segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"O Chaplin Que Ninguém Viu", de David Gill e Kevin Brownlow


O Chaplin Que Ninguém Viu (Unknown Chaplin – 1983)
O dedicado garimpo dos historiadores David Gill e Kevin Brownlow fornece imagens dos bastidores, entrevistas com testemunhas oculares dos projetos, registros de convidados ilustres nas filmagens e tomadas alternativas de cenas clássicas. Ao percebermos quantas possibilidades cômicas ele conseguia extrair de uma simples situação, constatamos a genialidade de alguém que verdadeiramente se importava com essa ferramenta, alguém que lutava para transcender todas as limitações, criando no momento e seguindo o instinto, sem roteiro, testando variações como um pianista perfeccionista e apaixonado.

O segmento inicial, “Os Anos Mais Felizes”, foca no período dele no estúdio Mutual, primeira vez em que ele alçou voos maiores em curtas com total controle criativo. A quantidade absurda de negativos utilizada, por vezes em sequências que acabavam não sendo usadas, demonstra a empolgação do jovem em marcar seu nome na indústria. Vale ressaltar também sua esperteza em elaborar truques visuais aparentemente simples, mas engenhosos, pra potencializar o impacto cômico das cenas. O segundo segmento, “O Grande Diretor”, apresenta a natureza mais conflituosa e temperamental do artista, alguém capaz de refazer um filme inteiro apenas pra trocar a atriz principal. O foco nos longas “O Garoto”, “Em Busca do Ouro” e “Luzes da Cidade”, representa a maturidade profissional de Chaplin. Já o terceiro segmento, “Tesouro Escondido”, joga luz em sequências descartadas de seus filmes, incluindo testes e brincadeiras que seriam aprimoradas em suas produções futuras. É uma valiosa colcha de retalhos em que temos a chance de ver um artista mais descontraído, o sorriso sincero de satisfação que é dado alguns segundos depois do corte de uma cena e a preocupação, mais sincera ainda, que atravessa em seu rosto na preparação inicial, em suma, a mágica desenvoltura na relação entre criador e criatura aos olhos da câmera.

O material exibido nesse excelente documentário em três partes é essencial, não somente para os fãs de Carlitos, que irão entender como funcionava a mente criativa do mestre, como também para todos aqueles que possuem um mínimo interesse sobre os alicerces da história do cinema. 


* O documentário está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras-Primas do Cinema", em edição de luxo com um belo pôster e dois cards.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"O Plano de Maggie", de Rebecca Miller


O Plano de Maggie (Maggie's Plan - 2015)
A roteirista/diretora Rebecca Miller tem poucos e bons trabalhos no currículo, “O Mundo de Jack e Rose” é uma pérola pouco conhecida, “O Tempo de Cada Um”, “Angela: Nas Asas da Imaginação” e “A Vida Íntima de Pippa Lee”, são acima da média, e, acima de tudo, mostram uma artista segura e com algo a dizer. Com “O Plano de Maggie” ela arrisca tocar no terreno mainstream, mantendo o espírito indie, cometendo o erro de não satisfazer plenamente os dois tipos de público, despertando o pior dos sentimentos: a apatia. A espontaneidade dos projetos anteriores se perde em um esforço calculado para adequar o estilo indie à pobreza de texto das comédias românticas convencionais, defendidas por personagens vazios, na busca óbvia de nivelar por baixo para expandir as possibilidades comerciais do filme.

Miller não tem o talento de um Woody Allen, que consegue inserir diálogos inteligentes e referências refinadas em um contexto popular. E ela conscientemente tenta travar diálogo com Allen, existem sequências que parecem saídas diretamente de suas produções, mas carecem de alma, o texto não ajuda. O senso de humor é, por conseguinte, previsível e debruçado em repetições tolas, por vezes apelando incoerentemente para piadas grosseiras. Greta Gerwig vive a protagonista (em teoria) segura de si e que acaba se descobrindo escrava de suas próprias contradições ao buscar ser mãe solteira, mas sua atuação está sempre um tom acima, beirando a caricatura, prejudicando a imersão do espectador já nas primeiras cenas. Julianne Moore e Ethan Hawke equilibram o jogo, mas o ritmo canhestro da trama, que já dá um solavanco abrupto nos primeiros vinte minutos e manda para o espaço o elemento da credibilidade, minimiza o efeito de algumas boas situações. A câmera nervosa, provavelmente mais uma tentativa pouco sutil de transparecer personalidade, distrai ainda mais a atenção, recurso desnecessário para uma trama tão singela.

