quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O instinto baixo do apedrejamento


Vou confessar algo para quem acompanha meu trabalho, eu estou desanimado com o que vejo nas redes sociais, algo que atrapalha sobremaneira a inspiração. Como sempre afirmei em textos, a raça humana é propensa ao apedrejamento, o instinto baixo que conduzia os romanos antigos nos circos de gladiadores segue vivo hoje, ainda que adormecido na maioria, como que ansiando pelo gatilho para despertar.

A discussão não é lúcida, o que importa é berrar extremos. Analisando o caso do jornalista William Waack, ou as recentes polêmicas sexuais envolvendo atores de Hollywood, eu sinceramente não consigo enxergar maturidade ideológica/comportamental no debate virtual, apenas o desejo primitivo de destruição, a curiosidade mórbida dos abutres que apreciam admirar por horas o corpo sangrando no asfalto, ou compartilhar vídeos repulsivos na internet, em suma, parecem objetivar não apenas a justiça, como também o suicídio de seus alvos. Os envolvidos no caso nacional e nos estrangeiros são excelentes profissionais, carreiras brilhantes e respeitadas, mas acima de tudo, eles são humanos e falhos como todos.

É justo condenar seus atos, você tem o direito de rejeitar qualquer menção futura ao nome deles, mas não é correto querer apagar suas contribuições em suas áreas de atuação, assassinar sem piedade suas reputações profissionais. Se o seu pai já fez alguma piada racista em casa ao longo de sua vida, tenho absoluta certeza que você não deixou de amá-lo por isto. E se aproxime do espelho. Você é perfeito? Você, que hipocritamente prega diariamente nas redes sociais o amor cristão, compreendeu de fato as palavras de Jesus na passagem do apedrejamento de Maria Madalena?

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

"Crimes no Paraíso", de Robert Harmon


Crimes no Paraíso (Stone Cold - 2005)
Tom Selleck ganhou fama mundial na série “Magnum”, no início da década de oitenta, por pouco não interpretou o Indiana Jones, depois foi subutilizado em filmes de ação fracos e, apesar de esbanjar simpatia na comédia “Três Solteirões e Um Bebê”, não teve chance de se desafiar como ator no cinema. É com a série de telefilmes baseados nos livros de Robert B. Parker que ele entrega seu melhor trabalho, vivendo Jesse Stone, detetive que perdeu seu emprego e sua respeitabilidade por causa do vício em álcool, tendo sido redirecionado como chefe de polícia para a pequena e tranquila cidade interiorana Paraíso, em que, como ele mesmo afirma, a tarefa basicamente se resume a dar multas.

A direção de Robert Harmon eficientemente constrói o clima bucólico que reflete os conflitos internos do protagonista, realçado pela paleta de cores azulada, sóbria. Não há ação, sequências frenéticas, as convenções do gênero não são respeitadas, não há sequer mistério, já que o espectador é levado a saber desde os primeiros minutos a identidade do casal de assassinos. O interesse do roteiro está no desenvolvimento dos personagens. A forma silenciosa, resignada, com que Stone decide enfrentar seus demônios, a capacidade de agir corretamente, ainda que desrespeite as limitações de sua função, como quando avaliza a reação agressiva do pai ofendido pelo jovem que estuprou sua filha. Cenas que revelam aos poucos o caráter e a fragilidade do homem por trás da figura de autoridade. A sua preocupação com o psicológico da adolescente humilhada, o carinho que sente pela sua colega (Viola Davis), a maneira como desperta a admiração até da advogada de defesa (Mimi Rogers) do estuprador, ou a sua reação à triste constatação de que sua ex-esposa busca retomar contato apenas por interesse profissional, elementos que humanizam o herói.

O filme foi um sucesso e já foram realizadas oito continuações, a mais recente foi lançada em 2015, pretendo escrever sobre todas. Eu gosto bastante da franquia, sempre recomendo para quem aprecia uma boa trama policial e está frustrado com a infantilização e pouca criatividade do gênero atualmente em Hollywood. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Guilty Pleasures - "The Room", de Tommy Wiseau


The Room (2003)
Você já viu “The Room”? Então, antes de ler o texto, procure o filme no Youtube, ou em qualquer canto obscuro da internet, a experiência não vai mudar sua vida, mas pode fazer com que você passe a repetir frases do roteiro sem motivo algum, ou imitar os maneirismos do trágico personagem vivido por Tommy Wiseau. Há o risco de causar dependência, especialmente se você sentir a necessidade de rever no mesmo dia a versão que agrega o áudio de uma exibição noturna na sala de cinema com fãs. O registro também está disponível. Creio que esta pérola do gênero “tão ruim que é bom” vai ganhar maior reconhecimento após a estreia nacional em janeiro de “Artista do Desastre”, dirigido e protagonizado por James Franco, que aborda os bastidores desta cultuada bomba.

