sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

"Celine e Julie Vão de Barco", de Jacques Rivette


Celine e Julie Vão de Barco (Céline et Julie Vont en Bateau – 1974)
O diretor Jacques Rivette faleceu recentemente, um dos críticos franceses da geração de ouro da Cahiers du Cinéma, colega de Truffaut, Godard, Rohmer e Chabrol, dentre outros, intensamente criativo em teoria, porém, problemático na execução. Os seus filmes ultrapassam generosamente duas horas de duração, o que, quase sempre, ocasiona o enfraquecimento do impacto de suas boas ideias. Poucos são os filmes que verdadeiramente se beneficiam com mais que cem minutos, tempo suficiente para contar eficientemente qualquer história.

Dito isso, eu gosto bastante de “Celine e Julie...”, “Paris nos Pertence”, “A Duquesa de Langeais” e “A Bela Intrigante”, especialmente o primeiro e o último, onde o conceito do tempo acaba funcionando narrativamente como o destruidor das expectativas convencionais de um cinéfilo. As mais de três horas de “Celine e Julie...” intensificam a noção de que tudo é possível, o público está admirando um terreno inexplorado e imprevisível, a imaginação fértil das duas personagens. Quando o cineasta utiliza um novo padrão de signos visuais, o espectador fica como um cego tateando o caminho, buscando formas de responder a algo que desconhece, sem os reflexos programados pela indústria. A óbvia referência à Alice de Lewis Carroll na cena inicial, que se repete, com os papéis trocados, no desfecho, mostrando uma das duas amigas como sendo o elemento de caos que se insere no rotineiro, representando o coelho que estimula a menina a descobrir um mundo novo, introduz ao espectador essa noção.

As duas, brincalhonas e inconsequentes, acabam encontrando uma mansão assombrada, outro núcleo de atores, uma espécie de teatro dentro do filme. Rivette, como sempre, faz parecer que a trama está sendo descoberta no processo de produção, a história tem vida própria. Com o auxílio de pequenas balas que, quando consumidas, fazem com que elas enxerguem passivamente o desenrolar da trama de mistério que ocorre dentro da mansão, o roteiro coloca as personagens no papel do público, reagindo aos estímulos audiovisuais. Ao optar pela repetição frequente das cenas desse segundo núcleo, nos mesmos enquadramentos, algo que faz com que as jovens cheguem até a memorizar as falas, o diretor critica a indústria e o cinéfilo que se permite adestrar cognitivamente. Nos últimos vinte minutos, ponto alto do filme, as jovens decidem participar ativamente daquela história, a linguagem do cinema, com suas ferramentas únicas, invade com muito bom-humor o terreno do teatro, desconstruindo cada situação com o frescor do improviso, potencializando a crítica já citada, mostrando que a narrativa, muito mais do que a história, é o que verdadeiramente cativa o público.

Não há lógica, não há regras, uma visão libertária de como poderia ser o cinema, caso o ser humano não preferisse o conforto fornecido por aquele sistema de regras que já conhece. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Cine Bueller - "Splash, Uma Sereia em Minha Vida"

Link para os textos do especial:


Splash – Uma Sereia em Minha Vida (Splash – 1984)
Allen Bauer, um rapaz decepcionado com a vida amorosa, depois de sofrer um acidente em alto mar é salvo por Daryl Hannah. Ela é tudo o que ele sempre quis na vida. Ela também. O par perfeito. Ou melhor, seria, se ela não fosse uma sereia.


Já comentei diversas vezes sobre o carinho que nutria por John Candy na infância, ele era um dos meus atores favoritos, um amigo que reencontrava em variados personagens, mas sempre com aquele jeitão boa praça. Esse foi um dos filmes responsáveis por esse carinho. Meu primeiro contato não foi pela “Sessão da Tarde”, meu pai tinha o filme gravado em VHS, mas as frequentes exibições vespertinas eram sempre uma garantia de diversão, um porto seguro. É difícil explicar, mas pra minha geração, encontrar no susto um filme querido sendo exibido na televisão, dava uma alegria tremenda, sorriso largo, enquanto esperávamos dar o comercial, pra ir até a cozinha e preparar o acompanhamento perfeito: refrigerante e biscoitos.

Eu passei boa parte da minha pré-adolescência apaixonado pela Daryl Hannah, a sereia mais adorável do cinema, capaz de presentear seu namorado com a fonte da praça da cidade. Tom Hanks, na fase mais despretensiosa de sua carreira, auxiliado por Candy e o hilário Eugene Levy, que ficou mais conhecido, anos depois, como o pai do protagonista de “American Pie”, um trio que compensa qualquer problema com um carisma imbatível. É perceptível a luta deles para manter a seriedade em algumas cenas, como a do resgate da sereia no terceiro ato, onde Candy, fingindo ser um médico estrangeiro, improvisa o seu melhor sueco. E como não simpatizar com um personagem que é mostrado, quando criança, jogando moedas no chão pra conseguir ver as calcinhas das meninas? Um verdadeiro traquina, no linguajar dos antigos da era pré-internet. O contraste entre a inocência da jovem que descobre um mundo novo e o olhar cansado do workaholic, um ponto que o ótimo roteiro sempre busca evidenciar, engrandece o que poderia ser apenas um projeto infanto-juvenil bem-intencionado.

O diretor Ron Howard, especialista em reforçar a mão do verniz de ternura em suas obras, encontrou nessa trama um veículo perfeito. Eu me sentia muito desconfortável na sequência que conduzia para a revelação, a prova da eficiência na construção e no tom da cena, o momento em que o personagem de Levy consegue finalmente jogar água na Madison, que acaba sendo levada para um aquário gigante. No VHS, era o momento em que eu, ainda criança, decidia parar a fita e ver o que estava passando na televisão, ou, na maior parte das vezes, avançava para o final da história. Era uma sensação angustiante parecida com a que eu sentia quando estava de noite, a luz desligada no quarto, e passava aquela soturna mensagem de Jesus nos intervalos do SBT, “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras...”, trauma para o resto da vida.

