quinta-feira, 13 de abril de 2017

"12 Homens e Uma Sentença", de Sidney Lumet


12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men - 1957)
É possível escutar os tambores de guerra no horizonte, vivemos tempos sombrios, líderes políticos promovendo ódio, segregação cruel, valores invertidos em todos os níveis da sociedade, medo e dor, angústia e fome, o mundo parece estar nas mãos de loucos e psicopatas, o apedrejamento nunca foi tão incentivado nas redes sociais, justiceiros virtuais que compartilham notícias falsas e são facilmente manipulados, aderindo a modismos imediatistas, frases repetidas pelo prazer de se sentir parte da manada, gostos moldados servindo aos interesses dos titereiros, vivemos a era da informação ao alcance de todos, mas grande maioria do povo perdeu o elemento fundamental do interesse.

Um adulto alfabetizado que enxerga alguma verdade na estratégia torpe de um programa televisivo que melhora seus pontos de audiência com uma polêmica grosseiramente engendrada. Um jovem alfabetizado que aplaude fervorosamente um político estúpido defensor do clássico “direitos humanos para humanos direitos”. Figuras que respiram, comem, caminham e falam, mas não passam de zumbis em estado vegetativo, intelectualmente vazios. O mundo precisa urgentemente de pessoas como Davis, o personagem vivido por Henry Fonda.

O roteiro gira em torno do julgamento de um jovem porto-riquenho que é acusado de ter matado o próprio pai. Doze jurados são convocados para decidir a sentença. Onze deles, movidos por razões egoístas e por puro preconceito, votam sem pensar duas vezes pela condenação. O jurado número oito (Fonda) é um homem de caráter íntegro, ele acredita que o jovem deve ser considerado inocente até que se prove o contrário. Os seus colegas se revoltam com essa atitude, a pequena sala de júri é abafada, o calor intensifica os ânimos. Não há qualquer senso de empatia deles pelo rapaz, uma vida dispensável, o estranho responsável por aquela tarde perdida. A voz dissonante é a mais baixa na mesa, o homem introvertido, elegante, de poucos gestos, o rebelde que pede apenas para que seus pares argumentem, dedicando tempo ao caso, atenção sincera, em suma, um clamor por humanidade.

O senso comum forja verdades frágeis, convicções são alimentadas por sentimentos pequenos, a memória é capaz de criar situações impossíveis, as provas teoricamente inabaláveis podem ser aniquiladas caso analisadas por outro ponto de vista, o ser humano enxerga aquilo que quer ver, projetando no outro as suas frustrações e desejos mais íntimos. O brilhante diretor Sidney Lumet, trabalhando o roteiro de Reginald Rose, reduz ao máximo o espaço cênico, a trama se passa quase que inteiramente nesse único local, uma decisão muito acertada. O suspense é estruturado nos diálogos, no embate franco de ideias. A solução se dá a partir do questionamento, recurso cada vez mais raro em nossa sociedade.

É fundamental que os seres humanos despertem desse coma existencial, não é possível que essa tragédia anunciada não possa ser evitada. A minha esperança reside naquele indivíduo que, contra todas as probabilidades, levanta a mão e pede a palavra, ousando confrontar o pensamento medíocre dominante.

terça-feira, 11 de abril de 2017

"Dogma", de Kevin Smith


Dogma (1999)
O mundo corre o risco de desaparecer. Tudo por causa de Bartleby (Ben Affleck) e Loki (Matt Damon), dois anjos expulsos do céu e que querem retornar a qualquer custo. Para tanto, eles têm um plano: Cruzar o portal de uma igreja em New Jersey para, absolvidos de seus pecados, poderem retornar ao paraíso. Só que tal ato provaria que Deus é falível e, como consequência, a realidade se desmancharia. Para evitar que a tragédia ocorra é montada uma equipe de combate aos anjos, formada pela última descendente de Jesus Cristo (Linda Fiorentino), um 13º apóstolo negro (Chris Rock), dois profetas (Jason Mewes e Kevin Smith) e uma Musa Inspiradora (Salma Hayek).

