domingo, 3 de dezembro de 2017

"A Hora do Pesadelo", de Wes Craven


A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street - 1984)
O criador do assustador conceito foi o diretor Wes Craven, que buscou inspiração em casos de homens saudáveis no Camboja que morreram durante o sono após reclamarem de pesadelos horríveis. Algo que causou uma histeria coletiva na década de setenta, com pessoas que evitavam dormir temendo encontrar o mesmo fim. As filmagens duraram cerca de trinta dias, com um elenco formado por jovens desconhecidos, incluindo Johnny Depp, em seu primeiro trabalho.

A origem de Freddy Krueger e sua doentia personalidade foram sendo construídas ao longo da franquia, especialmente nos capítulos roteirizados por Craven (o primeiro, o terceiro e o sétimo). O conceito de um vilão que utiliza os sonhos para atacar suas vítimas, além de criativamente libertário, também é imageticamente estimulante. O maior mérito, como ficou provado na fraca refilmagem, é do ator Robert Englund, que por trás de toda a maquiagem pesada, consegue em sua maneira de andar ou na sutileza de um simples inclinar de cabeça, transmitir a essência do personagem (ele se inspirou no "Nosferatu" de Klaus Kinski). Krueger é um molestador, assassino de crianças que vive na Rua Elm. Após uma década de crimes e uma pequena estadia na prisão, volta para as ruas e é vítima do ódio dos pais das crianças, que o seguem até seu esconderijo e ateiam fogo no local. Agora, deformado e muito mais poderoso, invade os sonhos da nova geração, na tentativa de vingar-se no sono dos filhos de seus algozes.

Uma ideia genial no roteiro foi mesclar sonho e realidade, embaralhando a mente do espectador, que nunca sabia realmente em qual momento o assassino poderia aparecer. Enquanto que no original e em sua continuação, Krueger era sádico, sendo mostrado apenas em rápidos relances, quase sempre envolto em sombras, a partir do terceiro projeto (até o sexto) tornou-se um astro pop, com direito a frases de efeito e piadinhas infames. A ideia original era que o desfecho do filme mostrasse que tudo não havia passado de um sonho, mas a ambição do estúdio em estabelecer uma franquia falou mais alto. A escolha para a cena final é macabra e surreal, condizente com a proposta onírica da obra. Um elemento que precisa ser salientado é a excelente trilha sonora de Charles Bernstein, que foi construída utilizando como base a cantiga infantil que emoldura a cena inicial (ideia de Craven), com as crianças pulando corda. 

O horror nasce do subconsciente, da manifestação inesperada de um "bicho papão" que chama suas vítimas pelo nome (insinuando intimidade), mas acima de tudo, nasce daquilo que não conseguimos enxergar, da lâmina que brilha à distância em um estreito corredor.


* A editora Darkside Books está lançando dentro da Coleção Dissecando o excelente "A Hora do Pesadelo: Never Sleep Again", de Thommy Hutson, uma pesquisa preciosa sobre os bastidores das filmagens do filme original de 1984. A qualidade gráfica é impressionante como você pode ver na foto acima. É material obrigatório para fãs do terror. 

sábado, 2 de dezembro de 2017

"Polícia Federal: A Lei é Para Todos", de Marcelo Antunez


Polícia Federal: A Lei é Para Todos (2017)
“O sistema é feito para não funcionar”. A frase dita por um dos investigadores do filme sintetiza a coragem do roteiro em apontar que não há heróis na política, não há lógica em defender pessoas claramente envolvidas em falcatruas, figuras que enriquecem enquanto o povo que os colocou no poder luta para sobreviver chafurdando na lama, nem mesmo a desculpa da genuína ideologia pode ser sustentada. Já está claro que “esquerda” e “direita” neste país roubam da mesma forma, a resposta não está em partidos, a esperança reside em indivíduos íntegros. É questão de caráter, nunca deposite sua confiança em líderes que não compartilham os mesmos serviços que o coletivo de pessoas responsáveis por sua posição social. A nossa sociedade está muito longe da realidade de outras nações verdadeiramente dignas e corretas.

Quando o filme “Polícia Federal - A Lei é Para Todos" foi lançado, eu percebi a clara intenção de boicote de parte do público e da crítica, atitude que sempre repudio, o instinto de censura serve apenas aos cretinos. Uma breve reflexão: a beleza do cinema é também a capacidade de abordar o mesmo evento por perspectivas diferentes. Você pode ver um clássico alemão de propaganda nazista e logo depois ver a resposta norte-americana incitando os jovens à guerra, "Suss the Jew" (1940) é antissemita até o talo, enquanto "Confissões de um Espião Nazista" (1939) desfere um soco de direita no queixo de Hitler. Por este motivo não consegui acreditar quando li textos tentando deslegitimar a obra utilizando como base o argumento de que ela retratava a versão de apenas um lado da história. Não há argumento mais tolo, um desserviço à função da crítica como ferramenta filosófica que prima pela pluralidade de pontos de vista. Ficando no mesmo tema, "Lula, o Filho do Brasil" era imparcial? Que os dois filmes sejam vistos e analisados sem preconceito, nunca boicotados (ainda que de forma sutil), que a pluralidade de abordagens agregue à experiência de cada espectador. O crítico de cinema que toma partido antes de conhecer o filme está agindo de forma errada, estupidamente errada.