Até hoje considero “Splash” uma das melhores comédias românticas do cinema, todos os ingredientes funcionam. O único problema é que deve ter havido uma alta incidência de casos de meninos pulando de barcos em alto mar, na vã esperança de serem resgatados por uma sereia, como o pequeno Allen. É compreensível.  

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

"Dança Comigo?", de Masayuki Suo


Dança Comigo? (Shall We ダンス? – 1996)
Esse belo filme japonês, dirigido por Masayuki Suo, normalmente é eclipsado por sua inferior refilmagem norte-americana, um pecado, já que a trama do original exala sensibilidade, sem o apego melodramático das produções hollywoodianas. Afirmar que se trata de uma história sobre dança seria reduzir a grandiosidade metafórica do roteiro, uma ode ao poder libertador daquele que se desprende de preconceitos em busca de uma forma única de autoexpressão. O protagonista, vivido por Kôji Yakusho, casado e com uma filha adolescente, exerce diariamente sua função em um trabalho burocrático que, em sua essência, desencoraja qualquer rompante que fuja do padrão monocromático de seu ambiente. O colega que esconde uma vida dupla se esforça para manter seu segredo no caminhar robótico por entre as mesas, um detalhe que também serve como alívio cômico.

Ao voltar pra sua casa, admirando a vista da janela do trem, ele se encanta com a figura melancólica de uma bonita professora de dança, vivida por Tamiyo Kusakari, num prédio próximo. Sem contar a ninguém sobre sua paixão platônica, o homem decide tomar coragem, saindo de seu caminho rotineiro, adentrando então na escola de dança, um ato que é tido pela fria sociedade japonesa como algo vergonhoso. O primeiro aspecto fascinante no roteiro, o interesse principal dele, que vai além do encantamento pela beleza da professora, uma preocupação sobre os motivos que a tornaram melancólica, uma curiosidade sobre o que se esconde por trás dos olhos tristes daquela estranha. Ao subir as escadas sem disfarçar o nervosismo, o homem parece estar se aproximando de um bordel, um local proibido, uma coreografia que encontra rima visual num momento posterior, quando a esposa dele vai ao encontro de um detetive particular, suspeitando que o marido a está traindo.

Não demora muito para que o desejo carnal dê lugar ao amor genuíno pela dança, assim que ele faz amizade com as professoras e outros estudantes iniciantes. A aventura romântica deixa de objetivar a figura do outro, passando a ser uma exploração interna, um aprendizado sobre a necessidade do companheirismo, metáfora da dança da vida, sobre a importância de proteger a parceira e conquistar harmonia em grupo. Sem efetivamente satisfazer sua paixão, ele aprende que no ato de respeitar e ser respeitado, na beleza da admiração mútua, pode estar encapsulado uma forma de amor muito mais plena e gratificante.

* O filme, até então inédito no home vídeo nacional, está sendo lançado em DVD pela distribuidora: “Classicline”.

Razzle Dazzle - "No, No, Nanette" / "Paris em Abril" / "Gypsy"


Coleção Dose Dupla – Doris Day:
No, No, Nanette (Tea For Two – 1950)
Nanette Carter, uma jovem que sonha em se tornar uma grande estrela da Broadway, envolve-se com um produtor teatral ambicioso e mal intencionado. A jovem decide então pedir patrocínio ao seu querido e rico tio Max, porém à beira da falência e cheio falcatruas. O tio topa o patrocínio mas impõe a ela um desafio inusitado para conseguir a quantia desejada.
Paris em Abril (April in Paris – 1952)
Em Washington, Winthrop Putman é Secretário Assistente do Assistente do Subsecretário de Estado. Para participar do Festival de Artes de Paris, o governo decide convidar a grande atriz Ethel Barrymore. Em vez disso, o convite é recebido e aceito por Ethel “Dynamite” Jackson, uma corista de All-American Broadway.


Duas adoráveis produções da Warner, dirigidas por David Butler, com exuberante Technicolor. “No, No, Nanette” marca a primeira vez em que Doris Day é vista dançando, em seu primeiro papel de destaque, garantindo a maior bilheteria do ano na produtora. O roteiro, tomando muitas liberdades na adaptação da peça original da Broadway, não foge dos clichês das comédias musicais da época, mas a atuação leve e confiante da protagonista compensa qualquer problema. Vale destacar a bela interpretação da canção “Tea for Two”, composta por Vincent Youmans e Irving Caesar, com a jovem ao piano. “Paris em Abril” conta com a presença do grande Ray Bolger, o eterno espantalho de “O Mágico de Oz”, um dos maiores dançarinos de Hollywood, quase sempre ofuscado por Astaire e Kelly. O filme, assim como o anterior, conquistou a maior bilheteria do ano na Warner. A canção-título “April in Paris”, assim como “I’m Gonna Ring The Bell Tonight” (um show de Bolger) e “That’s What Makes Paris, Paree” (com Claude Dolphin), merecem destaque.


Gypsy – Em Busca de Um Sonho (Gypsy – 1962)
Cinebiografia romanceada da dançarina Gypsy Rose Lee, pioneira americana do teatro burlesco e do strip-tease, mostrando os tempos de dançarina burlesca e os conflitos com sua dominadora mãe Mama Rose.

