta e vendida, decide fazer justiça com as próprias mãos e salvar ao menos uma alma, a da jovem prostituta, vivida por Jodie Foster. Em “Laranja Mecânica”, Stanley Kubrick nos apresenta um futuro composto de jovens descontrolados em sua fúria. Seu líder é apaixonado pela Nona Sinfonia de Beethoven (ideia genial do escritor Anthony Burgess), o que é extremamente contraditório com sua conduta. Após o seu tratamento torna-se incapaz de realizar qualquer ato violento, nem mesmo em defesa própria, assim como escutar sua composição favorita. No ótimo “A Outra História Americana”, temos o exemplo de um jovem (Edward Norton) que integra um grupo de neonazistas, preso após matar dois negros. Os preconceitos alimentados por sua família extremamente racista o transformaram ao longo dos anos em um sociopata. O racismo nada mais é que a ignorância cultural elevada à “enésima” potência. Um exímio matemático pode se tornar um psicopata. A violência atinge qualquer classe social. Mas nunca conheci um filósofo que tenha assassinado alguém. Acredito que quanto mais cultura geral uma pessoa tenha, mais difíceis são as chances dela cometer algum ato de violência extrema.

Hitler queimava livros. Os que faziam parte de sua biblioteca pessoal (Nietzsche e Schopenhauer) ele deve ter lido superficialmente, interessando-se apenas pela instrumentalização da filosofia. A cineasta alemã Leni Riefenstahl chegou a citar ter escutado do próprio ditador, que ele não conseguia entender as propostas de Nietzsche. Traduzindo em miúdos: ele era um estúpido que tentava passar uma imagem intelectualmente superior. Ousando utilizar a psico-história criada por Isaac Asimov em sua “Trilogia da Fundação”, baseando-me pela sociedade que vejo hoje, com os jovens que mundialmente consomem porcaria audiovisual e afastam-se cada vez mais dos livros (isso sem falar no avanço impressionante das manipuladoras religiões com contas bancárias no exterior), podemos esperar um futuro pleno em avanços tecnológicos e sem alma. Analogamente, tal qual um jogador de futebol de origem humilde, que de uma hora para a outra aumenta consideravelmente sua conta bancária, apenas para ostentar com brinquedos caros e relógios de ouro. Necessitamos de um futuro em que esses jogadores, ao receber estes salários altíssimos, percebam a oportunidade de crescer como seres humanos, adquirir cultura.

Do jeito que a coisa anda, o futuro é mais uma crônica de uma tragédia anunciada. E ainda me aparecem psicólogos oportunistas na televisão colocando a culpa da violência atual nos filmes e jogos. A culpa real pesa nos ombros dos pais que ensinam aos filhos pequenos, que se o coleguinha é de um time contrário ao dele, deve ser motivo de deboche. Naqueles que não instigam pelo exemplo o prazer pela leitura e pela busca de conhecimento. No pai que agride a mãe, física ou verbalmente, na frente do filho. Assistem “CQC” e se consideram politizados; leem psicografias e se consideram espiritualizados; fazem o sinal da cruz e se consideram religiosos; citam frases populares de filósofos cujos livros nunca leram e se consideram cultos. Divulgam nas redes sociais vídeos de danças bizarras, músicas de mau gosto e pessoas escorregando em cascas de banana, enquanto largam na obscuridade trabalhos belos (que por vezes são resultado do suor de equipes criativas e dedicadas). Salientam o grotesco e reclamam da ausência do que é belo. Esses são os seres humanos, sempre dispostos a se engajarem em causas nobres (quando em lugares públicos, onde isso possa lhes trazer notoriedade), porém incapazes de perdoar aquele motorista que sem querer lhes corta na estrada ou ajudar uma idosa a atravessar a rua.

O mundo seria melhor se o pai ao invés de presentear o filho com uma camiseta de time de futebol, desse a ele um livro. Ao invés de jogar a responsabilidade total nos ombros das escolas, sentasse com seu filho pré-adolescente e fizesse um festival de cinema em casa (como relatado no ótimo livro biográfico: “O Clube do Filme” de David Gilmour). Por intermédio da Sétima Arte e com a ajuda do pai, o jovem aprenderia sobre a história do mundo. Com “Patton – Rebelde ou Herói”, “O Mais Longo dos Dias” e “O Resgate do Soldado Ryan”, aprenderia sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo após, veria as consequências da bestialidade humana em “O Pianista” e “A Lista de Schindler”. A riqueza cultural advinda de simples tardes valeria por anos de estudos universitários. A Sétima Arte é uma ferramenta cultural importantíssima. Caso quiserem respostas para o nível de violência que se alastra sem limites aparentes, olhem-se no espelho.

Nunca me esqueço do que ocorreu no evento paulista “virada cultural”, onde os organizadores convidaram José Mojica Marins para se apresentar como “Zé do Caixão” e abrir o show da banda de punk rock: Misfits. O cineasta de 75 anos foi colocado em um caixão preso a um guindaste, para das alturas poder se apresentar ao público e conduzir seu trabalho. Além dos vários xingamentos proferidos, os vândalos presentes acabaram jogando garrafas no cineasta, que lá de cima pedia desesperado aos organizadores que contivessem o público, inclusive informando que estava machucado e que um dos objetos quase o havia cegado. Revoltante assistir esta demonstração de violência gratuita com um senhor de idade avançada e que representa tanto para o cinema nacional. Mas o que mais me revoltou foi perceber que não existia o menor sinal de arrependimento nesses jovens, que ainda se vangloriaram depois no Twitter (recebendo a aprovação de outros marginais). Um recado para os pais irresponsáveis: tomem cuidado com os monstros que estão criando.

