quarta-feira, 22 de março de 2017

"Os Viúvos Também Sonham", de Frank Capra


Os Viúvos Também Sonham (A Hole in The Head - 1959)
Tony Manetta (Sinatra) é um viúvo dono de um hotel decadente em Miami. Seus problemas são, em grande parte, por culpa dele, pois é um irresponsável que só pensa em mulheres. A única pessoa na vida dele capaz de colocá-lo nos trilhos é Ally (Eddie Hodges), seu filho de apenas 12 anos de idade. Endividado, Tony pede ajuda ao irmão Mario (Edward G. Robinson), que coloca algumas condições: ele deverá desistir do filho Ally ou se casar com uma mulher decente que ele indique. Só assim ele poderá ajeitar a vida e prosperar. É quando surge Eloise Rogers (Eleanor Parker), uma encantadora mulher que poderá mudar os rumos da vida de toda essa família.

Ao contrário dos tipos sonhadores idealistas usuais na filmografia de Frank Capra, como o Jefferson Smith de “A Mulher Faz o Homem”, ou o George Bailey de “A Felicidade Não Se Compra”, Tony Manetta é apenas um tolo iludido, um vagabundo mulherengo que deseja abrir um parque temático sem ideia de como vai conseguir a verba para seu objetivo. Os clássicos personagens defendidos por James Stewart lutavam por uma sociedade melhor e mais justa, mas não há nobreza alguma no viúvo hoteleiro vivido por Frank Sinatra, ele visa apenas o lucro. Esse era o desafio que estimulava o diretor, encontrar o encantamento por trás de uma trama sem heróis, inserir o difícil relacionamento entre pai e filho, com o pequeno demonstrando maturidade emocional e o adulto agindo frequentemente como criança. O mais próximo de um personagem adorável é o irmão mais velho, vivido por Edward G. Robinson, que parece ter prazer em ser desagradável com todos.

O estilo relaxado de Capra nas filmagens, absorvendo a experiência como parte do público, incentivava o elenco a encontrar nuances cômicas novas no texto em cada tomada, olhares, gestos, a recompensa era a risada que eles escutavam atrás da câmera. Uma sequência genial, praticamente teatro filmado, reunindo Thelma Ritter, Sinatra e Robinson no quarto, um jogo de cadeiras com longos diálogos sem corte, evidencia o timing único do diretor em seu penúltimo projeto, após vários anos afastado da função. O terceiro ato investe no melodrama, com a entrada da belíssima Eleanor Parker, uma viúva que pode simbolizar a salvação financeira do protagonista. É quando o roteiro, adaptado da peça de Arnold Schulman, responsável por “Funny Lady”, perde fôlego e conduz para um desfecho irregular, um final feliz que não soa crível, orgânico, mas que não prejudica o todo. Vale destacar que “High Hopes”, composta por Sammy Van Heusen e Sammy Cahn, cantada em uma linda cena por Sinatra e o menino Eddie Hodges, venceu o Oscar de Melhor Canção.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

domingo, 19 de março de 2017

Cartazes do curta "Nocebo" atualizados com a passagem pelo FESTin, de Portugal.

"Nocebo" foi selecionado para a Mostra Brasileira de Cinema, do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (2017). Arte dos cartazes: Laísa Roberta Trojaike. 


sexta-feira, 17 de março de 2017

"O Inquilino" e "O Marido Era o Culpado", de Alfred Hitchcock


O Inquilino (The Lodger: A Story of the London Fog - 1927)
Hitchcock considerava esse filme como o ponto de partida em sua carreira, uma pérola do cinema mudo que segue eficiente hoje. É perceptível o fascínio dele pelas experimentações na linguagem, colocando em prática tudo o que aprendeu durante sua fase nos estúdios alemães, o expressionismo absorvido com segurança por alguém com forte senso autoral. A trama é inspirada nos casos de Jack, o Estripador, algo consideravelmente recente no imaginário popular da época. A histeria coletiva que incrimina um inocente, tema que se tornaria recorrente na obra do mestre do suspense, emoldurada por uma utilização altamente criativa dos cenários, com destaque para a celebrada sequência em que a câmera nos mostra os passos do protagonista, vivido por Ivor Novello, filmados sobre um chão de vidro, potencializando a preocupação dos moradores no andar de baixo com a enigmática presença do hóspede. O desafio de contar a história sem diálogos provou ser enriquecedor para o jovem britânico, que pôde flertar com simbolismos visuais, o triângulo que reflete a estrutura dos relacionamentos trabalhados na narrativa, além, claro, das vítimas loiras que se tornariam cada vez mais frequentes. A estética usual do teatro filmado silencioso dava lugar ao jogo de imagens do cinema moderno. Vale destacar que a ideia inicial preservava o mistério sobre a autoria dos assassinatos, mas a escalação de Novello, ídolo jovem muito querido pelas adolescentes, impossibilitou a dúvida, ninguém queria correr riscos nas bilheterias.