Um dos musicais mais trágicos da história do cinema, o roteiro aborda a questão da busca pela fama a qualquer preço, o que se esconde atrás do glamour do mundo dos espetáculos. Louise, vivida pela inesquecível Natalie Wood, é uma jovem que nunca se interessou pela carreira artística, algo que sua egoísta mãe, uma impecável interpretação de Rosalind Russell, nunca respeitou, já que tenta extravasar com a filha uma frustração de infância na área. A menina, que sempre se considerou feia e sem talento algum, acaba realizando o desejo da mãe, não nos palcos de Vaudeville, mas, sim, atuando com sucesso como dançarina burlesca. Essa vingança encontra tons amargos quando a jovem compreende que nunca irá ser respeitada em uma função que se resume a se despir para o deleite dos homens. O roteiro acerta ao não transformar a mãe em um monstro, já que ela também é vítima de uma parentalidade irresponsável. Uma obra fascinante que merece ser redescoberta.

* Os filmes, até então inéditos no home vídeo nacional, estão sendo lançados em DVD pela distribuidora: “Obras-Primas do Cinema”. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Entrevista com Paulo Braz Clemencio Schettino, professor de cinema


Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso com o amigo Paulo Braz Clemencio Schettino, professor de cinema e cineasta, que escreveu o livro "De Bello Media - O Novo Cinema Brasileiro".

O – Querido amigo, em um carinhoso comentário seu na postagem do meu texto sobre o filme “Ela”, você afirma desconfiar que a preocupação doentia de substituir o real pela imagem na sociedade, tema central do filme, pode ter começado com o próprio cinema. Achei fascinante essa análise. Peço que desenvolva isso, agora que já viu o filme.

P - Repriso em sessão vesperal o que antes demonstrei da satisfação com que recebi teu convite para escrever sobre o Cinema. Sensação de honraria sentida que cumpro com grande prazer.

O filme “ELA”/Her, de Spike Jonze (2013) pode ser visto  a nosso ver como um exemplar do gênero ‘Ficção Científica’ no Cinema, com uma ressalva: ao invés de tratar de projeções de futuro baseando-se nas mais recentes supostas verdades da Ciência já que deriva do que chamamos ‘Literatura de Antecipação’, traz uma diferença - trata de uma realidade já existente visto existir um grande percentual dos atuais humanos a viverem exclusivamente em contato direto com seu imaginário particular via computadores (semelhante ao filme “Gattaca”/idem que aborda a Engenharia Genética existente em um presente, mas, colocado como algo em ‘futuro não muito distante’).

O título com que foi lançado no Brasil nos remete à primeira versão do romance de aventuras do escritor inglês Sir Henry Rider Haggard – “Ela, a feiticeira” realizado na década de 30 com o jovem Randolph Scott, antes do faroeste, no papel do atual Joaquin Phoenix.  E a antiga “Ela” agora se transforma em ‘Dela”/Her – deixando para trás o pronome de caso reto em direção ao oblíquo, e a personagem feminina cede o protagonismo para a personagem masculina que ocupa quase 100% o tempo todo de tela.

Sim, acreditamos! Foi com o Cinema que tudo começou.  

Aos poucos as imagens de mulheres e homens, transformados em estrelas a iluminar os céus ilusórios, foram substituindo as pessoas de ‘carne e osso’, por décadas, dos anos 20 até nossos tempos.   Confere com a personagem feminina de Woody Allen em “A Rosa Púrpura do Cairo” que graças à revolução da tecnologia digital, agora, poderia ‘ir para a cama’ não com Ela ou Ele, e sim com sua imagem, Dela ou Dele. É definitivamente possível  abandonar a primeira realidade de nossa circunstância e mergulhar por inteiro no sonho ou fantasia. E tudo começou no. . . e com o Cinema.  

Faz parte da ideia do Cinema ocupar a ambiência onírica de tal forma que a ilusão se complete a ponto de esquecermos as nossas vizinhanças e não mais perceber onde estamos e sequer o incomodativo vizinho da cadeira, o irritante barulhinho do desembrulhar de seu dropes -  mergulhados que estamos em quase outra dimensão.   Quando tem mão de mestre e o Filme é bom engole-se a Mentira esquecidos que estamos diante de uma Representação, e não da própria Vida! E rimos, choramos, sofremos. . . e, conforme Aristóteles, depuramos nossa Alma com a Alegria ou o Sofrimento alheio. Aos poucos, na saída do cinema retomamos o nosso estado de ‘normalidade’ e caímos ‘na real’!

O – Sempre digo, de forma simbólica, que o cinema nacional precisa se libertar de Glauber Rocha. Os estudantes saem das faculdades sendo doutrinados a endeusarem a estética da fome, desprezando o cinema de gênero. Não há maneira de construir uma indústria de cinema desprezando gêneros, somente a prática leva à perfeição. Como você enxerga essa questão?

P - No nosso entender, mais do que a ‘estética da fome’, deve-se sepultar uma falácia atribuída ao diretor baiano que faz os iniciantes crerem que para fazer Cinema ‘bastariam uma câmera na mão e uma ideia na cabeça’. Nada mais perigoso para quem pretende começar a fazer filmes. Disseminou-se também a outra falácia que o mestre Fellini ia para os estúdios sem Roteiro – hoje temos disponíveis os seus desenhos de produção próximos de um story board, portanto, planejamento a priori. 

Insistimos ser o Cinema, desde o seu início e sempre, dependente da Luz que é a sua Ferramenta mor, perseguir o Sonho, seu Objeto de Desejo – e o Filme, o seu Produto.   Os gêneros de filmes são tão livres quanto a nossa imensa liberdade de sonhar – ninguém coloca cercas no universo dos sonhos.  Nessas paragens as contextualizações espaciais e temporais deixam de existir e nos aprisionar e nos liberamos dos grilhões dos 1D, 2D, 3D . . . tornando-nos voláteis e etéreos e libertos.  A nossa Dalva de Oliveira um dia cantou: “Que me importa que eu seja pobre/Se quando sonho, tenho o que quiser/Vou sonhar, pra viver.”  

No entanto, a experiência nos ensina que não faz filmes quem não vê filmes, assim como não existe um escritor que não seja bom leitor.  Os livros vêm sendo reescritos a cada geração desde a Antiguidade, e de modo semelhante os filmes vêm sendo refeitos faz mais de cem anos – é o Palimpsesto a que se refere o francês Gérard Genette. 