Está longe de ser uma tragédia, mas tem seu potencial desperdiçado irresponsavelmente ao tentar agradar gregos e troianos. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O cinema nos diários de minha avó

Donald Trump acaba de ser eleito presidente dos Estados Unidos, mais um sintoma de que o ser humano está se esforçando ao máximo pra desacreditar o sapiens que sucede o homo, uma espécie verdadeiramente em queda livre existencial. Sem perspectiva de futuro, volto meu olhar novamente ao passado. Em um texto recente abordei meu relacionamento com minha saudosa avó materna Haydê (leia aqui), mas nada havia me preparado para o que descobri alguns dias atrás. Tive contato com alguns de seus diários, registros das décadas de cinquenta e sessenta. E, o mais espetacular, percebi que ela era tão apaixonada por cinema quanto eu! Ela informava sistematicamente todos os filmes vistos, a sala de cinema de cada sessão, com direito até a uma breve opinião (péssimo - regular - bom - ótimo - excelente). Faço questão de compartilhar com você alguns desses registros, já que não daria pra colocar todos, são mais de trinta páginas de filmes vistos nas salas do Rio de Janeiro entre 1952 e 1969. O que mais me emociona é saber que exatamente no ano inicial ela estava com a minha idade, trinta e três anos. Na foto abaixo, tirada em 1953, ela está com minha mãe Eliane no colo, ao lado do meu avô Newton.


1952
3 de Maio - Palácio - Tico-Tico no Fubá, de Adolfo Celi (bom)
28 de Maio - Palácio - David e Betsabá, de Henry King (regular)
3 de Agosto - Palácio - A Cigana me Enganou, de Norman Z. McLeod (ótimo)
30 de Agosto - Palácio - A Estrela do Destino, de Vincent Sherman (regular)

Cinco dias antes de minha mãe nascer, o filme visto foi:
27 de Setembro - Metro - O Vale da Decisão, de Tay Garnett (ótimo)

1 mês depois de dar a luz, já estava de volta ao cinema:
1 de Novembro (Sábado) - Olinda - Chaga de Fogo, de William Wyler (ótimo)

Página inicial do diário, com foto de Audrey Hepburn.
1953
7 de Fevereiro (Sábado) - América - Carnaval Atlântida, de José Carlos Burle e Carlos Manga (ótimo)
12 de Fevereiro (Quinta) - Pax - Filhos do Deserto, com Stan Laurel e Oliver Hardy (ótimo)
21 de Fevereiro (Sábado) - Ipanema - Barnabé, Tu és Meu ("ótima comédia com Oscarito")
14 de Março (Sábado) - Rex - Uma Noite na Ópera ("ótima comédia com os Irmãos Marx")
1 de Abril (Quarta) - Metro - Ivanhoé (ótimo)
1 de Maio (Sexta) - América - O Cangaceiro (ótimo)
31 de Maio (Domingo) - América - Uma Pulga na Balança, de Luciano Salce (bom)
2 de Agosto (Domingo) - Olinda - O Maior Espetáculo da Terra, de Cecil B. DeMille (bom)
5 de Setembro (Sábado) - Carioca - A Lei do Chicote, de Lewis Milestone (bom)

7 de Setembro (Segunda) - Carioca - Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin (excelente)
15 de Outubro (Quinta) - Metro - Lili, de Charles Walters ("ótimo na nova tela panorâmica")
26 de Dezembro (Sábado) - Palácio - O Ladrão Silencioso, com Ray Milland ("bom, sem diálogos, um pouco cansativo")


1954
31 de Janeiro (Domingo) - Olinda - O Intrépido General Custer (primeiro filme que meus avós viram juntos, no início de namoro, onze anos antes)
6 de Março (Sábado) - Olinda - Guerra dos Mundos, de Byron Haskin (bom)
26 de Março (Sexta) - Odeon - Museu de Cêra ("bom, pena que seja em terceira dimensão, obrigando o uso de óculos que cansam muito a vista")
30 de Abril (Sexta) - Palácio - O Manto Sagrado ("ótimo, em Cinemascope")
4 de Maio (Terça) - Império - Nem Sansão, Nem Dalila ("boa comédia nacional")
15 de Maio (Sábado) - Madrid - Cabeleireiro das Arábias, com Fernandel ("boa comédia francesa")
22 de Maio (Sábado) - Presidente - Sua Majestade, o Sr. Carloni ("ótimo filme italiano")
12 de Junho (Sábado) - Palácio - A Um Passo da Eternidade (ótimo)
15 de Junho (Terça) - Palácio - Os Brutos Também Amam (bom)
18 de Junho (Sexta) - Marabá - Só Resta Uma Lágrima ("ótimo filme com Olivia de Havilland")
2 de Setembro (Quarta) - Carioca - Náufragos do Titanic ("ótimo filme com Barbara Stanwick")
20 de Novembro (Sábado) - Império - O Salário do Medo ("excelente filme francês")
31 de Dezembro (Sexta) - Metro - Rapsódia ("ótimo filme com Elizabeth Taylor")