Enganam-se aqueles “politizados” que acreditam estar em uma decisão eleitoral o futuro da nação. Pouco importa quem ganhe, se o povo continuar preguiçoso e promovendo os maus exemplos. Hoje em dia não tem mais o falso glamour de grupos de “esquerda”, “direita”, pois todos roubam da mesma forma. Nenhum candidato irá cumprir nem 2% das coisas que prometem, já que o mais importante ato político não é utilizado. Política não é decidir votar em “X” ou “Y”, política é discutir assuntos que tem que ser discutidos, questionar crenças (sem medo de perder votos), tentar realmente modificar o ambiente em que habita e torcer para que seu exemplo insira em outros o desejo de fazer o mesmo. Isto sim, em longo prazo, pode trazer reais resultados. Existem pessoas de caráter e boas intenções, mas que ao serem inseridas no sistema político, visualizam duas opções: a "prostituição" ética ou continuarem lutando até serem “apagadas”, como queima de arquivo. Como o xerife Will Kane do faroeste “Matar ou Morrer”, sozinho em uma cidade de medrosos que lhe viraram as costas. São as pequenas decisões que nos tornam exemplos. Beber socialmente ou beber até cair, sorrir para os outros ou franzir a testa, dar valor à cultura ou celebrar a mediocridade. Se todos tentarmos agir assim, os políticos (e o sistema político como um todo) terão que se adequar a nós.

Correu o mundo na época, em todas as manchetes de jornais. Um jovem entrou fortemente armado em uma sessão do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, promovendo uma chacina que tirou a vida de doze pessoas e deixou várias outras gravemente feridas. A mídia sensacionalista aproveitou a oportunidade e debateu sobre a possível relação entre este atentado terrorista e a violência no próprio filme (assim como fizeram à época, em um caso similar com “Clube da Luta”), questionando se deveria haver um limite no que pode ser mostrado em filmes e jogos eletrônicos.

A violência é inerente ao ser humano, um impulso primitivo que reside no inconsciente de cada um (até mesmo um notório pacifista como Gandhi), precisando ser disciplinada, nunca reprimida. A repressão utópica leva apenas ao descontrole emocional, que aliado a alguns fatores (como educação e cultura) pode agir como uma bomba-relógio pronta para explodir a qualquer momento. Freud acreditava que todos nós possuímos uma dupla personalidade, uma constante batalha entre o nosso inconsciente (id) e a consciência (superego) moral (que pode ou não, ser moldada pela crença em algo), onde o resultado mais satisfatório é sempre a coexistência harmônica, nunca a supressão de um pelo outro. Trocando em miúdos, trata-se do clássico caso do homem que nunca caminhou descalço e mostra-se incapaz de cruzar um deserto. Uma sociedade ascética, onde somente livros, jogos eletrônicos e filmes que inspirem paz e conforto são aceitáveis, não produziria menos assassinos que uma sociedade que aja de forma radicalmente contrária. Precisamos adentrar no cerne da questão, da forma mais objetiva possível: Quais os malefícios da violência mal disciplinada? Como um jovem de vinte e quatro anos pode entrar em uma loja e legalmente sair com um arsenal (incluindo colete à prova de balas, um fuzil AR-15, uma escopeta calibre 12, duas pistolas calibre 40 e 6.000 balas de munição), sem porte de arma? Questões que não são tão instigantes politicamente quanto reverberar a afirmação feita pelo jovem, de que ele era o “Coringa”. Ele poderia ter ido mais a fundo e afirmado ser também “Travis Bickle” (personagem de Robert De Niro em “Taxi Driver”), “Alex DeLarge” (Malcom McDowell em “Laranja Mecânica”), “Harry Calahan” (Clint Eastwood em “Dirty Harry”), “Tony Montana” (Al Pacino em “Scarface”) e qualquer outro personagem violento cuja história já foi contada pela Sétima Arte. Como se esquecer dos personagens que nasceram do universo literário, do gato “Tom” (da animação infantil “Tom e Jerry”) e de cada soldado que já participou de alguma guerra no mundo? O obrigatório dever militar reservado ao imaturo adolescente que acaba de completar dezoito anos, não seria um incentivo à violência? Seria utópico imaginar uma sociedade em que jovens de dezoito anos adentrassem obrigatoriamente em um liceu que abrangesse filosofia e psicologia? Ensinamentos que formariam homens de forma mais recompensadora que um simplório treinamento que os leva a rastejar na lama e aceitar berros de superiores (designação concedida por medalhas de latão), ao invés do estímulo diário à técnica da argumentação.

A realidade é que o cinema, a literatura e os jogos eletrônicos são necessárias fontes de escapismo. Os pais que criam seus filhos afastando-os de filmes e jogos violentos estão realizando um desserviço em longo prazo. Eles se tornarão no futuro pessoas medrosas, dependentes e incapazes de suportar as frustrações inerentes ao ato diário de viver. Adultos emocionalmente frágeis, com possível conduta antissocial (como o recluso jovem abordado neste texto) e propensão a vícios, sempre buscando fugir das responsabilidades naturais de uma mente madura. A mitologia grega era intrinsecamente violenta (leia “Ilíada” de Homero, por exemplo), assim como a mitologia nórdica, egípcia, aborígene, védica, o antigo testamento cristão e obviamente a mitologia moderna formada pela Nona Arte (os heróis das revistas em quadrinhos). Impossível desassociar o instinto violento do ser humano, assim como ignorar sua importância (quando disciplinado) no progresso do mesmo. Precisamos parar de culpar o “carteiro” pelo conteúdo da “carta”.