O mesmo Genette que de acordo com Homero e Aristóteles e Platão nos ensina as bases sobre a questão de Gênero, válido tanto para a Literatura quanto para o Cinema – os arquitextos de ambas as áreas seriam Épicos (feitos para serem lidos ou ouvidos) ou Dramas (próprios para imitação), Trágicos ou Cômicos, e a subdivisão entre Documental ou Ficção. Genette inclusive assume a diversidade de gêneros exposta nas prateleiras das recentes/antigas locadoras de filmes a gosto e escolha do freguês: filmes classificados como de Amor ou Romance; de Guerra; de Espionagem; Faroeste; Cinebiografias; ‘Noir’; e. . . Ficção-científica, inclusive. O que importa e define o gênero seria o Tema.  

Uma cinematografia nacional deveria contemplar essa diversidade de gêneros e subgêneros se quiser atender também a diversidade de seu público.

O – Além do roteiro, um grande problema que temos é a distribuição. Se o filme não tiver o dedo da “Globo Filmes” na produção, ele tem pouquíssimas chances de ser exibido numa sala. E, caso consiga, sua permanência é ridiculamente curta, com tudo jogando contra. O cinema nacional acaba dependendo dos cinéfilos mais dedicados, aqueles garimpeiros que frequentam os festivais. O brasileiro não conhece seu próprio cinema, já que ótimas pérolas nunca são lançadas fora do circuito dos festivais. O grande público, infelizmente, soma no discurso de que nossos filmes são ruins. Como você analisa essa questão?

P - O problema é que as principais bases em que se assenta a Cinematografia não se modificam, como querem alguns, apenas trocando os termos, pois, elas, as bases, é claro, sobrevivem ao tempo independente das palavras que se sucedem por puro modismo – dizer a mesma coisa com novos nomes. 

O famoso tripé que sustentou e sustenta o Cinema continua a existir, ou seja: Produção / Distribuição (venda no atacado) / Exibição (venda a varejo).  

Como nos movimentamos pelas diversas áreas acadêmicas e de Ensino da Comunicação (Imprensa/Jornalismo / Publicidade & Propaganda / Relações Públicas / Rádio-TV-Internet / e Cinema) acabamos misturando os departamentos.   Ao longo de nosso exercício de trabalhador de Cinema cansamos do exaustivo fetiche ou crença do ‘boca-a-boca’ – de que alguns produtores e ou diretores faziam e fazem muita fé. Exibir para algumas pessoas especiais que usufruem do título de ‘formadores de opinião’ ou aqueles que fazem parte do público-alvo a ser atingido é bom e funciona parcialmente, mas jamais será suficiente.   Diz a lenda que a partir de uma ‘preview’ desse tipo é que o mestre Billy Wilder teria modificado toda a sequência inicial de seu filme “Crepúsculo dos Deuses”/Sunset Boulevard – a Hollywood Story (talvez o melhor filme de Metalinguagem do Cinema). 

Os grandes ‘media’ não trabalham sem ganhar – é a Lei do Mercado, sob que vivemos e encontra-se atuante e forte, mais do que nunca.   Sem um grande planejamento e de grande orçamento que os envolva, o público não será alcançado jamais.   Entendemos e divulgamos ser o Cinema uma hierática Esfinge de mil máscaras ou faces, e dentre essas múltiplas faces selecionamos três prioritárias, a saber: Mercado / Medium de Comunicação  /  Arte.  Busca-se com o Filme atingir o público, geral ou segmentado – última instância a que se reduz o ‘outro’ no processo comunicacional, e isso custa muito dinheiro grosso.  Distribuição  e  Exibição continuam, e talvez mais do que nunca, a se constituírem no famoso e antigo ‘gargalo’ a represar uma Produção a exigir que se invista bem mais em estratégias de publicidade do que se gastou na Realização. O filme de Hollywood, antes de ser lançado aqui no Brasil e qualquer outra parte do mundo, em sua grande maioria já chega ressarcido ao novo destino pelo hábito de consumo interno de Cinema nos EUA.  ‘Já se pagou’, como se costuma dizer.  Mesmo contando com a colonização cultural construída por décadas aqui e nos outros países, torna-se  necessário ‘molhar’ as mãos dos media, e regiamente. E isso custa dinheiro! 

Faz-se um exercício de Arte e Comunicação ao parir um Filme que, como se dizia em tempos idos finalmente: “Está na Lata!”, para morrer na praia das prateleiras.
 
Como cantaram  Joel Grey e Liza Minnelli: “Money makes the world go around!”

E tens muita razão – sobraram os festivais para alavancar o Filme.


O – Como você vê o papel da crítica cinematográfica na formação, não apenas de um público mais criterioso, mas, também, de uma indústria sólida? A crítica, que vejo como uma vertente da filosofia, é incompreendida em nossa nação, a leitura não é um hábito. Testemunhamos frequentemente cineastas batendo boca com profissionais da crítica, ou, como foi o caso em “Chatô”, tentando comprar opiniões positivas participando ativamente das cabines de imprensa. Há esperança?

P - Esperança, sempre haverá – esse ente ambíguo criado por Zeus e por ele estrategicamente deixado para existir somente após ser esvaziada a ilusória caixa (?) de Pandora. Etimologicamente, a palavra ‘crítica’ diz respeito à análise e é o que todo espectador de Cinema faz mesmo ao ver atabalhoadamente filmes e filmes – termina-se por adquirir de modo inconsciente a capacidade de comparação e apreensão de sua linguagem e sucessiva aglutinação ou separação em gêneros. A Imprensa do século XIX e XX criou a figura do crítico profissional ao abrigar em suas páginas um texto apreciativo de um espetáculo em cartaz no momento.  Mas, isso gerou uma distorção: a ‘pena a soldo’, típica do Jornalismo malsão. 