1955
8 de Janeiro (Sábado) - Olinda - O Filhinho do Papai ("ótima comédia com Jerry Lewis e Dean Martin")
24 de Janeiro (Segunda) - Olinda - Alice no País das Maravilhas ("primeiro filme do festival Walt Disney")
29 de Janeiro (Sábado) - Olinda (tarde) - Branca de Neve e os Sete Anões / Carioca (noite) - Interlúdio, de Hitchcock (excelente)
19 de Março (Sábado) - Carioca - Angú de Caroço ("ótima comédia com Ankito")
26 de Março (Sábado) - Olinda - A Grande Noite de Casanova ("boa comédia com Bob Hope")
30 de Abril (Sábado) - Metro - Sete Noivas Para Sete Irmãos (bom)
7 de Maio (Sábado) - Olinda - A Princesa e o Plebeu ("ótimo filme com Audrey Hepburn e Gregory Peck")
9 de Junho (Quinta) - Olinda - Janela Indiscreta, de Hitchcock (bom)
13 de Julho (Quarta) - Olinda - A Princesa e o Plebeu ("vi pela segunda vez")
5 de Novembro (Sábado) - Olinda - Sabrina ("ótimo filme com Audrey Hepburn")
24 de Dezembro (Sábado) - Madrid - Papai Pernilongo, com Fred Astaire ("excelente e delicioso")


1956
26 de Janeiro (Quinta) - Avenida - Romeu e Julieta ("boa comédia com Cantinflas")
4 de Fevereiro (Sábado) - Carioca - Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan (ótimo)
7 de Abril (Sábado) - Madrid - O Pecado Mora ao Lado, de Billy Wilder (bom)
14 de Abril (Sábado) - Madrid - Casa de Bambu, de Samuel Fuller (ótimo)
19 de Maio (Sábado) - Metro - Eles e Elas (regular)
30 de Junho (Sábado) - Madrid - Suplício de Uma Saudade (excelente)
1 de Setembro (Sábado) - Olinda - Sangue de Bárbaros (bom)
16 de Setembro (Domingo) - Madrid - Colégio de Brotos ("ótima comédia com Oscarito")

Você sabe que "Ben-Hur" (1959) é o filme responsável por meu amor pelo cinema, desde que o vi pela primeira vez aos quatro anos de idade. Cito isso em meu livro e em diversos textos do blog. Imagine minha emoção ao encontrar nos registros dos diários de 1961/1962 esses trechos:

1961
11 de Março (Domingo) - "Newton comprou entradas para o filme Ben-Hur, amanhã no Metro".
12 de Março (Segunda) - Metro - BEN-HUR - ("excelente filme, são 4 horas de projeção e não se sente passar o tempo")
16 de Março (Sexta) - "Comprei entradas para amanhã ver Ben-Hur de novo".
17 de Março (Sábado) - Metro - "Vimos Ben-Hur e mais uma vez achei-o um filme excepcional". 

1962
11 de Janeiro (Quinta) - Metro - "Vi novamente o excepcional Ben-Hur".
22 de Janeiro (Terça) - Metro - "Vi novamente Ben-Hur".
24 de Janeiro (Quarta) - Metro - "Fui ver com as crianças novamente Ben-Hur".
27 de Janeiro (Sábado) - Metro - "Fui com as meninas (de novo) e levei uma vizinha para ver Ben-Hur, esse filme excepcional que, quanto mais se vê, mais vontade se tem de ver. Fomos vê-lo pela sexta vez". 
31 de Janeiro (Quarta) - Metro - "Fui com as meninas ao Metro pela última vez, pois é o último dia do excepcional Ben-Hur, que vimos pela sétima vez". 

Minha mãe pequena ficou apaixonada pelo filme e me passou esse maravilhoso "vírus". 


