quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O cinema como recurso educacional


Um dos erros mais terríveis que um professor pode cometer é subestimar seus alunos. Sei que hoje em dia o ambiente escolar é bem diferente do que eu vivi outrora, os pais omissos acreditam que é dever exclusivo do estabelecimento educar as crianças, pequenos delinquentes que só faltam bater nos mestres, sem qualquer respeito pela figura de autoridade. Mas eu creio estar escrevendo agora para jovens muito bem educados e pais presentes e responsáveis. Quando eu era pré-adolescente, a minha escola indicava a leitura de obras tematicamente pouco interessantes, aquelas histórias genéricas que vinham com a faixa etária do leitor indicada na capa. Eu estava acostumado a tentar decifrar os mistérios da Agatha Christie no sofá de casa, aquelas aventuras bobinhas eu lia em um par de horas, apenas pra fazer os exercícios. Então eu compreendia a reação sonolenta de meus colegas de classe que não utilizavam livro sequer como aparador de porta. Se o objetivo da escola era incentivar o hábito da leitura, estavam falhando miseravelmente. O mesmo ocorria com relação ao uso do cinema em sala de aula.

Eu entendo que uma escola não pode arcar com um profissional responsável pela curadoria cinematográfica, mas bastaria bom senso e um mínimo de empatia para perceber que mostrar um filme nacional ruim sobre a época do Brasil colonial para uma turma de crianças não era uma boa ideia. Se eu já não fosse apaixonado por filmes, desde que conheci “Ben-Hur” aos quatro anos, em VHS, provavelmente aquelas sessões escolares teriam me traumatizado para o resto da vida. Esses erros ocorrem porque a criança usualmente é vista pela escola como uma caricatura estereotipada, padronizada, ao invés de um jovem adulto em formação. Eu tive a sorte de ter um professor rebelde e conhecer em uma dessas sessões o trabalho anárquico do Monty Python. Quem me apresentou esse grupo inglês foi Luís Felipe, meu professor de História em um colégio de freiras, um herói que ludibriou a supervisora dizendo que “A Vida de Brian” tinha bonitas mensagens católicas. Ele ensinou, com essa atitude, que o cabresto nunca é uma opção válida. Até hoje eu me recordo da gargalhada coletiva da turma em vários momentos do filme, enquanto as freiras vigiavam do lado de fora da sala, tentando entender o motivo de tanta alegria, afinal, nunca havíamos nos comportado assim nas exibições usuais de filmes religiosos e do Telecurso.

Tudo o que aprendemos nas salas de aula, as informações que memorizamos para tirar boas notas em todas as matérias, nada disso ajuda a formar um bom caráter. A aluna mais inteligente da turma, aquela que se força a acertar sempre todas as questões das provas, pode ser um monstro dentro de casa, ignorando sua empregada doméstica e tratando os pais como lixo. O rapaz que passou no vestibular com louvor e está sendo aplaudido pela família por ter escolhido a faculdade de Direito, pode estar interessado apenas em aprender maneiras rentáveis e legais de passar a perna nos outros. Uma dica para os pais: Não se preocupem tanto com as notas de seus filhos na escola, incentivem neles desde criança o hábito da leitura e o amor pelos filmes. Apenas o interesse pelo garimpo cultural realmente forja o caráter e os valores de um indivíduo. O cinema é uma ferramenta importantíssima na educação escolar, como irei abordar de forma didática abaixo:

- Apresente para a turma duas versões cinematográficas para uma mesma história, por exemplo, “O Conde de Monte Cristo” de 1975 e 2002. E, ainda melhor, complemente indicando a leitura da obra original de Alexandre Dumas, pai. A trama de vingança será devorada pelas crianças, uma aventura que eles nunca irão esquecer. Apresente também versões em quadrinhos. E estimule o debate sobre as diferenças que eles notaram entre as duas versões, quais aspectos foram mais bem trabalhados em cada adaptação, o que poderia ter sido mais fiel ao livro, ou se a opção pela liberdade poética foi um acerto do filme. O cinema ajuda a despertar o senso crítico do aluno.