Em quantos filmes vimos o Cinema tratar dessa personagem ???  Quantas vezes um filme mostrou a ‘troupe’ teatral esperando ansiosa nos bares ou restaurantes a saída do primeiro jornal matutino com a crítica do espetáculo ???  Quantos filmes ???  Basta-nos lembrar da personagem interpretada pelo ator George Sanders em “A Malvada”/All About Eve, de Joseph Mankiewicz, com poder de vida e morte do espetáculo, e mais ainda, de criar uma nova estrela.

No Brasil, para estudar melhor o assunto nos detivemos nos textos de Ely Azeredo, Sérgio Augusto e José Lino Grünewald, entre outros.  Eram outros tempos em que os jornais de grande circulação no país abrigavam os textos da chamada ‘crítica especializada’.  Na atualidade, para desespero das empresas jornalísticas, o seu público de leitores fiéis e assinantes vêm caindo vertiginosamente – o salutar hábito matinal de leitura acaba e é substituído por sucedâneos meios de informação, as modalidades de TV, principalmente.   Quanto ao ‘povão’ basta-lhe a leitura das manchetes dos jornais pendurados nas bancas de jornaleiros com que se sacia. 

Na atualidade, em tempo das redes sociais na Internet, a crítica cinematográfica voltou a ser exercida em alguns ‘sites’ e ‘blogs’ de Cinema como “Eugênio em Filmes” (http://cineugenio.blogspot.com.br) ou o seu www.devotudoaocinema.com.br, entre outros importantes. Vejo por aqui na Internet uma salutar troca imensa de informações sobre filmes atuais e dos clássicos nos ‘grupos’ que pululam, sejam abertos ou fechados. Importante essa troca de opiniões sobre um determinado filme entre os autonominados ‘cinéfilos’ – uma interrelação entre desconhecidos que descobrem no outro a possibilidade de afirmar seus pontos de vista particulares tanto em acordo quanto desacordo.   Um espaço disponível à expressão de possível discussão entre dois desconhecidos. Seria essa interação o que chamamos de ‘democratização’ cultural?   Creio que o Cinema esteja ganhando com essa prática.   

No nosso entender, a função de ‘crítico de Cinema’ ou ‘de Filmes’ é importantíssima, pois, leva à leitura dos textos os espectadores que desejam confrontar a opinião com a sua, de leigo. Em tempos idos, alguns espectadores só viam os filmes ‘bem falados’ ou elogiados pela crítica. Felizmente, cremos que isso tenha acabado com a diminuição do público leitor da palavra impressa nos jornais e revistas da Imprensa. E eis que se abre um espaço ‘democrático’ para o exercício da Crítica cinematográfica.

O – Quando o cineasta brasileiro consegue colocar um personagem na boca do povo, ele normalmente recua, não investe mais naquilo. O sucesso popular sempre foi um tabu para os intelectuais brasileiros. Tudo que faz sucesso perde o valor. Essa noção limitada de marketing, alimentada pelo complexo de vira-latas, não atrapalha a construção da indústria? Você acredita que mudando essa forma de pensar, abraçando o sucesso popular como algo válido, o cinema nacional tende a crescer?

P - Aqui necessito ir por partes, como gosta o nosso amigo Jack. Ou como nos ensina  o grande imperador César quando afirma ser necessário ‘dividir para conquistar’ o que se pretende. O primeiro período da questão se encerra com:  “. . .  faz sucesso perde o valor (1- até aqui). (Início do 2) Essa noção limitada de marketing. . . “ .

Esse primeiro período tangencia uma bobagem disseminada por alguns realizadores ‘cinemanovistas’ das décadas de 60 e 70.  Há registros, sim, de tais ditos e repetidos, porém, cremos que foram proferidos como mecanismo de defesa prévio antecipando o fracasso de bilheteria – algo como sucede no final da fábula da raposa e as uvas ‘verdes’.  Quando se fala em ‘sucesso popular’ está se falando de ‘público’ destinatário de todo o processo de comunicação. E sem o público pagante inexiste uma produção contínua de filmes o que caracterizaria a existência de uma indústria cinematográfica. Chegou-se bem perto com a carioca Atlântida, ao contrário da paulista Vera Cruz, na virada das décadas 1940 e 50, já que a primeira optou pelo cinema de ‘entretenimento’ e diversão – uma das mais eficazes faces ou máscaras do Cinema. Atrair o público através do entretenimento foi a fórmula aparentemente inocente que forjou a indústria hegemônica estadunidense, e sem abrir mão de colocar subjacentes mensagens ‘educativas’ – bem ao contrário do que jocosamente teria dito em autodefesa perante o macarthismo o diretor e produtor William Wellman (teria alegado que quem pretende enviar ‘mensagens’ se dirige aos correios e não ao cinema).

Agora, uma confissão perigosa: acreditamos quem teria complexo de ‘vira-latas’ seria o nosso povo brasileiro, assaz colonizado por anos e anos de exposição aos filmes de Hollywood. Filme brasileiro para fazer sucesso de bilheteria no Brasil precisa ter o aval de fora. Teria sido o caso histórico de “O Pagador de Promessas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Vidas Secas”, “Toda Nudez Será Castigada”, “A Hora da Estrela”, entre outros.   Segundo o diretor Roberto Farias o sucesso de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” seria uma exceção. Penso que nesse caso específico o aval teria vindo da Televisão com o sucesso popular da atriz Sônia Braga. Assim como a bilheteria do filme “A Dama do Lotação”. O derradeiro suspiro cinematográfico do ator  José Wilker que importou sua personagem da telenovela para seu “Giovanni Improtta” parece não ter funcionado. Como não funcionou no Cinema  as vezes que foi tentado usar o auge de popularidade televisiva da atriz Regina Duarte como chamariz de bilheteria.