Eu lembro que tomei conhecimento do filme à época da estreia nas páginas da revista Sci-Fi News, o tema e a abordagem me fizeram vibrar por antecipação. Eu já gostava muito do trabalho do roteirista/diretor Kevin Smith, “O Balconista” e “Barrados no Shopping”, que gravei de exibições no Telecine, quando a televisão a cabo ainda era uma novidade lá em casa. Ele é o tipo de pessoa que consegue transformar qualquer assunto em algo hipnoticamente interessante, basta ver como ele domina a plateia até hoje em suas apresentações com um senso de humor muito afinado. O roteiro é brilhante, a cantora Alanis Morissette interpreta “Deus” como uma criadora com senso de humor, Chris Rock faz um apóstolo negro amargurado por não ter sido citado na Bíblia, Salma Hayek e Alan Rickman aproveitam cada segundo, cada linha espirituosa de texto, como figuras divinas nada convencionais. 

Para um adolescente questionador, ávido leitor de Carl Sagan, Isaac Asimov e outros mestres do gênero, nada poderia ser mais bem-vindo que uma divertida crítica à religião organizada. E “Dogma”, como já se poderia esperar, foi muito apedrejado pelos encabrestados religiosos, apesar de ser essencialmente uma celebração da fé. É como salienta o anjo supremo Metatron, vivido por Alan Rickman, os humanos só se importam em conhecer a matéria na superfície, eles são capazes de manter crenças sem qualquer conhecimento sobre o tema. Logo nas primeiras cenas, uma personagem afirma que se cansou de ir às missas e não sentir nada, o ritual é a perfeita antítese de tudo o que Jesus pregou, ele era o primeiro a dizer que a oração devia ser um ato solitário do indivíduo, ele odiaria saber que templos foram levantados em seu nome. Mas, nesse mundo moderno tão exótico, até mesmo feministas podem ser católicas, o estudo é algo cada vez mais menosprezado, adultos alfabetizados ainda enxergam alguma relevância divina na figura de um Papa, nada mais justo que Smith convocar o saudoso comediante George Carlin, ateu fervoroso, para viver um padre que busca uma imagem simbólica mais boa praça do Cristo, algo menos depressivo que o corpo crucificado usual para tentar renovar o interesse do povo pela igreja, o sorridente “Buddy Christ”, profetizando, de certa forma, a estratégia eficiente que colocou Jorge Mario Bergoglio como o atual Chefe de Estado do Vaticano, alguém que é capaz até de, numa ousadia tremenda para alguém acima de seis anos de idade, afirmar publicamente que Adão e Eva não são reais. E, o pior, a imprensa do mundo todo repercutiu essa atitude altamente polêmica. Alguns analisam que a civilização humana não está preparada para o encontro com alienígenas. Já eu, mais pessimista ao constatar esses fatos, creio que ela não está preparada sequer para decidir se vai comer pão com manteiga ou ovos mexidos no café da manhã.

Ao final da sessão, a proposta de reflexão é irresistível. A fé é preciosa, Jesus ensinou que o amor é a única verdade, mas as organizações religiosas foram criadas pela ganância humana, pelo gosto do homem por poder, possibilitando absurdos como os cometidos pelos pastores neopentecostais televisivos, a redução da mulher ao papel de causadora de todos os males históricos, a segregação de homossexuais, o cruel sentimento de culpa nos fiéis que se relacionam sexualmente antes do casamento, ou nos divorciados, a omissão criminosa nos atos de Hitler, os assassinatos cometidos pela Santa Inquisição, entre muitos outros. É preciso querer abrir os olhos. Será que a massa facilmente manipulada está preparada para isso?