Finalizo respondendo a pergunta feita no título com um sonoro: “NÃO”! Muito pelo contrário, eu torço para que a violência (leve ou excessiva) tenha sempre espaço nas narrativas literárias, cinematográficas e nos enredos dos jogos eletrônicos, pois esta cômoda forma de negar a responsabilidade (educação familiar, estabelecendo condutas íntegras e éticas) na vida real, colocando a culpa no escapismo, não somente dificulta o entendimento da simples diferença entre eles, como também forma uma sociedade covarde e incapaz de se defender.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

TOP - 2013


1 - A Caça (Jagten), de Thomas Vinterberg
“... Escolhendo revisitar o tema de seu primeiro filme: "Festa de Família", mas sem a estética crua, Vinterberg abraça o potencial emocional de um protagonista cuja inocência nos é apresentada de início. A bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen auxilia ao emoldurar o cair das folhas de outono (inclusive como metáfora, simbolizando o crepúsculo de um homem oprimido), sendo complementada pela excelente interpretação de Mads Mikkelsen, que foge de sua zona de conforto, oferecendo um retrato humano e passional. O diretor nunca apela para o óbvio, enaltecendo mártires e pintando com tintas fortes os vilões, pois prefere mostrar todos como seres humanos falíveis e propensos a escolhas erradas. O leitmotiv da confiança é explorado até o brilhante desfecho, onde o roteiro ainda inclui uma poderosa crítica social e religiosa. O simples benefício da dúvida já seria o suficiente para auxiliar no processo angustiante em que o protagonista se vê vitimado, mas a mensagem que o filme aborda é cruel em sua veracidade: a sociedade (desde o início dos tempos) sempre está propensa ao apedrejamento coletivo, algo que requer menos argumentação que a árdua tarefa de tentar enxergar a flor no lodo...”. 


2 - Amor (Amour), de Michael Haneke
“... O ato de desaparecer, minguar sereno em direção ao grande desconhecido, sentindo cada vez mais pesada a luz cálida do amanhecer, por sabê-la representar a incontestável evidência de que mais uma noite terminou. Como se preparar para exercitar este desapego pessoal? Aquela complexa máquina que sempre agia em harmonia com seus desejos, quando menos se espera, começa a desaprender dia após dia um antigo hábito. A inefável sensação de impotência perante as coisas mais simples, como afugentar um pombo que adentra por uma janela, torna as noites cada vez mais bucólicas. Até o momento em que você não distingue mais a noite do dia, o real do imaginário, sobrando apenas o amor. Quando não se distingue mais o amor da indiferença, Haneke direciona seus personagens para uma conclusão inesquecível, o supremo ato de quem verdadeiramente ama: desapegar...”.


3 - Gravidade (Gravity), de Alfonso Cuarón
“... Alfonso Cuarón é um dos melhores diretores da atualidade, conseguindo criar uma trama minimalista em um projeto de gênero e essencialmente industrial, unindo ousadia técnica (mérito da fotografia de Emmanuel Lubezki e dos efeitos especiais de Timothy Webber) com grande senso de ritmo. Uma das poucas obras atuais que são feitas imprescindivelmente para a experiência na sala de cinema, já que sua dimensão e a consequente imersão no cenário são prejudicadas em uma tela pequena. O roteiro acerta ao deixar claro que o protagonista é o vazio do espaço sideral (assim como o deserto em “O Deserto dos Tártaros”, de Zurlini), ainda que Sandra Bullock entregue uma interpretação verossímil, provavelmente a melhor de sua carreira. O suspense faz grudar nossos olhos na tela, mas é o subtexto de solidão e sacrifício que se manterá na lembrança, dias após a sessão...”.   


4 - Django Livre (Django Unchained), de Quentin Tarantino
“... Tarantino é um apaixonado pela arte. Como todo apaixonado, ele acumula em sua memória afetiva cinematográfica, inúmeras referências de diversos gêneros e épocas. Seus filmes resultam da união jazzística de várias emoções que marcaram sua infância e juventude, sem interesse pela opinião dos profissionais que analisam friamente. Esta é a melhor forma de entender o trabalho do diretor e analisá-lo: afinar seu clarinete e buscar acompanhá-lo em sua divertida blowing session, valendo-se apenas de seu instinto. O estofo cultural (não somente cinematográfico) que o diretor utiliza em suas referências, desde a utilização da lenda alemã “O Anel dos Nibelungos” (de onde se retira o nome da jovem vivida por Kerry Washington) até quando cita a pouco comentada ascendência negra do escritor Alexandre Dumas (de “O Conde de Monte Cristo”), como ferramenta de discurso de um personagem ao combater o racismo de outro, demonstram um zelo raro em seu ofício...”.