O – Seguindo a pergunta anterior, da mesma forma como as chanchadas da Atlântida e Cinédia começaram a ser mais valorizadas hoje, você acredita que esse ciclo de comédias da  “Globo Filmes”, atualmente vistas como lixo tóxico pela crítica, vai pelo mesmo caminho?

P - Tudo é possível, já que entendemos o Cinema como um sucedâneo tecnológico da Fotografia.   Indo além de sua antecessora, o Cinema traz a perenidade ou imortalidade para as coisas e gentes gravadas em movimento.  Duvidamos muito  que o diretor Roberto Santos ao rodar em seu filme “O Grande Momento” o antológico plano-seqüência do giro da personagem de Gianfrancesco Guarnieri dizendo adeus à sua bicicleta tenha sequer imaginado que em um ‘futuro não muito distante’ seria uma peça-chave para pesquisa de estudiosos de História e/ou em Arquitetura e Urbanismo de uma São Paulo desaparecida. Muito menos que a nova ordem mundial ordenaria que em um ‘futuro não muito distante’ as ruas e avenidas das metrópoles de todos os países  seriam pintadas do vermelho uniformizador  das ‘ciclovias’.

Esse olhar nostálgico voltados aos filmes da Cinédia e da Atlântida é importante para as novas gerações que distraídas pela beleza ou feiura do próprio umbigo acreditam piamente que o mundo começou apenas depois que eles nasceram. Usamos os Filmes do Cinema ou suas presenças na Internet em nossas salas-de-aula – os acervos históricos da Cinédia, Atlântida e Vera Cruz deveriam ser de domínio público. A recepção dos filmes pelos alunos é fato inconteste. Mas, não basta ocupar o tempo da aula com a exibição, isso seria e o que muito costumeiro, ‘matar aula’.  Sem a discussão em grupos não deve sequer ser tentado.

Voltando à questão: acreditamos que com o passar do tempo todo filme ganha importância – mesmo uma ficção rasgada vira documental. Scorsese tem razão! Temos que salvar os filmes, independente do valor que a eles se agrega no momento. São registros, são documentos que no futuro um pesquisador lançará mão para nem que seja analisar o momento histórico de sua realização e seu entorno.


O – Considero “A Hora da Estrela” um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos, o melhor em sua década. Como esteve envolvido na produção, peço que compartilhe com meus leitores os bastidores desse lindo filme, fale sobre sua experiência com a diretora Suzana Amaral.

P - 1985 foi um ano emblemático para uma dupla de sonhadores que ousou sonhar o sonho impossível (mais tarde assumido como tal) de viver do trabalho especializado em Finalização e Trucagens para filmes brasileiros de longa metragem. Até uma empresa criamos para o intento,  a 786 Produções  –  6 de Teatro; 7 de Cinema; e 8 de Televisão. De início, como éramos novidade a coisa pareceu deslanchar – foi o ano de “A Dança dos Bonecos”, “A Hora da Estrela”, “Brasa Adormecida” entre outros. A ‘fantasia erótica’ durou muito, uma teimosia por cinco longos anos bem  maior que a do ‘teimoso’ (alcunha como ficou conhecido o jacaré do Rio Tietê), de cavação de trabalhos e dias maiores que 24h – até findar-se no “Kuarup”, de 1990, já no ‘black-out cinematográfico’ total  do governo Collor.

Somente no número 22, de Março/Abril de 1986, de sua 5ª Série a Revista Cinemin finalmente trouxe publicada  uma matéria produzida por nós da 786 Produções sobre ‘os bastidores de “A Hora da Estrela”.   Explico: após assistirmos a cópia final do filme reunimo-nos (a 786 - eu, o meu sócio Osvando -  e a Suzana) em minha casa para decidirmos o próximo passo e comemoramos o feito. Foi então que aproveitando que tínhamos um acordo com a EBAL bolamos, os três juntos, a matéria que somente após o sucesso alcançado pelo filme no Festival de Brasília em 1985 e no Festival de Berlim, no início de 1986, veio à luz e com corrigendas explicativas da editora da revista.

30 anos depois revisitamos tudo isso, e com muita emoção, botamos tudo isso  para fora em meu filme “Ora (direis) ouvir estrelas!” para um evento multimídia (estava na moda, então) produzido por nós que batizamos de “Clarice Celebração” – a Suzana presente chorou e até hoje não me cobrou eu ter usado planos do filme à sua revelia. Com ele, fomos premiados no Festival Internacional Porto 7, na cidade do Porto/Portugal. Em 2014, nós, eu e a Suzana, reexibimos para meus alunos de Cinematografia da UFRN – e a emoção foi a mesma!!! Declaração: amo o que faço – Cinema e seu Magistério, amo meus alunos – atemporais, amo Clarice – autora do livro “A Hora da Estrela”, e amo Suzana Amaral – criadora do filme “A Hora da Estrela” – dois produtos autônomos de dois media de comunicação, diferentes sim, mas com uma só emoção!

O – Quais os seus filmes nacionais favoritos? Disserte à vontade sobre as razões das escolhas.

P - Temos a experiência em nossa vida profissional de termos criado e mantido vivo por sete anos um CineClube voltado para a 3ª Idade.   Todos, esgazeamos nossos olhos alternadamente para o futuro e passado enquanto estamos no presente – essa sobreposição das três fatias do tempo é fato inconteste da mecânica quântica (o Cinema já brincou com isso em “O Retrato de Jennie”; tangenciou o tema em “Em Algum Lugar do Passado”; e o nosso Silveira Sampaio disso abusou no seu filme experimental “A Vida Começa aos 40”).  

Como gostaria de rever a “Iracema, a virgem dos lábios de mel” incorporada pela Ilka Soares – minha memória carinhosa mais antiga para mim do Cinema Brasileiro. 