domingo, 9 de abril de 2017

"Os Picaretas", de Frank Oz


Os Picaretas (Bowfinger - 1999)
Sendo um produtor/diretor de cinema independente, eu me identifico profundamente com a angústia do personagem vivido por Steve Martin, Bobby Bowfinger, um sonhador que cria as próprias oportunidades, utilizando os recursos disponíveis. O roteiro escrito pelo ator é, de fato, por trás de todas as sequências hilárias, uma declaração de amor aos cineastas independentes. “Chubby Rain” (gotas de chuva gordinhas), invasão de alienígenas em gotas de chuva, conceito absurdo pensado por um contador sem experiência na área, que, aos olhos de um desesperado falido, simboliza um oceano de possibilidades criativas. O problema é que o protagonista, o astro internacional Kit Ramsay, não pode saber que está sendo filmado e que fará parte do filme. É quando a trama encontra a solução em uma crítica maravilhosa à cientologia criada pelo escritor L. Ron Hubbard, seita tola defendida no mundo real por nomes como Tom Cruise, John Travolta e Will Smith, uma prova de que dinheiro não aprimora a inteligência do indivíduo. Eddie Murphy, em seu último grande papel cômico, homenageia novamente Jerry Lewis ao abraçar duas personas radicalmente opostas, o arrogante astro de cinema e seu irmão Jiff, tímido, desajeitado e ingênuo. 

Quando o riso é causado ao colocar sapatos femininos nas patas de um cão, artifício encontrado para criar a ilusão que será montada na sala de edição, você pode enxergar uma gag visual simplória, mas, na realidade, a ação sintetiza a mágica do cinema, arte que nasceu de um acidente técnico, evoluiu anos depois com Méliès descobrindo no susto que a edição poderia operar truques, até cair nas mãos dos russos, que revolucionaram a narrativa visual pela montagem. Bowfinger une a gravação anterior da atriz solitária na locação com a cena do cão seguindo o astro que ignora estar sendo filmado, típico material que faria Ed Wood vibrar, basta lembrar o que ele fez com Bela Lugosi em “Plano 9 do Espaço Sideral”, inserindo um sósia escondendo o rosto para não desperdiçar os segundos que já haviam sido gravados antes de seu falecimento. A equipe reunida para essa missão não tem qualquer conhecimento básico sobre o tema, o diretor resgata alguns imigrantes ilegais mexicanos na fronteira, convoca uma jovem (Heather Graham) que está disposta a se deitar com todos os profissionais envolvidos no projeto, uma tragédia anunciada. É picaretagem passional, o sentimento que guiou nomes como Jess Franco e os genéricos de Bruce Lee na década de setenta, força que move atualmente cineastas como Kevin Smith, gente que verdadeiramente ama o que faz e que não se permite ser impedida de trabalhar por qualquer motivo. 

"Os Picaretas" é uma das melhores comédias da década de noventa. Veja, nem que seja apenas pela impagável sequência em que Jiff precisa atravessar correndo a autoestrada, acreditando que os carros são dirigidos por dublês. Ao chegar do outro lado, já traumatizado para o resto da vida, ele precisa escutar Bowfinger pedir mais uma tomada. Tudo pelo amor ao cinema. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

TOP - 2009


1 - O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky
"... Poucos filmes conseguiram retratar tão bem a decadência de um indivíduo. O lutador acostumado a fingir dor na arena, percebe que o pior oponente é a solidão, a culpa, a consciência de que não é aceito na sociedade..."


2 - Gran Torino, de Clint Eastwood
“... O preconceito, o medo do desconhecido, o retrato perfeito da ignorância é representado pelo personagem vivido por Clint Eastwood, inserido em uma sociedade que só dá valor ao próximo enquanto ele a serve de alguma forma...”


3 - A Partida (Okuribito), de Yôjirô Takita
"... O que morre é o corpo, desaparece nas labaredas da cremação ou é dissolvido de volta à mãe terra. Sobrevive o legado, as boas atitudes que continuarão inspirando próximas gerações, o sentimento passado e que, de tão sincero, continua a ressoar em todos aqueles que foram tocados por sua presença. Como aceitar que a máquina responsável por essa infinidade de sensações, após seu desligamento, seja manipulada com desleixo por estranhos?..."


4 – Lunar (Moon), de Duncan Jones
“... Nada mais justo que o filho de David Bowie, “O Homem que Caiu na Terra”, ser o responsável pelo melhor filme sci-fi dos últimos anos. O isolamento do astronauta na lua estimula reflexões no nível dos melhores livros de Isaac Asimov...”


5 - Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds), de Quentin Tarantino
“... Só a longa sequência inicial protagonizada por Christoph Waltz já seria mérito suficiente, mas Tarantino, equilibrando bem seus impulsos de violência, consegue entregar algo que transcende a diversão escapista, o roteiro ludicamente reescreve as páginas da História...”