A utilização da narração em off como fio condutor da trama é um ponto negativo, o recurso quase sempre tenta disfarçar um roteiro frágil, prejudica a imersão e, neste caso específico, busca preencher lacunas que deveriam ter sido resolvidas no primeiro ato, para que o investimento emocional do espectador no desfecho não dependesse de um conhecimento prévio dos acontecimentos retratados. O filme precisa funcionar sem muletas, precisa ser atemporal. Outro momento que considero desnecessário é aquele em que o grupo de investigadores festeja ao som de “Inútil”, do Ultraje a Rigor, a sequência é clichê, destoa do clima que havia sido estabelecido e não soa coerente na construção dos personagens envolvidos. Fora isto, não há grandes problemas. A introdução em quadrinhos é muito boa como ideia e execução, traçando a corrupção desde o encontro de Cabral com os índios. A atuação do elenco afinada no mesmo diapasão é louvável, algo que era raro, mas que melhorou muito nos últimos anos. Vale destacar a forma inteligente com que os alívios cômicos são trabalhados, especialmente a construção do personagem do doleiro Youssef (Roberto Birindelli) em cenas como aquela em que ele debocha da forma física do delegado vivido por Antonio Calloni, culminando mais tarde na sua desconstrução ao ser questionado na cadeia pelo motivo de não fazer piada com a chegada de Odebrecht (Leonardo Medeiros).  

Eu gostei do ritmo e, com as ressalvas apontadas acima, considero um importante passo no gênero de thriller político, vertente poucas vezes trabalhada no cinema nacional. Qualquer tentativa da nossa indústria de se aventurar fora da zona de conforto narrativa deve ser incentivada.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Links para a pré-venda dos ingressos de "Elvis é Joia" (RJ)


"Elvis é Joia" está chegando! A pré-venda dos ingressos já começou. Curta a página do evento e saiba mais informações sobre os temas que abordarei antes de cada sessão. E, claro, irei cantar algumas pérolas do repertório do rei do rock. Serão 22 canções divididas de forma cronológica nas cinco sessões.


Sessões:





Primeira foto de divulgação de "Sacrifício"


"Sacrifício", meu quinto curta independente, será filmado em janeiro. Foto com parte do elenco hoje na primeira reunião da equipe. Tereza Filardy, Mônica Foroni, Zaira Zambelli (que foi minha primeira professora de teatro, em 2002), Deborah Cintra e Eduardo Doria. 

"Assassinato no Expresso do Oriente", de Kenneth Branagh


Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express – 2017)
Apesar de ser reconhecida, de forma justa, como a rainha da literatura detetivesca, poucos livros de Agatha Christie resistem em revisão. Ao contrário do Sherlock Holmes de Conan Doyle, a diversão está na tentativa de elucidar o mistério, você dificilmente terá interesse em reler o livro após a solução. Eu destaco apenas duas exceções: “Testemunha de Acusação” e “Assassinato no Expresso do Oriente”, por conseguinte, as tramas que melhor funcionaram no cinema. 

Dito isto, não é justo comparar o projeto de Kenneth Branagh com a versão de 1974, que teve roteiro de Paul Dehn e a direção do espetacular Sidney Lumet, além de um elenco verdadeiramente magistral. É um produto que vem com a proposta de agradar ao público adolescente, logo, o contexto é indisfarçavelmente raso, a recorrente piadinha óbvia com o nome do protagonista é um exemplo, a personalidade excêntrica do detetive belga Hercule Poirot é exagerada em tintas caricaturais, o roteiro providencia oportunidades para que seu humor irônico tome lugar de destaque, caminhando por vezes na linha tênue entre o adorável e o irritante. Branagh entende o espírito desta versão e acerta o tom na interpretação, a sua presença compensa boa parte dos problemas encontrados no irregular primeiro ato. O espaço cênico reduzido pode ser uma bênção ou uma maldição. Com exceção de Johnny Depp e a sempre competente Judi Dench, apesar de subutilizada desta vez, o elenco não demonstra segurança e o texto que defendem não fornece momentos especiais para que o público invista emocionalmente em suas histórias individuais.

A direção tem boas ideias estéticas, como a utilização do reflexo nas portas de vidro nas sequências de interrogatório para insinuar verdades ocultas, a fotografia de Haris Zambarloukos faz uso inteligente das sombras no trem, o figurino e a reconstituição de época são impecáveis, mas há também uma frieza na abordagem que prejudica a imersão e enfraquece o senso de diversão, especialmente para aqueles que já conhecem o desfecho, já que o roteiro prima pela fidelidade ao material original.