5 - Antes da Meia-Noite (Before Midnight), de Richard Linklater
“... A opção de emoldurá-los na Grécia, com suas ruínas e histórico teatral, não poderia ser mais ideologicamente coerente. Enquanto os dois primeiros lidavam com o jogo de flerte e o romantismo idealizado da juventude, neste ocorre o choque de realidade tão poucas vezes abordado pela indústria (mais interessada em acordes de violino que incitem lágrimas), com os personagens propondo uma discussão racional e anti-romântica sobre o desgaste emocional nas relações humanas. O que o público recebe é tão corajoso, que me remeteu a alguns trabalhos no tema realizados por Ingmar Bergman. Aqueles diálogos divertidos, onde um tentava sutilmente impressionar o outro, são substituídos por uma argumentação séria e profunda (extremamente bem escrita). O tempo, elemento essencial nos filmes anteriores, continua atuando contra os personagens, porém (numa inversão sensacional) desta vez dando-lhes total liberdade. Você se surpreende em dados momentos, por perceber que aquele relacionamento cinematográfico que você sonhava que ocorresse após o fade out, acabou se tornando um realista espelho de nossas fragilidades. Como um conto de fadas que se torna assustadoramente real...”.


6 - Os Suspeitos (Prisoners), de Denis Villeneuve
“... O diretor escolhe deixar bastante claro nos primeiros três minutos, o leitmotiv (a eficiência de sua execução é mérito do roteiro preciso de Aaron Guzikowski) que irá reger a exploração moral dos personagens que são colocados no limite. Todos, de certa forma, são prisioneiros (poderiam ter mantido o título original) de um código de conduta que será colocado à prova. Iniciando com a oração do Pai Nosso emoldurando o abate de um cervo, seguido pela utilização da canção gospel “Put your hand in the hand” na trilha sonora e finalizando ao apresentar a personagem da mãe e da filha, através do vidro embaçado do carro, focando no crucifixo que se balança no retrovisor. Estamos diante de uma fábula que instiga profundos questionamentos morais, ainda que exista ação suficiente nele para entreter os menos interessados. Existe um pouco de “Sobre Meninos e Lobos” e muito de “Seven”, mas a longa duração pode entediar aqueles que irão assistir pensando se tratar de um “primo elegante” de “Busca Implacável”. O filme vai além do que as estruturas limitantes do gênero costumam suportar. Quão longe nós seríamos capazes de ir, contra nossas crenças?...”.


7 - O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
“... Sem o interesse simplório de buscar chocar o público, o roteiro (escrito pelo diretor) aborda os contrastes sociais e humanos em núcleos de personagens muito bem definidos, com o inteligente suporte do som (mérito de Pablo Lamar, num conceito já estabelecido no primeiro plano-sequência em um parque), ferramenta normalmente subutilizada em nosso cinema. Outro problema comum que não encontramos no projeto é o desnível nas atuações. Todos (protagonistas e coadjuvantes, mas vale ressaltar a competência de Irandhir Santos e Gustavo Jahn) na mesma sintonia, como se utilizassem o mesmo método, facilitando assim a imersão do público, que acredita em cada frase dita. A estrutura de divisão em três atos não fragmenta, mas sim enriquece o discurso de Kleber, conduzindo para um desfecho que satisfaz e respeita o investimento emocional e racional do espectador...”.


8 - Blue Jasmine, de Woody Allen
“... Desde Hannah e Suas Irmãs, Woody Allen não compunha uma personagem feminina com tamanha paixão pelos detalhes, sem abraçar a sempre confortável caricatura de extremos. Completamente antenado com o mundo de hoje, o roteiro estabelece uma jovial e mordaz sátira social abordando distinção de classes em um panorama pós-crise econômica. Allen abdica conscientemente de algumas de suas características narrativas, como sua entrega ao sentimentalismo, em prol de uma construção de diálogos mais corajosos, que não poupam seus personagens em nenhum momento. A generosidade com suas criações nunca foi o forte do diretor, mas o sadismo ideológico dessa vez se assemelha em vários momentos à forma como o escritor Tennessee Williams escolhia abordar suas tramas. Existe algo de R.W. Fassbinder, na forma como ele dedilha a tragédia da protagonista. Ele brinca com as nossas percepções no momento em que começamos a nos convencer de como o seu personagem irá agir, o que nos leva a automaticamente exercer um julgamento moral. O roteiro então nos acerta um murro “com luva de pelica”, ao nos fazer perceber que somos tão (ou mais) vulneráveis quanto o potencial alvo de nossas pedras. Afinal, testemunhamos as várias “Jasmines” que existem em nossa sociedade, aspirando apenas o “ter” (agregar valor à futilidade), vivendo de uma ilusão lânguida que corrompe as melhores virtudes humanas...”.


9 - Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle), de Abdellatif Kechiche
“... Diferente de Emma, que é uma artista independente que se nutre da liberdade para a realização de seu trabalho, Adèle é uma simples menina tímida e reprimida por uma sociedade machista, com objetivos de vida inofensivos e que não necessitam do elemento da ousadia. O atrito sexual desses dois polos tão díspares resulta em uma fascinante explosão de cumplicidade, com corpos que se exploram vorazmente, analisada pela câmera voyeur com interesse antropológico. E o relacionamento transcorre de maneira realística, sem se esquivar dos problemas que ocorrem em qualquer relação de intimidade, evitando um erro cometido em vários projetos de temática similar, onde promovem a celebração do amor homossexual como algo melhor (uma vertente do que Spike Lee faz com relação aos negros, por exemplo, lutando pela exaltação da diferença ao invés da homogeneização). Inserindo na discussão o conceito existencialista de Jean-Paul Sartre, o objetivo principal dessa excelente obra fica claro: apontar a hipocrisia que leva o público a se chocar com as cenas de amor, enquanto se mostram indiferentes à brutal estupidez da homofobia...”.