- Ao invés do professor de História estimular a memorização de perguntas e respostas, que ele desperte no aluno o real interesse pelo assunto abordado. E qual a melhor forma de conseguir isso? Indicando como dever de casa uma sessão de um filme que aborde o tema. Se o tema é a Segunda Guerra Mundial, prepare um debate na semana seguinte sobre a experiência dos alunos com “A Noviça Rebelde”, “A Lista de Schindler”, “O Pianista” e “Cemitério dos Vagalumes”. Quatro produções que abordam o tema de maneiras completamente diferentes, com estilos distintos: musical, drama e animação. O cinema ajuda a despertar a empatia do aluno pelo tema abordado na matéria.

Você não precisa ser analista do comportamento humano para constatar que a situação atual da educação no Brasil está vergonhosa. É o momento exato pra que a zona de conforto educacional seja abalada positivamente por um ímpeto criativo ousado. Que os professores de amanhã entendam que o mais importante é ajudar na formação de bons caracteres, indivíduos que verdadeiramente tenham sido incentivados corajosamente a romper moldes, na busca pelo aperfeiçoamento constante. São esses jovens de amanhã que irão fazer dessa nação uma terra digna em que o orgulho ufanista seja uma realidade tangível, não uma série de discursos vazios. A raiz do problema está na base educacional. O cinema pode ajudar...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

"De Vento em Popa", de Carlos Manga


De Vento em Popa (1957)
Num transatlântico, Chico (Oscarito), um falso taifeiro e Mara (Sonia Mamede), sua parceira numa dupla sertaneja, querem participar de um show a bordo. O show é promovido por Sérgio (Cyll Farney), que volta dos Estados Unidos onde fora estudar energia nuclear a mando do pai, mas que acabou se interessando mesmo em aprender bateria e música popular. Seu sonho: montar uma boate. Tentando iludir o pai e realizar seu sonho, Sérgio convence Chico a se passar por um famoso professor de energia nuclear, e Mara, sua assistente. 

“De Vento em Popa”, dirigido por Carlos Manga, não é simplesmente a melhor produção da Atlântida, eu o considero um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos e uma das melhores comédias musicais da história do cinema. É uma pena que nossa indústria não valorize a memória, pois tenho certeza que se esse trabalho fosse restaurado iria cair nos braços do público jovem atual. A imagem e, principalmente, o som, muito ruins da cópia que é comercializada, comprovam o descaso vergonhoso da nação com a própria cultura. Muitos celebram a parceria entre Oscarito e Grande Otelo, mas creio que não supera a química entre Oscarito e Sonia Mamede. O que me impressiona na trama é como ela utiliza diversas vertentes cômicas com a mesma eficiência, trabalhando o leitmotiv do contraste entre o erudito e o popular, algo que já se mostra presente na trilha sonora dos créditos iniciais, alternando um estilo clássico instrumental com o samba mais despretensioso. De maneira didática, exemplifico abaixo com sete variações:

1) Humor que interage entre cenas pela edição: A montagem em que Dóris Monteiro se olha no espelho e se sente feia, que segue para a cena em que um avaliador constata a necessidade de reparos no local da festa (“realmente está um pouco maltratada”).

2) Humor na subversão de construção de personagem: Sonia Mamede discute com o pianista italiano na língua dele, surpreendendo o arrogante maestro. O roteiro subverte o tipo caricatural nordestino que havia sido estabelecido desde a apresentação dela como clandestina no navio. E, na mesma cena, logo depois de Monteiro cantar “Chove Lá Fora”, Mamede retoma o sotaque carregado com um hilário elogio: “Até que tu tem um gargarejo positivo”.

3) Humor como elemento crítico: A empregada da mansão argumentando sobre o que é uma entrevista jornalística (“Entrevista? Entrevista é tudo aquilo que a gente diz e não sai publicado”).

4) Humor físico: A empregada bêbada chocando a famosa cantora lírica, vivida por Zezé Macedo, lutando para se manter de pé. Gag similar seria vista anos depois em “Um Convidado Bem Trapalhão”, de Blake Edwards, e até no francês “A Gaiola das Loucas”, de Édouard Molinaro.

5) Humor silencioso: Sequência genial entre Oscarito e Zezé Macedo, ignorando que dividem o mesmo quarto. A brilhante execução me remete à clássica cena do espelho humano em “O Diabo a Quatro”, dos Irmãos Marx.