Final de infância e início da adolescência foi um tempo como uma festa! Aí, sim! As comédias carnavalescas (vulgo chanchadas) da Atlântida (Oscarito e Grande Otelo, e os cantores e cantoras da Rádio Nacional) e em seguida aquelas de Herbert Richers (Zé Trindade e Violeta Ferraz, entre outros grandes!) nos empolgavam e as filas para entrar no cinema dobravam quarteirões (como então se dizia) – era um tempo anterior ao CinemaScope da Fox que iria expulsar os filmes das outras cinematografias, inclusive os filmes brasileiros das telas brasileiras. 

Como curtimos rever a cópia restaurada de “Tudo Azul”, do grande Moacir Fenelon, e o imenso prazer de cantar juntos e nos emocionar com as estrelas do Rádio – talvez esteja nesse filme a única fonte e oportunidade de se entender o que era um Rancho (arte e cultura extintas do Carnaval carioca) e o seu andar de procissão e o lamento ímpar da voz e imagem de uma Dalva de Oliveira.   Criticado em sua época, hoje, nos leva ao Sublime – os modismos? Passam!

Mas, felizmente ainda vimos os filmes italianos, franceses, alemães, e, principalmente os mexicanos – dos dramalhões da Pel-Mex chorando com as desventuras vividas pela cantante Libertad Lamarque às boas risadas provocadas pelo impagável Cantinflas.

Não haverá uma terceira via! As escolhas sejam lá quais forem trazem um mal que se traduz na perda dos outros esquecidos.  Elas somente existem em dois planos – o racional e o emotivo. Uns filmes tem o poder de incomodar e a eles voltamos sempre, outros, de nos sedar – com estes sonhamos.

“Absolutamente, Certo!”, de Anselmo Duarte vale por um curso inteiro de História da Televisão – e, quando foi produzido certamente não teria sido essa a intenção.

Temos “Rio, 40º” e “Rio, Zona Norte”, ambos de Nelson Pereira dos Santos – indiscutível ‘pai’ do Cinema Novo.   Rever sempre e a miúde “Os Cafajestes” de Ruy Guerra.  Mais a frente, os nossos queridos e emblemáticos “Vidas Secas” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.  Afundar na filmografia de uma Odete Lara, Glauce Rocha, Tônia Carrero – ver os não vistos e rever os que amamos. Urge reavaliar os menosprezados filmes de ‘Carlão’ Reichenbach (pensamos em seu “Anjos do Arrabalde – as professoras”, que tanto orgulho nos traz); exibir sem parar “Brasa Adormecida”, de Djalma Limongi Batista.  Provocar a comparação de “Absolutamente, Certo!” com o fantástico “A Hora Mágica”, de Guilherme Almeida Prado.

Mostrar que Suzana Amaral, além de “A Hora da Estrela”, fez filmes lindos como “Uma Vida em Segredo”   e “Hotel Atlântico”, comprovadamente leitora atenta da Literatura Brasileira e exímia criadora dos textos da Escrita Fílmica, escritora de filmes cinematográficos. Voltar no tempo e buscar a portuguesinha enlouquecida por Cinema Brasileiro, Carmen Santos – a que morreu de CB e sua parceria com o grande Humberto Mauro.

Paremos por aqui!!! Pára, coração!!!

O – Acredito que o cinema nacional vai ganhar maturidade quando parar de se preocupar em ganhar Oscar, e começar a limpar a própria casa, estruturar com seriedade o esqueleto de uma indústria, destruir monopólios, começar a dar oportunidade para novos cineastas, começar a experimentar com gêneros, em suma, levar a sério o processo. Nós não nos preocupamos com a nossa memória cultural, os filmes antigos se perdem sem restauração, é uma vergonha. Pessoas como a dona Alice Gonzaga, guardiã do legado da Cinédia, não recebe apoio governamental em seu lindo trabalho de preservação. Nossa indústria é medíocre, porque as pessoas que comandam o jogo são medíocres, pensam pequeno. Temos muito a aprender com as indústrias de cinema estrangeiras. Peço que disserte sobre essas questões.

P - A colonização cultural promovida pelo cinema hollywoodiano não é tarefa de fácil enfrentamento.

Desde os velhos tempos nos albores da década de 1950 da longa amizade entre os senhores Harry Stone e Roberto Marinho que não há decisão sobre rumos e desenvolvimento do Cinema Brasileiro que não sejam monitorados.   Em nossa pesquisa acadêmica enfatizamos o ano de 1954 como o ‘ano emblemático’ do confronto não aberto que se desvelou e acirrou a investida estadunidense de cristalizar sua hegemonia industrial do Cinema no Brasil e os nossos profissionais de Cinema que, após se reunirem em dois congressos nacionais (Rio, 1952 e São Paulo, 1953), foram soterrados pela avalanche de velhas e novas estrelas de Hollywood trazida para o Festival Internacional de São Paulo, quatrocentos anos em 1954.

Entre nossas fontes principais de pesquisa salientamos as revistas  “A Cena Muda”  -  revista  do nº5 (3-2-1954)  ao  nº 12 (24-3-1954);  Iº Festival Internacional de Cinema do Brasil – Programação Oficial”. Revista-livro do Iº Festival Internacional de Cinema do Brasil, realizado em São Paulo-capital entre os dias 12 e 26 de fevereiro de 1954 dentro das festividades comemorativas do 4º Centenário de Fundação da Cidade de São.   São Paulo: Revista Elite, 1954;  “Jornal do Cinema”.  Revista, edição Ano III,  nº3 de Março-Abril – 1954. Rio de Janeiro: Jornal do Cinema, 1954.

Em 2015, no Congresso Nacional da Intercom, realizado em setembro na Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, apresentamos uma comunicação com os resultados de nossa pesquisa, sob o título ‘Alma Llanera ou El Cine en Portunhól: “Êsse Rio Que Eu Amo” -  A interação cultural latino-americana entre Brasil/Argentina, mediada pelo Cinema’.