6 - Mártires (Martyrs), de Pascal Laugier
“... O melhor filme de terror do ano é francês, uma pérola gore de baixo orçamento que me remete à época em que o gênero não tinha receio de agredir os sentidos...”


7 – Alexandria (Ágora), de Alejandro Amenábar
“... A história da matemática grega Hipátia, que chocou a sociedade de sua época por sua paixão pelos estudos, desafiando os dogmas católicos e a mentalidade machista que a queria ver intelectualmente vazia...”


8 - Up – Altas Aventuras (Up), de Pete Docter e Bob Peterson
“... Os primeiros dez minutos sintetizam a sensibilidade impressionante com que os diretores trabalham o relacionamento humano, uma maturidade emocional difícil de encontrar até mesmo nos dramas convencionais mais celebrados...”


9 - Dúvida (Doubt), de John Patrick Shanley
“... O tema espinhoso do padre acusado de pedofilia é trabalhado com elegância, alicerçado nas atuações poderosas de Meryl Streep, Amy Adams, Viola Davis e Philip Seymour Hoffman, compondo um retrato que permite ao espectador analisar os pontos de vista com lucidez...”


10 - (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer), de Marc Webb
“... Um revigorante sopro de ar fresco que subverte o gênero da comédia romântica, buscando inspiração em “Annie Hall”, com a sensibilidade conectada ao seu tempo, Marc Webb é um jovem diretor de futuro promissor...”

domingo, 2 de abril de 2017

Tesouros da Sétima Arte - "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha


Os Verdes Anos (1963)
O cineasta português Paulo Rocha faleceu aos setenta e sete anos no dia 29 de dezembro de 2012, após um acidente vascular cerebral. Deixando para trás uma carreira estável como advogado, o jovem preferiu seguir seu sonho e absorver a arte dos franceses, em especial Jean Renoir, de quem foi assistente, voltando para seu país disposto a redefinir o cinema que lá era feito. Nas décadas anteriores, o povo português abraçava o humor simples das comédias de Vasco Santana, enquanto que filmes mais pretensiosos, quase sempre medianos, como “Saltimbancos”, que Manuel Guimarães lançou em 1951, falhavam em estabelecer conexão com seu público. No início dos anos sessenta, influenciados pelo neo-realismo italiano e pela nouvelle vague francesa, diretores como Fernando Lopes, do média-metragem: “Belarmino”, José Ernesto de Sousa, de “Dom Roberto” e Paulo Rocha, abriram novas possibilidades para o cinema português.

Levando suas câmeras para as ruas de Lisboa, sem medo de expor os contrastes sociais, ele filmou seu primeiro trabalho: “Os Verdes Anos”, contando de forma simples a relação entre um jovem (Rui Gomes) ingênuo recém-chegado do interior e uma empregada doméstica (Isabel Ruth) da cidade grande. O roteiro, em pouco tempo, estabelece eficientemente a essência de cada personagem. O garoto inseguro que se defende dizendo: “Um homem sem dinheiro é como um carro sem gasolina”, ou que se intimida no salão de dança ao som de um rockabilly. A menina deslumbrada que desfila para ele, trajando os vários vestidos de sua patroa. Salvo por um americano de uma briga com seu tio (Paulo Renato) em um bar, o garoto caminha pelas ruas acompanhado de seu novo amigo, sem que nenhum dos dois entenda o que está sendo dito pelo outro, o americano afirma em dado momento: “Não entendo uma palavra do que diz, mas estou inclinado a concordar”, traduzindo de forma brilhante o conflito do rapaz com a hipocrisia da cidade e de seu povo, numa crítica bem-humorada e ainda atual. Ao final, como em uma das variações da canção “Construção”, de Chico Buarque, a simbólica morte da sua juventude ingênua e interiorana, acarretada por uma decisão intempestiva e inconsequente, acabou atrapalhando o tráfego.

O tema e a condução podem ter envelhecido de forma pouco generosa, mas a sua trilha sonora, composta pelo genial e saudoso guitarrista Carlos Paredes, que respondeu ao convite do diretor e identificou-se com o tema, resiste bravamente, emocionando como sempre. Um filme que precisa ser garimpado pelo cinéfilo brasileiro dedicado.