10 - Invocação do Mal (The Conjuring), de James Wan
"... Com uma classificação etária que afirma ser um produto amedrontador demais para os adolescentes, mesmo sem nenhum elemento de horror explícito, os produtores ganharam um presente. Não existe melhor chamariz para um adolescente, que querer impedi-lo de assistir algo. O mais interessante é que não se trata de pura jogada de marketing, já que o resultado final é realmente tenso na imersão que provoca. O diretor executa sua arte à moda antiga, mas com convicção poucas vezes igualada nos similares recentes. Sem apelar para o “gore” excessivo, ele cria cenas que arrepiam os pelos na nuca do cinéfilo acostumado com o gênero. A fotografia de John R. Leonetti induz você a encarar a escuridão de um ambiente pelo tempo suficiente de, mesmo sabendo o que está por vir, desejar não estar com os olhos abertos para ver. Numa época em que o terror está nas mãos incompetentes de industriais que abusam de CGI e com pouca criatividade, esse projeto satisfaz pela simplicidade em sua condução...”.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Sétima Arte em Cenas - "Último Tango em Paris"


Último Tango em Paris (Last Tango in Paris – 1972)
Muita gente se lembra dele por causa de suas cenas de sexo, alguns chegam a classificá-lo erroneamente como um filme erótico e até pornográfico. Quem assiste procurando satisfazer estas necessidades irá terminar frustrado, pois a obra de Bernardo Bertolucci é um estudo psicológico sobre a mortalidade, a necessidade humana de se apegar a crenças e o relacionamento.

A esposa do personagem de Marlon Brando acabou de se suicidar, deixando-o completamente desorientado e amargurado. Subitamente sua vida parece ter perdido o sentido, ele passa a rondar pelas ruas frias de Paris procurando se isolar do mundo. A personagem de Maria Schneider também ronda a cidade, procurando um sentido em sua existência. Seu noivo, vivido por Jean-Pierre Léaud (eterno “Antoine Doinel”, de Truffaut), um narcisista fútil que representa um mundo politicamente correto. Num toque de gênio, o roteiro torna-o um cineasta que persegue sua noiva pela cidade, acompanhado de suas câmeras, como se a filmasse para um projeto que está preparando. Vejo isso como um simbolismo perfeito. Todos os beijos do casal são pensados para o melhor posicionamento da câmera, assim como todos os diálogos e declarações de amor se mostram calculados, artificiais. Com o casal Jean-Pierre e Maria, Bertolucci quis representar o falso amor, aquele que é propagado aos quatro ventos, mas não é sentido em sua essência. Sentimento de “fachada”, onde ambos posam para o deleite da sociedade.

Brando e Maria representam o outro extremo de um relacionamento, aquele no qual ambos procuram formas de se completarem. As tão faladas cenas de sexo, em especial a que se utiliza da manteiga, existem por um motivo. A intenção não é somente chocar o público, mas sim encaminhá-lo para uma catarse emocional que acontece próximo do desfecho. Nessa relação não existe amor. Brando insiste em não revelar seus nomes um ao outro, nem mesmo suas histórias de vida. O sexo entre eles é um ritual de purificação espiritual, onde caminham a passos rápidos em direção ao inferno, para só então vislumbrarem um tipo de céu. Isso fica claro no terceiro ato, quando sua relação intensifica e ambos flertam com radicalismos. Paul busca encontrar naquela desconhecida a negação de qualquer sentimento, qualquer noção de moralidade, expondo a falsa pudicícia da jovem. Jeanne deixa claro ao final, quando encara a realidade de um questionamento externo sobre seus atos, sua regressão psicológica ao confortável estado de vítima (“eu não o conheço, ele me estuprou...”), algo essencial para que ela consiga se “domar” e aceitar o ritual do casamento com seu noivo.

Minha cena favorita no filme ocorre num salão de dança, quando um Paul totalmente vulnerável convida a desconfortável jovem, com quem por semanas havia mantido uma relação tórrida (agora, incrivelmente sem "química"), para um trôpego tango. Sem o elemento do mistério, ela já percebe em seu parceiro bêbado sua calvície, as rugas nos olhos e os quilos a mais. É uma situação essencialmente trágica, como todo tango deve emoldurar. Os competidores e seus passos perfeitamente calculados são a hipócrita sociedade, enquanto Paul e Jeanne debocham descaradamente de todo aquele ritual, conduzindo os jurados ao pânico.