6) Humor puramente verbal: O roteiro entrega uma cacofonia de tom popular, vulgar, como “O álbum da minha vida”, mas também brinca superestimando o público, uma piada que valoriza o estofo cultural, como quando Macedo aborda sua experiência na ópera “La Traviata”: ‘Que tuberculosa linda que eu fiz!”. O público de hoje provavelmente não compreenderia essa piada.

7) Humor musical: A letra de “Mocinho Bonito”, cantada por Monteiro, aborda com humor a hipocrisia dos que tentam se passar por cultos, elegantes, construindo uma fachada frágil, um verniz que se desfaz ao primeiro sinal de confronto intelectual. A música encerra o arco narrativo dos personagens, dando lugar na sequência para o grand finale, a apresentação de Oscarito como Melvis Prestes, paródia impagável do rei do rock norte-americano, cantando “Calypso Rock”. Ao optar inteligentemente por não forçar a mão na caricatura, solicitando que Carlos Imperial ensinasse ao ator os movimentos da dança, Manga entrega um retrato fiel da explosão do gênero na década de cinquenta, com a câmera acompanhando os passos frenéticos de Mamede e Oscarito, com direito a bola de chiclete e muitas piruetas. Elvis uniu o erudito e o popular, ninguém melhor que ele pra ser homenageado nesse desfecho. 

Ao contrário de muitas produções nacionais da época, todas as músicas são excelentes e são muito bem inseridas na trama. Perceba a beleza na fotografia elegante da sequência romântica à meia-luz, ao som de "Dó Ré Mi", de Fernando César, entoada delicadamente por Dóris Monteiro acompanhada ao piano por Cyll Farney. É o momento mais bonito já capturado nas produções da Atlântida. Oscarito e Mamede dão show de carisma em "Tem Que Rebolar" e "O Delegado no Coco". Para finalizar, ouso dizer que nenhum filme do Cinema Novo conseguiu exibir, de forma tão ousada e, acima de tudo, eficaz, críticas sociais como as propostas por Manga nessa comédia popular. Oscarito cofiando sua barba feita de pelo de rabo de cachorro, mantendo seu disfarce de cientista aristocrático, acerta o alvo com mais pungência do que todos os exercícios umbilicais dos diretores nacionais usualmente mimados pelos pseudointelectuais. 

domingo, 14 de agosto de 2016

"Taxi Driver", de Martin Scorsese


Taxi Driver (1976)
Inspirado por “O Diário de Um Padre”, de Bresson, o roteirista Paul Schrader evoca o tema do homem esforçado que lida com o fracasso em um cenário hostil nessa obra-prima dirigida por Martin Scorsese. Travis Bickle, vivido brilhantemente por Robert De Niro, quer se misturar aos elegantes cidadãos que utilizam diariamente seu trabalho como motorista de táxi nas madrugadas, como ele mesmo afirma, quer ser exatamente como aqueles estranhos que analisa minuciosamente pelo espelho retrovisor e pela janela, mas nunca se interessou por cultura, despreza os livros, típico analfabeto funcional, uma ignorância que alimentou o machismo e o racismo que já se faziam presentes em sua personalidade.

Sem noção alguma de elegância, carrega uma jovem que acaba de conhecer para dentro de uma sala de cinema pornô. Em outro momento, ele aponta um revólver para a imagem de um negro sorridente na televisão. Ele não sabe se comportar socialmente, como veterano de guerra na Marinha foi acostumado apenas a seguir ordens sem questionamento, experiência traumática de vida que garantiu a ele uma insônia crônica, motivo principal que o leva a escolher essa profissão. A violência estimulada em sua formação militar é a única forma de expressão que ele considera confortável.