Wiseau, nascido na Polônia, escreve, produz, dirige e atua, sem talento para qualquer uma destas funções. É impressionante o nível de estranheza que as cenas induzem no espectador, que sente estar prestigiando um filme pensado por alguém que nunca viu um filme na vida, ou melhor, um alienígena mostrando a visão que alienígenas teriam sobre o comportamento e o cotidiano dos seres humanos. Não dá para sintetizar a sensação, você precisa tomar coragem e enfrentar este que já foi citado como o “Cidadão Kane” dos filmes ruins. O título sem ligação com a trama, tomadas panorâmicas intermináveis e repetitivas, movimentos de câmera absurdos, uma cena de sexo que se repete em momentos diferentes, vale salientar, primeira vez em que alguém transa com o umbigo da mulher amada, uma televisão posicionada logo atrás de uma poltrona, porta-retratos na sala com imagens de colheres, portas que nunca são fechadas, a mania irritante de vestir smoking para jogar bola, subtramas e personagens que aparecem do nada e se vão sem sentido algum, falhas técnicas amadoras e que realçam a péssima atuação de todo o elenco. Parece novela brasileira antiga, os personagens não conseguem iniciar um diálogo sem citar o nome do interlocutor, o que faz com que você memorize todos em pouco tempo (e tenha vontade de se matar no processo). E quando a sogra do protagonista revela no meio de um papo tranquilo com sua filha, sem mudança de expressão, que está com câncer de mama? A jovem não se abala e segue o papo como se nada tivesse acontecido. É impossível segurar o riso. A sequência mais incrível ocorre no terraço, quando Johnny (que é chamado frequentemente de Tommy) dá uma aula de atuação preciosa ao emendar um suave “Oi, Mark”, segundos depois de extravasar toda sua raiva com a vida que estava levando.

Não é uma comédia, o drama é tocado pela equipe com seriedade, as gargalhadas brotam no público naturalmente. Na sessão para fãs, algo similar ao que ocorre com “Rocky Horror Picture Show”, o caos é hilário, as pessoas jogam colheres na tela sempre que os porta-retratos aparecem no filme, eles repetem todas as falas, o fenômeno é surreal. O elenco até preparou um mockumentary atual sobre a obra, eles entraram na brincadeira e estão ganhando uns trocados com esta fama inglória. Eu morro de vergonha, mas curto bastante esta bela porcaria.

sábado, 4 de novembro de 2017

"Tigres Voadores" e "Heróis de Malta"


Tigres Voadores (Flying Tigers – 1942)
O Capitão Jim Gordon (John Wayne) lidera os Tigres Voadores, uma lendária força de aviação de guerra não reconhecida pelo governo americano, formada por pilotos mercenários em busca de vingança, aventura e honra. Os homens pilotam modelos Curtiss P-40 e combatem os caças e bombardeiros japoneses que invadem o céu da China.


Esta foi a primeira participação de John Wayne no gênero, em uma trama que recicla desavergonhadamente vários elementos de “Paraíso Infernal”, que Howard Hawks dirigiu três anos antes. Como bom filme de propaganda, o interesse está em mitificar a coragem norte-americana perante o inimigo, promovendo valores altruístas, enquanto retrata os japoneses de forma grosseiramente caricatural. O colega, vivido por John Carroll, que só pensa na recompensa que vai receber após a missão é levado a compreender o sofrimento alheio, bonita cena em que uma criança chinesa oferece comida como forma de agradecimento por seus esforços. O personagem modifica sua maneira de enxergar a sua participação no conflito e encara seu teste de fogo no terceiro ato. O investimento foi mais generoso que o usual nas produções da Republic Pictures, você percebe maior refinamento nas cenas de batalha que utilizam registros reais. O diretor David Miller foi um dos mais competentes e versáteis de sua época, apesar de quase nunca citado, anos depois ele realizaria o excelente noir “Precipícios d’Alma”, o comovente drama “Esquina do Pecado”, o impecável faroeste “Sua Última Façanha” e a adorável comédia “Pavilhão 7”.








* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".












Heróis de Malta (Malta Story – 1953)
O aviador britânico Peter Ross (Alec Guinness) está fazendo um mapeamento fotográfico aéreo para a RAF da ilha de Malta, importante ponto estratégico para os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Durante um dos ataques aéreos, Peter é obrigado a pousar na ilha, onde acaba conhecendo a jovem Maria Gonzar (Muriel Pavlow), por quem se apaixona.