Bertolucci utiliza os encontros do casal no velho apartamento vazio como uma analogia ao processo de desmistificação do amor. Trazendo-o para seus elementos mais primários e bestiais, desvincula-o de todos os tabus referentes à idolatria, orgulho e religiosidade. Um filme denso e imperfeito como a vida. Você pode encará-la ou virar o rosto em repúdio, mas nunca negar sua pungente existência.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Professores, os Heróis da Vida Real


A questão veio à tona eficientemente em “Kick-Ass”, aclamada minissérie em quadrinhos de Mark Millar (depois transposta ao cinema), onde um jovem se questiona a razão de tantas adolescentes sonharem em ser Paris Hilton e ninguém almejar ser o “Homem-Aranha”. Por trás de uma ideia aparentemente superficial esconde-se um conceito incrivelmente rico, expondo uma enorme lacuna em uma sociedade cada vez mais violenta e fria. Existe espaço na vida real para heróis como o advogado Atticus Finch, vivido por Gregory Peck no clássico “O Sol é para Todos” (To Kill a Mockingbird – 1962)? Pessoas que se coloquem na linha de frente para defender desconhecidos, simplesmente por acharem justo e ético? Podem existir homens como Rick Blaine, eternizado por Humphrey Bogart em “Casablanca”, que são altruísticos ao ponto de deixarem a mulher que amam partir com outro, apenas para protegê-la? Deixarem a amargura de lado por algo maior, colocando suas próprias vidas em risco? Os verdadeiros heróis decidem lutar até o fim, mesmo reconhecendo as próprias limitações, como o pugilista Rocky Balboa. Ao final da luta, não interessava se ele havia se sagrado vencedor, empatado ou perdido, pois a maior vitória ele já havia conquistado: a confiança em si mesmo e o amor da mulher de sua vida. 

Na nossa sociedade corrupta devem existir policiais como Harry Callahan, também conhecido como “Dirty Harry” (Clint Eastwood)? Homens que aceitam direitos humanos para humanos direitos e não tem piedade para com os marginais e maus-caracteres que assolam a cidade. Harry pode ser radical em suas ideias, mas seus métodos funcionariam fora do cinema? Existem policiais tão incorruptíveis? Ou somente um “Robocop” seria capaz de tanta bravura, já que sua parcela humana (falível) não é mais dominante que sua parte máquina? A grande realidade é que existem oficiais da justiça como Will Kane, de “Matar ou Morrer” (High Noon – 1952), dispostos a enfrentar seu algoz cara a cara, mas, assim como no filme, o xerife vivido por Gary Cooper procura a ajuda de todas as pessoas da cidade e só encontra desprezo e medrosas negações, os nossos heróis reais descobrem-se sozinhos em meio a um ninho de cobras, fadados a um duelo brutal sem aplausos ao fim, recebendo como prêmio um vergonhoso salário mensal. A vida imita a arte e a arte imita a vida.

Como faz falta em Brasília um homem como Jefferson Smith. O personagem de James Stewart em “A Mulher faz o Homem” (Mr. Smith goes to Washington – 1939) é um inocente interiorano que vai para a cidade grande com sonhos de mudar a sociedade para melhor atuando como senador. Aos poucos, vai percebendo o mar de lama em que se enfiou e vê todas as suas crenças na bondade humana serem destruídas impiedosamente ao constatar o caráter asqueroso dos políticos de seu país. No filme, sua convicção ferrenha e seu suor o fazem vencer a podridão, mas se o personagem viesse tentar a sorte em Brasília ele provavelmente cometeria suicídio em pouco tempo, pois a cada dia que passa nossa classe política nos deixa mais envergonhados, não se distingue mais o fundo do poço. O nosso mundo precisa de heróis imediatamente, precisamos de um símbolo que inspire medo nos bandidos (como “Batman”), alguém de valores íntegros e digno em quem contar (como “Superman”) ou até mesmo alguém como em “Kick-Ass”, que corajosamente diga: “Não posso voar, não enxergo através das paredes, mas eu posso quebrar-me todo tentando salvar tua pele!” Talvez seja por isto que esteja ocorrendo esta febre de filmes com super-heróis: Somos nós (a sociedade) pedindo socorro e aguardando uma resposta.

Mas, espere um momento, caro leitor, querida leitora. Nós esbarramos em heróis diariamente, mas não damos a eles o valor merecido. Como disse logo no início, o heroísmo nasce do desejo do ser humano em disciplinar seu instinto violento (natural) para o bem. Os professores possuem esse poder, inspirando seus alunos e estabelecendo alicerces firmes para a sociedade no futuro. Infelizmente no nosso país ser educador é uma das profissões mais ingratas e mal remuneradas que existem. A importância da passagem de um professor na vida de um aluno é tida como algo arduamente suportável, um mal necessário. O jovem metido a esperto questiona o que teria de útil a passar aquela figura que acorda cedo todas as manhãs, suportando todas as agruras e deselegâncias com o intuito de realizar seu dom, dos mais nobres, ensinar algo a pessoas que mal conhece. Na vida real, poucos são os jovens que se recordam de seus instrutores, mas no mundo do cinema a justiça é feita e esta linda profissão recebe o valor que merece. 