Ele não é julgado pela lente da câmera, grande mérito, o espectador é convidado a acompanhar de forma intimista suas ações cada vez mais radicais, tentando compreender suas motivações psicológicas. A cor vermelha que ilumina seus olhos na cena de apresentação, a mesma que retorna ao final como prenúncio de que o personagem continua se sentindo desafiado pela sociedade, o simbolismo de alerta no sinal de trânsito que obriga o motorista a parar seu veículo para a passagem dos pedestres, seres que ele considera inferiores na lei da estrada. O elemento do desafio é musicalmente definido pelo crescendo de suspense no tema de Bernard Herrmann, em sua última composição, uma sucessão de acordes clusters representando o desespero de um solitário que se considera um intruso em um sistema corrompido, desembocando eventualmente em um melódico e suave saxofone jazzístico, símbolo de uma Nova Iorque romântica, ilusória, que existe na mente do personagem como projeção de futuro, após ele efetuar a limpeza de toda a podridão que infesta suas ruas.

Ele até tenta orquestrar um atentado político contra um senador, motivado por uma ideologia que ele sequer compreende bem, mas o plano não dá certo, ele então redireciona o alvo para uma fonte de maldade mais óbvia, sem tons de cinza, o malandro de rua (Harvey Keitel) que agencia os serviços sexuais de uma criança (Jodie Foster). Como todo ignorante, Travis é um conservador extremista totalmente inseguro, inclusive de sua masculinidade, o que pode ser constatado na cena mais famosa da obra, onde ele encara seu reflexo no espelho e teatralmente ensaia variações de sua reação agressiva aos possíveis valentões que tentarem bloquear seu ato de heroísmo, para, logo depois, ser mostrado deitado descansando em posição fetal. Na tentativa de minimizar a insegurança, ele modifica seu corte de cabelo comportado para um rebelde moicano, a única maneira de colocar em prática suas ideias é transformando aquele reflexo em outro indivíduo irreconhecível.

A catarse provocada pelo massacre que ele desajeitadamente promove no prédio do cafetão incita uma crítica social que ainda se mantém atual. Travis, o psicopata monstruoso, acaba sendo visto pelo povo e pela mídia como um herói celebrado em manchetes de jornais, que ele orgulhosamente cola nas paredes de seu quarto. Até mesmo a mulher de seus sonhos, bela Cybill Shepherd, demonstra sentir remorso pela maneira rude como o tratou anteriormente. A sociedade estúpida coloca assassinos em destaque nas capas das revistas, o herói da favela é o dono da boca, aquele que espanca e prende um bandido no poste é aplaudido, o político que irresponsavelmente defende o atroz conceito de direitos humanos pra humanos direitos é mitificado como luz no fim do túnel, enfim, a glorificação do absurdo. A ironia máxima, o taxista de Scorsese se torna, da noite para o dia, o ídolo de uma cidade que ele odiava. 

sábado, 13 de agosto de 2016

"Uma Noiva em Cada Porto", de Howard Hawks


Uma Noiva em Cada Porto (A Girl in Every Port – 1928)
Com essa comédia tematicamente simplista, o roteirista/diretor Howard Hawks mostrou que tinha talento para equilibrar classe na execução com cativante leveza no tom, característica que o faria ser reconhecido no futuro como o maior símbolo de versatilidade da indústria norte-americana. Analisando fora do contexto, não é um grande filme, nem pode ser considerado especialmente relevante dentre os projetos da era do cinema mudo, mas é o melhor trabalho da primeira fase de Hawks, um roteiro que insinuava caminhos narrativos que seriam explorados durante toda a sua carreira.

Na trama estruturada de forma episódica, dois marinheiros, vividos por Victor McLaglen e Robert Armstrong, lutam pela preferência das garotas que encontram em todos os portos. Os nomes dados aos dois enfatizam o humor fálico popularesco: Espeto e Salame. Eles marcam presença até no Rio de Janeiro, onde, claro, o sobrenome da fogosa dama vivida por Maria Casajuana e o seu endereço enfatizam nossa língua pátria, pelo menos aos olhos do mundo, o espanhol. Eles chegam a interromper uma típica briga de bar, para investirem juntos contra a força policial do local, uma camaradagem que evidencia a beleza da competitividade amistosa. Na conclusão, a amizade acaba falando mais alto que a disputa deles pelas garotas, iniciando o que seria um leitmotiv clássico em sua filmografia, a história de amor entre dois homens.