E, mostrando que minha avó era uma crítica informal de personalidade forte, cito três avaliações controversas do ano de 1962:

20 de Junho (Quarta) - Palácio - A Aventura, de Antonioni (péssimo)
19 de Julho (Quinta) - Eskye - O Terror das Mulheres, de Jerry Lewis (péssimo)
28 de Outubro (Domingo) - Britânia - Divórcio à Italiana, de Pietro Germi (péssimo)

Para finalizar, a primeira sessão daquele que seria lembrado por ela no futuro como seu filme favorito, aquele que vi com ela em DVD poucas semanas antes de seu falecimento:

31 de Dezembro de 1962 (Segunda) - Olinda - "Vi o excelente filme SISSI, com Romy Schneider". 


Fico feliz que minha avó tenha vivido para ver meus primeiros passos na área artística. Ela foi uma grande dama. Essa é minha singela homenagem a ela.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Guilty Pleasures - "Os Vampiros de Salem: O Retorno"


Os Vampiros de Salem – O Retorno (A Return to Salem’s Lot – 1987)
Um antropólogo leva seu filho adolescente para a sua cidade natal, Jerusalem’s Lot, buscando sossego. Lá, descobrem que a cidade está infestada de vampiros. Cabe a ele e aos sobreviventes acabarem com a ameaça, antes que eles sejam os próximos residentes definitivos de Salem. 

O maior erro de análise é supor que esse filme seja uma continuação do bom “Os Vampiros de Salem”, adaptação de “A Hora do Vampiro”, de Stephen King, dirigido por Tobe Hooper para a televisão norte-americana em 1979. Sem o peso dessa responsabilidade e conhecendo o trabalho de Larry Cohen, que novamente aposta na parceria com o adorável canastrão Michael Moriarty, você pode apreciar melhor essa picaretagem divertida, totalmente despretensiosa, com vampiros que evitam sugar o sangue de estranhos por medo da AIDS e que tem a pachorra de contar com a participação do diretor Samuel Fuller, gênio responsável por “Paixões Que Alucinam” e “Capacete de Aço”, roubando todas as suas cenas como um caçador de nazistas falastrão e que frequentemente usa a teatralidade como arma, característica que rende momentos hilários. Quando questionado sobre a impossibilidade de vampiros serem tidos como críveis pelo povo de outras cidades, ele responde: “Em 500 anos, quem vai acreditar que os nazistas existiram?”.

A ambição do protagonista em lucrar com temas polêmicos encontra na possibilidade de ser o porta-voz daquela nova sociedade um sedutor caminho. O líder vampiro, vivido por Andrew Duggan, quer que o rapaz escreva uma Bíblia explicando para o mundo como ocorreu a evolução de sua raça, então ele se utiliza de todos os meios, até mesmo facilitando o encontro do antropólogo com um amor de infância, a bela vampira vivida por Katja Crosby. Sem qualquer relação com o livro original e sua adaptação, a trama injeta um potencial satírico no conceito da pequena cidade tomada por vampiros, traz personagens novos e faz uma referência em seu início ao controverso “Cannibal Holocaust”, de Ruggero Deodato, mostrando o antropólogo filmando o ritual de uma tribo remota que sacrifica um de seus membros. O terror é meu gênero de formação, gosto de todas as suas vertentes, apesar de enxergar boa parte da filmografia de Cohen como guilty pleasures, então o desfecho tosco da absurda cena me remete às sessões vespertinas do “Cine Trash”, que passava na TV Bandeirantes.


* A distribuidora Vinyx Multimidia, pelo selo Fear Films, está lançando o filme em DVD em edição de luxo, com pôster. 

Chumbo Quente - "O Homem do Oeste" e "Fúria Selvagem"


O Homem do Oeste (Man of the West – 1958)
Quando se fala no velho Oeste alegórico de Hollywood, todos se lembram das paisagens nos filmes de John Ford, da beleza do Monument Valley emoldurando cavaleiros de trajes coloridos e sem um sinal de pó, como se houvessem acabado de sair das páginas dos contos de aventura adolescente. Alguns afirmam que os italianos foram os responsáveis por incutirem a cruel realidade em seus spaghetti westerns, onde deixavam transparecer o suor escorrendo por barbas desalinhadas, com cavaleiros trajando vestes devidamente maltratadas pelas intempéries locais. A realidade é que antes dos italianos decidirem parar de imitar os americanos, em filmes como “Adiós Gringo” e “O Dólar Furado”, e evoluírem o conceito do Western, apropriando-se com competência e subvertendo-o, houve em Hollywood um cineasta genuinamente autoral que já ousava no gênero décadas antes. 