Nesse texto tivemos a oportunidade de expor nosso pensamento que responde às questões suscitadas que nos foram propostas, acreditamos. A seguir, reproduzimos parte do texto em que Cinema e identidade nacional ficam expostos além de situarmos o Brasil em um contexto maior:

Mesas-redondas foram promovidas pela APC (Associação Paulista de Cinema) nos dias 30 e 31 de agosto e 1º de setembro de 1951.  O impulso inicial às Mesas-redondas foi dado por Alberto Cavalcanti, que elaborou o anteprojeto do Instituto Nacional do Cinema.  Após a experiência das Mesas-redondas da APC, foi realizado o I Congresso Paulista do Cinema Brasileiro, nos dias 15, 16 e 17 de abril de 1952. De cujas resoluções finais, consta a definição do filme nacional.  As discussões sobre o projeto do INC, de Alberto Cavalcanti, acirraram os ânimos e incentivaram a ampliação das discussões com  os cineastas do Rio de Janeiro.  Preparava-se, desse modo, o terreno para o I Congresso Nacional do Cinema Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 22 e 28 de setembro de 1952.  Dentre suas resoluções a reafirmação da definição de filme brasileiro aprovada no congresso paulista e preconiza-se, em resolução, a utilização de temas e histórias nacionais na elaboração dos filmes brasileiros – a tônica de nacionalismo e brasilidade. Homenageava a cineasta Carmen Santos, recém-falecida.  O II Congresso Nacional do Cinema Brasileiro foi realizado em São Paulo, no período de 12 a 20 de dezembro de 1953. Foi dedicado a Moacyr Fenelon, que no ano anterior participara ativamente do I Congresso e nos preparativos desse II, e que morre antes de seu início. A homenagem foi considerada justa pela expressão e atividades anteriores de Fenelon, considerado um batalhador incansável da causa e defesa do Cinema Brasileiro.

Resumindo:
A partir da visão que o Cinema seria o necessário registro da cultura local a ser preservada é que em todos os cantos do mundo trataram de criar a sua Cinematografia Nacional daí surgindo também o que chamamos de ‘Cinema Argentino’ e ‘Cinema Brasileiro’ e ‘Cinema Italiano' e 'Cinema Indiano' . . . 

Ante a força hegemônica mundial do Cinema dos EUA, é de consenso geral que nos países em que sua cinematografia e sua indústria se mostram claudicantes, dado sua importância cultural interna, exige-se sim a intervenção do estado, sem essa de acreditarmos no discurso neoliberal de ‘livre mercado’ e na ilusão da vitória davídica – somos e temos sido sempre um cansado Daví roto e esfarrapado tentando a mera sobrevivência enquanto o nosso Cinema jaz em costumeira UTI.


O – E, para finalizar, peço que deixe uma mensagem especial para meus leitores, apaixonados por cinema como nós. 

P - É, em virtude de sermos um tanto avessos às propensões das ideias apocalípticas tão a gosto da maioria – vide ‘fim da História’; ‘fim da luta de classes’; ‘a morte do Humanismo’; ‘a morte do Livro”; ‘a Televisão  vai matar o Cinema’; entre outros ‘pequenos assassinatos’ e falácias  – que celebraremos o miolo ao invés dos extremos escatológicos da Filosofia.  

Cremos que seja entre os extremos é que nos situamos dentro de algo que se chama Vida e as suas ‘Mil Histórias Sem Fim’, tão sem fim a História que um escritor francês  afirmou que somente os escritores colocam ‘ponto final’(Gide) enquanto Vida e História sempre continuam.

Assim vejo o Cinema.   Filho da Fotografia e costela do Teatro, nascido na França no ‘fin du siècle’ e em plena ‘belle époque’ irrompe no século XX  promovendo a primeira e a maior convergência de artes e modos e meios da História.  Explode na Itália nas primeiras décadas do novo século e exibe sua plenitude de a ‘Grande Arte Moderna’ e ‘Arte Total do Século XX’, a reunir literatos e músicos e atores no histórico “Cabiria” de Giovanni Pastrone inaugurando o ‘Espetáculo’ que fazia multidões do mundo inteiro acorrerem às salas de exibição da novidade ‘Cinematógrafo’.

O desenvolvimento acelerado das Ciências e de sua irmã gêmea, a ‘Tecnologia’ tratou de ataviá-lo com o som e as cores e ele foi se transmutando e apresentando-se ao mundo com novas máscaras sem nunca perder sua característica principal de se mostrar por meio de imagens com Alma, animadas e, portanto com Vida, vivas – sejam desenhadas ou fotografadas.   Assim chega até nós e nos sucederá enquanto houver meio de difusão ou suporte que o eternize.  Em seus primórdios, bastava exibir imagens vivas para assombrar seu público – as pequenas e médias e longas metragens viriam depois que a tecnologia lhe provesse de meios.   Em suma, ao longo de seus mais de cem anos de existência e História: o Cinema mostrou-se independente tanto de modos de captação e fixação de suas imagens quanto de suportes e meios de difusão.  

No mais atual espaço onde se exibe, na Internet, o Cinema retoma seus primeiros passos e se satisfaz com a inserção de ‘filmetes’ como os de outrora, de outra hora perdida no passado à moda dos primeiros filmes dos irmãos Lumière e do enlouquecido Méliès (obrigado Scorsese pelo seu “HUGO”).

No mais, as pessoas de nossa geração somos remanescentes ou sobreviventes da primeira grande convergência mediática provocada pelo Cinema, no início do século passado quando aglutinou os consumidores das Literaturas – seja em Livros, Jornais ou Revistas, e chamando para si os seus milenares antepassados da Arquitetura e seus espaços e objetos  cênicos, da Música e da Dança  e o Drama Teatral reunidos pelos gestos e palavras, e, principalmente, o emergente e coetâneo Rádio.

Também devo ao Cinema, quase tudo!