O elemento que realmente faz do filme algo a ser lembrado leva o nome de Louise Brooks. A jovem, que havia largado a dança para se focar na atuação, era casada com um amigo do diretor. O seu jeito irreverente, seguro e espevitado acabou caindo como luva em sua Marie, artista circense, sempre mostrada vestindo um maiô colado na alma, defendido por um dos rostos mais bonitos de sua época. A cena em que ela provoca o amigo do atual namorado na frente dele é de uma sensualidade impressionante. Ela aparece numa sequência que dura cerca de vinte minutos, tempo suficiente para atrair a atenção do diretor austríaco G.W. Pabst, que imediatamente tirou Marlene Dietrich da jogada e ofereceu para a garota do corte de cabelo exótico, rebeldia irresistível, o papel principal em “A Caixa de Pandora”, obra-prima muda que a tornou mundialmente conhecida e desejada. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Chumbo Quente - "O Homem Com a Morte nos Olhos", de Burt Kennedy


O Homem Com a Morte nos Olhos (Welcome to Hard Times – 1967)
O prefeito Will Blue (Henry Fonda), do vilarejo de Hard Times, é um homem de 50 anos que veio àquele lugar isolado para fugir de confusão. Essa cidade é agitada de tempos em tempos, quando trabalhadores de uma mina próxima aparecem para se divertir no saloon. Mas afora esses momentos, o lugarejo fica deserto. Mas a tranquilidade desejada por Blue é abalada quando chega um misterioso pistoleiro ao saloon. Em poucas horas, ele mata impiedosamente várias pessoas e coloca fogo nos poucos barracões que formavam a cidade. A maioria dos habitantes deixa o lugar, mas Blue fica, pois sabe que o assassino um dia irá voltar. E para esse novo encontro o prefeito estará determinado a não fugir.

O projeto foi inicialmente feito para a televisão pela MGM, buscando alcançar o público jovem norte-americano do flower power, mas acabou sendo exibido em salas de cinema. O roteirista/diretor Burt Kennedy, responsável pelos roteiros psicologicamente instigantes dos faroestes do ciclo Ranown, de Budd Boetticher, adapta com bastante fidelidade o livro homônimo de E.L. Doctorow. O refinamento ficou garantido com a fotografia impecável de Harry Stradling Jr., complementada por um elenco de grandes nomes, como Henry Fonda, Lon Chaney Jr., Warren Oates, Elisha Cook Jr. e Keenan Wynn, mas quem realmente impressiona é Aldo Ray, vivendo o silencioso e enigmático “homem de Bodie”, que justifica o nome da cidade (hard times, tempos difíceis) com sua passagem destruidora. O filme, assim como o livro, trabalha a desconstrução da imagem mítica do Velho Oeste, algo mais próximo do que os italianos estavam fazendo com o gênero no período. Ainda que o ritmo irregular do segundo ato prejudique um pouco a experiência, os últimos vinte minutos complementam muito bem o excelente primeiro ato. Todos os esforços do protagonista em reconstruir a cidade são frustrados, assim como são frustradas as suas tentativas de retirar do menino órfão o ímpeto pela vingança, subtrama que soa como uma paródia proposital da relação de Shane e seu pequeno admirador em “Os Brutos Também Amam”. 

O elemento destruidor é representado em tons oníricos, sempre com um sorriso mefistotélico e sem qualquer justificativa para suas ações, quase como se fosse uma força primal destinada a corromper a cidade, microcosmo da civilização. E, vale salientar, não se trata de um índio, figura usualmente demonizada no western norte-americano, o que potencializa o direcionamento ousado da trama. O prefeito, consciente de que está sendo punido por sua covardia no primeiro ataque, terá que enfrentar até mesmo sua insegurança com um revólver, outro detalhe que engrandece esse anti-western. Ele chega a afirmar: “Qualquer homem pode portar um revólver, mas você precisa sozinho apertar o gatilho”. Blue não é o herói clássico das pradarias, está longe disso, ele defende uma postura que poderia ser considerada essencialmente feminina, preocupado apenas em estabelecer um local seguro, enquanto a prostituta Molly (Janice Rule) adota a postura típica dos vaqueiros de Hollywood, determinada a meter uma bala no meio da testa do vilão, um aspecto que pode ter colaborado para as injustas críticas negativas que a obra recebeu à época.

* O filme está sendo lançado em DVD, com a opção da dublagem clássica da BKS, pela distribuidora “Classicline”.