Anthony Mann iniciou como auxiliar do competente Preston Sturges na obra prima “Contrastes Humanos” (Sullivan´s Travels – 1941) e logo imprimiu seu estilo narrativo em alguns bons filmes noir. Seu interesse era em aprofundar-se nas motivações de seus protagonistas, normalmente ligados por algum laço familiar ou afetivo. Diferente dos clássicos heróis americanos do gênero, os de Mann usualmente escondiam algum segredo soturno, obedecendo apenas uma lei ditada por conveniências pessoais. Conflituosos internamente e perceptivelmente angustiados, eles buscam quase sempre a redenção por erros antigos. Visceral mas simples, sua câmera busca apenas os ângulos que favorecem sua narrativa, nunca ambicionando aparecer mais do que a trama que se propõe a contar, contrastando com o senso comum de muitos diretores, até hoje, que se vangloriam por serem “autorais”, mas que com seus arroubos visuais egocêntricos apenas seguem, inconscientemente, uma cartilha ditada pelo primeiro que filmou uma árvore de cabeça para baixo e escutou alguém afirmar ser genial. O ato elegante de haver em vida se escondido por trás de seu talento, ao invés de ter buscado os holofotes, como tantos outros diretores autorais, tornou Mann um cineasta de qualidade rara e preciosa.

Gary Cooper (Link Jones) vive um homem disposto a apagar suas tortas pegadas e refazer seus passos, constantemente disciplinando em si mesmo o desejo pela violência. Negando-se a aceitar a realidade que a vida havia lhe oferecido, tendo como única referência paterna um tio, vivido pelo fantástico Lee J. Cobb, inconsequente e violento, decide provar a si próprio a força de seu caráter. Desde o primeiro momento fica evidente seu desespero em manter-se incógnito, estabelecendo identidades falsas para cada cidadão que o aborda. Como seu nome deixa implícito, ele representa um elo (“link”) entre o antigo Oeste violento/solitário e o Oeste domado que se principiava no horizonte, onde a união de forças iria encaminhar o progresso. Deixando para trás a violência, caminhando firme em direção ao homem moderno que ele precisa ser. O símbolo desta mudança é a confiança adquirida, já que o povo de sua cidade (Good Hope = Boa Esperança) aceita sua nova conduta e entrega em suas mãos uma considerável soma monetária, para que ele viaje ao encontro de uma professora e a convença a trabalhar para as crianças de sua cidade. Ele conseguirá manter-se íntegro quando forçado a reviver seu sombrio passado? Com roteiro do competente Reginald Rose, da obra prima “Doze Homens e uma Sentença”, e uma sensibilidade pouco usual no gênero, “O Homem do Oeste” merece constar na coleção de qualquer cinéfilo, fã ou não do Western.


Fúria Selvagem (Man in the Wilderness – 1971)
Na época do lançamento do superestimado “O Regresso”, de Iñárritu, eu custei a entender a razão de tanto falatório, apesar da massiva publicidade conquistada com as indicações pros prêmios da Academia, e do infantil meme que pedia a estatueta para o protagonista, o resultado inchado esbanjava pretensão artística e pseudofilosofia de botequim, mas era irritantemente vazio. O melhor filme sobre a história de Hugh Glass já havia sido feito e acumulava poeira na memória dos cinéfilos: “Fúria Selvagem”, de Richard C. Sarafian. Esse importante resgate proposto pela distribuidora “Versátil” pode ajudar na necessária reavaliação desse clássico. Somente a perturbadora cena real do búfalo sendo devorado pelos lobos já garantiria a superioridade, sequência extremamente tensa em que o protagonista, vivido pelo grande Richard Harris, já bastante ferido, precisa lutar pelo seu alimento. 

Os flashbacks inteligentemente inseridos vão revelando aspectos interessantes sobre o caráter do personagem, a sua relação conflituosa com o conceito de religiosidade, elemento que adiciona camadas interessantes de simbologia ao conto de sobrevivência, a aventura inconsequente como fuga da realidade triste da morte da esposa, o sentimento de culpa pelo abandono do filho nesse processo, conduzindo de forma emotivamente eficiente o espectador até o poderoso desfecho, o embate com o líder da expedição, que o deixou indefeso perante o que parecia ser a morte certa. Vivido pelo imponente John Huston, um tipo ególatra que, assim como Herzog faria uma década depois em “Fitzcarraldo”, puxa um grande barco em terra firme. O que engrandece a obra é a beleza na constatação de que a suprema redenção, a recuperação física e psicológica após tantos traumas, passa obrigatoriamente pelo difícil obstáculo do perdão.





* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, na caixa "Cinema Faroeste, Vol. 4", que conta ainda com os seguintes títulos: "Nas Margens do Rio Grande" (1959), "Barquero" (1971), "Paixão de Bravo" (1952) e "Fora das Grades" (1955).