No final da década de sessenta, o mundo estava em ebulição e Hollywood aproveitou o momento para contar a linda história de um engenheiro desempregado e negro (quando o racismo estava em seu auge na América) que aceita uma vaga como professor em uma escola jogada às traças, com alunos desordeiros e violentos. A sua turma intenciona destruí-lo, como fizeram com seu predecessor, enfraquecendo seu espírito e pondo em dúvida seus ideais. Mas eles não estavam preparados para a firmeza de caráter e a força motivacional dele, já acostumado com a hostilidade e os preconceitos que sofria diariamente. Ao tratar seus alunos como adultos e demonstrar respeito por eles, aos poucos, consegue ganhar a admiração dos mesmos, o que culmina em um tocante final onde os jovens demonstrarão a importância da passagem do mestre em suas vidas com uma linda canção, que todos apresentam na formatura (“Aqueles dias de estudante, de roer as unhas e contar mentiras se foram, porém em minha mente sei que sempre sobreviverão. Mas como agradecer alguém que te fez crescer como pessoa. O tempo chegou, de fechar os livros, mas enquanto eu viver, eu saberei que deixei para trás meu melhor amigo, um que me mostrou o que era certo e errado, me fez discernir os fracos dos fortes. Ao mestre, com carinho”). “Ao Mestre, com Carinho” (To Sir, With Love – 1967) emociona públicos de todas as idades até hoje, com uma interpretação plena em dignidade do grande Sidney Poitier, que ficaria para sempre marcado por este personagem. A obra foi pioneira e transformou-se em uma espécie de subgênero dramático com o passar dos anos. 

Em “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society – 1989), um professor de poesia pouco ortodoxo se vê tendo que ensinar jovens cuja orientação da escola era respeitar a tradição, a honra, disciplina e excelência. O personagem vivido por Robin Williams sabe que esses valores são a antítese do que é o real aprendizado, sempre em progresso, moldando-se.  Ele inspira seus alunos a perseguir suas paixões individuais, tornando-se pensadores livres, condicionados apenas ao aprimoramento constante e o eterno questionamento, aproveitando as suas vidas ao máximo, como no seu lema: “Carpe Diem”. Outro filme que conta uma linda e inspiradora história de perseverança é “Mr. Holland – Adorável Professor” (Mr. Holland Opus – 1995). A vida do músico vivido por Richard Dreyfuss, que começa a lecionar para conseguir juntar dinheiro e compor uma sinfonia, descobrindo que a cada ano está mais distante da realização de seu sonho principal, emociona como poucas obras no gênero. Na obra de Stephen Herek fica latente a influência que um ser humano causa na vida de outras pessoas, por mais ínfima que seja a intenção por trás de pequenos gestos. Educação não é somente tirar notas altas e lotar cadernos, trata-se de formar e transformar seres humanos, realçar valores e ideais, construir e fortificar caracteres. 

Na obra “Gênio Indomável” (Good Will Hunting – 1997), outra faceta do tema é abordada: O que é a real inteligência? O personagem vivido por Matt Damon é um jovem rebelde que trabalha como servente em uma universidade, por determinação legal, após algumas passagens pela polícia. Quando o professor de matemática desafia os seus alunos a resolverem um teorema complicadíssimo, o jovem sem nenhuma pretensão, quase que inconscientemente consegue elucidar a questão. A sua alma somente encontra o equilíbrio após encontrar-se com seu analista, que com o tempo vai ganhando seu respeito e admiração. Uma cena de inexplicável beleza e contundência resume o poder da obra: Em uma das sessões de análise, o jovem, em seu auge de rebeldia e deboche, começa a trazer à tona toda a angústia e amargura que carregava, enquanto o professor segue apenas dizendo: “não é sua culpa”, várias vezes e em tom baixo, confortador. Em poucos minutos o jovem está abraçado a ele, chorando copiosamente e grato, pois o analista havia merecido seu respeito e provou ser seu amigo. Finalizando, não posso me esquecer da professora (vivida por Anne Bancroft) da jovem Helen Keller, no belíssimo “O Milagre de Anne Sullivan” (The Miracle Worker – 1962), que busca incessantemente mostrar as belezas do mundo a uma menina cega e surda. Com muita persistência, ela consegue retirar Helen de uma realidade solitária e depressiva, levando-a a adaptar-se ao mundo, fazendo-a conseguir se expressar. Foi preciso pulso firme por parte de Anne, pois a jovem havia se colocado em um pedestal, como vítima revoltada das circunstâncias, da qual foi retirada por intermédio da disciplina amorosa e dedicada de uma professora, uma heroína.

Uma das funções da Sétima Arte é ensinar valores e mostrar caminhos. Emociona descobrir que muitas pessoas dizem que se tornaram professores por terem visto estes filmes na infância e terem descoberto sua vocação.  Agora precisamos que os jovens também se inspirem nos alunos destes filmes e passem a respeitar seus mestres. Que vejam além do olhar cansado daquele que dormiu mal na noite anterior para preparar sua prova e, quem sabe, encontrem um amigo para a vida toda.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

"O Senhor dos Anéis" e o Poder do Mito


Joseph Campbell publicou seu livro “The Hero With a Thousand Faces” em 1949. J.R.R. Tolkien publicou o primeiro volume de “O Senhor dos Anéis” em 1954. George Lucas assumidamente utilizou o trabalho seminal de Campbell como estrutura para sua saga espacial. Mas basta uma análise mais atenciosa para perceber que Tolkien também seguiu fielmente a mesma estrutura. Como ele oficialmente escreveu seus livros ao longo de vários anos (1937 a 1949), mas continuou revisando-os nos anos seguintes, nós podemos crer que houve algum tipo de inspiração nos estudos de Campbell (que afirmava publicamente que não gostava do trabalho de Tolkien). Provavelmente foi coincidência, já que ambos beberam na fonte dos mitos nativo americanos, hindus, gregos, bíblicos e nórdicos. Nunca saberemos a resposta, mas é interessante analisar as obras de Tolkien pela ótica de alguns estágios da jornada mítica do herói/monomito.