É curioso ver Alec Guinness em um papel tão diferente em sua carreira, você percebe em certos momentos o desconforto dele, mas acaba funcionando, já que é atitude coerente para o personagem. O diretor Brian Desmond Hurst não imprime identidade, o roteiro se perde na fraca subtrama romântica, mas é interessante a forma sóbria como o conflito é tratado, dedicando tempo à estratégia de combate e, ponto muito positivo, mostrando a guerra por todos os ângulos, não somente pela ótica dos militares. Ao contrário de boa parte dos projetos da época, não há interesse em tornar a batalha algo empolgante. Alternando registros reais e reconstituições eficientes, há um senso documental que prevalece sobre os valores da obra como puro entretenimento. Vale destacar também a alta qualidade de produção do estúdio Ealing e a presença sempre imponente de Jack Hawkins. 








* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

"Os Deuses Malditos", de Luchino Visconti


Os Deuses Malditos (La Caduta Degli Dei - 1969)
Eu lembro vividamente de quando, na fase de transição entre a infância e a adolescência, escutei pela primeira vez sobre o holocausto nazista. A minha mente não conseguia acreditar que algo tão absurdamente cruel tivesse acontecido. Como toda criança, eu superestimava a inteligência dos adultos. Como é possível? O povo alemão abraçar as loucuras ideológicas de Hitler não entrava na minha cabeça. E a professora na época alertava que era necessário mantermos vigilância para que isto não acontecesse novamente. Sem pensar duas vezes, afirmei internamente: Impossível! Hoje, analisando lucidamente o comportamento de manada de grande parte do povo brasileiro ao debater política, esta propensão asquerosa ao apedrejamento, estimulado por formadores de opinião imbecis que ganham fama na internet com vídeos em que satisfazem a necessidade de tolos inseguros por autoafirmação abusando dos discursos de ódio, enxergo perfeitamente a natureza do mal, o ovo da serpente.

A rápida escalada fascista, o conservadorismo extremista hipócrita e, por conseguinte, o impulso grosseiro por censura artística, elementos perigosos nas mãos de analfabetos funcionais. Sem pesquisar minimamente, motivado apenas pela manchete sensacionalista, o povo já toma partido e soma na fila do linchamento social. Imagine o que um líder carismático de índole ruim faria com tal coletivo barulhento de acéfalos. Se a sociedade não acordar logo e tomar vergonha na cara, estamos condenados a repetir o sombrio passado em um futuro próximo. Luchino Visconti trabalha estes temas em “Os Deuses Malditos” com aquela ferina elegância usual em sua carreira, alcançando o tom psicologicamente apocalíptico do "Saló" de Pasolini, utilizando como força motriz provocadora a frieza contemplativa de quem se depara com o abismo e sorri consciente de que não há redenção. 

Utilizando como alegoria a decadência de uma família alemã que se corrompe por ganância, encontrando na máquina nazista terreno fértil para extravasar a maldade que escondiam sob o verniz da alta sociedade, o roteiro prima por vasculhar a raiz do problema, ao invés de simplesmente retratar o poder de sedução do partido político, o texto joga luz nos indivíduos, evidenciando o processo doentio que permite a absorção de sistemas repugnantes, o interesse pequeno por poder e glória sem esforço que faz com que pessoas comuns se tornem monstros, cobras autofágicas sem bússola ética. A trilha sonora de Maurice Jarre pontua de forma debochada esta grandiosidade ilusória e cafona inerente aos personagens. No elenco, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Charlotte Rampling, Dirk Bogarde e Florinda Bolkan, um grupo que se despe existencialmente para as câmeras. 

A fotografia de Pasqualino De Santis e Armando Nannuzzi garante uma qualidade etérea que insinua o desapego como leitmotiv, afinal, a barbárie moral na trama envolve incesto, pedofilia, traições, figuras sem escrúpulos que perderam o senso de identidade. Referências são feitas a alguns episódios históricos, como o expurgo na Noite das Facas Longas ocorrido em 1934, com os Essenbeck na narrativa representando os Krupp, família que irresponsavelmente financiou os nazistas com sua fábrica de armas. O ditador não pensa duas vezes antes de cuspir naqueles que o ajudaram a conquistar seu posto, ele liquidou a SA, a milícia paramilitar nazista. A sequência da bebedeira orgiástica que simboliza este momento é o ponto alto do filme. 

Se ao final da sessão você concluir que se trata de uma página virada na História, olhe com mais atenção ao seu redor.