O Marido Era o Culpado (Sabotage - 1936)
Quando conheci o filme na adolescência, em uma exibição televisiva no “Cine Vida”, da “Rede Vida”, apresentado por Brancato Júnior e pelo crítico José Tavares de Barros, eu me lembro de ter ficado assustado com a crueza de Hitchcock. De certa forma, considero “O Marido Era o Culpado” mais ousado que os posteriores “Cortina Rasgada” e “Frenesi”. A temática do terrorismo fez com que o filme fosse banido em alguns países, o tom sombrio refletia a complicada situação política na Europa, com a ameaça nazista espreitando nas sombras. O nível impressionante de tensão na sequência em que acompanhamos o passeio do menino que, sem saber, carrega uma bomba pelas ruas da cidade, uma aula que une elementos da montagem soviética de Eisenstein e Vertov ao senso de humor macabro do diretor. Inspirado levemente no livro “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad, essa pérola da fase britânica merece maior reconhecimento, especialmente pela coragem. O mundo ficaria chocado com o assassinato da personagem de Janet Leigh na primeira meia-hora de “Psicose”, em 1960, mas Hitchcock já subvertia todas as expectativas aqui, eliminando brutalmente a criança no ato terrorista, a pureza sendo a primeira vítima do medo.


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, no digistack "A Arte de Alfred Hitchcock", que contém também um documentário sobre a fase inglesa do mestre do suspense e os filmes "Jovem e Inocente" e "A Estalagem Maldita".

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Superman e os Homens-Toupeira", de Lee Sholem


Superman e os Homens-Toupeira (Superman and The Mole Men - 1951)
Há uma cena no “Superman 2”, de Richard Lester, que resume o significado do personagem enquanto símbolo. Lex Luthor, traído pelo General Zod, fica aliviado ao ver o herói vivo do lado de fora da janela do Planeta Diário. Ele sabe que não pode contar com a palavra de um homem sem escrúpulos. E, por mais que ele odeie Superman com todas as forças, sabe que está lidando com alguém íntegro, que será justo. Quando vejo os filmes recentes dirigidos por Zack Snyder, não consigo enxergar esses valores, os roteiros falham no básico, não compreendem o personagem.

A criação de Jerry Siegel e Joe Shuster representa a esperança, os quadrinhos originais da década de trinta buscavam resgatar o ânimo de um país que lutava para se restabelecer da recessão econômica, o povo desempregado juntava moedas para adquirir naquelas páginas a coragem de seguir em frente. A ação e os superpoderes fazem parte das histórias, mas são as atitudes sensatas que forjaram o herói, a capacidade de agir corretamente nas situações mais complicadas, sem nunca desrespeitar seus princípios. Christopher Reeve alcançou essa intenção nobre no clássico da década de setenta, mas creio que nenhuma versão live action foi mais competente nesse sentido que a protagonizada por George Reeves. O projeto, em preto e branco, foi o primeiro produzido com o personagem para o cinema, após os dois seriados protagonizados por Kirk Alyn. Reeves, que havia voltado da guerra, encontrava papeis apenas em títulos de baixo orçamento, aquela parecia ser uma boa chance de conquistar público. Superman acabaria se tornando o papel de sua vida. O roteiro tratava o elemento alienígena com reverência similar à de “O Dia em Que a Terra Parou”, lançado no mesmo ano, uma postura radicalmente diferente dos sci-fi da época, que sempre traziam o diferente como algo a ser temido, uma metáfora para o temor comunista.

Os repórteres Clark Kent (Reeves) e Lois Lane (Phyllis Coates) decidem investigar as estranhas aparições que passam a ocorrer em uma cidade após o trabalho de uma mineradora. Vale destacar a postura de Reeves em seu disfarce, mais sério e nada desajeitado, uma presença digna e que impõe respeito, longe da caricatura cômica que seria trabalhada décadas depois no filme de Richard Donner. Como os efeitos especiais não permitiam uma utilização excessiva do herói uniformizado, Kent protagonizaria na maior parte do tempo, uma entrega mais crível facilitava a identificação com o público. Em “Superman e os Homens-Toupeira”, os vilões são os humanos movidos pelo ódio, aqueles que julgam sem conhecer os fatos. Os seres do título, moradores do subterrâneo que, pela cobiça do homem, são forçados a conhecer a superfície, e, eventualmente, perseguidos por serem diferentes.

sábado, 11 de março de 2017

Presente inesquecível de meus avós maternos

Faço questão de compartilhar com você, que carinhosamente acompanha meu trabalho, essa carta de meus avós maternos, escrita em dezembro de 1991. Eu tinha acabado de completar oito anos de idade, já intensamente apaixonado por cinema, lendo e escrevendo como um louco (risos), vencendo concursos de poesia na escola e sonhando com os livros que eu escreveria no futuro. Empolgados, meus saudosos avós Newton e Haydê prepararam o melhor presente de Natal: A máquina de escrever que meu avô utilizou por vários anos em seu escritório de advocacia. Fico feliz que ele tenha vivido para ver meus primeiros passos profissionais como escritor/crítico de cinema. E minha avó, que faleceu oito anos depois dele, viu o lançamento do meu primeiro livro. Saudade dos dois.