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Mundo Comum - O mundo normal do herói antes da história começar.
Frodo, Sam e seus amigos, vivem no idílico mundo do Condado.
O Chamado da Aventura - Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.
Gandalf convida o Hobbit para uma aventura, objetivando a destruição do Um Anel.
Reticência do Herói ou Recusa do Chamado - O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.
Frodo inicialmente se recusa a partir com ele, por medo de sair de sua zona de conforto.
Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.
Ele, ao ir mais longe de casa pela primeira vez, encontra seus mentores na forma da Sociedade. Ao lado desses guerreiros, ele aprende como se defender e percebe que a valentia estava dentro dele o tempo todo.
Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.
O encontro com os elfos e um mundo mágico que ele nunca imaginou existir.
Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia - O herói enfrenta testes, encontra seus aliados e enfrenta vários inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.
O Balrog, a aranha, Gollum, Saruman, em suma, todos os perigos que ele encontra no longo caminho até a Montanha da Perdição.
Aproximação da Caverna Interna - O herói se adaptou ao mundo especial e passa a buscar seu coração, a caverna mais profunda, onde deve usar cada lição aprendida para sobreviver.
Sua coragem ao buscar sozinho seu destino, tentando proteger seu amigo Sam.
Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte.
Seu momento definitivo com Gollum, tentando vencer a indecisão de destruir ou não o Um Anel.
Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).
A destruição do Anel na Montanha da Perdição, tendo como recompensa a liberdade de seu povo.
O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum.
Seu retorno para o Condado, tendo completado sua jornada de amadurecimento.

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Tolkien, como experiente filólogo, desenvolveu idiomas próprios para emoldurar seu rico universo, tornando cada cenário na Terra Média extremamente vivo. Para a maioria de nós, as árvores são simples organismos vegetais, mas Tolkien sabia que os primeiros homens a caminhar na Terra as viam de forma bem diferente. Para esses homens primitivos, o mundo era cercado de elementos mágicos. O céu noturno era uma incógnita, com deuses que os ajudavam com a ventania e demonstravam sua ira com barulhentos trovões. A mitologia sempre existiu e Tolkien acreditava que não havia problema algum em unir o intelecto com o poder criativo da imaginação. Diferente de seu colega C.S. Lewis (criador das “Crônicas de Nárnia”), que via os evangelhos católicos como um fato histórico, Tolkien via como mais uma forma de mitologia, um conto de fadas. O elemento da “Consolação”, a recompensa do final feliz, representada pela ressurreição de Cristo.

A adaptação cinematográfica de Peter Jackson para “O Hobbit” pode estar sendo vítima de sua aversão pela sala de edição (problema crasso em sua versão de “King Kong”), mas sua trilogia original é uma coleção de acertos, um marco no cinema de fantasia. Ele acertou, por exemplo, ao excluir Tom Bombadil da trama (critério que ele devia ter utilizado com Radagast na nova trilogia), priorizando a essência dos escritos de Tolkien e seu potencial imagético, em detrimento de uma fidelidade “ipsis litteris”. As versões estendidas da trilogia são dinâmicas, enquanto as versões comuns de “Uma Jornada Inesperada” (especialmente) e “A Desolação de Smaug” são arrastadas. 

A sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen) é um exemplo de sua sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o seu caminho fora das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se revela, mostra-se um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos Hobbits. Em “Silmarillion”, por exemplo, não existem personagens comuns que o público possa se identificar. Aragorn somente toca o mundo comum ao retomar a espada que havia sido quebrada, aceitando seu destino. Jackson deixa claro desde seus primeiros momentos sua doce e gentil humanidade, como um arquétipo de Jesus, um homem cheio de dúvidas e que sofre pelo amor de uma mulher. Já sua adaptação para a personagem feminina Éowin (Miranda Otto), falha no básico. Tolkien tinha um ponto fraco: personagens femininas. Mas a corajosa Éowin é a única mulher representada com alguma profundidade em suas páginas. Jackson potencializa sua dependência ao amor de Aragorn, fazendo dela uma estereotipada apaixonada adolescente, equivocadamente descartando a surpresa de sua aparição perante o Rei Bruxo de Angmar, transformando-a em uma frágil e atemorizada menina (ainda assim, conseguindo vencer o medo ao final).

A beleza da saga de Tolkien não reside nas batalhas e na riqueza do mundo fantástico que ele criou, mas sim naqueles elementos mitológicos facilmente identificáveis em nossas vidas comuns. A corrupção do caráter humano, a ambição, a resignação perante a inevitável mortalidade, a coragem que nasce forjada no calor dos desafios mais extenuantes e os laços de amizade que nos fazem “carregar nos ombros” (tal qual Sam) os irmãos feridos em batalha.

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O livro que foi lançado pela editora “DarkSide Books”, escrito pelo jornalista Michael White, reconta a vida de Tolkien, autor de clássicos como a trilogia "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", e considerado um dos maiores autores de fantasia de todos os tempos. 

A biografia acompanha a vida e a trajetória do escritor, come­çando por sua infância na África do Sul, seguida do retorno da família para a Inglaterra. A família se estabeleceu em Birmingham, cidade que passava por uma rápida industriali­zação nos anos 1890, mas ainda era cercada por uma paisagem de tirar o fôlego. Este cenário que reunia e mesclava o coração industrial do Império britânico próximo a bosques e mon­tanhas idílicas e selvagens, foi determinante para as ideias e a escrita de Tolkien.